Gâteau Aux Fraises
4 Partou oì je suis
Notas iniciais
I
Aniversário é, de fato, uma data importante. Tem uns que ligam, outros que fingem não se importar mas que no fundo desejam que aquele dia chegue o mais rápido possível, e aqueles que nem se lembram que dia nasceram. Em geral, guarda tantas expectativas quanto o ano novo ou o natal; quem sabe até mais.
Mas a espera parece ser sempre tão demasiadamente longa que, quando finalmente o dia mais importante chega, vai-se embora num piscar de olhos. É tudo tão rápido que... Fazia alguma diferença na vida, com exceção das novas rugas na face e as novas saliências do corpo, esse dia tão importante?
Para Arisawa Tatsuki não importava tanto assim... Ela não se importava totalmente.
Não era todo dia que se completava dezoito anos, a idade proibida. Bom, não pra ela.
Dezoito anos sempre foi a idade entre os adolescentes; talvez por que não precisassem esconder de seus pais que bebiam feito gambás, e que quando levassem sermão pudessem dizer 'eu sou maior de idade, faço o que quero e quando quero'. Hm... Não era bem assim. Não era como se eles realmente fossem se auto-sustentar. A prepotência os impede de tal coisa.
Aliás, comemorar o avanço da idade ainda era uma incógnita para ela própria, tanto por que, ficar cada vez mais próximo da velhice é tão legal assim como todo mundo fazia parecer ser? Pelo menos pra ela não, de jeito nenhum.
Seu próprio quarto, percebeu ela logo que abriu os olhos pela primeira vez naquela manhã de verão, estava pesteado de flores que até ontem não existiam, e como davam cor ao ambiente... Masculino.
Definitivamente, flores eram... Piegas demais. Não gostava da sensação delas ali em seu quarto, que mais parecia um jardim botânico agora. Davam um aspecto de 'quarto-dos-sonhos-de-qualquer-menina', o que era extremamente irritante. Não que ela não fosse menina, mas gostava de coisas mais... Er, menos felizes?
Tinha um cartão junto das flores, e em cima de sua escrivaninha que se situava abaixo da janela, havia uma bandeja enorme posta com panquecas doces, uvas e café com chantilly que ela tanto adorava. E que agora não existiam mais, pois havia devorado tudo.
O cartão... Bom, tinha jogado no lixo do banheiro também há muito tempo. Cansou-se de guardar aqueles pedaços de papeis sem sentimento algum.
Mais tarde iria dar as flores à Orihime, já que ela provavelmente não vai deixá-la jogar todas essas coisas no lixo também.
E não, ela não estava decepcionada por não receber abraços de seus pais. Eles não são tão importantes assim. De 18 aniversários, só lembrava-se de tê-los por perto em 6. Tatsuki já estava acostumada.
E era esse o problema.
...
"Filha, feliz aniversário. Vamos chegar tarde hoje, não precisa nos esperar. Tem bolo e refrigerante, chame Orihime para passar o dia com você."
...
II
-Se eu fiquei decepcionado? — sim – Não, já me acostumei... Então podemos nos encontrar amanhã... Não precisa se desculpar, já disse... Okay, se cuida.
Fechou o celular e guardou-o no bolso dianteiro da calça jeans azul escuro que usava.
Ishida Uryuu não estava tão chateado assim por não poder encontrar sua 'ainda-não-definida-namorada'. Como dito anteriormente, já havia se acostumado a ser deixado como um segundo plano na vida dela. Mas o que ele podia fazer? Gostava daquele jeitinho como os olhos verdes brilhavam, e dos cabelos macios e cheirosos.
Se não fosse por isso, a teria deixado há muito tempo atrás; foi no verão passado que a conheceu, em uma dessas reuniões enfadonhas de negócios cheias de pessoas nada interessantes... Quer dizer, com exceções, claro. Na ocasião, sua... 'Ainda-não-definida-namorada' estava acompanhada de um amigo de seu próprio pai. Porém, o jeito com que aqueles olhos verdes o encaravam fizeram com que Ishida a tirasse daquele velho.
Caso a parte, ninguém sabia sobre seu relacionamento na KHS. Era muito discreto nesses aspectos, diferente de Kurosaki Ichigo e Hisagi Shuuhei, amigos de infância.
-Oe, Ishida! — viu uma mão grande acenar por entre a multidão de pessoas no corredor estreito da KHS e deduziu ser um de seus amigos. — Não sabia que tinha voltado de viagem. — logo, a mão estendida já repousava em seu ombro e o puxava para um abraço viril. — Achei que era para irmos te buscar no aeroporto...
-É, mas eu preferi voltar antes. — ele não, mas sim sua namorada. Voltaram hoje pela manhã de Okinawa, onde passaram duas semanas inteiras agarrados. — Cadê o imprestável do Kurosaki? Pegando alguma menina por aí? — brincou ele, enquanto dirigiam-se para a sala de aula.
-Que nada, ele já tá lá dentro. — apontou para a cabeleira nada chamativa do príncipe e logo depois explicou ao amigo recém chegado. — É que ele tá de ressaca.
-Pelo visto, as coisas mudaram bastante nessas duas semanas que eu fiquei fora. — ajeitou os óculos, e junto a Hisagi, adentraram a sala de aula, imersos aos suspiros de boa parte das meninas.
-Se fosse em outra época, nunca que Ichigo iria vir à escola depois de uma noite... Er, agitada. — concluiu o adolescente dos cabelos arrepiados.
-Ou Kurosaki-san o trouxe a força, o que acho pouco provável, ou... Ele tá criando algum juízo nessa cabeça oca. — Ishida deu um pequeno tapa na cabeça de Ichigo, e este só resmungou em resposta, sonolento demais para revidar.
-É bom te ver também Ishida. — Ichigo murmurou.
-Nenhum dos dois. — Hisagi riu, voltando ao amigo acordado — Como eu posso dizer? Ichigo agora tem uma... Babá.
-Ah sim... Uma o que? — desde quando eram pequenos, Ichigo sempre foi o que chamou mais atenção. Era o mais bonitinho, o mais mimado e o mais problemático. Ishida já até havia se acostumado com a sensação de que não podia se impressionar mais com o que estava relacionado ao príncipe da KHS. Mas pelo visto, agora sim ele estava completamente surpreso.
-Aquela desgraçada... Lenhadora de-
-É, uma babá... — Hisagi interrompeu os xingamentos abafados que vinham do ruivo e logo continuou. — O nome dela é Kuchiki Rukia, parece familiar, não é?
-Hm, já ouvi falar desse nome também... Kuchiki. — devia ter ouvido em um dos comentários de seu pai, o que ele fazia de tudo para evitar. — Quem diria hein Kurosaki? Uma babá!
-Aquilo não é uma babá, e sim um demônio! — exclamou em alto e bom som, o que fez com que algumas pessoas se virassem para trás assustadas com a agressividade evidente na voz de Ichigo.
-Agora entendi por que parece odiá-la tanto... É por que ela já tem idade, acertei? — e logo Ishida emendou – E é acima do peso, grande e usa dentadura-
-Cala a boca, infeliz! — agora Ichigo parecia estar bem acordado. O rosto, que antes estava colado na carteira, estava levemente avermelhado. Talvez fossem rubores.
Rukia estava longe de ser velha, muito menos acima do peso, grande e com dentaduras. Na verdade, era o oposto disso. No fundo, por mais que ele próprio não quisesse admitir, sua babá tinha alguma coisa intrigante. Não era como se ele não tivesse reparado em como eram delicados os pés dela, e as mãos também... Ou como a pele branca parecia ser macia, os cabelos negros cheirosos e-
-Agora eu concordo com ele... — Hisagi colocou-se novamente na conversa, alternando em olhar o professor ou as pernas de alguma menina sentada em sua frente. — Ruu-chan é totalmente diferente de como você está pensando... Acho que ela deve ter no máximo... Uns 22 anos.
-Ah, então agora eu entendi por que você, Kurosaki, parece estar tão frustrado! — Ishida agora tinha uma idéia. — Aposto que ela não quis nada com você e-
-Não é nada disso! — era incrível como Ichigo conseguia se irritar tão facilmente – Além do mais, ela é feia. Parece que ainda tá num jardim de infância, de tão subdesenvolvida que é...
-Mas eu ainda acho ela bonita. — Hisagi comentou, alheio as reações de Ichigo, que ficou um tempo em silêncio.
-Shuuhei... Você não tá dando em cima da minha babá... Não é? — quis saber o ruivo, ainda em choque. Sua babá e seu melhor amigo, ah! Não havia coisa pior do que isso.
-Claro que não... — fez um muxoxo – Ela só é legal, e eu não acho ela feia... Algum problema?
-Acho que alguém aqui tá com-
-Nem ouse terminar a senteça Ishida, seu maldito. — ameaçou o príncipe da KHS – Ela não é nada legal e ela também não é feia... Ela é pior do que isso.
-Só por que ela é magrinha e não tem muito... Seio? — Hisagi riu, dando-se conta de como o amigo podia ser tão prepotente em certos aspectos. Como se seios influenciasse na beleza de alguém.
-Claro que não... Só acho que ela é o demônio em forma de gente... Só isso. — Ichigo cruzou os braços irritado, a fim de defender seus pensamentos. Mas estava difícil – Semana passada ela me fez correr dois quarteirões quatro vezes e depois me fez ajudar ela a arrumar aquela droga de quarto onde vai ficar...
-Semana passada ela também quase perdeu o emprego por sua culpa, Ichigo. — agora é que Ishida estava mais interessado. — Teve que ir te buscar três vezes na minha casa por que... Alguém, não sei, ficou bêbado e sem condições de voltar sozinho... Isso por que fugiu de casa também... Acha que é fácil pra ela acompanhar seu ritmo, príncipe?
O tom da voz de Shuuhei era de repreensão. Mas, quem é que ele achava que era mesmo para dar sermão em alguém? Se Ichigo era inconseqüente como sabia que era, então seu melhor amigo de infância não ficava tão distante assim. E isso começava a incomodá-lo, como se estivesse se sentindo não só censurado em sua própria casa, como também na escola, o único lugar onde conseguia ficar longe daquela babá-demônio.
-Ela que se acostume, não foi ela quem aceitou o emprego? Então... Que agüente as conseqüências. — deu de ombros o ruivo. Hoje não era um dia bom, e não queria piorá-lo ainda mais. — Será que podemos mudar de assunto? Como se eu não passasse tempo o suficiente com aquela demônio, nós ainda vamos ficar gastando saliva falando dela quando finalmente eu consigo ficar livre? — Ichigo estava praticamente implorando aos amigos.
Os dois amigos assentiram, e ficaram em silêncio por alguns minutos. Alguns minutos...
-Ishida... Qual foi o motivo da viagem? — Shuuhei questionou curioso, não desviando os olhos da lousa.
Era esse tipo de pergunta que Ishida mais odiava. Não somente por ser pessoal demais, mas também por que... Não queria que sua vida ficasse espalhando de boca em boca pela escola inteira; era tímido e reservado demais para querer chamar atenção com esses tipos de detalhes. Detalhes?
Mas... Quando se tem amigos como Kurosaki Ichigo e Hisagi Shuuhei, não tem como se esconder algo por muito tempo. Eles sempre davam um jeito de descobrir seus segredos, de um jeito ou de outro. O que era extremamente irritante, e desnecessário para o conhecimento deles, claro.
Então preferiu ficar calado. Não era como se daqui a cinco minutos eles não tivessem adivinhado.
-Por um acaso... — os lábios perfeitos de Ichigo curvaram-se em um sorriso malicioso e logo o outro amigo fez o mesmo. — Você não viajou sozinho, certo? — quando Ishida preferiu continuar calado, o sorriso de ambos já estava maior do que antes, fazendo com que as bochechas do mesmo ficassem levemente avermelhadas.
Que menino que ainda corava com seus dezessete anos?
-Ishida, seu malvado... Nem contou pra gente que tinha alguém... — logo, o amigo citado fechou os olhos, irritado, esperando pela pergunta mais óbvia. — Quem é?
-Vocês não conhecessem. — ah não? — Ela é... Mais velha. — admitiu, tropeçando um pouco nas palavras.
Na cabeça de Shuuhei era difícil imaginar que seu amigo de infância, Ishida, que sempre foi um menino tímido, nada simpático e uma das pessoas mais reservadas que conhecia estivesse saindo com uma mulher mais velha que ele. Que o próprio saiba, Ishida ainda morria de amores por Orihime, desde que a viu no primeiro dia de aula dois anos atrás. Então, como é que ele conheceu essa tal mulher? E como Ishida mudou assim, tão de repente que eles nem perceberam?
Talvez estivessem ocupados demais com bebidas, festas e-
-Se ela é mais velha... E você diz que nós não a conhecemos, então é por que definitivamente, nós sabemos quem é... — Ichigo deduziu, astuto como sempre.
É, pelo raciocínio de Ishida, eles não demoraram mais do que três minutos para lhe arrancarem tudo. Da última vez ficaram três dias tentando, quando ele cedeu e acabou contando.
-Não sei por que eu ainda tento esconder essas coisas de vocês. — murmurou um Ishida irritado, e mais irritado ainda quando percebeu que os dois riam igual dois chapados.
-Amigos servem pra isso Uryuu! — Shuuhei sorriu. — Mas falando sério... Achei que ainda gostasse da Hime-chan...
-Eu nunca disse que não... Gosto mais dela. — as bochechas agora ardiam mais ainda, e tomavam conta do rosto fino e belo que Ishida tinha. — Sabe que o problema não é comigo...
Ichigo desviou os olhos castanho-claro para qualquer ponto da sala, menos para os olhos azuis do amigo. Como se não tivessem superado esse problema há muito tempo atrás.
Lembrava-se até hoje do primeiro dia dos três na KHS. Foi tudo tão... Diferente do que estavam acostumados; foi tudo tão divertido. Ichigo já era um ponto de referência naquela época, talvez pelos cabelos chamativos ou pela beleza que conquistava qualquer pessoa, fosse homem ou mulher. Ambos queriam um Kurosaki Ichigo para si.
Pensar que várias meninas de qualquer idade corriam atrás do ruivo não era besteira, era a pura verdade. Era a pura verdade também que, no início, ele não estava nem aí para elas. Ainda era demasiadamente tímido comparado aos outros alunos, e, popularidade nunca foi uma coisa que ele precisou ir atrás. Ela é que vinha de livre e espontânea vontade. O que incomodava até certo ponto.
Depois de dois meses tentando se adaptar a vida de 'príncipe-da-KHS', apelido que recebeu no terceiro dia de aula e que ele desgostava bastante, Ichigo já conseguia conciliar seus estudos, o que era sua prioridade, com um pouco de diversão. Já que era o Kurosaki Ichigo, tinha passe livre para qualquer festa; principalmente dos veteranos, que diziam ser mais divertido.
E foi em uma dessas festas que conheceu Inoue Orihime. Quer dizer, já a conhecia de vista antes, mas foi a primeira vez que conseguiram trocar algumas palavras. Talvez o jeito tímido com que falava, ou a meiguice e douçura em sua voz que o tivesse cativado à primeiro momento. Depois foi a sua beleza; os cabelos longos e perfumados que eram aqueles ruivos deixavam o pobre Ichigo encantado. Inoue não era como as outras meninas da KHS que se jogavam em sua frente, abriam a blusa e tentavam agarrá-lo a qualquer custo.
Começaram a namorar depois de algumas semanas, e já eram considerados o casal de ouro do colégio. Eram lindos, inteligentes e ricos. Precisava de mais alguma coisa para serem invejados?
Bom, sim.
Infelizmente, encantamento é um sentimento passageiro. Pelo menos para Ichigo, que já não conseguia mais olhar a namorada com os mesmos olhos. Porém, o mais importante... O que faltava ali era cumplicidade, e consequentemente, amor. Quer dizer, havia amor, claro que sim! Mas... Amor de irmão, amor de amigo; não era a mesma coisa que um amor avassalador daqueles em que Shakespeare o fez acreditar que existiam com seus poemas.
E ouvir a confissão de uma paixão platônica que Ishida nutria por sua namorada, completamente bêbado em uma das festas dos terceiranistas, piorou a situação. Foi como jogar um balde de água fria, cheia de cubos de gelo e mais alguns flocos de neve em cima de Ichigo. O que ele ia fazer?
A única coisa que já pretendia fazer há muito tempo, mas com um certo empurrãozinho sem pretensão do amigo. Terminou com Inoue usando as palavras mais... Indelicadas e talvez até menos sensíveis que alguém podia proferir.
'Desculpe Inoue... Acho que não... Para falar a verdade, acho que eu nunca gostei de você como... Como namorada, e sim como amiga... Desculpe.'
Tá, isso foi muito insensível... Mas, era válido lembrar que Ichigo não era a delicadeza em pessoa na época; tanto por que, só de revolver o passado o fazia sentir-se para baixo. E odiava isso; odiava a sensação de culpa do subconsciente, a sensação de toda vez que quando via Inoue lhe faltava o ar... Faltavam as palavras. Mesmo que pequenas elas fossem; seriam singelas de alguma maneira.
-Oe, Ichigo... Tá me ouvindo? — quis Hisagi saber depois de permanecerem em um silêncio completamente constrangedor.
-Ah, — não – uhum.
-Como Ishida ia dizendo... Qual é o nome da mulher misteriosa, hein? — o moreno insistia; era como se pedisse um doce à sua mãe quando iam ao supermercado.
Depois de segundos, que se passaram tão rapidamente, que Ishida resolveu finalmente falar. A insistência de ambas as partes já começava a perturbá-lo... O que ele sempre odiou. Só resolveu que iria falar agora pois da última vez, seus cadernos, livros e algumas peças de roupas começaram a desaparecer 'misteriosamente'.
-O nome dela é-
-Sinto muito atrapalhar os três no fundo, mas... Eu adoraria se pudessem deixar eu fazer o meu trabalho sem nenhum problema. — pediu gentilmente a Sr. Unohana, professora de geografia. Ela era tão gentil que chegava a ser estranho. O sorriso... Era assustador.
Os três nada disseram, apenas concordaram mutuamente em silêncio com o pedido lhes feito.
Se geografia era uma das matérias que mais odiava... Agora era uma das preferidas de Ishida.
III
Olhava atentamente o modo do lápis mover-se sobre o papel pautado e sentia-se orgulhosa de si mesma. Ser inteligente era uma coisa que realmente diferenciava uma pessoa da outra. E ser duplamente, ou quem sabe até mais, era melhor ainda. Shigure Senna era um gênio.
Ou um demônio, como preferir.
A aula de geometria havia acabado há um tempo; os corredores da escola estavam vazios graças a pressa com que os alunos saíam para a área de convivência no primeiro andar atrás de comida, e só restavam poucos professores. Sentada sobre a mesa da sala de aula, que se identificava ao lado da janela, no canto esquerdo, as mãos ficavam sobre as pernas brancas e roliças cobertas pelo tecido fino cor de grafite que era a saia do uniforme de inverno. Comportava-se como uma verdadeira dama.
Mesmo?
Damas não eram oportunistas, chantagistas e egoístas como ela. Além de várias outras coisas. Estava ali, esperando por seu trabalho de matemática ser concluído para então, poder voltar para casa e de lá, para o shopping. Ver a cor deixada pelo lápis sobre a folha tinha uma sensação tão prazerosa... Prazerosa por que não era ela quem estava a fazê-lo, e sim, se não o seu próprio professor. Com certeza iria tirar um dez.
Hã?
Há dois meses atrás, nesse mesmo horário, Senna era a única que ainda estava na sala de aula, esperando para que a tempestade que ocorria do lado de fora se acalmasse para então, poder voltar para sua mansão. Os trovões eram tão ensurdecedores ao ponto de parecer não ter ninguém mais no corredor. Quer dizer, sempre diziam que os diabos são capazes de tudo. De até mesmo, debaixo daquele desastre natural que ocorria, ouvir sussurros e risos abafados na sala ao lado.
Lá estava seu querido professor, o Sr. Tetsuo com os braços em volta da cintura esbelta e bem tonificada da professora de educação física, a sra. Kitushi. Okay, ela já sabia que aqueles dois tinham alguma coisa. Mas ver a prova ao vivo era uma coisa totalmente diferente. E como Senna era inteligente, sabia se aproveitar bem da situação quando lhe convinha. Pois bem, nesse caso...
Nesse caso ele não fez nenhuma objeção quanto ao requerimento da tão amável aluna quanto concluir seu trabalho de matemática. Mesmo se o sr. Tetsuo tentasse protestar, Senna também já tinha várias copias da foto que tirou no dia em seu computador.
No contrato da KHS estava explicitamente claro:
'Não é permitido qualquer tipo de relacionamento com finalidade amorosa entre os professores. Quem desrespeitar esta cláusula poderá ter seu diploma suspenso, além de ser demitido por justa causa e também deverá pagar uma multa à Academia Karakura High School.'
Por isso diziam que os mais inteligentes são os que sempre prevalecem.
-Shigure-san... O trabalho. — agitou a folha cor de rosa no ar a fim de chamar a atenção da tão aplicada aluna. Esta não fez nenhum gesto de remorso pela chantagem, muito menos pareceu estar envergonhada do que fazia. Pelo contrário; o sorriso era largo e cheio de satisfação, as bochechas coravam de excitamento e a crueldade brilhava em seus olhos cor de âmbar. É, Senna era um caso perdido há muito tempo.
-Muito obrigada professor. — como ela fazia para agir daquele jeito tão dissimulado ninguém sabia como e que técnica ela usava. Mas que parecia ser tão inocente com aquele rostinho...
-Ahn... — o professor coçou a cabeça nada amigavelmente, e logo estendeu a mão cheia de calos e suja de giz em direção a adolescente. — Nosso combinado...
-Oh, já ia me esquecendo. — sorriu, virando-se com toda sua graça para sua bolsa. De lá, tirou um CD cor de rosa também. — Não precisa se preocupar professor... Essas fotos já foram deletadas do meu computador. — fez menção de entregá-lo, e quando o impaciente professor tentou tomar-lhe o objeto das mãos, Senna recuou sagaz. — Ainda não...
-Como assim ainda não? — o professor indgnou-se com as palavras. — Tem mais?
-Tem isso aqui. — remexeu em seus materiais jogados dentro da bolsa de couro distorcido edição limitada Marc by Marc Jacobs que comprara na semana passada, em Milão. — O gabarito... Já achei que tinha se esquecido.
-Ah, ainda tem isso... — dessa vez, quando pegou a folha e o CD, Senna não recuou. Ela não era tão má assim...
Ah tá.
-Foi muito útil negociar com o senhor. — balançou suas pernas com o intuito de colocar-se no chão, e quando o fez, saiu satisfeita. Sua nota pelo resto do ano já estava garantida.
Senna tinha os cabelos negros preso em um coque sofisticado, deixando à mostra seus olhos cor de âmbar e os lábios rosados feito pêssego lambuzados de seu gloss Lâncome sabor baunilha. Atualmente, nenhuma menina da KHS havia conseguido imitar aquele penteado e aquela maquiagem... Ainda. E era por isso que estava usando-os. Combinava com ela, e com seu jeitinho de princesinha. Mesmo sendo o completo oposto disso.
Passou pela sala dos professores, enquanto ia em direção a área de convivência procurar por Yuna ou Mika, e ao fazê-lo, recebeu um olhar estranho da professora de educação física. Tinha os olhos estreitos, como se estivesse fuzilando-a só com os mesmos. Senna sorriu levemente e acenou, como uma boa e educada aluna que era.
As bochechas da Sra. Kitushi inflamaram, provavelmente de raiva, e antes que pudesse fazer algo, fechou a porta com tanta força que o estrondo percorreu o corredor inteiro.
Reações deste tipo que divertiam Senna de modo que, às vezes, as chantagens que fazia não eram nem pelas suas notas. E sim, pelo seu bel prazer em destruir o relacionamento de algumas pessoas.
Sabe como é, só para sair daquele tédio.
IV
A aula de educação física em si não era tão legal quanto os meninos faziam parecer ser. O legal mesmo era o final dela, quando todos eles iam para o vestiário todos suados, com as camisetas coladas no corpo, e a bela visão que proporcionavam para as meninas da KHS. Em especial, o terceiro D.
O terceiro D era repleto de beldades. Bom, só de se ter o príncipe dos cabelos ruivos já era uma dádiva; melhor ainda era quando ainda tinha o capitão do time de futebol da KHS, Grimmjow Jeagerjaques. Um verdadeiro contraste de azul e laranja, que, apesar de saírem faíscas, as garotas a-ma-vam. Mas infelizmente elas não podiam entrar no vestiário para ver o que acontecia lá dentro.
Grimmjow já havia terminado seu banho, e usava só uma toalha em volta da cintura fina. No jogo de hoje tinha marcado três gols, o artilheiro. Provavelmente o artilheiro do campeonato esse ano também. Coisa que Kurosaki Ichigo não iria ser nunca, já que nem correr direito ele sabia. Era um verdadeiro desastre no esporte; melhor pra ele. As garotas pareciam apreciar mais os atletas que os babacas.
Será?
E uma coisa que Grimmjow adorava fazer era provocar. Um de seus hobbies favoritos, para falar a verdade. E seu alvo era sempre o mesmo ruivo que, por algum motivo, sempre lhe tirava do sério com aquela arrogância do tamanho do mundo.
Como se a dele própria não fosse do mesmo tamanho, talvez até maior.
-Fiquei sabendo que, — começou ele, aproveitando que a maioria dos rapazes ainda estavam se trocando, e seriam uma boa platéia. — agora alguém aqui tem uma babá.
Ichigo, que já tinha colocado sua calça jeans Ralph Lauren preta e justa, preparava-se para colocar uma camisa limpa quando escutou o comentário desnecessário do capitão, e as risadas que vieram logo em seguida.
Ishida que estava bem ao seu lado não deu a mínima, já que sabia que daqui a pouco iria ter que tirar alguém dali antes que houvesse de fato uma outra briga.
Já Shuuhei, que estava tão compenetrado na foto que havia tirado há duas semanas atrás da professora Sayuri, resolveu deixar seu celular de lado e prestar atenção na provocação.
-Uma babá! — continuou Grimmjow. — O otário precisa de uma babá por que não sabe tomar banho sozinho, comer sozinho, dormir sozinho por que a mamãe-
-Mais uma palavra... — Ichigo interrompeu, com a voz serena, mas com um misto de severidade. — Mais uma palavra e eu quebro a sua cara de novo.
-Ichigo... — Ishida tentou acalmar o amigo, porém, esse já não iria escutar mais nada. O modo como os olhos cor de mármore encaravam o rival... Conhecia muito bem aquele olhar. E não havia mais nada que poderia ele, Ishida, fazer para parar aquela briga desnecessária.
-Quebrar a minha cara de novo? — Grimmjow riu desdenhoso, e deu alguns passos em direção ao ruivo. Os outros atletas continuaram intactos, já que, as brigas entre aqueles dois eram sempre divertidas. — Será mesmo? Será que consegue fazer isso, ou também precisa de uma babá-
Que Ichigo não era a paciência em pessoa não era novidade. E que ele não esperou nem mais um segundo para pular no pescoço daquele ali à sua frente também não foi novidade, principalmente quando dizia um 'babá' daquela maneira. Irritava-o ao ponto de querer ainda mais arrebentar aquele sorriso largo que Grimmjow sempre ostentava.
-Ichigo! — Shuuhei colocou-se entre os dois, segurando os ombros do ruivo, antes que acontecesse algo e todos ali levassem uma suspensão.
-Me solta Shuuhei! Eu vou-
-Você não vai fazer nada Kurosaki. — Ishida já tinha fechado seu armário, e agora puxava Ichigo pelo braço. — Não vale a pena sujar suas mãos por nada.
Ichigo então, hesitou por um momento. O rosto queimava de raiva, os olhos estavam estreitos, com a determinação estampada. Determinação de quê, exatamente?
-Que foi Kurosaki? — Grimmjow continuou a cutucar o ego do príncipe. — Agora que sua babá não tá aqui pra te proteger, vão ser os seus amigos os-
Toda a hesitação de Ichigo foi por água abaixo, e nem mesmo Hisagi, que estava a sua frente, conseguiu segurar o soco certeiro de Ichigo no queixo largo de Grimmjow. Este por sua vez já estava pronto para revidar quando Ishida fez sinal para que os atletas separassem os dois.
-Tsc, mal começamos a semana... — Ishida resmungou. — Se vocês quiserem brigar igual dois idiotas que façam isso lá fora... Eu é que não vou levar uma suspensão de graça.
-Ichigo, Uryuu tem razão. — Shuuhei tentava advertir o amigo. — Vamos embora...
O ruivo suspirou, e deu alguns passos para trás, recuando antes que fizesse alguma besteira. Se Rukia soubesse... Aí mesmo é que iria passar o resto da semana engraxando os sapatos dela.
-Kurosaki, agora tá fugindo? — a voz rouca de Grimmjow chegava a ser irritante, mais ainda quando ele não sabia o limite. — Ficou com medinho, foi?
-Grimmjow, mais uma palavra... E quem é que vai quebrar a sua cara vai ser eu mesmo. — Ishida disparou antes mesmo que Ichigo pudesse retrucar as palavras. O amigo não estava bravo, porém, saturado mesmo. Saturado daquelas brigas continuarem sempre sendo bobas e infantis.
Não deu tempo nem do capitão do time de futebol da KHS formular uma frase, os três já haviam se retirado. Como vários outros atletas, até que restou somente ele.
-Kurosaki maldito. — murmurou consigo mesmo, massageando o local atingido e levemente avermelhado. — Ele me paga na próxima...
Ao terminar de se vestir, Grimmjow já se preparava para sair quando avistou um aparelho caído no chão. Parecia com o celular que Hisagi Shuuhei andava de um lado para o outro o dia inteiro, como se tivesse algo muito interessante naquele aparelho.
Não esperou nem mais um minuto e já estava com o celular em mãos.
Fez uma pequena careta quando começou a ler as mensagens, totalmente idiotas. Algumas eram das calouras, outras eram dos seus amigos patéticos, etc.
Já ia jogar o celular no lixo, porém, seu instinto dizia que tinha algo a mais ali... Talvez uma foto, algo comprometedor...
E quando a imagem da professora Sayuri estava estampada na tela do aparelho, não fez mais do que o normal.
Sorriu.
VI
O scarpin lilás Jimmy Choo fazia um estalo a cada passo pelo grande hall da KHS, onde ainda restavam alguns alunos. As aulas do dia já tinham terminado, e ela, Senna, já não tinha mais nada para fazer. Sem provas para chantagear professores, nem casais aleatórios que ela abominava. Talvez por eles ficarem ostentando aquele olhar de apaixonados que era um verdadeiro horror, ou...
Ou por que ela era a única ali que não tinha arranjado um pobre coitado que a agüentasse o dia inteiro. Bom, não era fácil acompanhar o ritmo dela, tanto por que... Só tinha olhos para uma única pessoa desde o primeiro ano.
Seu príncipe dos olhos de mármore... Ou Kurosaki Ichigo, como preferir.
Os dois seriam tão perfeitos juntos... Tão destinados um ao outro que...
Só faltava ele próprio perceber isso e correr para os braços dela, onde somente Senna poderia fazê-lo feliz como nenhuma outra poderia. Inoue Orihime foi uma tentativa fracassada de namorada, e serem considerados o casal de ouro da KHS foi uma piada.
Pelo menos pra ela, já que aqueles dois não combinavam.
Era laranja demais para os olhos.
Perfeitos demais para ser verdade.
Falsos demais para a perfeição.
Não, ela nunca se sentiu enciumada. Tanto por que, naquela época, achava graça. Queria ver até onde seu príncipe iria conseguir levar aquela situação, no mínimo, patética.
E não durou mais que dois meses.
-Senna! — esta olhou para trás e se deparou com o sorriso mais ordinário que conhecia. Grimmjow acenava de um lado para o outro, indicando que ela parasse.
Ah tá.
Pelo contrário, Senna apertou o passo, e ignorou seu nome ser chamados mais algumas vezes. Se até agora pouco sentia-se entediada, agora é que o tédio parecia ser maior.
Não gostava, aliás, odiava conversar com Grimmjow Jeagerjaques na escola, onde todos podiam olhar, ouvir e talvez até... Comentar.
Comentar como formavam um belo casal, coisa que em sua opinião, estava muito longe de acontecer.
Não necessariamente impossível para todos os efeitos.
Senna entrou em sua limousine estacionada na rua de trás da KHS e esperou uns minutos até seu tão amigo de infância juntar-se a ela.
Sim, amigo, ou melhor, conhecido de infância. Seus pais sempre foram sócios, e não era de se assustar que aqueles dois tinham algum tipo de ligação... Algum.
Cruzou os braços em torno do corpo magrelo, e esperou impaciente com aquela sobrancelha arqueada que tantos temiam.
-Quantas vezes eu preciso dizer para não falar comigo na KHS? — indagou ela irritada, quando Grimmjow colocou o pé dentro da luxuosa limousine.
Este por sua vez ignorou o comentário, e continuou com o sorriso de sempre no rosto; um verdadeiro babaca.
-E quantas vezes eu preciso dizer que não recebo ordens de ninguém... Principalmente sua? — aproximou-se mais de Senna e não perdeu a oportunidade de colocar suas mãos grandes na delicada e torneada perna na mesma; e claro que, conseqüentemente, não perdeu a oportunidade de receber um tapa.
-Tsc, você não perde essa mania irritante mesmo... — resmungou ela, ainda encarando as pessoas do lado de fora. Não gostava da forma como aqueles olhos cor de mar olhavam-na – Alguma coisa importante que queira me contar?
-Várias... — suspirou ele – Já ouviu a nova? Kurosaki agora tem uma babá. — riu, ainda debochado.
-É, eu soube. — murmurou sem muito interesse. — Só isso? — virou-se para encará-lo, porém, Grimmjow já estava com a face enterrada em seu pescoço delicado, inalando seu perfume que, segundo ele mesmo, era intoxicante. — Grimmjow... — tentou afastá-lo, mas como sempre, sem nenhum efeito. Ele era mais forte, e o corpo já estava inclinado sobre o dela.
-Impaciente como sempre... — resmungou com sua voz rouca, ainda deleitando-se com aquela fragrância tão... Absurdamente boa.
-Você é pesado... — tentou argumentar. — Aliás, você acabou de fumar, eu aposto... — detectou Senna, mesmo que o pefume dele não conseguisse disfarçar o cheiro.
-Acertou como sempre. — Senna pôde sentir o sorriso dele abrir-se em sua pele, e se conteve para não socá-lo. Era irritante quando aquele infeliz tentava seduzi-lá como uma prostituta qualquer... Pra isso servia o prostíbulo dele; não que ela não tivesse vocação, mas...
Obrigada, eu passo essa.
-Desisto. — suspirou ela, agora já sem nenhuma reclamação. Tudo bem que amanhã tivesse uma dor terrível nas costas; provavelmente Grimmjow teria alguma coisa boa para lhe dizer.
Tentou ajeitar-se no banco traseiro da limousine, essa em movimento, e enterrou seus dedos finos no mar de cabelos azuis que eram os de Grimmjow. Tinham um cheiro diferente... Masculino talvez.
-Melhor assim. — Grimmjow deu pequenos beijos ao longo do pescoço da morena, e mesmo assim, ela parecia intacta às suas carícias.
Novidade.
-Encontrei isso aqui no vestiário... — afastou-se um pouco e tirou o celular do bolso, entregando-o a Senna. — É daquele otário do Hisagi.
-Hisagi Shuuhei? — Grimmjow assentiu. — O que tem de tão interessante aqui?
-Não muita coisa, mas... Você conhecesse a professora Sayuri? A substituta? — agora foi a vez dela de assentir. — Não sei como Hisagi conseguiu isso aqui, mas... — mostrou a tela do celular, com a foto nada comprometedora da professora, e sorriu.
Senna sentiu que as palavras lhe faltaram no momento. E depois de alguns minutos processando aquela imagem, finalmente abriu um largo e lindo sorriso. Um sorriso cheio de malícia com um misto de alegria. Um sorriso que só ela sabia. Um sorriso de vaca, como era.
-Eu... Adorei. É, simplesmente adorei. — tomou o celular das mãos de Grimmjow em questão de segundos, e se deleitou mais um pouco.
Grimmjow aproveitou-se daquele momento para continuar suas carícias no pescoço de Senna, e essa, dessa vez sem objeção alguma. Mas, de alguma forma, o adolescente preferiu não aprofundar mais seus gestos. Da última (e única) vez que o fez, ficou com a cicatriz no canto interior dos lábios para lhe lembrar de nunca mais tentar algo a mais com ela.
-Obrigada Grimm... — Senna sorriu mais ainda, como se fosse possível. Sua voz estava serena, e não parecia nada com aquela vaca que era na KHS. Grimmjow preferia especialmente essa Senna. — Vem aqui. — levantou o queixo do jovem levemente em sua direção, e colou seus lábios em um movimento sutil. E por mais que pareça impossível, singelo.
VII
Os dedos finos estavam sob o balcão da loja de conveniência; o ritmo frenético das unhas em atrito com o alumínio chegavam a formar sons agradáveis aos ouvidos de Rukia, enquanto esperava suas compras serem embaladas e colocadas nas sacolas.
Desde esses últimos dias estava um pouco mais calma, já que Ichigo não estava dando nenhum trabalho. Quer dizer, não mais que o normal, claro.
Talvez o juízo tivesse voltado de onde nunca deveria ter saído.
Ou era o medo das punições mesmo.
-Aliás, Tatsuki... — Rukia abriu sua mochila vermelha de coelhos edição limitada Kid Robot, e tirou de lá um pequeno cartão feito a mão. — Feliz aniversário! — disse com entusiasmo a pequena.
-Huh... Obrigada, não precisava se preocupar com isso. — Tatsuki aceitou o pequeno pedaço de papel e retribuiu o sorrisinho, um tanto quanto abobada com os desenhos no cartão que, aparentemente, Rukia havia feito.
Ou uma criança de doze anos, quem sabe.
Já faziam duas semanas desde o dia em que Tatsuki havia encontrado Rukia pela primeira vez. Depois daquele dia cansativo e revelador, a morena passou a ir todos os dias à loja de conveniência, enquanto esperava por Ichigo, que corria alguns quarteirões como punição. Era estranho como, naquelas duas semanas, conseguiram ficar tão próximas... Como se... Como se conhecessem há muito mais tempo.
E passar o tempo junto da pequena chegava a ser... Nostálgico, de alguma forma. Cada dia sempre lhe contava uma história boba sobre ela e Ichigo quando ainda estavam na escola fundamental. Mesmo que Tatsuki não quisesse admitir... No fundo, o peito ainda enchia de alegria quando relembrava tais momentos. Porém, que o subconsciente fazia questão de amargurar.
-Hoje a noite... Você vai também, não é? — Tatsuki quis saber; apesar de ter passados todos os anos seu aniversário junto de Orihime, esse parecia diferente. Parecia certo com Rukia lá também.
-É claro que sim. — garantiu Rukia, pegando as sacolas em cima do balcão com suas compras. — Será que... Eu poderia levar alguém junto?
-Alguém? — hesitou por um momento antes de responder. A maneira como os olhos da morena imploravam... Chegava até ser um pecado negar seu pedido. — Pode sim. — uma pessoa a mais não iria fazer diferença... Certo?
-Obrigada Tatsuki... — Rukia já preparava-se para sair quando um corpo do dobro do seu a impediu. Levantou seus olhos cristalizados até a face do indivíduo, com um 'desculpa' na ponta da língua, porém... Parou antes de fazê-lo.
-Ichigo? Eu disse para me esperar no carro... — murmurou já com um leve tom de irritação na voz. — Tsc, quando é que você vai aprender a me obedecer?
-Ahn... — o ruivo parou por um instante antes de franzir ainda mais o cenho. — Nunca.
-Não sei por que eu perguntei, se já sabia a resposta... — suspirou, entregando as sacolas para o adolescente. Este em troca resmungou, porém, não negligenciou.
-Por que demorou tanto? Eu já tava entediado dentro daquele carro... — quis Ichigo saber. E como sempre, emendou uma provocação. — Deve ser por que suas pernas são tão pequenas que não consegue nem-
-As minha pernas são extremamente normais... E proporcionais ao meu corpo, se quer saber. — cruzou os braços, agora já irritada. As bochechas queimavam, e os olhos cristalizados agora eram opacos, tamanha sua insatisfação. — Você que é todo desengonçado... Aposto que não sabe nem se equilibrar nisso ai direito. — indicou as pernas do adolescente.
-Sua-
E antes que Ichigo pudesse concluir a ofensa, percebeu onde estavam. E percebeu também que havia uma terceira pessoa ali. Uma pessoa até muito bem conhecida.
O que é que Tatsuki estava fazendo ali, alguém faria o favor de explicar?
-Tatsuki, hm... Ela trabalha aqui. — Rukia concluiu, sem graça.
-Ah, yo. — Ichigo cumprimentou também sem jeito. Queria aparentar uma normalidade que a muito tempo já não existia.
-O seu troco Rukia. — Tatsuki preferiu por ignorá-lo, e a morena não pôde deixar de perceber o que estava acontecendo ali.
Ela estava no meio de um grande abismo entre aqueles dois. E isso não era nada legal.
-Ah, obrigada. — murmurou, pegando seu dinheiro.
Ficaram algum tempo em silêncio, e foram os minutos mais... Desconfortáveis da vida da pequena. De alguma forma, esperava que um daqueles dois pudesse ceder nesse meio tempo, ou fazer só o social... Mas nem isso. O abismo era muito maior do que parecia.
-Acho melhor nós irmos agora Ichigo... Ou vai ficar tarde, e você ainda tem lições para fazer. — Rukia pegou o braço do ruivo, e começou a puxá-lo para fora do estabelecimento. — Até mais tarde Tatsuki!
-Até, Rukia... — acenou levemente, como se a figura alta ali não existisse. Bom, se conseguia fazer isso na escola... Por que é que agora parecia ser tão mais difícil? Por que é parecia tão mais sufocante ficar assim, perto dele... Mas ao mesmo tempo tão longe?
-Feliz... Feliz aniversário Tats. — ouviu Ichigo dizer e levou levemente seus olhos até ele.
Surpresa ela não estava por ouvir. E sim por ele ter lembrado desse dia... Nada especial. E a forma como disse, apesar do consciente gritar e espernear contra, fluía uma sinceridade estranha. Uma sinceridade de amigos. Velhos e bons amigos.
O que não eram há muito tempo. E o que doía mais era que... Apesar de tudo... Apesar de tudo ela ainda conseguia ficar com as pernas bambas e com o coração acelerado de forma incrivelmente conhecida.
Era como se o tempo não tivesse passado... Como se a mágoa e a angústia do peito haviam se desvanecido em um só olhar; um olhar com um certo brilho de arrependimento. Desculpa.
Era o suficiente?
O consciente dizia que não. E o coração já não era mais influente nos pensamentos de Tatsuki. Nunca foi.
-Sabe, Ichigo... — tinha uma pontada de decepção na voz dela. — Todo esse tempo... A primeira coisa que você me diz é 'feliz aniversário' como se nada tivesse acontecido?
A boca do adolescente em questão abriu várias vezes. Mas não omitiu nenhuma palavra. Pelo menos não uma que fosse coerente no momento.
O cérebro remoía, buscando algumas palavras... E as palavras sumiam cada vez mais.
-Então o que quer que eu diga? — não era óbvio Ichigo?
-Isso é uma coisa que só você sabe... — a melancolia na voz de Tatsuki era torturante. Era sufocante. — E quando descobrir o que é... Me precure. Talvez... Possamos concertar as coisas...
Talvez é uma palavra muito relevante.
E cheia de esperança também.
VIII
Os corpos estavam ao relento; estirados sob a grama verde e úmida, recentemente aparada. Espetavam as costas, dando uma sensação de dormência e levemente prazerosa. Poucas pessoas passavam por ali, poucas nuvens no céu, e mais uma imensidão verde de cegar os olhos; um verdadeiro cenário bucólico. O cheiro de adubo fresco no ar também ajudava a confundir aquele parque distante no centro de Karakura com as enormes fazendas espalhadas pelo resto do país.
O silêncio era absoluto, nem um dos dois abriam as bocas para falar. A preguiça também era absoluta. Só a respiração podia ser ouvida, com alguns pássaros cantando ao fundo. Momentos assim... Momentos assim que deveriam ser eternos, pensou Rukia absorta em seus pensamentos.
Estavam ali já fazia um bom tempo. Depois que havia arrastado Ichigo da loja de conveniência, achou melhor irem para um lugar tranquilo. Um lugar onde, talvez, o adolescente pudesse finalmente parar e pensar em suas atitudes. Em suas angustias, alegrias, incertezas... Queria que Ichigo aprendesse uma coisa da qual parecia não ter conhecimento nenhum. Coragem.
-Rukia...
Coragem para aprender a dizer que errou. Coragem para dizer que se sente culpado. Coragem para tentar concertar seus erros, sem medo de cair no meio do caminho e acabar por ali.
-Rukia... — chamou-a novamente, agora com a voz mais irritadiça.
-Sim? — virou seu rosto para poder atender ao bebê.
-O que estamos fazendo aqui? — quis ele saber, já impaciente. Pelo visto não havia aproveitado aquele tempo para refletir.
-Simples. — voltou a contemplar o céu. — Estamos descansando nossas cabeças um pouco.
-Tsc... — resmungou. — Não acredito que eu estou perdendo o meu tempo aqui-
-Ichigo, o que você pensa sobre a vida? — Rukia resolveu perguntar, já que ele mostrava-se entediado.
Em resposta ouviu um simples riso. E voltou seu rosto para o adolescente novamente.
-O que eu penso sobre a vida? — tinha um certo tom de deboche na voz rouca dele, o que acabou por intrigar a pequena. — A vida é uma estrada... Longa, e cheia de falhas... Algumas com destino incerto, e outras... Inacabadas. E nós somos obrigados a percorre-lá para descobrir o que tem no final... Mas ficamos cansados e paramos no meio do caminho quando a estrada fica cheia de buracos...
Os olhos cor de mármore do ruivo estavam opacos, sem um olhar com direção certa. Disperso.
Aquelas palavras... Foram as mais sinceras que já ouvira sair da boca perfeita de Ichigo. Foram também as mais amarguradas. Porém, faziam sentido, por mais que Rukia não quisesse. Faziam um completo sentido quanto à vida do ruivo; as palavras se refletiam no modo como vivia.
Parar no meio do percurso... Era só preciso um pequeno empurrãozinho.
-Mas é claro que existem estradas perfeitas... Como a minha. — garantiu ele, de volta ao velho e imaturo Ichigo de sempre.
-Seu ego as vezes me sufoca. — retrucou a morena, sem deixar escapar um riso abafado.
-Ele nem é tão grande assim. — tentou, inutilmente, mudar a opinião de Rukia.
-Só do tamanho do mundo. — ou do universo.
Trocaram mais algumas palavras e o silêncio voltou. E não durou muito.
-Você realmente pensa sobre a vida dessa maneira? — Rukia resolveu falar – Por mais que seja uma estrada longa, e cheia de falhas... Não é impossível continuá-la. Nunca vai ser... E é isso o que você não entende, é covarde demais pra isso... — prendeu os olhos castanhos de Ichigo em seus cristalizados e continuou. — Seja paciente... É só desviar de um buraco para o outro, sem pressa... Sim, as vezes você vai tropeçar, mas e daí? Todos caem, mas, para levantar é preciso aprender com as próprias falhas, com os próprios erros... É preciso admiti-los, e... Continuar de onde você parou...
Ichigo não fez nada mais do que ficar calado. A boca não se mexia, as palavras não eram formuladas, aliás, nem queriam ser... A coerência e a certeza com que aquela pequena falava chegava a ser surpreendente, apesar de um pouco enfadonho... Mas, ela estava certa, não é? Por mais que não quisesse admitir, ela estava completamente cheia de razão... E quem era ele para contestar aquelas palavras?
No fundo, Ichigo sabia que era um covarde. Um covarde que sempre precisava da ajuda de alguém para empurrá-lo. Seus princípios, sim, ele os tinha... E estavam escondidos, lá, no fundo peito, onde ninguém os via... Onde só a memória sobre os mesmos foram o que restaram... Do que adianta saber, fingir que eles estavam presentes quando não conseguia ao menos manter as pessoas que lhe eram importantes, sem magoá-las ou afastá-las?
Prazer, Kurosaki Ichigo.
-Ichigo, um obstáculo de cada vez... — relembrou Rukia. — Deixa eu te ajudar a ultrapassá-los...
-Eu não preciso da ajuda de ninguém. — replicou mais do que ríspido, levantando-se.
-Sim, você precisa, por que é um covarde... — a pequena também colocou-se de pé, com as mãos na cintura e as sobrancelhas franzidas quanto a do ruivo. — Ichigo... Eu não estou fazendo isso pelo trabalho, mas sim, por que eu quero realmente te ajudar... E não são muitas pessoas que estão dispostas a fazer isso por você. — amoleceu a expressão.
-Do que você tá falando? — ele riu, ainda nervoso. — Se for sobre a Tatsuki-
-É, é sobre ela sim, e muito mais do que isso... — viu Ichigo virar-se para ir embora e começou a falar mais alto. — Você é egoísta demais para perceber que precisa de ajuda... Quantas pessoas você vai precisar machucar até aceitar que precisa mudar sua postura? Tatsuki, Orihime, Shuuhei, sua família... Ichigo, nesse momento pode não parecer, mas as pessoas um dia vão se afastar... E quando isso acontecer, o que você vai fazer?
-Nada, por que isso é impossível! — retrucou, andando um pouco mais rápido.
-Você é estúpido? — Rukia pegou sua mochila jogada no chão e se pôs a correr atrás do ruivo. — Quer dizer, você acha que as pessoas são estúpidas? Uma hora elas se cansam, não é só você... Ichigo, eu não sou idiota... Eu sei muito bem o que você faz quando foge de casa...
-Ótimo, então conte ao meu pai sobre o que você sabe... — Ichigo desafiou, ainda andando até o carro, e já podia vê-lo de onde estava.
-Eu não vou fazer isso por que... Ainda dá tempo de você mudar... É só você querer-
-Obrigado, mas eu não quero-
-Kurosaki Ichigo, — Rukia conseguiu segurar o braço dele, fazendo-o parar. — outra pessoa em meu lugar já teria desistido desse trabalho há muito tempo... Mas, eu quero te ajudar, não como sua babá, mas... Como qualquer outra coisa... — Ichigo não a encarava, o que a levou a se aproximar. — Vai ser estranho para os dois sim, mas, custa alguma coisa tentar? Se não der certo, eu posso me demitir e ir embora... Mas, tem certeza de que quer realmente continuar vivendo dessa maneira? Não acha que já está na hora de acordar?
Ichigo não respondeu. Ainda estava a refletir, olhando através daqueles olhos azulados de Rukia... Como nunca tinha percebido como eram tão azuis e tão brilhantes? Aquele olhar... Lembrava-lhe o oceano... E ali estava ele, disposto a levar todas as angústias, tristezas e mágoas para o fundo do mar; onde ficariam para sempre...
Por que a hesitação então?
-Ichigo... Não faça isso por mim, mas sim pelas pessoas que você ama, e principalmente, por você... — pediu ela ofegante. O modo como aqueles olhos quase imploravam... O modo como as palavras saíam tão naturalmente daqueles lábios rosados que pareciam ser tão macios... Faziam-no querer acreditar no que ela dizia... E estava errado?
-Você sabe que não vai ser nada fácil... — quis ele argumentar, porém, sabia que era em vão. A expressão de determinação na face da branquinha já dizia tudo; nada a impediria naquele momento.
-Eu sei, mas... Eu quero tentar mesmo assim... Se eu não o fizer, como eu posso saber que não valeu a pena? — o sorriso nos lábios de Rukia já era quase perceptível aos olhos. Mesmo que ela não fosse do tipo sorridente.
-Sinceramente? Eu não acredito que isso vá dar certo... — Ichigo amoleceu a expressão, ainda incerto. Se aceitasse aquela ajuda... Adeus à vida perfeita e dos sonhos de todo adolescente.
Por outro lado, se não aceitasse... Sua vida continuaria daquele jeito. Perfeita.
E tudo que era perfeito demais não tinha graça. Não tinha a menor relevância.
Era isso o que Ichigo realmente pensava sobre a sua vida... Uma coisa entediante; um ciclo vicioso de horror.
-Mas... — continuou ele, ainda prendendo a atenção da morena a sua frente. — Acho que não custa nada nós tentarmos... — concluiu Ichigo, quase desfazendo sua expressão de bravo quando viu a face de Rukia iluminar-se completamente. As bochechas ganhavam nova cor, as sobrancelhas estavam erguidas, e os olhos... Bom, os olhos estavam com um brilho diferente agora... Refletiam ali tudo o que ela estava a oferecer; sua amizade, sua alma, e por fim, nada mais nada menos que seu coração de gelo.
-Obrigada Ichigo... — soltou um suspiro, o alívio evidente nas feições. Abaixou-se por um instante, com as mãos apoiadas nos joelhos; tentava recuperar o fôlego pelo exercício de segundos atrás. Correr atrás daquele jovem com pernas tão injustamente menores chegava a ser tortura, ainda mais com o sol do fim da tarde queimando sobre as cabeças.
-Aliás, Ichigo... — disse ela, quando já havia se recuperado. Ergueu o corpinho delgado de poucas curvas evidentes sobre a roupa larga, e encarou o ruivo. — Preciso que vá a um lugar comigo.
-Que lugar? — quis saber, já com o humor totalmente diferente. Girou o corpo, e abriu a porta passageira de seu Audi TT prateado para a babá, e quando esta já estava dentro, Ichigo deu meia volta e sentou ao lado dela.
-Digamos que você precisa parar em uma floricultura. — informou, ainda com um pouco de mistério.
-Para quê? — o que acabou por instigando-o.
-Para você, hmm, pular um 'buraco'... E esse é enorme. — e logo, Rukia não disse mais nada. E antes que Ichigo pudesse tentar decifrar aquela frase, ela logo emendou. — Mas antes, precisamos tomar um banho... E urgente. — fez cara de nojinho.
É, dessa vez ela também tinha razão.
IX
-Tem certeza de que isso vai dar certo?
Aquela era a quinta vez que Ichigo perguntava a Rukia, e estava começando a irritá-la. Já nem respondia mais; não valia a pena gastar saliva a toa. Ele não estava escutando-a de qualquer forma. A insegurança não o deixava em paz.
-Eu juro que se me perguntar isso de novo, eu jogo esse pudim em você... E eu estou falando sério. — advertiu ela, já sem paciência alguma.
Ali estavam os dois, parados em frente ao apartamento dos pais de Arisawa Tatsuki. Do lado de fora podiam ouvir as risadas de Orihime, e alguma música.
E cada segundo que passava, Ichigo apertava o buquê de rosas que segura em suas mãos suadas de ansiedade. Ou insegura. O motivo?
Nunca tinha feito isso antes. Quer dizer, nunca havia entregado um buquê de flores para alguém na vida. E esse alguém tinha que ser justamente Tatsuki, a pessoa que o mais detestava naquele mundo?
Bom, obrigado Rukia, aquela babá demônio que o obrigou a comprar as rosas.
Piegas.
Se Arisawa jogasse as flores no lixo seria traumatizante para a sua primeira experiência ao entregar um buquê de rosas à uma menina, e Ichigo não iria poder fazer nada por que ela teria todos os motivos do mundo para tal. Mas mesmo assim, continuaria sendo traumatizante.
Tanto por que, Kurosaki Ichigo não era do tipo romântico. E nunca iria ser, ao menos que alguém o obrigasse.
-Já sabe o que vai falar? — Rukia quis saber, já começando a ficar impaciente com a demora em abrir a porta. Parecia que não, mas o pudim era pesado.
-Não faço a mínima idéia... — admitiu ele, ainda inquieto.
-Lembre-se... — virou-se para Ichigo, e pousou sua mãozinha sobre o peito dele. — As palavras mais sinceras vem daqui... — sentiu o coração de Ichigo acelerar e tentou aconselhá-lo. — São essas as palavras mais bonitas, as que mais emocionam, mesmo sendo simples... São elas que ligam uma alma a outra... Sintonizam os corações... — suspirou. — Daqui pra frente, eu já não posso fazer muita coisa. Agora depende de você, da sua vontade de querer se desculpar...
-Você já ajudou bastante Rukia... E eu a agradeço por isso. — murmurou a ultima parte. Nunca, em todas aquelas ultimas semanas achou que estaria agradecendo aquela babá... Mas, não eram as palavras mais sinceras que viam do coração? E sentia que devia tê-las dito antes.
Ouviram a tranca do lado de dentro da porta ser desfeita, e esperaram para que ela se abrisse completamente.
Ambos prenderam a respiração quando Tatsuki apareceu, com um sorriso largo estampado no rosto... Sorriso que, quando os olhos castanhos captaram os cabelos ruivos, foram se desfazendo aos poucos.
Rukia sentiu-se mal por Ichigo, porém... Quem era ela para julgar alguém? Devia imaginar como Tatsuki estava magoada, e não tirava sua razão... E sabia que seria difícil para que Ichigo pudesse concertar seus erros. Não era impossível. Nada é impossível.
-Era ele quem você iria trazer? — Tatsuki apoiou-se no vão da porta, com os braços cruzados. Evitava a todo custo encarar os olhos de Ichigo. Doía. Doía ao ponto de querer que ela não existisse... Doía só de saber que ele estava encarando-a.
-Orihime está lá dentro? — bom, era meio idiota perguntar, já que todos ali haviam escutado a voz dela. Tatsuki apenas assentiu, e Rukia se fez dentro do apartamento, mesmo sem o consentimento da dona. Era melhor que ninguém interferisse naquela conversa. -Tatsuki... A única coisa que eu peço é, escute o que Ichigo tem a dizer... Só dê a ele uma chance, não custa nada... — pediu a pequena, intercedendo a favor do ruivo, mesmo que na concepção de Tatsuki ele não merecesse.
-Okay. — ouviu Rukia se afastar e logo se dirigiu ao adolescente parado feito estátua a sua frente. — Você tem cinco minutos.
-Hm, obrigado, e... Essas são pra você. — levou o buquê de rosas a altura do rosto de Tatsuki e e essa as aceitou, ainda que de má vontade.
-Obrigada, elas são... Bonitas, eu acho. — segurou as flores, olhando atentamente o ruivo remexer nos cabelos. Aquela mania... Ichigo sempre bagunçava os cabelos quando sentia-se nervoso ou indeciso... Parecia até que estava travando uma batalha dentro de si.
O que não deixava de ser verdade. — Hm, tem algo a me dizer?
-Bom, sim... Quer dizer, eu nunca fiz isso antes, e... Ahn, droga. — resmungou, ainda sem conseguir formular algumas palavras. Estava difícil, com ela ali, lhe encarando como se tivesse cometido algum crime. — Eu vim aqui por que... Por que eu queria dizer que eu... — fechou os olhos, buscando inspiração no coração. E aos poucos conseguiu se acalmar. Rukia tinha razão, as palavras que viam de dentro do peito são as mais singelas. — Eu sinto muito por todo esse tempo... Não era a minha intenção te magoar, muito menos me afastar, acabar com a nossa amizade...
Olhou atônita as bochechas de Ichigo inflamarem aos poucos. Chegava a ser bonitinho, mas, muito mais do que isso...
-Só que... Eu fiquei com medo de você achar que eu só estava te usando pra, hmm, fazer coisas... — o que não era verdade, e ambos sabiam disso. — Não queria que sentisse nojo de mim, nem desprezo... Mas acho que foi isso o que aconteceu, não é? — riu, ainda apreensivo. — Hoje me fizeram enxergar como eu estava sendo egoísta... Eu digo que Grimmjow é o cara mais desgraçado do mundo, mas eu também sou... E eu percebi que não quero ser assim... Não quero ser alguém que passa por cima dos sentimentos dos outros... E eu não quero perder o que é importante pra mim... — disse ele, com a determinação evidente nos olhos caramelados.
-E o que é importante pra você, Ichigo? — demandou saber, ainda surpresa com todas aquelas palavras. A emoção contida naquela pergunta foi tão clara que os dois adolescentes sentiram-se ainda mais presos ao laço que nunca parecia ter sido desfeito.
-Nossa amizade de volta... — disse com o peito estufado, e com os olhos transbordando de coragem. Confiança.
De onde todas aquelas emoções e sentimentos haviam surgido Tatsuki se perguntava nesse momento. Até hoje de manhã o Kurosaki Ichigo que conhecia ainda era um idiota; e agora... Como poderia ele ter mudado assim, tão rápido e tão drasticamente?
Surpresa, surpresa... Rukia. Kuchiki Rukia era o nome dela. O nome da pessoa que estava a mudar, ou melhor dizendo, transgredir aquele garoto a sua frente ao antigo Kurosaki Ichigo que todos gostavam mais.
E mesmo que, o subconsciente gritasse que aquilo ali era loucura, a pior das mentiras... O coração queria acreditar nele, naquele Ichigo... E já não tinha mais como contrariá-lo... Não podia mais o fazê-lo por tanto tempo... Às palavras proferidas já haviam sincronizado ambas as almas num laço ainda mais apertado, para que não se afrouxassem novamente.
Em certos casos, a razão não era o meio correto para que a felicidade fosse conquistada. E, nesse caso, Tatsuki teria que fechar seus lindos olhos e deixar que os sentimentos à guiassem naquela sua estrada ainda em movimento.
-Eu acho que... — resolveu ela falar, aliviando um pouco a tensão nos ombros de Ichigo. — Tem comida o suficiente para quatro pessoas... — sorriu, dando um passo para o lado. — Quer se juntar a nós?
Tatsuki não precisou usar de palavras bonitas para que ele entendesse o que havia acabado de acontecer ali.
Havia o perdoado, e o coração... Bom, esse pulava mais do que de felicidade dentro do peito, que chegava até doer, tamanha a força...
Era um amigo que tinha de volta. Não somente isso, era uma parte de sua vida também.
-Obrigado, Tats...
Inoue Orihime, a melhor amiga de Tatsuki, estava a arrumar meticulosamente os doces em cima da mesa, juntamente de Rukia. Havia chegado um pouco mais cedo, e trouxera consigo alguns de seus doces um tanto quanto... Exóticos, e de cores diferentes.
Bom, era só uma dia, e eles não iam matar ninguém, Tatsuki pensou.
Não é?
Quando estava por terminar de colocar os restantes dos pratos a mesa, seus olhos cor de mel captaram uma confusão de laranjas do outro lado do cômodo. E logo, levou-os até a face de quem aqueles cabelos pertenciam...
O coração disparou, deu um pulo tão grande que mal conseguiu se conter. Por sorte, os pratos já estavam em um lugar seguro, ou teriam caído de suas mãos, agora trêmulas.
De longe podia sentir o perfume cítrico de Ichigo no ar, e ainda sim, mesmo que passasse anos, suas pernas ficavam bambas e ela acabava por se embriagar com aquela fragrância tão masculina e apaixonante.
-O... O que Kurosaki-kun está fazendo aqui? — resolveu a ruivinha perguntar, não conseguindo se conter. Mesmo que a custo, arrastou seus olhos à branquinha ao seu lado. E não pôde deixar de notar como os lábios finos dela curvavam-se de um jeito estranho... Curvavam-se em um semi-sorriso.
-Ichigo veio fazer uma coisa que... Deveria ter feito há muito tempo atrás. — Rukia virou-se para encarar Orihime e viu algo além daquela expressão de surpresa... Algo como mágoa. Mágoa que se refletia no brilho daqueles olhos, que caíam para o lado.
O que Ichigo deveria ser feito há muito tempo atrás intrigou Orihime ao ponto de querer gritar. E o modo como aqueles dois adolescentes que se aproximavam cada vez mais... Os olhos tornavam-se levemente marejados; a cumplicidade no olhar, nos gestos... Nas almas era tão evidente que chegava a machucar.
O coração até a pouco feito de algumas remendas fortes... Estava a se quebrar novamente.
Dessa vez, teria concerto?
Continua...
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