Gâteau Aux Fraises

8 Pas du tout l'ennui


Notas iniciais
Oláááá seus lindos! Aqui está mais um cap.! Bom, esta é a minha última atualização do ano, e gostaria de desejá-los um ótimo natal e ano novo! Obrigada, do fundo do coração, pelos comentários, pelas críticas e apoio que venho recebendo de todos vocês! Não tenho nem palavras para poder começar a dizer o quanto este ano foi bom pra mim, apesar dos altos e baixos, mas, é a vida! Que 2013 seja tão bom quanto esse, espero que seja assim pra todos vocês!
Está aí, espero que gostem, foi feito com muito carinho!

Capítulo 08 — Pas du tout l'ennui

I

Em sua cama tão quentinha e macia, preparava-se para largar, ainda que de má vontade, o coelho de pelúcia ao qual dormia agarrada todas as noites e finalmente abrir os olhos azulados para o mundo. E o fez com tanta alegria que mal conteve um pequeno suspiro, tamanha a empolgação.

Hoje era sábado.

Desde que havia se instalado em Karakura, poucas semanas atrás, esse seria seu primeiro sábado livre.

Livre de absolutamente tudo.

O que incluía um certo rapaz de cabelos alaranjados. Porém, a aprendiz de babá chacoalhou a cabeça, afastando a imagem do adolescente. Se pensasse tanto em Ichigo era capaz de algo dar errado naquele dia tão perfeito.

Ainda sonolenta, retirou-se da cama, não podendo evitar soltar um gemido ao colocar seus pequeninos pés no piso gelado, direcionando-se ao banheiro, onde ali ficou por mais meia hora. Tão imersa ao mundo afora, somente concentrada na água quente que tocava seu corpo, tão prazeroso que Rukia nem sentia vontade de sair da banheira repleta de espuma.

Uma verdadeira princesa. Afinal, após tantos dias trabalhando sem parar, merecia um dia inteirinho somente pra cuidar de si mesma, coisa que não vinha realizando há tempos e fazia falta no dia-a-dia.

-Melhor sair agora, antes que eu fique toda enrugada – constatou ao pegar uma toalha pendurada perto da pia, enrolando-a em volta de seu corpinho magrelo – Ai, que frio... — murmurou novamente quando os pés quentes entraram em contato com o piso gelado – Ah, não acredito que esqueci minha roupa no quarto... Onde é que eu estou com a cabeça? — provavelmente no sábado inteiro que tinha pra ela aproveitar como quisesse.

Sorrindo, abriu a porta do banheiro alheia ao cabelo pingando por toda parte, e o friozinho que sentia ao sair da água morna em que se encontrava.

Pois é, estava tudo bom demais para ser verdade.

-I-ichigo? — exclamou assustada, apertando ainda mais a toalha em volta do corpo ao ver o adolescente com toda sua glória matinal esparramado pela sua cama, brincando com seu ursinho de pelúcia.

Detalhe: Ichigo não usava nada além de um samba-canção de seda azul claro.

-Ah, você demora tanto no banho... Sabia que precisa ter conscientização sobre a água? Desse jeito-

-Escuta aqui seu... Argh, não me fale sobre conscientização enquanto você tá aí, quase sem roupa alguma e ainda por cima, no meu quarto! Aliás, você poderia aprender a bater na porta! — disse ela num tom severo, com as bochechas levemente avermelhadas.

Dois motivos para Rukia corar daquele jeito:

O primeiro: sim, ela já havia visto outros homens sem roupa antes, não era nenhuma menininha ingênua como todos pensavam. Mas... Também não significava que não se sentia constrangida com toda aquela... Intimidade.

O segundo: ela não usava além de uma toalha branca molhada enrolada em volta do corpo. E se alguém entrasse? O que iriam explicar? Aquilo estava mais parecendo uma cena daqueles filmes idiotas no qual sempre aparecem na sessão da tarde na televisão, quando o casal acorda após uma longa noite de sexo devasso.

E definitivamente, não era o caso deles.

-Mas eu bati! O problema é que você não respondia, então achei que não tinha problema entrar – tentava o pobre ruivo se explicar, ainda com o ursinho de pelúcia nas mãos – E não sou só eu quem está praticamente sem roupa, certo? — constatou Ichigo, olhando-a da cabeça aos pés, com um sorriso tão cafajeste nos lábios que Rukia teve de se segurar para que não fizesse alguma besteira.

Tanto porque, ela estava de toalha. Não tinha o que argumentar.

-H-hei, pára de me olhar assim seu... Seu pervertido – resmungou ela, encolhendo-se ainda mais onde se encontrava.

Por dentro, Ichigo tentava inutilmente parecer centrado no coelhinho de pelúcia ou somente um idiota para que sua babá não percebesse o jeito como olhava para o corpo dela. Tudo bem que a maior parte do tempo passava brigando com aquela demônia, o que não significava que nunca havia reparado em como a pele era tão branca. E tão tentadora. Praticamente exclamava: 'me toque'.

E Rukia usando somente uma toalha branca, que de tão molhada estava transparente, não ajudava em nada. Só piorava.

Piorava porque Ichigo não queria ter aquele tipo de fantasia com sua babá.

Era inaceitável.

Imoral... e...

Tsc, e desde quando ele, Kurosaki, ligava pra isso?

-Então, vai me dizer por que está aqui? — questionou a morena de um metro e meio, fuzilando-o com o par de olhos azuis cristalizados. E quando Ichigo não respondeu, teve vontade de soltar um gritinho, daqueles bem agudos, mas não... Rukia não era nenhuma dondoca histérica... Certo?

-Vai estar ocupada hoje? — questionou o ruivo, agora sentado propriamente.

-Sim, vou estar ocupada – sorriu, e logo se virou para procurar uma muda de roupa – O dia inteirinho, se é o quer saber.

Em resposta... Não houvesse uma.

Só um grunhido completamente estranho.

Estranho e irritado.

-Ah, o dia inteirinho? — mimicou ele, num tom de deboche – Fazendo o quê, posso saber?

-Fazendo o que não é da sua conta – respondeu a babá desdenhosa, esperando que não houvesse mais perguntas – Agora, se me der licença, vou colocar uma roupa – virou-se para ele com um sorrisinho e logo se dirigiu ao banheiro.

Enquanto ignorava a criatura de um metro e meio que se deslocava pelo cômodo amplo e iluminado, Ichigo ainda tentava entender.

O que, afinal, não era da conta dele? Geralmente, as pessoas usam esse tipo de resposta quando:

1) Queriam esconder algo.

2) Queriam esconder algum tipo de relacionamento.

3) Queriam esconder algo que não existia, por exemplo, um fim de semana inteirinho ocupado.

Era mais do que óbvio que Ichigo ficaria com a terceira resposta, considerando que sua recente babá mal conhecia a cidade e havia feito poucos amigos, o que incluía os seus próprios, ou seja, tornava-se fácil ignorar as outras alternativas.

-Ainda aqui? — indagou Rukia, a insatisfação evidente ao vê-lo sentado do mesmo jeito que o havia deixado minutos atrás.

E daí que ele estava seminu?

-Tenho uma proposta interessante pra fazer, senta aqui – disse ele, indicando para que a babá se aproximasse – Por que tá me olhando desse jeito? Não vou fazer nada, eu juro!

Rukia nada respondeu, e com certa desconfiança sentou-se ao lado do adolescente de cabelos alaranjados. Mesmo agora que estava usando roupas, sentia-se tão indecente quanto antes. Definitivamente, era a presença dele que a fazia sentir-se uma... Imoral.

-E qual é essa proposta tão interessante? — quis saber a morena, impaciente como de costume.

-Veja bem... Você vai estar ocupada o dia inteirinho, e hoje é sábado, e eu tenho um certo baile pra ir – Ichigo tentava explicar, e Rukia não parecia prestar tanta atenção aos fatos expostos – Então, o que acha de eu ir ao baile sozinho-

-Não – interrompeu-o sem delongas, enquanto se preparava para levantar da cama.

-Como assim não? — questionou aterrorizado o pobre garoto, que também se levantava – Você nem ouviu o que eu tinha a dizer, e foi logo dizendo não!

-Por isso mesmo que digo não – riu ela, cruzando os braços – Te conheço muito bem Kurosaki Ichigo, e sei que iria me propor algo do tipo: 'Ah, mas se eu for sozinho, prometo voltar tal horário em ponto, não se preocupe', acertei?

-Hei, eu não falo desse jeito! — constatou, franzindo o cenho – Mas, eu prometo-, não, eu juro! Eu juro que volto no horário que você quiser! — Ichigo tentou novamente, dessa vez segurando os ombros finos da babá, para que pudesse encarar aqueles orbes azuis – Por favor.

-Ichigo... — murmurou Rukia, incapaz de quebrar o contato visual.

Algo por trás daqueles olhos caramelizados a faziam querer acreditar que uma vez na vida Ichigo estava falando a verdade. Queria acreditar, de verdade.

-Você sabe que eu não posso deixá-lo sair sozinho, seu pai foi bem claro quanto a isso, me desculpe – suspirou, desprendendo-se do adolescente.

-Então, por que você não vai junto comigo? — Ichigo insistia, mesmo que soubesse que era inútil insistir.

-Você não iria me querer por lá, acredite, e eu também estou cansada... Já tentou conversar com seu pai? Perguntou a ele se não podia ir sozinho ou...?

-Foi o primeiro com quem tentei falar, e adivinha só? Preciso da permissão de uma nanica pra ir a um baile estúpido – esbravejou, direcionando-se à porta.

-Ichigo-

-Sabe o que mais me irrita? — disse ele, segurando a maçaneta – É saber que todas as decisões da minha vida, quem vai decidir a partir de agora é você! — dito isso, colocou-se para fora do quarto, fechando a porta com extrema força.

-Ichigo... Seu idiota – sussurrou, jogando seu corpo na cama macia – Por que ele nunca me escuta?

Era algo que não iria mudar, e que Rukia já estava começando a se acostumar. Ichigo era mimado, e porque ela ainda tentava inutilmente convencer-se do contrário?

II

-Karin-chan, qual desses é melhor? — Yuzu, a gêmea mais nova – e mais inocente – perguntou à irmã, enquanto segurava dois vestidos diferentes.

-Hm, o da mão direita – respondeu a gêmea mais velha da cama onde se encontrava esparramada de barriga para baixo, nem se dando ao trabalho de levantar o rosto ou mesmo ouvir a pergunta lhe feita, concentrada apenas na revista de variedades da semana.

-Mas esse rosa está tão... Chamativo – murmurou a loirinha, que voltou a se olhar no espelho indecisa – Tem certeza de que prefere esse?

Roupas, acessórios, sapatos sempre seria algo que na vida de Kurosaki Karin não faria muito sentido.

Sim, antes que se questionem, ela era uma menina de quinze anos perfeitamente normal.

O que a diferenciava das outras era somente seu desinteresse pela aparência e tudo mais que as garotas de sua idade se preocupavam. E daí se a espinha estava aparecendo e não sentia a menor vontade de escondê-la atrás de quilos de maquiagem?

O que não a tornava menos feminina do que as outras.

-Karin-chan... Você está me ouvindo? — perguntou a loirinha, o desapontamento evidente na voz.

Suspirando, Karin deixou a matéria de lado e resolveu dar um pouco de atenção à irmã.

-Yuzu, você sabe que eu não sou boa com esse tipo de coisa... — colocou-se sentada na cama – Pra mim, você vai ficar boa em qualquer um dos dois, só não vejo a diferença entre eles – sorriu, como que se desculpasse pela falta de discernimento em tal assunto.

-Obrigada Karin-chan... — Yuzu tentou sorrir também, mas era quase impossível – Acho melhor eu não ir mesmo nesse baile – disse ela, pendurando o vestido de volta no armário enorme que ficava ao lado.

-Yuzu! Eu não acredito que vai deixar de ir a um baile só porque não consegue decidir qual dos vestidos vai usar – exclamou a mais velha, indignada pela mudança repentina de Yuzu.

-É que... — começou a loirinha tímida – Eu sei que isso vai parecer bobo, mas... Todos os amigos do Ichi-nii vão estar lá, e-

-Já sei... Grimmjow, né? — pronto. Nada mais precisava ser dito pela reação de Yuzu após ouvir a pergunta. Estava evidente nos olhos arregalados, na respiração ofegante, e nas bochechas levemente rosadas. Não tinha como negar, mentir, esconder.

-Eu sei que é estúpido, que o Ichi-nii nunca vai--

-Não é estúpido Yuzu... — garantiu a morena ao pegar as mãos trêmulas da irmã – É normal você gostar de alguém... Mas, você sabe, ele é mais velho, e essa é a minha única preocupação...

-É um alívio saber que você não é contra, Karin-chan – sorriu ela com lágrimas nos olhos.

-Eu nunca vou ser contra quem você decide gostar e se relacionar... Só vou ser contra a quem te magoar, entendeu? — afagou os cabelos loiros da irmã, que riu ao limpar as lágrimas.

Nunca, em toda sua vida, Karin achou que estaria tendo esse tipo de conversa, tão... Feminina. E não tão estranha quanto achou que seria.

Afinal, esse tipo de coisa deveria ser relatada em uma conversa com a mãe penteando os cabelos da filha, e vice-versa.

A verdade, porém, era que Yuzu havia tornado-se a mãe de todos ali desde que a verdadeira havia ido embora.

Uma responsabilidade tão grande para uma pessoa tão pequena.

Uma responsabilidade que, de agora em diante, ela iria aprender a ter também.

Toc-toc

Yuzu foi a primeira a sair de seus pensamentos.

-Quem é? — perguntou ela curiosa.

-Rukia – respondeu a babá do outro lado.

-Ah, entra Rukia-chan, por favor – pediu Karin, afastando-se um pouco da irmã para encostar-se a cabeceira da cama.

-Licença, estou atrapalhando alguma coisa? — quis a babá do irmão mais velho saber ao colocar a cabeça para dentro do quarto enquanto segurava a porta.

-Claro que não Rukia-chan – Yuzu agitou as mãos no ar, tentado ao máximo disfarçar as lágrimas – Aliás, senta aqui com a gente – apalpou o colchão.

Rukia cuidadosamente fechou a porta atrás de si, e juntou-se a elas na cama.

-Então meninas, vocês não querem sair comigo? Preciso ir ao centro de Karakura, e como não conheço direito, não queria ir sozinha...

-Ah – Yuzu abriu um sorriso, um pouco culpada – É que--

-Nós vamos sim, Rukia-chan... Mas, você se importa se nós pararmos em algumas lojas? Yuzu vai ao baile hoje à noite, e precisamos achar um vestido pra ela, o que acha? — sugeriu Karin, antes mesmo que sua irmã pudesse dizer algo.

-Eu acho uma ótima idéia, Karin-chan – Rukia concordou, animada com a ideia de conhecer melhor as irmãs de Ichigo – Vamos?

III

Apertou novamente o botão do elevador, não conseguindo segurar a impaciência que sentia no momento. Com seu óculos de sol D&G cobrindo metade do rosto, Senna evitava contato com as pessoas ao redor propositalmente.

Hoje, definitivamente, não era um bom dia.

Aliás, a semana que havia se passado poderia até comparar com uma torta de morango. Maravilhosa, porém, a massa sempre sobrava. A parte sem graça e sem gosto. A que mais odiava.

Em resumo, o que poderia dizer?

Segunda-feira: É claro que Senna adorava atenção. Não, ela não era carente. Mas só de saber que todos os olhos estavam voltados pra si já era o suficiente. Adorava ver a inveja estampada no rosto de cada menina quando a encaravam dos pés à cabeça. Saber que nenhuma daquelas estúpidas poderia ter suas roupas, seus sapatos, suas bolsas.

Em geral, isso acontecia nos bailes promovidos a cada estação pela KHS, onde ela, Senna, era a recepcionista oficial. E segunda-feira, quatro dias antes do grande evento, era quando recebia o convite.

Terça-feira: O dia em que todas, absolutamente todas as garotas da KHS saíam para comprar seus vestidos nas araras da Vivienne Westwood, Dior, Marc By Marc Jacobs, Channel, McQueen, Viktor & Rolf, etc. Senna, entretanto, já tinha seus quatro vestidos para o ano inteiro, escolhidos há tempos, antes mesmo que fossem para as lojas.

Quarta-feira: O dia em que estudava cada convidado importante para então, no dia do baile mostrar-se completamente superior ao restante dos alunos.

Quinta-feira (simulação dos anos anteriores): Supostamente, seria o dia em que Senna deveria discutir alguns detalhes triviais com o diretor da escola, como fazia todos os anos.

Quinta-feira (2009): 'Sabe o que é, Senna-chan... Esse ano, fomos equivocados ao convidá-la para ser a anfitriã. Como nos últimos dois anos quem ocupou esse cargo foi a senhorita em todos os bailes, optamos por uma mudança. O conselho decidiu que é melhor uma professora recepcionar os convidados, sendo assim, Katsumi Sayuri será a pessoa que irá ocupar seu lugar no dia.

Esperamos que possa compreender essa decisão, e novamente, sentimos muito pelo transtorno’.

Ela não era do tipo de pessoa que se conformava tão fácil com os acontecimentos, principalmente com aqueles que não deveriam acontecer. E quando tudo não saia como o planejado, sempre haveria um jeito de concertar.

E não seria agora, dois dias antes do baile, que iria desistir tão fácil. Sempre haveria uma saída.

Sexta-feira: E quem diria que as fotos roubadas do celular de Hisagi Shuuhei, algumas semanas atrás, teriam enfim uma utilidade, fazia Senna querer dar pulinhos de alegria.

Era só agir igual das outras vezes que [chantageava] conversava amigavelmente quando precisava de algo.

Sábado (hoje): Lá estava ela, abrindo a porta do apartamento 189 do Karakura Palace em plena manhã.

Toda vez que entrava no apartamento de Grimmjow, tinha que preparar-se mentalmente para tropeçar em corpos seminus espalhados por todos os cantos possíveis.

Argh, logo de manhã e ela já tinha que lidar com esse tipo de situação.

-Hei, você aí – Senna cutucou a menina estirada no chão – Aposto que vocês não são pagas para dormir no chão – sorriu ela gentilmente, seguindo em direção ao quarto principal – Ah, aproveita e acorda suas amiguinhas, e se não for pedir muito, se retirem rápido.

-Vaca – ouviu a loira magricela murmurar.

Era só o que faltava. Senna ser difamada por uma prostituta vulgar e horrorosa.

Sem nem ao menos bater na porta, Senna colocou-se para dentro do quarto e logo foi abrindo as cortinas bruscamente.

-Bom dia, flor do dia – gritou ela, enquanto batia palmas – Aqui ainda tem mais duas dessas? — questionou-se ao ver mais dois corpos magricelos se retirarem do quarto.

-Tsc, vai se ferrar Senna – Grimmjow esbravejou quando só restaram os dois – Não tem mais o quê fazer? — revirou-se na cama, ficando de costas para a princesinha da KHS.

-Não – riu, juntando-se a ele na cama – Hoje o dia está tão lindo, achei que pudesse aproveitá-lo comigo – murmurou no ouvido do adolescente.

-Corta o papo furado e fala logo o que você quer – irritou-se ele ao ouvir uma risada em resposta.

-Ontem fui até a professorinha Sayuri pedir gentilmente para que ela não fosse a anfitriã do baile, e adivinha só? – Senna apoiou o queixo no ombro de Grimmjow, observando sua cara de sono – Ela me disse não – sussurrou possessa, enquanto sua mão passeava livremente pelo peito nu do garoto.

-Por um acaso você tentou usar aquelas fotos? — quis ele saber, um pouco mais calmo com as carícias recebidas.

-E você ainda pergunta? Aquela... Aquela plastificada teve o desplante de me dizer: 'Eu não tenho medo de você, Senna-chan' – choramingou, arranhando propositalmente o amigo – Como ela pôde?

Como Senna pôde acordá-lo tão cedo pra dizer isso? A conhecia muito bem, e sabia que não desistiria tão fácil; provavelmente alguma coisa ela estaria tramando. Algo que precisasse de sua ajuda.

-Hei, vem cá – murmurou ele, virando-se para envolvê-la com seus braços – O que quer que eu faça? — indagou ele, mesmo que se xingasse mentalmente por fazê-lo. Não importava se era cedo ou tarde demais, sempre iria mimá-la.

-É por isso que eu te amo Grimm – disse ela ao colar os lábios lambuzados de gloss aos dele.

Se Senna soubesse o efeito que aquelas três palavras exerciam sobre ele, não as pronunciaria com tanta tranquilidade.

Era só uma questão de tempo para que Grimmjow deixasse de ser tão submissivo. E quando esse momento chegasse, era melhor Senna não provocá-lo tanto assim.

Os beijinhos estariam longe de ser inocentes.

V

Sapatos eram difíceis de escolher, concluiu Rukia. Principalmente quando se tinha um pé pequeno como os de Yuzu.

-Yuzu, porque não pega logo esse aqui? — sugeriu a irmã gêmea mais velha, um tanto quanto impaciente – É daquela marca que você gosta – argumentou ao lhe dar um scarpin Chloé cor pastel.

-Hmm, acho que não gostei muito Karin-chan, é muito claro – tentou Yuzu sorrir para amenizar o temperamento de Karin, o que não adiantou muito.

Fazer compras era quase igual a jogar uma partida de futebol profissional inteira.

-Rukia-chan... O que eu faço? — murmurou a loirinha para a babá do irmão mais velho, que se encontrava entretida em uma das prateleiras de ankle boots – Karin-chan já está ficando brava, e eu não consigo gostar de nenhum modelo de sapato.

Se havia uma coisa da qual Rukia entedia bem e adorava era sapatos e roupas, mesmo que não aparentasse pelo estilo simples do dia-a-dia. Em Tóquio, tinha um closet enorme com os mais variados tipos de vestidos, saias, sandálias, e tudo aquilo com que uma garota normal sonhava um dia possuir.

Tudo bem que alguns anos atrás poderia estar detestando o que estavam fazendo agora, mas havia aprendido com sua irmã, Hisana, que a primeira impressão seria sempre a que ficava. E a aparência era algo que deveria aprender a conviver todos os dias. Só porque não gostava de chamar a atenção, não precisava ser desleixada ou inferior ao que poderia ser.

-Bom, eu ainda tenho umas duas caixas que ainda não desfiz desde que cheguei a Karakura, e lá tem os meus sapatos... Acho que tem algo lá que pode te interessar – sugeriu Rukia.

-Sério? — sorriu com os olhos brilhando – Ai, é um alívio... Eu também já estou cansada de rodar tantas lojas – admitiu envergonhada.

Sem delongas, colocaram-se para fora da loja, todas com um mesmo pensamento.

Ir para casa.

-Rukia-chan, você não tinha que fazer alguma coisa? — perguntou Karin quando já estavam no estacionamento.

-Ah, é mesmo! Eu me esqueci completamente! — fez um muxoxo – Bom, daqui eu acho que sei me virar... Encontro as duas depois em casa, certo? — com o consentimento de ambas, Rukia fechou a porta do carro e ficou a vê-las partirem.

Ao girar os calcanhares para ir ao local desejado, somente um único pensamento vinha à cabeça de Rukia.

Grimmjow Jeaggerjaques não sabia com quem estava lidando.

V

Olhar para o teto incolor do quarto nunca fora tão interessante para Kurosaki Ichigo quanto naquele momento.

Afinal, porque desejava tanto ir a um baile estúpido, promovido por mais uma daqueles fúteis da KHS? O que esse baile se diferenciava dos outros, se é que havia algo?

Talvez não fosse o baile em si... Mas a incrível necessidade que sentia de contrariar qualquer coisa que sua babá demoníaca dissesse, fizesse ou quisesse.

Não sabia bem o porquê, porém, algo tão forte que nem ele controlava. Quando se dava conta, já estava lá, aos berros com suas ofensas infantis e teimosias desnecessárias.

A visão da pequena babá moldada em uma toalha curta, branca, molhada e praticamente transparente por inteiro, hoje pela manhã, só fez aquele sentimento crescer de forma incontrolável.

Não só o sentimento.

Kurosaki Ichigo estava tão concentrado revivendo as lembranças de poucas horas atrás que nem havia percebido quando o melhor amigo – sempre com um sorriso impecável nos lábios perfeitos – adentrou no gigantesco quarto sem cerimônias, e fez-se confortável na pequena poltrona de couro cor de tomate com detalhes dourados, ao lado da escrivaninha.

-Está se sentindo bem? — questionou Shuuhei desdenhoso, estranhando a quietude do ruivo.

Do teto incolor, os olhos cor de mármore pousaram direto sobre a negritude dos cabelos bagunçados do adolescente e não pôde evitar o próprio espanto ao vê-lo ali, confortável em sua poltrona predileta.

-Quantas vezes já disse pra não sentar aí? — ralhou com o amigo e logo franziu o cenho costumeiramente – E sim, eu não poderia estar melhor... Com uma babá daquelas... — murmurou a última parte.

-Acho que alguém aqui está de mau humor... — constatou Shuuhei e quando não ouviu retruca, sorriu. Provocar não machucava ninguém, certo? – Por um acaso, a Rukia-

-Não, ela não me deixou ir ao maldito baile! — Ichigo respondeu antes mesmo que a pergunta pudesse ter sido completada. Estava tão possesso, que só de ouvir o nome daquela... Daquela babá, fazia seu demônio interior despertar.

-É, eu já imaginava... — talvez o fato de precisar descansar era realmente a verdade, como Rukia havia lhe dito no dia anterior – Nem como meu par ela quis ir, quanto mais como sua babá...

Novamente, os olhos cor de mármore do ruivo voltaram a pousar sobre o amigo, dessa vez, encarava-o diretamente, sem reservas, enquanto Shuuhei apenas o olhava desentendido.

-O quê? Você a convidou pra ir ao baile? — questionou Ichigo, um misto de curiosidade e espanto em sua voz – Que história é essa?

-Ahn, então, veja bem... — Hisagi tentou disfarçar, mas no fundo sabia que uma hora ou outra teria de falar a verdade. Mesmo que isso lhe custasse uma cara franzida do melhor amigo, que não era tão insustentável assim – Eu a convidei numa boa, só isso...

-Shuuhei, eu não acredito! — saltou da cama – Aqui em Karakura têm mais de 10 mil garotas, e você foi se interessar justamente por ela? — príncipe da KHS riu como o comentário soava ridículo aos ouvidos – Tem noção do que é isso? Você é meu melhor amigo, não tinha o direito de-

-Como é? Direito? — foi a vez do príncipe dos olhos de mármore soltar um sorriso debochado – Não sabia que para ser seu melhor amigo haviam regras, essa é nova! — continuou a rir, incrédulo com a infantilidade daquele à sua frente.

Ichigo nada respondeu, apenas o fuzilou com os par de olhos caramelados. Se antes estava irritado, agora encontrava-se em um estado pior, se é que havia como.

-Por que está tão irritado assim? Que eu saiba, Rukia não é nada sua, além de uma pessoa contratada pelo seu pai para tomar conta de você... O que ela faz ou deixa de fazer quando não está trabalhando, não deveria te importar, certo? — instigou o moreno, agora um pouco mais sério – Ichigo, eu sou seu amigo... A última coisa que eu iria querer é te ferrar ou qualquer coisa do tipo, achei que soubesse disso...

-E não sei se está lembrado, mas quem me incentivou a convidá-la foi você – finalizou antes de retirar-se do cômodo.

Suspirando, o ruivo voltou a jogar-se na cama. A raiva já havia passado um pouco, e as palavras de Shuuhei de certa forma o havia ajudado a recompor-se. Estava completamente errado, sabia disso... Mas...

'Por que todo mundo tem que gostar tanto de você?'

VI

Dizer que estava frustrada era pouco. Muito pouco comparado à raiva que crescia lentamente em seu interior. A vontade de matar alguém, nunca antes cogitada, parecia ser uma boa opção no momento. Ainda mais se o alvo possuísse cabelos azuis não-naturais.

Rukia, porém, sabia desde o começo que a dificuldade seria enorme. Grimmjow Jeaggerjaques não era nenhum homem qualquer, era óbvio que informações referentes ao mesmo e sua família não estariam à disposição de qualquer um em meio aos jornais, revistas e artigos antigos.

-Que bom, três horas preciosas desperdiçadas... Droga – murmurou consigo mesma ao voltar pra casa, após o fracasso.

Logo, o desânimo não demorou a aparecer. Toda a sede por uma suposta vingança ia diminuindo aos poucos, até não sobrar nada além de cansaço. Não somente físico, mas principalmente mental. Se havia algo que Kuchiki Rukia odiava era mentir. Mentiras não atraíam mais do que problemas e mais problemas, como agora.

Caso não achasse algo em sua defesa, adeus Karakura e a todos que haviam lhe acolhido de forma carinhosa.

E tudo isso por quê? Porque todos naquela maldita escola queriam tanto saber sobre seu passado, suas cicatrizes, suas fraquezas? Porque tudo isso era tão relevante? Rukia queria apenas um lugar onde pudesse recomeçar sua vida passivamente, e o que ela conseguia em troca? Apenas um adolescente prepotente-

-Rukia-chan, você está ai? — ouviu Karin do outro lado da porta, interrompendo seus devaneios – Rukia-chan?

-Ah, pode entrar Karin, a porta está aberta – e assim a gêmea mais velha o fez, sem muito alarde.

-Há, até que você deu uma boa arrumada nesse quarto velho Rukia-chan – reparou Karin ao observar melhor o quarto miúdo, um tanto quanto surpresa pela perfeição na disposição dos móveis e a impecável organização do mesmo. Não era a toa que a babá de seu irmão era tão cética também – Bem que meu velho podia ter colocado você num quarto maior...

-Ah, quanto a isso não precisa se preocupar! Consigo me virar bem aqui, além do mais, não faz sentido alguém do meu tamanho ter um quarto enorme, certo? — ambas riram para descontrair um pouco o ânimo de Rukia – e então, Yuzu já conseguiu decidir qual dos vestidos ela vai usar?

-Finalmente! Já estava perdendo a paciência com ela – cruzou os braços meio emburrada – mas é sobre isso que eu queria falar com você Rukia-chan... — Karin fechou o semblante.

-Sente-se aqui, por favor – pediu a morena, indicando sua modesta cama – Aconteceu algo? — a babá estranhou, devido a repentina mudança de humor da adolescente.

-Não exatamente, digo, ainda não aconteceu... É sobre a Yuzu, estou meio preocupada – cerrou o cenho, e Rukia não pôde deixar de reparar o quão era parecida com Ichigo – Hoje será a primeira vez que ela irá ao baile sozinha, e bom, das outras vez pelo menos Ichi-nii estava por perto – pausou por um momento, tentando buscar as palavras certas.

-E a sua preocupação em relação a isso...? — instigou a babá.

-O problema em si não é a Yuzu, mas sim o que ela sente – apertou o punho, um certo rancor aos cuspir as palavras seguinte – o que ela sente pelo idiota do Grimmjow... — sussurrou esta última parte, ainda inconformada.

Rukia mal pôde conter o espanto e um misto de raiva ao ouvir o nome daquele adolescente sem escrúpulos. Era quase surreal acreditar que uma menina tão meiga, gentil e carinhosa igual a Yuzu, morresse de amores por um-

-Pior de tudo é que ela não consegue enxergar o quanto ele não presta! — Karin interrompeu seus pensamentos, e continuou – Nem mesmo quando esse idiota ficava arranjando brigas com Ichi-nii o tempo todo...

-E Ichigo sabe disso? — Rukia quis saber, preocupação evidente em seu semblante – digo, você contou a ele?

-Não posso... Prometi à Yuzu que jamais falaria isso pra ele, e bom, eu sei como ela é... Se Ichi-nii souber de algo, nunca mais vai falar comigo – sussurrou a última parte, desviando o olhar entristecido.

-Entendo... — a babá tentou oferecer um sorriso compreensivo enquanto aproximava-se da gêmea mais velha – E então, o que eu posso fazer? Foi por isso que veio até aqui, não é?

-C-como sabia? — indagou perplexa pelo raciocínio rápido de Rukia, e não pôde deixar que um sorrisinho no canto dos lábios surgisse.

-Também tenho uma irmã, sei como é – sorriu carinhosamente para à adolescente a sua frente – é só me dizer no que posso ajudar – ofereceu. Não apenas pelo fato de poder usar algo contra Grimmjow, mas principalmente pela vontade que sentia de defender os sentimentos inocentes de Yuzu. Nunca perdoaria a si mesma se algo acontecesse.

-Bom, a Yuzu nunca foi sozinha nesses bailes da KHS porque Ichi-nii sempre estava lá, bêbado, mas estava – riu – o problema é que esse ano eu não vou poder acompanhá-la, e pelo visto, nem meu irmão... — Karin nem precisava terminar de falar, o modo como os olhos suplicavam uma tentativa de trégua por parte da babá era demais para a mesma.

-Não se preocupe Karin, isso não vai ser um problema – não se dependesse dela.

VII

Após abrir a porta do quarto sem bater, a babá arrependeu-se de tê-lo feito.

Havia esquecido a mania problemática que aquele bebê tinha de insistir em ficar sem roupas, e pelo visto, sempre que ela estava por perto; o que era completamente desnecessário.

Ou não.

Aproximando-se lenta e calmamente da cama para não acordá-lo, Rukia pôde perceber o quão tranquilo estava o semblante de Ichigo enquanto dormia. Também não pôde deixar de observar os movimentos sutis de vai-e-vem do peito descoberto, e como era de um todo gracioso, mesmo que a babá não quisesse [e nem pudesse] admitir.

Certamente se tirasse uma foto agora, poderia vender por milhões para as alunas(os) da KHS.

Sentou-se na cama vagarosamente, e ao fazê-lo, permaneceu alguns minutos contemplando aquela imagem pouco comum no dia a dia. Se Ichigo não reclamasse tanto e desfizesse o cenho franzido, talvez não fizesse nenhum mal. Seria mais fácil gostar dele, como gostava quando estava dormindo.

Inconscientemente, levou uma de suas pequeninas mãos aos fios alaranjados, acariciando-os de leve. Os dedos deslizavam pelo emaranhado de fios macios e perfumados, enquanto desciam despercebidos ao rosto simétrico de Ichigo. Parou por um instante, e então questionou a própria atitude inusitada. Estava parecendo uma tarada naquele momento, e isso a assustou.

Porém, tarde demais.

Sentiu a mão que estava no rosto de Ichigo ser puxada para baixo num movimento ágil e silencioso que a pegou desprevenida. Um gritinho saiu despercebido e logo foi abafado por si própria, ao se dar conta da posição que se encontrava no momento. E não era uma das mais favoráveis.

Como, quando, e o porquê ela não sabia responder. Sabia, entretanto, que havia sido pega e por algum motivo, estava completamente deitada numa cama king size, enquanto um ruivo seminu a pressionava com o próprio corpo e continuava a segurar a mão de Rukia em seu rosto.

O semblante continuava sereno, os cabelos continuavam rebeldes, o silêncio continuava a embalá-los, porém, o olhar era diferente. Olhos cor de caramelo a encaravam de forma indescritível, um misto de curiosidade e satisfação, talvez por tê-la imobilizada ou pelo fato de ter sido pega acariciando-o, mesmo que de forma inocente.

Abriu os lábios para tentar justificar-se, mas as palavras haviam entalado na garganta. Não havia nada em sua defesa, e sabia muito bem disso. Queria apenas fechar os olhos e encolher-se no cantinho da vergonha como uma velha tarada.

O dilema dos 22 anos agora é molestar jovenzinhos?

-Eu deveria começar perguntando o motivo por você estar aqui... — Ichigo foi o primeiro a falar, e então sorriu ao ver as bochechas de sua babá inflamarem gradativamente – Ou... — inclinou-se mais um pouco – Por que estava me molestando enquanto eu dormia? — sussurrou a última parte com os lábios colados ao lóbulo da orelha dela.

Meu. Deus.

Se havia algo que Kurosaki Ichigo sabia fazer, e muito bem por sinal, era isso. Não era à toa que choviam meninas de todos os tipos e de diferentes idades. Ele sabia como agradar qualquer uma. Qualquer uma.

-O que foi, Ruu-chan? — continuou o ruivo, acariciando a mão que estava em seu rosto – Deixei você constrangida? — riu de um jeito tão cafajeste que Rukia não pôde conter um grunhido de raiva.

Raiva por ter sido pega. Raiva por estar imobilizada. Raiva por sentir-se humilhada. Raiva por ter se colocado nessa situação. E principalmente, raiva por adorar a sensação que estava borbulhando na boca do estômago.

Esse sim era o verdadeiro dilema dos 22 anos.

-E-eu... — Rukia tentou se concentrar, mas o cheiro do perfume masculino que exalava do corpo do adolescente era demais para conciliar tudo de uma vez – Eu só vim dizer que... Que nós vamos ao baile — disparou, querendo matar-se mentalmente.

Rukia fucking Kuchiki estava gaguejando. Gaguejando. Em frente a um adolescente. Uma criança!

Patético.

-Como? Nós vamos ao baile? — repetiu incrédulo, mas mesmo assim não conteve a excitação na voz – Ouvi bem ou será que a Senhorita Kuchiki Rukia estava inventado um 'sábado cheio de compromissos interessantes'? — sorriu vitorioso, e no fundo, ambos sabiam que ele estava certo. Mais uma vez.

Pelo menos isso o distraia para que Rukia não precisasse dar outras explicações.

-Tá, tá, já chega, você não queria ir ao baile? Agora que nós vamos, preciso ter a garantia de que você não vai tentar fazer algo estúpido lá – cortou-o impaciente – Vamos ver... Primeiro, se eu o ver com bebida, drogas ou qualquer coisa do tipo, você vai... — pensou por um instante e então sorriu com os olhos brilhando – Comprar a coleção inteira do Chappy's adventure in México, entendeu?

-Chappy o que? — agora foi a vez dele de rir – Não acredito que gosta dessa porcaria, nem a Yuzu-

-Segundo – apressou-se em calá-lo – se você não sair de cima de mim nesse instante, considere um sábado em casa – desafiou-o. E para sua surpresa, o adolescente nem se moveu.

-Tudo bem, eu prometo não fazer nada do que você falou, mas – para o espanto da babá, o príncipe soltou todo seu corpo ao dela, apoiando a cabeça no peito da mesma, e os braços em volta da cintura fina – também preciso de um favor...

-E se eu não quiser fazer? — indagou com certa dificuldade, ainda tentando entender o por quê do espontâneo abraço, e da sensação que estava incomodando. Por fim, voltou a levar uma das mãos aos cabelos macios de Ichigo.

-Vamos continuar nessa posição... Ou pior – sorriu ele malicioso. Até que não seria ruim, permanecer dessa maneira, embalado pelo agradável som que o coração de Rukia produzia; o deixava calmo, calmo demais para seu gosto; o cheiro de baunilha que a pele de porcelana possuía ou mesmo a forma irônica como sua pequenina babá cabia perfeitamente em seus braços.

E quando Rukia concordou em fazer o favor que havia pedido, um misto de decepção e ansiedade foi inevitável.

Para ambos.

VIII

Escorado na parede da casa, Kurosaki Ichigo ora olhava impaciente para o relógio, ora xingava sua babá pela demora. Afinal, porque as mulheres demoravam tanto pra se arrumar? Não podiam apenas tomar um banho e colocar um vestido qualquer? Tudo tão simples, e elas insistiam em complicar...

Mulher é foda. Com toda a certeza.

-Tsc, essa miniatura de gente tá testando minha paciência, só pode ser isso... — murmurou pra si mesmo, franzindo o cenho, sua marca registrada. Estranhamente, seu humor estava mais agressivo que o rotineiro; logo após a conversa com Rukia alguns bons minutos atrás, carregava aquele sentimento de frustração... Em outros tempos, pela posição em que se encontravam, Ichigo não hesitaria um minuto em... Er, dar uns amassos com a babá.

E só pra deixar claro, não, ele não estava ‘a fim’ daquela anã demoníaca. Mas também não a achava horrível, pelo contrário, era uma beleza... Exótica, e fascinante, por assim dizer. Do jeito dela, mas muito gosto-

-Ichi-nii! Está tudo bem? — perguntou sua irmã mais nova – a qual nem havia reparado que estava ali – acordando-o de seus devaneios pra lá de assustadores.

-Hm, tô sim... Já está pronta? — indagou um pouco atordoado, enquanto os pensamentos coerentes voltavam vagarosamente. Tão perdido estava que havia demorado alguns longos minutos para registrar a figura que se encontrava em sua frente.

Aquela, perdida dentro de um vestido tomara-que-caia azul celeste muito justo e muito pequeno, era realmente Yuzu? Sua irmã, a quem cuidava com tanto zelo, e que até outro dia estava brincando de bonecas, era essa moça bonita a sua frente? Os cabelos loiros curtos, sempre presos por uma presilha infantil, eram irreconhecíveis quando soltos; sem mencionar a maquiagem leve que acentuava os traços delicados e meigos que remetiam à imagem de uma menininha.

-Yuzu, você... — Ichigo começou a falar, e percebeu a insegurança da loirinha, esta que se aproximou para ouvir a opinião do irmão – Você está... Indecente.

-C-como? Indecente? — viu a felicidade que iluminava o rosto de Yuzu apagar aos poucos, dando lugar a uma face amuada – Estou tão vulgar assim, Ichi-nii? — questionou-o com a voz embargada – Eu sabia que essas coisas não são pra pessoas como eu, devia ficar em casa-

-Indecente? — ouviram uma terceira voz ecoar pelo cômodo, e ambos os irmãos viraram os rostos em direção à escada e deparam-se com uma figura diminuta no topo da mesma – Mesmo, Ichigo? Indecente? — a babá riu – Isso é o melhor que consegue? — soltou um muxoxo e não demorou a amparar Yuzu, desesperada.

-R-rukia-chan, Ichi-nii tem razão, eu tô-

-É verdade, Ichigo tem razão, você está muito indecente – a morena abriu um sorriso acolhedor quando a irmã mais nova de Karin cessou o choro, surpresa – Você está tão bonita que chega a ser indecente, foi isso o que seu irmão quis dizer – segurou a pré-adolescente pelos ombros – Agora pára com esse choro, senão o trabalho que tivemos a tarde inteira vai para o espaço... E seria um desperdício, certo? — esperou Yuzu assentir e então se virou para Ichigo, que ainda não havia se pronunciado – Ué, nós vamos ou não? — com um sorrisinho de lado, arqueou a sobrancelha, desafiando-o.

-Depois nós que somos as culpadas – disse à Yuzu, que somente riu para a babá.

Realmente, mulher é foda. Com toda a certeza, é claro.

IX

Como foi esperado, houve um pequeno trânsito no estacionamento da KHS, principalmente devido ao fato de que todas aquelas estudantes demoravam uma eternidade para sair de seus respectivos carros; piorava apenas quando algumas resolviam tirar fotografias em meio a multidão e aproveitavam para elogiar [agorar] umas às outras.

Nada mais do que 40 minutos de puro tédio, assim por dizer.

2400 segundos e alguns milésimos contados rigorosamente por ninguém mais do que Kurosaki Ichigo e seu famoso cenho franzido. E a cada minuto, um suspiro impaciente.

Isso, claro, na visão da jovem babá.

Para ele, foram 2400 segundos e alguns milésimos de pura contenção.

Ahn, como?

Enquanto o adolescente conduzia o trajeto casa-KHS, havia algo que o perturbava profundamente. Algo que não passava de um metro e meio, e encontrava-se dentro de um vestidode renda com as mangas compridas na cor grafite, não tão justo e nem tão curto. A gola canoa pouco deixava a mostra o colo delicado de Rukia, porém, para a felicidade de qualquer homem, o decote existia. Estava na parte de trás, completamente aberto até a metade da cintura fina-

O paradoxo em que Kurosaki se encontrava no momento era exatamente esse. Não sabia se continuava a prestar atenção nos semáforos ou se parava para [admirar] observar seu e somente seu problema.

E que problema.

Problema este que adorava complicar a vida do jovem Kurosaki Ichigo, e como. Além de irritá-lo na vida real, fazia questão de atazaná-lo em seus próprios pensamentos, como agora. Rukia poderia muito bem ter se sentado ao lado de Yuzu, mas não, ali estava ela, confortável e inocente ao seu lado. O que o levava a pensar em duas hipóteses:

1º: Rukia estava sentada ao seu lado apenas por precaução e por ser a mais velha. Não havia de fato algo que a impedisse de ficar onde estava e nem maldade por parte da mesma, apenas responsabilidade (provável).

2º: Rukia estava lá apenas para provocá-lo, não havia dúvidas. Queria distraí-lo, pois sabia que era um jovem com os hormônios florescendo, e o fazia porque era uma retardada problemática, uma completa vadia. Uma retardada problemática e vadia muito, mas muito, gostos- (descartável).

E para a felicidade do primogênito dos Kurosaki, uma vaga havia aparecido quase que como um truque de mágica; nem precisou pensar duas vezes antes de estacionar o carro de qualquer jeito. Precisava apenas sair dali, respirar um pouco de ar puro e tirar aqueles pensamentos absurdos da mente o mais rápido possível.

-Tsc, eu sei que está com pressa para ir ao baile, mas não precisava estacionar desse jeito – murmurou Rukia, segurando um xingamento na ponta da língua – Poderia ter atropelado alguém.

-Mas eu não atropelei, certo? Então para de reclamar – ralhou o ruivo já do lado de fora do carro, afrouxando um pouco a gravata. Nem olhar a baba de soslaio podia, o ar já começava a faltar. Era muita informação, muita pele exposta, muitos pensamentos maldosos-

NÃO! Simplesmente não.

-Yuzu, está tudo bem? Sente alguma coisa? — indagou a babá, ignorando completamente os resmungos de Ichigo – Aconteceu algo?

-N-não Rukia-chan, não é nada... — sussurrou a loirinha, fitando os pés como se fossem a coisa mais interessante do mundo – É que... Talvez eu esteja indecente demais e-

-De novo não Yuzu, nós já conversamos! — repreendeu Rukia – Hoje é um dia para se divertir, e não ficar com essa carinha triste – segurou a mão da mesma – Ânimo! Você está tão bonita, não vamos estragar tudo!

-Tem razão Rukia-chan – Yuzu sorriu de canto.

-E você Kurosaki Ichigo – Rukia voltou-se para o adolescente que estava encostado no carro e não a encarava – Têm que obedecer as minhas regras: sem álcool, cigarros ou drogas, entendeu? — quis ela saber, enquanto caminhava até o mesmo – Além disso, nada de ficar fugindo de mim o tempo todo, nem sair sem a minha permissão – dirigiu as mãos até a gravata de Ichigo e a apertou com cuidado, para o espanto de ambos pela atitude inesperada – E por último, — murmurou esta bem baixinho – acho que deve desculpas a alguém, certo? — inclinou a cabeça em direção à Yuzu.

-Hmm – assentiu após um longo tempo; seu cérebro ainda estava registrando o fato de que as pequeninas mãos de Rukia passeavam de maneira carinhosa e livremente por seu pescoço, ombros e braços; ou talvez estivesse registrando uma nota importante em algum lugar de seu subconsciente: nunca deixar de contemplar o rosto sutil e delicado de sua babá. Os olhos, grandes e violáceos, a pele macia e alva, o nariz delgado e empinado, os lábios rosados e tentadores, o cheiro de baunilha insuportavelmente delicioso-

-Por que insiste em afrouxar a gravata, hein? — questionou-o indignada. Como eu fiz isso e nem percebi? – Pronto, assim está bem melhor... Você está uma gracinha Ichigo – Rukia sorriu ao vê-lo voltar ao normal (leia-se franzir as sobrancelhas).

-Hm, por que estamos parados aqui? — Yuzu quis saber.

-Ahn, sobre isso... — Ichigo coçou a nuca desconcertado – Rukia, sabe aquele favor que eu te pedi? — viu a babá assentir e então prosseguiu – Então-

-Ichigo! — não tinha dado tempo para o ruivo finalizar, a voz de Shuuhei o interrompera – Você veio! Olha só, Yuzu-chan também! — o moreno apontou para a irmã do amigo e sorriu, enquanto aproximava-se com uma moça bonita, reparou Rukia – Nossa Yuzu-chan, como está bonita! Haha, acho que seu irmão vai ter um trabalho e tanto hoje! — abraçou a loirinha envergonhada.

-Oe, Shuuhei! Você não me disse que ia vir com a Matsumoto – apontou para a loira de enormes atributos; esta permanecia sorrindo, até deparar-se com a babá.

-OMG! Você que é a famosa Ruu-chan? — perguntou a loira sorridente, indo de encontro à Rukia, até então despercebida – Prazer, meu nome é Matsumoto Rangiku, mas pode me chamar de Ran-chan! — nem ao menos esperou a pequena responder, e já havia lhe abraçado – Ah, Ichi-chan! Você tem tanta sorte de ter uma babá tão pequenininha e fofinha como ela!

-Eu... Não... Consigo... Respirar – murmurou Rukia, perdida entre os, er, as formas abençoadas daquela que a abraçava.

-Matsumoto, solta a Rukia agora! — demandou o príncipe da KHS, visivelmente irritado.

-Ah, Ichi-chan é tão mau que quer a babá só pra ele! — a loira fez biquinho e aos poucos soltou a pequena – Me desculpe, às vezes eu esqueço deles também – apontou para seus atributos.

-Haha, tudo bem – Rukia sorriu sem graça, recuperando o ar.

-R-rukia-chan? — agora era a vez de Shuuhei de admirá-la, pensou o ruivo – Achei que não fosse vir... — encarava-a desconcertado, coçando a bochecha – Você está muito bonita hoje... — sussurrou ele, as bochechas em brasa.

É claro que o herdeiro das empresas Shuuhei&Co não conseguiu fazer nada além de apenas deleitar-se com aquela esplêndida visão um tanto quanto inesperada, e nem por isso indesejada. Afinal, quando a babá iria aparecer novamente com um vestido justo e um decote na face posterior completamente indecente, como aquele que usava?

E infelizmente a resposta não era a mais agradável.

-Você também está muito charmoso – sorriu Rukia, agradecendo ao elogio do rapaz. Um sorriso bastou para derreter todo o discurso coerente que Hisagi tentava formular.

-Então, nós podemos entrar agora? — questionou a jovem Kurosaki, segurando em um dos braços da babá, visivelmente ansiosa.

Todos concordaram, seguindo em direção ao salão de eventos da KHS. Enquanto caminhavam, as garotas estavam a pelo menos cinco metros de distância; uma boa hora para acertar os problemas com o melhor amigo, pensou o ruivinho.

-Acho que dessa vez você vai ficar me devendo – tocou o ombro do amigo gentilmente, trazendo-o para a realidade.

-C-como foi que fez isso? — perguntou ele, ainda surpreso.

-Tsc, segredo! — Ichigo sorriu de canto ao ver a encabulação no rosto de Shuuhei – Agora aproveita essa chance... E que chance... — murmurou a última parte para que o amigo não escutasse.

-É... Acho que dessa vez eu realmente vou ficar devendo algo pra você – voltou a sorrir, enfiando as mãos no bolso do blazer – E se você não admitir hoje que a sua babá é extremamente g-o-s-t-o-s-a, vou começar a achar que alguma coisa está acontecendo com 'o' grande Kurosaki Ichigo – riu, deixando-o embaraçado.

Porém, para o alívio do príncipe, Rukia resolveu virar-se para apressá-los.

-Se vocês continuarem nesse ritmo, vamos trocar nossos pares! — deu uma piscadela discreta para Ichigo e então virou-se novamente.

Ainda bem que Hisagi não insistiu na pergunta anterior, não iria conseguir mentir. Não depois disso.

X

Olhou rapidamente para o reflexo no espelho para então concluir: estava acima de qualquer perfeição. Impecável. A maquiagem não muito pesada e nem muito leve na medida correta entre o clássico chice o over. O vestido justo nos lugares corretos, acentuando as poucas, porém preciosas curvas por todo o pequeno corpo.

Sorriu contente com o próprio trabalho e esforço.

Se essa noite Kurisaki Ichigo não notasse o quão bonita Senna estava (especialmente) hoje, com certeza o príncipe da KHS teria de fazer alguns exames para constatar se a visão estava comprometida ou algo do tipo.

-Hmm, até que gostei da cor desse vestido... — ouviu a voz rouca e carregada de malícia que vinha da entrada do banheiro feminino.

Com um suspiro, Senna continuou a retocar os lábios, dando a mínima importância para a companhia recém-chegada.

-Grimmjow, este é o banheiro feminino, se é que ainda não percebeu – informou-o com aquele jeitinho de desdém que o provocava ainda mais – O que está fazendo aqui, hein? — cruzou os braços e finalmente girou o corpo, encarando a figura arrogante que estava escorada na porta.

-Não posso ficar aqui te admirando? — indagou presunçoso, caminhando em direção à Senna; carregava aquele sorriso sedutor, mas que nunca funcionava com aquela a sua frente.

-Infelizmente, não – cínica, sorriu 0 ainda não se cansou de mim Grimm? Sabe que vai conseguir ter isso aqui – apontou para o próprio corpo, não sentindo-se intimidada pelo amigo de infância.

-É, ainda estou tentando me conformar com essa ideia... — ainda com um sorriso sinistro nos lábios o adolescente continuou a se aproximar – Mas por enquanto, vamos fingir que você me adora e não consegue viver sem mim – segurou o pulso de Senna, puxando-a para si.

-Aí! Seu grosso, isso vai ficar marcado – tentava desvincilhar-se, em vão. Sabia que Grimmjow era muito mais forte do que ela, talvez fosse melhor ceder. Ou não – o que quer hein? — questionou-o com um certo misto de ânsia e repulsa.

-O que me pediu alguns dias atrás? — sussurrou no ouvido de Senna – Consegui o discurso que a prostitutazinha—ops, professora Sayuri vai fazer daqui a pouco... — alargou o sorriso.

-Tá, mas e daí? — arqueou uma sobrancelha. Pra quê diabos iria querer um discurso tão sem graça quanto a autora? — Eu sei muito bem fazer discurso, e garanto que fica melhor do que essa porcaria aí--

-Acho que você não está entendendo, princesinha... — murmurou a última parte com os lábios colados ao lóbulo direito de Senna – Eu consegui acessar o computador da professora, e digamos que mudei um pouquinho aquele discurso sem graça... Precisei colocar algumas fotos... — apertou ainda mais o corpo da pequena – Daqui a pouco teremos um show e tanto!

Agora com um brilho diferente nos olhos amendoados de cor exótica. Era tudo o que precisava para melhorar seu dia.

-Obrigada Grim... — esparramou suas mãozinhas pelo peito do jovem – Não sei o que seria de mim sem você – sorriu genuinamente e colocou-se na ponta dos pés para depositar um único e singelo beijo na bochecha de Grimmjow – Que pena que o Ishida-kun vai ser exposto também – sussurrou sem culpa alguma.

A única coisa que estava perfeita era o fato de que havia uma babá dentro de uma daquelas cabines apertadas, escutando absolutamente tudo.

XI

Varria o extenso salão, este adornado com as mais sofisticadas flores de Karakura, com amendoados olhos cor de damasco levemente contraídos, examinando nos mínimos detalhes se encontrava alguma tentativa de miniatura que, por um acaso, era senão sua babá.

Fazia exatamente 30 minutos que Rukia havia se retirado para ir ao banheiro. 30 minutos de pura agonia. Contenção, cólera e frustração. Por que tudo isso?

-Agonia: ânsia; aflição; náusea.

Em primeiro lugar, odiava essa sensação mais do que tudo imaginável e pensável. Era como se algo grandioso, talvez bom, talvez ruim, estivesse para acontecer a qualquer momento; o problema é que esse momento não chegava nunca. Dane-se o acontecimento.

-Principais motivos para uma provável agonia:

1 – Após duas semanas inimagináveis, Inoue Orihime estaria naquele bendito baile.

2 – Consequentemente, Arisawa Tatsuki, sua (talvez ex) melhor amiga.

3 – Precisava urgentemente ter uma conversa com a pessoa listada no item 2.

4 – Por que diabos sua babá demorava mais de 30 minutos em um maldito banheiro?

5 – E para finalizar, a pessoa listada no item 4 fazia questão de agoniá-lo com aquele decote.

-Contenção: refreamento; confronto; disputa;

'Nada de álcool, drogas e qualquer coisa do tipo' foram as condições da nanica, vulgo babá, quando concordou em vir ao baile.

-Principais motivos para uma possível contenção:

1 – O que exatamente aplicava-se à álcool?

2 – Chá de cogumelo, segundo alguns médicos hippies, não era uma droga ilícita.

3 – Por que aqueles adolescentes estúpidos esbanjavam tanta bebida daquele jeito?

4 – Uma batalha interna entre procurar por sua babá ou juntar-se a Shuuhei para fumar algo.

5 – Segunda batalha interna entre manter sua mente ocupada com uma imaginação de como seria sua babá sem aquele vestido ou uma imagem real da mesma com a indecência do traje.

-Cólera: força; violência; fúria.

Uma sensação bastante familiar para o príncipe da KHS desde a chegada da indesejada babá.

-Principal e único motivo:

1 – Kuchiki Rukia.

-Frustração: iludir; inutilizar; ficar sem.

E quando diziam que somente os velhos eram frustrados...

-Principais motivos para uma tentativa de frustração:

*Todos os citados acima.

-Kurosaki-kun! — ouviu uma voz horrivelmente aguda e conhecida. Nem precisava pensar em quem era antes de virar-se.

Desfez as sobrancelhas contraídas, mas o semblante permaneceu sério.

Um jeito Kurosaki Ichigo de demonstrar afeto.

HAHAHAHA!

-Yo – acenou discretamente enquanto registrava a imagem da ex-namorada num vestido rosado simples, o que não tirava sua beleza e elegância. O rosto corado denunciava que aquela Inoue Orihime por quem tinha tanto carinho havia voltado ao normal.

Só por essa constatação Ichigo não precisava de mais nada para que sua noite fosse ótima.

-Ué, a Rukia-chan não está aqui? — questionou-o intrigada – Encontrei a Yuzu-chan agora pouco e ela me disse que vocês estavam juntos...

-É, ela foi ao banheiro e... Será que você não podia ir lá ver se está tudo bem? Estou esperando aqui há um bom tempo – pediu gentilmente, e Inoue não seria uma pessoa sem coração para ignorá-lo.

-Ah, entendi! Pode deixar comigo Kurosaki-kun! — girou os calcanhares para atender ao favor do príncipe e então parou, havia se esquecido de algo.

Caminhou em direção ao adolescente impaciente e sem hesitar, abriu os braços para surpreendê-lo com um abraço afetuoso. Um abraço sem segundas intenções e muito menos ressentimentos guardados. Um abraço amigável.

-Sabe Kurosaki-kun, você e a Tatsuki-chan não precisam se preocupar comigo... Estou bem, de verdade! — abriu um largo e sincero sorriso, então o soltou – Ela está aqui, deveria procurá-la – acenou e retirou-se antes mesmo que Ichigo pudesse falar algo.

E havia algo a ser dito ainda?

XII

-Rukia-chan! Até que enfim consegui te achar! — disse uma ruivinha aliviada ao encontrar seu 'objeto' de procura – Ah! Está tão linda com esse vestido... — sorriu ao aproximar-se da babá.

De qualquer forma, Inoue sabia que rodara o salão completamente à toa. E ao menos tivesse procurado por ela no banheiro feminino pouparia uma pequena dorzinha nos dedos comprimidos dentro do scarpin acinzentado.

-Hmm, está tudo bem? — estranhou Inoue, já que a babá do príncipe não emitira som alguma desde a sua chegada. Mesmo assim, não obteve uma resposta.

Era como se Rukia nem ao menos tivesse percebido sua presença, tampouco escutado a pergunta e o elogio anterior.

Com as duas mãos apoiadas na pia de vidro, a morena dos olhos cor de malva fitavam a água que jorrava pela torneira como se fosse a coisa mais interessante do mundo. O semblante vago evidenciava algum tipo de problema que Orihime não teria como saber. E isso a assustava.

-Rukia...Chan? — tocou vagarosamente o ombro da pequena para não surpreendê-la, em vão.

Ao sentir as pontas frias dos delicados dedos de Orihime tocarem em sua omoplata esquerda, mal pôde a babá conter um gritinho curto. Talvez pelo susto, por não ter percebido a presença da ruiva. Ou o fato de que ainda não conseguira acreditar na história horrorosa que ouvira agora pouco.

-Está se sentindo bem? — indagou a adolescente preocupada com o estado da morena – Quer que eu chame alguém, Kurosaki-

-Não! — virou-se para a ex-namorada do príncipe – Estou bem! — tentou tranquilizá-la forçando um de seus mais gastos sorrisos – Er... Só estava um pouco tonta por conta do calor, sabe como é...

-É, isso é verdade! Aqui em Karakura o verão é insuportável – constatou Inoue, esquecendo-se do estado de Rukia minutos atrás – Aliás, Kurosaki-kun está esperando por você lá fora, e impaciente – riu descontraída.

Rukia riu também, tentando demonstrar alguma atenção ao que Inoue havia colocado-se a falar. Não que a achasse irritante – tá, só um pouquinho –, mas sua mente estava ocupada debatendo se deveria ou não contar o que sabia a alguém. Mas... Quem?

Shuuhei estava completamente fora de cogitação... Se não fosse pelas fotos que o mesmo havia tirado, talvez ela nem estivesse nessa situação. Inoue não saberia como reagir e Ichigo iria piorar ainda mais o que já estava complicado. O jeito mesmo era ficar calada e procurar por esse tal de Ishida sozinha. Quanto menos pessoas se envolvessem, melhor.

-... E acho que agora estou bem, graças a você Rukia-chan! — ouviu Inoue concluir a frase e então soube que era a hora de sorrir.

-Tsc, deixa de bobagem! — riu, pegando sua bolsa encostada perto da pia – Acho melhor nós sairmos agora, não? Provavelmente Ichigo deve estar espumando de raiva pela demora – ambas concordaram – seu par também deve estar te procurando.

Quase que instantaneamente as bochechas da ruiva ganharam uma tonalidade parecia com a de seus cabelos, um pouco mais para o vermelho. O que não passou despercebido pela babá, ainda mais quando a estudante calou-se diante do comentário.

-E será que posso saber quem é seu par, dona vergonha? — riu divertida.

-Er... Ele não é exatamente meu par e veio apenas como um amigo... — olhava para as mãos entrelaçadas enquanto caminhavam para fora do banheiro e falavam – Acho que você o conhece.

Ahn?

-É, ele é amigo do Kurosaki-kun e também esteve lá no dia em que vocês me encontraram com... Você sabe – disse Inoue embaraçada. Talvez pelo passado ou pela companhia.

Se havia algo que Kuchiki Rukia odiava era sua memória e a incapacidade da mesma de exercer sua única função que era nada mais nada menos que guardar nomes, lugares, rostos... Seria pedir muito?

-Hm, é o Ishida-kun, lembra? Alto, usa óculos – Inoue colocou uma mão no queixo, tentando lembrar-se de mais alguns detalhes para descrevê-lo.

A expressão da ruiva ao fazê-lo teria sido engraçadinha na visão da babá se a surpresa não fosse maior. E maior ainda quando Inoue rapidamente voltou a corar e acenar para alguém que estava atrás dela.

É, na falta de uma boa memória, talvez a sorte não fosse tão ruim.

-Ishida-kun! — Inoue continuou acenando por alguns segundos.

Por sorte estava distraída agitando a mãozinha pela multidão de adolescentes movidos a hormônios, e não percebeu o quão rígido a postura da babá estava; muito menos seu semblante de paisagem.

-Inoue-san, até que enfim te achei, estava começando a ficar preocupado – disse uma voz grossa e aveludada atrás da morena, um tanto quanto familiar.

-Ah, me desculpe Ishida-kun. É que eu precisava encontrar a Rukia-chan! Ah, você se lembra dela né? — apontou para a figura diminuta à sua frente.

E como poderia ele, Ishida Uryuu, esquecer-se dos mais violáceos – e belos – olhos como os da babá do melhor amigo? Não que os mesmos o encantassem – de forma alguma. Seria algo mais como... Como se o fascinassem, e que guardassem dentro deles algo que a deixava assim, com um aspecto enigmático e agradável. Incomparável.

Em questão de segundos Uryuu sabia reconhecer que a pequena figura carregava algo muito interessante.

-Olá, Kuchiki-san, acho que nós ainda não fomos apresentados devidamente – sem muitas cerimônias o jovem tomou a delicada mão de Rukia e depositou sobre os gélidos dedos um beijo – Prazer, Ishida Uryuu e amigo de infância do Kurosaki – abriu um sorriso.

Isso sim definia o que era ser cavalheiro. Talvez Ichigo devesse ter umas aulas particulares com Ishida, não seria uma péssima ideia. Apesar de não conseguir imaginar o ruivinho sendo tão educado com que quer que seja.

Não custava sonhar, certo?

-Kuchiki Rukia, o prazer é meu – sorriu de volta – desculpe tomar Inoue de você, ela só estava-

-Não se preocupe Kuchiki-san – ajeitou os óculos caídos – as mulheres necessitam fazer os homens impaciente, é completamente descartável uma desculpa.

Okay, por que mesmo não existiam mais homens como aquele à sua frente? É, obrigada machismo idiota.

Por um momento, a pequena quase se esqueceu do por que passou trinta minutos num banheiro refletindo sobre o que fazer. Bom, pelos menos o que queria estava bem ali diante dela... O problema realmente estava em como abordá-lo. Não que distrair Inoue fosse algo difícil – na verdade, o oposto – mas, como fazê-lo sem levantar suspeitas?

Num movimento rápido, observou que a ruivinha tagarelava sobre algo e Ishida mostrava-se inteiramente entretido – não sabia se era nas palavras, no assunto, ou em admirar a beleza estonteante da colegial. Um bom sinal.

Discreta, Rukia pegou o celular dentro da bolsinha de mão com detalhes em preto.

To: Hisagi Shuuhei

Text: Preciso de um favor urgente, mais tarde eu explico... Mas preciso que venha em direção ao banheiro feminino e distraía Inoue por alguns minutos, obrigada, ;*

Ao apertar o botão 'enviar', soltou a respiração, que nem ao menos se lembrava de ter segurado, e o mundo a sua volta também parecia voltar.

-Então Kuchiki-san, onde está o cabeça dura? — resolveu Ishida perguntar. Se eram melhores amigos por que continuavam na base de sobrenome?

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-Por favor, me chame de Rukia – pediu amigável, escaneando o salão à 'procura' de Ichigo – e quanto a Ichigo, não sei bem onde está – o que a principio deveria preocupá-la, afinal, estava ali naquele baile apenas para tomar conta dele e de Yuzu, o que lhe remetia também o pedido de Karin quando a convenceu acompanhar os irmãos Kurosaki.

Droga de senso de justiça que Rukia possuía! Se não fosse pela angústia que sentia naquele momento, poderia muito bem largar aquilo tudo e procurar por ambos os irmãos e sair daquela rede de maldade que era compartilhada e usufruída pelos próprios alunos da KHS. Realmente, o tempo mudava tudo... Menos o Kuchiki em seu sobrenome, impedindo-a de ignorar o absurdo que estava prestes a acontecer.

-E aí pessoal! Estão se divertindo? — ouviu uma risada estranhamente familiar e então o aperto sufocante no peito de Rukia diminuiu o ritmo, possibilitando-a a reconhecer o mar de cabelos negros recém-chegados.

-Shuu-chan, que bom que está aqui! — Inoue sorriu ao abraçar o amigo, um tanto quanto bêbado – Olha, agora só falta o Kurosaki-kun e a Tatsuki-chan – concluiu a ruivinha em um comentário constrangedor que levou todos os pensamentos a uma coisa desagradável.

-Bom, desculpa Ishida, mas estou sendo obrigado a puxar a Hime-chan para a pista de dança, se importa? — a babá quase engasgou no próprio receio ao ouvir o convite. Pelo menos em nenhum momento os olhos negritos fizeram contato com os amendoados violáceos.

-Haha, fique à vontade – garantiu o jovem de óculos, vendo ambos os amigos perderem-se no meio daquela gente.

Passaram-se alguns minutos e nem Ishida, nem Rukia abriram as bocas para falar algo. Não tinham assunto em comum, mas esse não era o maior dos problemas.

A babá respirou fundo, tentando controlar os tremores do corpo inteiro que eram causados pela ansiedade. Não queria parecer intrometida; contudo, agora não era uma boa hora para se auto questionar sobre valores sociais.

-Hmm, Ishida-kun... Acho que nós precisamos conversar – começou ela, sem muito jeito – por um acaso sabe onde fica a sala de audiovisual? — viu o semblante do jovem enrugar, talvez por dúvida ou por inconveniência da parte dela – a vida de uma pessoa depende disso – finalizou quase num murmuro.

-E quem seria essa pessoa? — quis saber intrigado. Mais precisamente... Hã?

Continua...

Notas finais
Gostaram? Hahaha, espero que sim! Bom, é isso! Até o ano que vem lindos, ;*