Gélida Vingança
1 O começo da liberdade
Havia tanto sangue ao seu redor que o ar já começava a impregnar-se com odor metálico. As paredes brancas tingiam-se rubras enquanto as sombras projetadas nelas parecia crescer e expandir-se em um ritmo constante como a batida de um coração. Tum. A enorme sombra aumentava. Tum. Ela descia. Era uma dança hipnótica de trevas; aquilo clamava por Nahemah. Atrai-a como uma flor atrai uma abelha.
“Deixe-se consumir.”, a voz propagou-se no ar tornando a atmosfera opressiva e sombria. Havia naquela voz algo que ela nunca ouvira em qualquer outra; havia a mesma sonoridade sutil de indução e pavor que a sua própria possuía. Porém, ao contrário da sua, aquela parecia emanar poder e autoridade. Aquela era uma voz que ela não queria ouvir.
O som de passos a despertou. A garota sabia que seus olhos haviam mudado de cor sem ao menos os ver. Suas veias pulsavam negras sobre a pele pálida de seu corpo. Notou que demorou mais que o normal para retornar ao seu estado neutro. Sete segundos, contou ela. Não era a primeira vez que acordava naquela forma, como se estivesse prestes à se transformar, porém era a primeira vez que chegava tão perto daquele estado. As coisas haviam piorado na semana anterior quando sentiu mais um dos seus morrer.
Era algum ruim saber isso. Poder sentir quando alguém deixou o mundo, quando a existência de alguém simplesmente desapareceu. De todas as capacidades que eram de seu poder, Nahemah definitivamente odiava aquela. Odiava aquela ligação entre eles, aquela ligação que apenas aprofundava a tristeza de saber que cada vez mais eles estavam sozinhos. Agora haviam somente treze. Treze em todo o planeta, incluindo ela própria.
Ela levantou-se do chão frio em que estava, arrumando apressadamente suas coisas espalhadas. Jogou a mochila sobre os ombros no mesmo instante que ouviu os passos pesados dos soldados subindo as escadas do prédio em que se encontrava. Os passos vinham do segundo andar, Nahemah estava no décimo quinto, no telhado. Foi até a beirada onde pode ver claramente os soldados da Matriz entrando nos prédios e casas vizinhas para a revista padrão.
Como ela pode esquecer da revista? Aquilo era algo que não podia-se dar ao luxo de esquecer. Nas últimas semanas estava tão preocupada em rastrear uma área segura para se alojar que acabara esquecendo normas simples da cidade, como a revista, por exemplo.
Entre os amorfos, os não-humanos, começara um rumor sobre um lugar seguro o bastante para todos viverem, um lugar ao norte, depois das montanhas e das cidades, onde uma passagem abre-se para aqueles que precisam de ajuda. Poderia ser apenas mais uma lenda criada por aqueles que ainda possuíam um resquício de esperança sobressalente, mas ainda assim era algo válido de procurar por. À bem da verdade, por menor que fossem as chances de existir um local assim em qualquer parte do mundo, Nahemah o procuraria. Ela queria sentir-se segura, pelo menos uma vez em sua vida.
O grande problema nisso era que mesmo que encontrasse o lugar não sabia como os outros reagiriam à sua presença. A pura existência da garota incomodava tanto os humanos quanto os amorfos, pelo menos quando ambos descobriam o que realmente ela era.
“Eu te entendo.”, uma voz familiar ressurgiu de uma lembrança antiga.
Ela estava machucada deitada sobre o chão da floresta à noite, ao seu lado uma garota de cabelo pálido e olhos violeta acariciava-lhe a cabeça enquanto esperava os ferimentos de Nahemah curarem. A criança tinha a mesma expressão vazia da morena, o mesmo olhar gélido, a mesma pele pálida, o mesmo tom de voz. Porém, ela era quente. Tão quente que ao tocar a pele álgida da outra saia uma rala fumaça de seus corpos e podia-se ouvir o som fino de uma superfície quente em contato com uma gelada.
A aproximação de passos a desprendeu das lembranças. A garota amarrou as suas longas e extremamente escuras madeixas em um rabo-de-cavalo, apertou as luvas de motoqueiro mais firmemente nas mãos e então pulou do prédio.
O vento da descida era sempre a melhor parte.
Em menos de poucos segundos seus pés descalços tocaram o chão levemente, como um pouso de uma pequena ave: silencioso e delicado.
Ela apressou-se, suas longas passadas em um ritmo rápido o bastante para ela tornar-se um vulto na noite. Vez ou outra parava em um beco ou esquina qualquer embaixo da penumbra de uma sombra para esconder-se das tropas da Matriz que marchavam pelas ruas em seus uniformes escuros e armas em mãos, no segundo que elas sumiam de vista a garota retomava seu ritmo.
Aquela era a sua vida, ou melhor, sua sobrevivência, já que viver fugindo não pode ser considerado exatamente como vida.
A fronteira da cidade estava logo à frente. Um grande muro de metal que cercava a Metrópole separando-o da extensa floresta ao redor, os civis o chamavam de Colossus. Aquele muro era o que a separava de sua liberdade. Para ela era fácil escalá-lo e ir para o outro lado, o real obstáculo seriam os guardas que o cercavam, vigiando. Guardas que estavam sempre armados.
Nahemah respirou profundamente enquanto seus olhos observavam atentos os homens caminharem de um lado para o outro, alguns até mesmo bocejando, esperando o momento certo como um predador faria. Apesar deles usarem óculos de visão de calor ela sabia que nada veriam caso olhassem em sua direção; provavelmente seu corpo seria confundido com um objeto ou qualquer coisa do gênero já que sua temperatura corporal não era em nada similar à dos demais, nem mesmo as dos amorfos de sua raça.
Um dos guardas tombou a cabeça de lado em um cochilo, os dois ao lado dele bocejaram. Aquela era a sua deixa.
Seus passos rápidos voaram em direção ao homem sem dar tempo para ele ou qualquer outro ter uma reação rápida o suficiente para impedi-la; quando finalmente recuperaram-se do choque, ela já havia usado o guarda como uma espécie de trampolim e escalava a muralha rápido como nenhum humano um dia seria capaz. Só quando já estava no fim de seu caminho que os homens começaram a atirar. Tarde demais. Nahemah já estava pulando para o outro lado. Já estava pulando para sua liberdade...
Pelo menor era o que pensava antes de ouvir o som de dois planadores ao longe vindo em sua direção, aparentemente os guardas haviam pedido reforços.
Fale com o autor