Gênesis
67 I. VII - Hitobashiras - Pilares de sacrifício Humano (Final)
Notas iniciais
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V. O Primeiro Hitobashira — O homem marcado pela morte – Senju Tobirama
O que era a morte, o fim de todas as coisas e seres?
Desde o dia em que ele viu sua mãe se esvaindo em sangue em um campo de batalha sem nome em meio à Era dos Estados combatentes, para Senju Tobirama, a morte era como uma velha amiga. Ele tinha apenas seis anos, mas se lembrava vividamente do rosto pálido da sua mãe e do quão frio as mãos dela eram, enquanto todo calor se esvaía do seu corpo e o sangue manchava sua roupa, como tinta em uma tela doentia.
Sua mãe era incrível. Sem dúvidas, a Kunoichi mais poderosa do clã Senju, ou não teria sido escolhida para continuar a linhagem da família principal. Tobirama admirava o quanto seus cabelos loiros platinados flutuavam enquanto ela dançava com sua lâmina entre corpos no campo de batalha. Sua obsessão por Kenjutsu começou com sua mãe. Tobirama era obcecado com a forma como as mesmas mãos delicadas que o acalentavam com gentileza maternal, conseguiam carregar tanto cheiro de sangue, morte e ferro. Ele achava Senju Naoki invencível.
Mas ela não era.
Ele também se lembrava do seu pai, Senju Butsuma, em uma época que seu rosto não era marcado por linhas duras e severas, mas por sorrisos ensolarados sempre que ele via sua mãe. Ao pé do corpo sem vida da mulher que ele amava, Butsuma parecia à ponto de chorar. Depois daquela noite, ele nunca mais foi o mesmo. Se tornou uma casca vazia, fria e amargurada, que não esboçava qualquer reação enquanto enterrava seus próprios filhos.
Tobirama nunca havia entendido o sentimento protetor de Hashirama, até o dia que ele viu o corpo da sua mãe desaparecendo na terra. Diante do túmulo, ele segurou as pequenas mãos de Itama e Kawarama. Dois meninos que haviam aprendido a andar poucas semanas atrás. Seus corpos pequenos eram tão frágeis e trêmulos, incapazes de sobreviver sem serem protegidos. A partir daquele dia, olhando para os olhos lacrimejantes dos dois meninos, Tobirama prometeu protegê-los de tudo, até da morte.
Mas a morte era uma velha amiga. Ele deveria ter sabido melhor.
O primeiro foi Kawarama. Uma criança impetuosa e corajosa como as raízes das imponentes árvores da Floresta do Fogo. Um Senju em todos os sentidos. Talvez por isso ele tenha se esvaído em sangue num campo de batalha qualquer, antes de conhecer o frio do seu Sétimo Inverno.
E depois, foi Itama. Seu irmão mais novo nasceu enquanto flores nasceram nas cerejeiras espalhadas pelo clã Senju. Ele era uma criança do verão, em todo sentido. Amava olhar para as flores e recitar poesias, mas do que pegar em armas e manchar elas de sangue. Ele era demasiado gentil para o inferno que era a Era dos estados combatentes.
Ele e Hashirama encontraram seu corpo ensanguentado apoiado sob uma cerejeira. Sua vida terminou da mesma forma que começou. Tobirama passou a semana seguinte seguindo o rastro de chakra de cada um dos Uchihas que haviam feito aquilo. Ele se certificou que eles dessem seu último suspiro. Quando ele voltou, mais um túmulo havia sido levantado no clã Senju.
Anos depois, foi a vez de seu pai. Em uma batalha que durou dias, ele finalmente matou Uchiha Tajima, o patriarca Uchiha. Mas não foi sem custos. Os ferimentos da batalha, somados com os acumulados ao longo de décadas de luta, finalmente foram demais, mesmo com a vitalidade Senju. Butsuma parou de respirar dois dias depois da batalha, murmurando como o homem amaldiçoado que era.
No dia em que eles o enterraram, Hashirama se tornou o líder dos Senjus antes de conhecer sua décima sexta primavera.
E quando Tobirama achou que finalmente havia se livrado dela, enquanto ele era banhado no calor de verão e amor, a morte voltou. E dessa vez, ela sugou todo o calor da sua vida, o deixando com o cadáver frio do amor da sua vida. A única mulher que seu coração entorpecido conseguiu chegar a amar.
Mais de vinte outras novas sepulturas se erguiam ao seu lado, e a cada nome entalhado, flashes de rostos sorridentes e familiares piscavam nos olhos de Tobirama. Aquela era...sua família.
Mas o pior de tudo, era o túmulo esculpido ao lado da lápide enegrecida de Tōka. Um rosto sorridente, como se carregasse o calor do próprio sol, acendeu na sua visão.
Hashirama. Seu irmão.
Seus olhos vermelhos, estavam absolutamente vazios, como um sol moribundo. As árvores ao redor balançaram naquela noite escura, arrastando um grupo de tímidas mariposas na sua brisa fria. Suas asas balançavam em um ritmo hipnotizante, como uma dança fúnebre, enquanto flutuavam pelas lápides.
Um único pensamento ecoou no rosto frio de Tobirama.
—Eu vou superar você...morte.
Como se zombassem dele, as mariposas negras balançaram suas asas e levantaram voo, deixando um rastro brilhante no céu escuro, como poeiras caindo das estrelas.
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Os lábios cerrados de Tobirama contiveram um sibilo de dor, enquanto ele se recostava na árvore. Aquele simples movimento fez com que uma pontada de dor atravessasse seu corpo e o sangue que cobria seus inúmeros ferimentos sair com mais velocidade. Sua pele estava pálida como um fantasma, enquanto sua armadura era manchada de vermelho.
Fumaça e sangue cobriam sua visão, enquanto o cheiro pungente de morte invadia suas narinas. Uma floresta coberta de vinte cadáveres enchia sua visão.
Esquadrão Kinkaku.
Enfrentar um esquadrão de Elite como aquele não seria fácil mesmo se ele estivesse descansado, quem dirá com a exaustão e os graves ferimentos que ele carregava depois de dias lutando na fronteira. O pior de tudo, é que ele tinha que manter eles ocupados e se certificar que nenhum deles o ultrapassaria, e iria atrás dos seus alunos exaustos. Não foi nem um pouco fácil.
Cada músculo do seu corpo gritava de dor, e o sangue escorrendo dos seus velhos ferimentos encharcavam seu corpo de frio, como se tivesse sido mergulhado em um lago gelado.
Mas tudo valeu a pena no final. Apesar de agora ser quase impossível mover um músculo, ele estava rodeado pelos cadáveres de seus oponentes. O mais estranho, porém, era que a frieza não havia abandonado os olhos vermelhos de Tobirama. A nitidez neles lembrava um par de Katanas afiadas, prontas a serem desembainhadas a qualquer momento.
—Então...quando vocês vão aparecer?
Sua voz monótona não passava de um sussurro, mas com o silêncio nauseante que cobria aquela floresta escura, era quase como se ele estivesse gritando.
Por longos segundos, nada aconteceu. Momentos depois, uma brisa fraca acariciou as folhas nas árvores, como fantasmas sussurrando.
Tobirama estreitou seus olhos. A lua no alto brilhava de forma fria, enquanto as sombras escuras sob os galhos das árvores começaram a se contorcer, como tentáculos.
Uma névoa gélida encheu a floresta, enquanto formas escuras surgiam nos galhos da das árvores. Seus corpos e rostos estavam cobertos de pesadas vestes negras, e a única coisa visível eram olhos frios rodeados por peles escuras.
A expressão de Tobirama não mudou, mesmo ao ser encarado por tantos olhos vazios. Era como ser encarado por um grupo de cadáveres.
Uma das figuras nas sombras saltou dos galhos onde estava pendurado. Seu corpo não fez o menor som, enquanto ele pousava na grama diante de Tobirama. Mesmo sem ele abrir a boca, havia algo nos seus movimentos refinados e silenciosos que gritava perigo para Tobirama. Aqueles eram movimentos de um assassino experiente. O Nidaime logo teorizou que aquele era o líder.
—Como você sabia?
Ao ouvir a voz abafada por detrás do véu negro que cobria seu rosto, Tobirama ficou longos segundos em silêncio. Ao contrário do que ele imaginava, a voz rouca dele soava meio...divertida e quente. Bem diferente da aura fria ao seu redor. Aquilo apenas aumentou o seu grau de perigo na opinião de Tobirama.
—Esses Shinobis mortos...- Tobirama começou a falar, seus olhos passeando pelos cadáveres no chão- todos eles eram, no mínimo, Jounnin de Elite, beirando o nível S. E esse é exatamente o problema.
O mascarado o olhou com olhos curiosos, como se não entendesse o que Tobirama estava falando. O grisalho continuou.
—Nem mesmo Konoha, a Vila Shinobi mais forte, pode produzir tantas Elites desse nível. Se a Vila da Nuvem tivesse acesso a esse tipo de Shinobi com facilidade, eles teriam conquistado Konoha...então, eu me perguntei...de onde vieram tantas Elites? Os únicos capazes de fornecer facilmente esse tipo de Shinobi no País do Trovão seria... A Corte Imperial do País do Trovão... esses shinobis...não...todos vocês são...
O homem mascarado finalmente riu.
—Sempre ouvi dizer que Senju Tobirama era um homem genial, mas fazer esse tipo de dedução a partir de uma simples emboscada... você é bastante perspicaz...
Tobirama fingiu não ouvir, consciente do sangue que escorria cada vez mais, e o frio que penetrava seus ossos. O cheiro da morte.
—Então...por que razão o Imperador Celestial do Trovão enviou sua unidade das sombras? O Tratado é bastante claro...os Impérios não podem interferir nas vilas ocultas. Fomentando conflitos entre as Vilas Shinobis subordinadas dos Impérios...você não teme uma guerra continental?
O mascarado ainda parecia estar sorrindo, mas havia um brilho perigoso nos seus olhos.
—Estou impressionado. Você sabe até disso?
—Eu ouvi uma coisa ou duas. E...você não me respondeu.
—Você faz muitas perguntas.
—Apenas a curiosidade de um homem morto...
—Falando tão casualmente da morte... Que curioso...você não teme ela?
—O que há para temer? Além do frio e do esquecimento...?
O homem nas sombras ficou longos segundos em silêncio. Como se estivesse realmente contemplando suas palavras.
—Você é de fato um homem interessante... Sobre o nosso envolvimento... de fato, seria problemático se os outros Imperadores descobrissem o nosso envolvimento na Primeira Guerra Shinobi.
—Então...
—Mas não tem como ninguém saber... só você sabe do nosso envolvimento...e talvez seus alunos. Você está à beira da morte...e quanto os seus alunos...-ele riu de forma divertida- eles não chegarão vivos à Konoha, de qualquer maneira. Eu me certificarei disso.
Havia uma confiança nas suas palavras que não fizeram Tobirama duvidar. Ele provavelmente tinha força necessária para aquilo. Tobirama não falou nada. Ele sabia que, independentemente do que acontecesse, eles iriam atrás dos seus alunos.
O homem parecia ter visto a hesitação nos seus olhos.
—Claro... Se você cooperar, podemos curar você...Podemos até poupar seus alunos...Podemos encerrar essa guerra infrutífera.
—Mas?
— Mas...você tem que nos dizer....onde está a Relíquia da Redenção do clã Senju?
A expressão vazia de Tobirama não mudou, ao contrário do turbilhão de emoções no seu interior. Eles estavam atrás daquilo? Aquela mesma coisa que causou a morte de tantos de seus familiares, incluindo sua esposa e seu irmão?
—Não sei do que você está falando.
Uma intenção assassina assustadora foi exalada. A grama pareceu secar, enquanto a aura da morte cobria a floresta. Tobirama sentiu navalhas invisíveis acariciarem a sua pele, como se elas estivessem prestes a dilacerá-lo. Seu rosto continuou impassível.
—Você vai se fazer de sonso? Que pena, que pena...achei que fossemos amigos...
Tobirama deu de ombros, ignorando a dor surda que aquele simples movimento causou no seu corpo.
—Como eu disse, não sei do que você está falando.
A aura do mascarado pareceu ficar ainda mais perigosa, enquanto ele se aproximava de Tobirama. Um par de adagas prateadas surgiram nas suas mãos. A cada passo que ele dava no meio do mar de cadáveres, a sensação de navalhas na pele de Tobirama aumentava. O homem caminhou por mais alguns passos, antes de parar há alguns passos de Tobirama e bufar.
—Você acha que eu não sei que você está repleto de selos de auto sacrifício? Se eu me aproximar mais, morrerei com você.
Tobirama franziu o cenho pela primeira vez. Que homem cauteloso. O mascarado continuou.
—Uma pena de fato...tanto potencial desperdiçado...-Ele balançou a cabeça de maneira teatral, antes de dar as costas e se afastar de Tobirama. Ele gesticulou, e logo duas figuras envoltas em vulto se ajoelharam aos seus pés- fiquem de olho nele. Quanto ao resto de vocês...Vamos nos mudar. Talvez se trouxermos as cabeças de seus preciosos alunos, ele decida falar.
A voz calma de Tobirama impediu seus passos.
—Não se eu impedir você.
Ele zombou internamente, antes de se virar para Tobirama.
—Você, que mal consegue se mover sem sangrar até a morte? Se você estivesse descansado... poderia ser uma luta interessante, mas eu ainda mataria você.
Tobirama finalmente riu, como se tivesse ouvido algo engraçado. Foi difícil ele não se lembrar de um jovem de cabelos negros e pele pálida, com um constante sorriso arrogante no rosto. Uchiha Izuna.
—A última pessoa que disse isso para mim, eu esventrei seu estômago como um porco.
O homem balançou a cabeça.
—As palavras de um homem moribundo, de fato.
Quando ele estava prestes a dar as costas à Tobirama, ele parou seus passos. Havia algo no sorriso ensanguentado de Tobirama que enviava arrepios na sua espinha. O que era aquele sentimento no ar? E então, algo lentamente clicou nos seus sentidos. Uma pequena fagulha de calor no horizonte. Ele olhou para Tobirama com olhos estreitados. Ele sentia o chakra se acumulando lentamente no núcleo de Tobirama.
O que ele estava fazendo?
Sua expressão mudou, enquanto seus dedos se apertavam nas lâminas gémeas em suas mãos. O sentimento de errado só piorou quando ele percebeu a frieza escondida nos olhos sorridentes de Tobirama. Ele viu, muito lentamente, Tobirama juntar as palmas ensanguentadas das suas mãos, enquanto a pequena fagulha de chakra no seu interior se agitava.
Ele se moveu como um borrão. O corpo do mascarado afundou nas sombras do chão, como um peixe mergulhando na água, enquanto ele deslizava em direção a Tobirama. Sua mão se estendeu como um chicote, enquanto a lâmina em sua mão perfurava o ar em direção ao coração de Tobirama.
Quando a lâmina estava prestes a perfurar Tobirama, ele ouviu aquelas palavras.
Inton Kuchyose – Edo Tensei no Jutsu. (Invocação da Liberação Yin – Reencarnação do Mundo Impuro).
Puro Horror encheu seu corpo, quando símbolos negros brilharam no chão, e um caixão se ergueu da terra. Sua lâmina atravessou camadas do caixão como manteiga, mas deu tempo o suficiente para Tobirama inclinar o corpo, fazendo com que sua lâmina afundasse no seu ombro, ao invés do coração.
O mascarado saltou para trás, desviando da tampa que explodiu em sua direção enquanto o caixão se abria. Ele só parou de deslizar quando longos metros o separavam da figura coberta de fumaça no caixão. Ele preparou suas lâminas em uma postura defensiva.
Com passos lentos, como uma marionete sem cordas, uma figura saiu do caixão. O mascarado franziu o cenho, enquanto analisava a figura vestida com um uniforme jounnin de Konoha. Ele era alto e largo, com uma armadura com o símbolo do clã Akimichi por baixo do colete jounnin.
Aquele...quem era aquele? Ao contrário do seu pavor inicial, o reencarnado não era uma figura temível da Era dos Estados combatentes, mas sim um jounnin qualquer do clã Akimichi. Ele podia sentir que suas reservas de chakra rivalizavam apenas com um jounnin mediano. Um suspiro de alívio soou da sua boca, se for o caso, ele estava confiante em-
Espere. Havia algo errado... por que razão Senju Tobirama desperdiçaria seu resquício chakra em alguém insignificante? Naquele momento, ele olhou para os olhos frios de Tobirama, e um arrepio encheu seu corpo. Era tarde demais para impedir ele.
— Todos, fujam!
Com movimentos fluidos, ele se virou e correu para longe sem hesitação. Ele olhou para o lado, vendo seus subordinados deslizando pelas sombras sem um segundo de hesitação. Ele olhou para trás, vendo Tobirama fazendo um selo de mão, que o cadáver acompanhou como uma marionete. O Akimichi murmurou sem qualquer expressão no seu rosto sem vida.
—Chō Baika no Jutsu. (Jutsu da Super Expansão).
O mascarado observou, com horror, o corpo do Akimichi crescendo, e crescendo, e crescendo, até eclipsar completamente a luz da lua brilhando no céu, mergulhando a floresta inteira na escuridão. Aquilo forneceu mais sombras para eles mergulharem, e ele e seus subordinados passaram a se mover com mais velocidade, mas aquilo não acalmou a inquietação no seu coração.
Mesmo sem olhar para trás, ele conseguia ouvir a voz calma de Tobirama no vento.
—Se realmente valorizassem suas vidas...vocês não deveriam ter entrado nessa floresta em primeiro lugar. É tarde demais agora. Todos vocês morrerão comigo.
A expressão do mascarado ficou horrível ao sentir o calor se acumulando no centro da figura gigante. Era como um vulcão prestes a entrar em erupção.
Tobirama fez um selo de mão.
—Goujo Kibaku Fuuda. (Multiplicação Mútua dos Papéis Explosivos)
O corpo gigante, muito lentamente, se desfez em milhares de papéis, como um castelo de vidro ruindo, e então, tudo mudou. Um núcleo gigante de fogo se expandiu pela floresta, tendo o gigante como o centro. Foi como se um sol gigante estivesse nascendo no escuro daquela floresta, e com ele, o fim de todas as coisas ao redor. Tudo foi tocado pelas cinzas.
Um buraco parecido com um abismo profundo ficou onde antes existia uma exuberante floresta. Magma quente escorria da superfície da terra enegrecida. A temperatura era tão elevada que a terra ao redor do gigantesco abismo havia se cristalizado. Era como se o mundo tivesse acabado.
Mas estranhamente, nesse momento, uma pequena mariposa flutuou pelo magma, não parecendo afetada pela temperatura elevada. Ela bateu suas pequenas asas até o centro do abismo, onde havia um lago de magma. Era o centro da explosão. A mariposa ignorou o calor escaldante e pousou em um monte de cinzas enegrecidas. O pó de suas asas caiu lentamente sobre as cinzas, parecendo criar um misterioso poder de atração.
Uma forma quebrada e translúcida, foi atraída pelas asas negras da mariposa, e com movimentos etéreos, ela balançou suas asas lentamente, mas a cada movimento, ela percorria distâncias enormes, até desaparecer pelo céu noturno. Quando ela bateu as asas novamente, ela pareceu romper o espaço até chegar em um vazio negro.
Foi nesse momento que alma abriu os olhos. Tobirama tentou se mover, mas sua alma rachada além do reconhecimento latejou de uma dor alucinante. Tudo doía, até pensar. A única coisa que sua consciência registrava era o vazio ao seu redor e a mariposa tentando levá-lo para um vórtice enorme no meio do vazio. Aquela mariposa...era um dos emissários da sua velha amiga, a morte.
Tobirama, tendo rasgado o véu da morte enquanto criava o Edo Tensei, estava familiarizado com os inúmeros vórtices no meio do vazio. Eram os diferentes planos de existência após a morte.
A Terra Pura. O Yomi, O Amatsukami, o Jigoku, e tantos outros planos desconhecidos. Dependendo do karma acumulado em vida, uma vida de felicidade, reencarnação ou sofrimento eterno estava à sua espera. Sendo um herege que se atreveu a profanar e zombar da própria morte, Tobirama sabia que nada de bom o esperava além daquele vórtice. Ele não estava com medo. Ele estava preparado para as consequências a partir do dia que ele decidiu desafiar a morte.
A mariposa deslizava pelo vazio como uma serpente, arrastando a alma retorcida de Tobirama. Quando ela tentou atravessar o vórtice, algo estranho aconteceu. Ela não conseguia trazer a alma de Tobirama. Era como se houvesse um véu fino o negando.
Não satisfeita, ela tentou novamente, só para falhar novamente. A mariposa se virou para Tobirama. Suas asas se abriram, enquanto os padrões desenhados nelas se transformavam em dois olhos pulsantes. Uma sensação de horror caiu sobre a alma de Tobirama ao ser encarado pela própria morte.
—Que curioso. Você é um mortal interessante. Não consigo fazer sua alma atravessar. Que pena. Eu tinha preparado algo especialmente para você, o único que ousou me desafiar nos últimos mil anos.
Havia algo profundamente errado e perturbador com a sua voz, como um cadáver de mil anos tentando falar.
—Sua alma...ela está dividida. Uma parte dela está na Terra Impura...o que me deixa intrigante... Por que você mutilaria, voluntariamente, sua própria alma? Perguntas, perguntas...–Era possível sentir um traço de curiosidade na sua voz arranhada- Seja o que for...é interessante. Assim como tudo que você fez até agora, mortal. Estarei te observando. Eu sempre estou.
Os olhos nas asas se fecharam, e Tobirama finalmente sentiu a sensação de horror sobre sua alma finalmente se dispersando. Ele observou enquanto a mariposa atravessava o vórtice negro, e o deixava no vazio frio e infinito.
A dor latejante assaltou novamente sua alma quebrada, era como se milhares de agulhas afundassem sua alma. A dor era simplesmente insuportável. Era como ser desmembrado infinitamente. Mas não importava quanta dor o atravessasse, ele não se arrependia de suas escolhas.
Depois da morte de Tōka e de Hashirama...tudo simplesmente...deixou de importar. Ele imaginou sua filha e o que restou de sua família ao lado daqueles túmulos, e ele soube que estava trabalhando contra o tempo.
Um plano sinceramente desesperado surgiu na sua mente. Tobirama separou sua própria alma, e a selou em um pergaminho especialmente preparado por Mito. A dor...foi simplesmente indescritível. Mas no final, ele foi bem sucedido.
O pergaminho servia como uma âncora da sua alma. Ele criou o protótipo desse jutsu acidentalmente, ao desenvolver o Edo Tensei. Enquanto esse fiapo de alma existir no Mundo Impuro, ou Mundo Humano, sua alma não poderia ir para os outros planos, e mesmo se fosse, ele poderia ser renascido através da âncora no pergaminho.
Mas enquanto isso não acontecia, sua alma quebrada só poderia ser condenada à vagar com uma dor excruciante, assim como às almas vagantes daqueles com pendentes na terra impura. Condenado à vagar pela eternidade no vazio conhecido como limbo, nem vivo, nem morto, até ele se esquecer completamente de todas as suas memórias, e se tornar um nada. Um amálgama do esquecimento. Era assim que os jigokus eram formados.
Tobirama tentou se mover, e uma dor dilacerante o atravessou. Tudo ao seu redor parecia ser feito de uma névoa vazia, escura e sem forma, o tornando incapaz de qualquer tarefa a não ser sentir aquela dor dilacerante. Os únicos momentos que a dor desaparecia, era quando flashes de pensamentos piscavam em sua mente. E assim ele o fez.
Seus pensamentos fluíam pela escuridão como peixes na água. Indefinidos, imprevisíveis e incontroláveis. O vazio avançou pelo que pareceu uma eternidade, corroendo o tempo e a sua própria consciência, em nada.
Quem era ele?
Ele estava vivo? Morto? A essa altura, ele já não sabia, mergulhado na insanidade da inexistência. Quanto mais tempo passava aí, mais sua consciência era coberta por névoa, e menos as coisas faziam sentido.
Milhões de pensamentos explodiram na sua mente ao mesmo tempo. Algo finalmente brilhou na escuridão, como um sol nascendo. Ele viu estrelas nascendo e morrendo, seus destroços vagando pelo vazio estilhaçado como poeira cósmica, se acumulando. Sem o tempo para dar sentido ao nada, a realidade e a ilusão se misturavam em uma sombra fúnebre, como recortes de um mundo moribundo.
Algo finalmente foi tomando forma no horizonte negro. Era tão distorcido e...simplesmente errado. Era um amálgama de carne costurada e sangrenta, se movendo pelo vazio como um predador, ameaçando engolir o nada.
Ele queria escapar. Mas aquilo era impossível quando ele estava fundido com o próprio vazio. Ele se encolheu, enquanto aquilo se aproximava, estendendo um emaranhado de tentáculos de carne retorcida e então-
Um farol acendeu a distância, banhando o vazio com luz, inclusive sua alma. Tudo quebrou, enquanto uma sala mal iluminada surgiu diante dos seus olhos.
O pergaminho estendido no chão aqueceu, como se tivesse sido mergulhado em brasa, antes de finalmente ficar em silêncio.
Tobirama ficou atordoado por longos momentos, ainda tentando se lembrar de quem ele era. Quando uma sensação de claridade finalmente ecoou nos seus pensamentos, ele finalmente olhou o ambiente ao seu redor.
Uma sala extensa estava diante dos seus olhos. O piso velho estava manchado por um grande selo negro, com um pergaminho aberto no centro, e sua alma translúcida flutuando por cima. Mas não era isso que chamou atenção de Tobirama.
Um homem consideravelmente envelhecido estava dia de si. Ele podia ver a profunda tristeza nos seus olhos negros e o cansaço em seus ombros curvados. Havia uma familiaridade inconfundível no seu rosto marcado por rugas, e o manto com o símbolo do Fogo apenas reforçava aquilo. Mas...Tobirama simplesmente não queria acreditar?
Quantos anos haviam se passado desde a sua morte?
—Sensei.
Tobirama suspirou, ignorando a sensação horrível no seu estômago, ao ouvir a voz envelhecida do seu aluno. Até a sua voz soava à perda.
—Hiruzen. Quanto tempo?
Ele suspirou, e como se fosse possível, seus ombros se curvaram ainda mais. Ele caminhou lentamente até à pequena janela que iluminava aquela sala. Estava escuro lá fora, e a lua estava obscurecida por nuvens.
—Nós...cometemos um erro terrível. Eu entendi suas intenções em criar aquele pergaminho, Sensei, era realmente a única forma de reverter aquela situação mas...seus cálculos sobre o tempo necessário para sua alma se curar estavam errados. Já tentei trazer você de volta inúmeras vezes, mas...só hoje eu consegui.
Uma sensação de horror encheu seu corpo translúcido.
—Quanto tempo se passou, Hiruzen?
Hiruzen olhou pela janela, enquanto as nuvens se moviam e a luz da lua iluminava uma grande montanha no horizonte. Era possível ver quatro rostos esculpidos nela.
—O clã Senju...não existe mais.
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