Fênix da Noite Estrelada
6 Manter Aquecido
Notas iniciais
Hyoga não se lembrava qual foi a última vez que ficou tão feliz ao ver neve, algo tão comum para ele como um "ser" do gelo.
Agora ele e Ikki estavam no extremo norte, na terra dos ursos polares e do Papai Noel. Eles estavam no Ártico, vulgarmente conhecido como Polo Norte. Só mil quilômetros ao norte da amada Sibéria.
De tudo o que tinha passado nesses últimos 21 meses, 1 ano e 9 meses, aquilo certamente iria ser fichinha, até porque nasceu e cresceu em um lugar como aquele, porém, não foi largado de qualquer jeito nesse processo, sempre teve casa e comida, agora era o oposto, era o clássico cada qual com seus problemas.
Ele sabia se virar muito bem em ambientes como aquele, diga-se de passagem, e Ikki também, o que surpreendeu muito. Só que eles foram largados com tudo o que tinham levado do Santuário a quase 2 anos, as roupas do corpo e uma mochila com algumas poucas coisas, dentre elas, só mais uma muda de roupa e a escova de dentes, pente era pros fracos, penteia a cabeleira com a mão.
Enfim. Tiveram que construir um abrigo, tiveram de caçar/pescar para guardar alimento e fazer "roupas". Ainda tiveram de procurar o antigo abrigo de Ikki para ver se ainda tinha algo útil por lá, e é claro, mas não menos importante, eles tiveram de sobreviver ao ambiente extremo.
¬ Vai nevar. — comentou. — E muito forte.
¬ Eu sei. — respondeu o leonino. — Mas minha parte da comida acabou, eu tenho que caçar ou pescar, o que aparecer primeiro.
¬ Com uma tempestade a caminho? — Hyoga, para seu próprio alivio, ainda conseguia sustentar sua máscara diante de Ikki. — Você tem problema?
¬ Tenho. — disse saindo do abrigo. — Estou sem comida, se não for procurar por ela, nós dois passaremos fome e isso não é aconselhável em um lugar como este. — Ikki olhou para trás com um sorriso irônico. — Pensei que soubesse disso, Cubo de Gelo Russo. — seu ênfase no “apelido carinhoso”.
¬ Vá logo, então. — ditou sem dar importância a provocação. — A tempestade não terá clemencia de alguém como você, que foi criado em meio ao fogo. Se apresse.
¬ Hai, mama... — brincou antes de partir.
Quando se viu sozinho, Hyoga suspirou cansado e preocupado, um pouco dos dois. Segurou o rosário de sua mãe, recuperado e devolvido por Ikki, com força, nem se lembrava direito como se fazia aquilo, porém pediu do mesmo jeito.
¬ Senhor... — sussurrou. — Sei que a muito não rezo, mas, por favor, cuide daquele cabeça dura. Ele pode ser uma pessoa horrível quando quer, mas ele tem um bom coração. Proteja-o de todo mal. Não deixe que nada aconteça a ele. Por favor, Deus, deixe-o voltar em segurança antes que a tempestade chegue.
Mas parecia que aquela tempestade era obra dos próprios deuses.
Ikki sabia o quão cruel era aquele lugar, quando treinava sozinho naquela imensidão, procurava não sair do abrigo, mas estava sem comida, Hyoga ainda estava um pouco mal e, mesmo que passando necessidade, jamais pegaria a parte dele, o que o aquariano caçou/pescou para si mesmo era dele e ponto final. Ikki não estava muito exigente dessa vez, qualquer animal servia, desde que fosse comestível, só se preocupava em voltar antes da tempestade começar.
Quase gritou de alegria ao ver um cardume de peixes logo abaixo de si, na água congelada. Não pensou duas vezes, tacou a vara de pesca e a arma no chão e quebrou o gelo com o punho em chamas, os leigos diriam que foi um de seus temíveis ataques, mas não, aquilo era apenas um soco.
Com o gelo estraçalhado e um cardume de peixes inteiro a sua disposição, Ikki sentou-se na beira do buraco recém feito com a vara de pescar na mão e um sorriso vitorioso no belo rosto. Afinal, quem não fica feliz quando vai comer?
Podia-se dizer que era o dia de sorte de Ikki. Ele nunca se deu tão bem nesses treinos de sobrevivência quanto dessa vez, ele mal atirava a isca na água que um peixe logo era pescado, a sorte era tanta que ele nem se deu conta do quão rápido a tempestade de aproximava.
Ikki só se lembrou da tempestade quando começou a ver os flocos de neve caindo, uma visão maravilhosa, mas uma coisa que ele tinha aprendido era que a calmaria antecedia a tempestade.
¬ Merda! — reclamou consigo mesmo.
Largou tudo o que estava fazendo, amarrou todos os peixes que pegou, jogou-os sobre o ombro, recolheu o resto das coisas e saio quase que correndo de volta para o abrigo.
Ikki tinha quebrado o gelo para pescar, coisa que afetou toda a superfície congelada. O gelo se partiu e ele caio na água fria, mesmo assim, não iria deixar aquilo afetá-lo, ele era Ikki de Fênix, nada o derrubava tão fácil, saio o mais rápido que podia da água congelante e voltou a correr. O vento estava mais forte e a neve estava começando a cortar, com as roupas ensopadas, aquilo só fazia o frio que sentia piorar, até seus ossos doíam com o frio.
Chegou em um ponto que não conseguia mais andar, nem seu cosmo ajudava, sofria com a hipotermia e como se o destino zombasse dele, o abrigo estava logo ali, a menos de 35 metros. Caio, mas não conseguiu se levantar, levou um longo tempo para elaborar um pensamento coerente e elevar o cosmo como podia, tinha que avisar Hyoga de seu estado e a hipotermia não ajudava em nada, não conseguia nem se fazer presente, por fim, a escuridão o tomou.
Hyoga estava enrolado em mantas junto ao fogo, olhando para cima, onde tinha uma pequena abertura no abrigo, vendo a tempestade piorar e seus pensamentos voarem longe, se perguntando do leonino e rezando por ele, agarrado ao rosário de sua mãe. Onde Ikki podia estar? Estava demorando demais e a tempestade era impiedosa.
Hyoga estava começando a roer as unhas de preocupação, fazia quase uma hora que a tempestade vigorava e nada do moreno. Hyoga se enrolou em uma manta e, sem pensar duas vezes, saio a procura de Fênix.
¬ IKKIIIIIIII!!! — gritou, tentando se sobressair à tempestade. — IKKIIIIIIII!!!
Andou alguns passos e gritou mais algumas vezes, sem resposta. Andou mais um pouco e ainda sem resposta. Andou mais um pouco e nada. Não desistiria. Dessa vez saio andando tempestade a dentro, andou e andou em torno do abrigo, não podia se afastar demais, mesmo que seu coração sangrasse e berrasse com ele, era suicídio ir mais a frente. Quando cogitou em pegar o telefone militar e pedir ajuda para alguém – Quem? Não sabia. Mas tinha que ter alguém. — Hyoga acabou vendo um peixe saindo da neve. Um peixe?!
Começou a escavar a neve, logo roupas pesadas começaram a surgir, depois fios negros, pele morena, uma cicatriz na testa. Hyoga poderia entrar em desespero a qualquer minuto, o outro tinha sido criado no fogo e agora estava congelando, para ele morrer de frio era muito fácil, porém cometer a gafe de se desesperar perante a situação era mais do que vergonhoso. Apoiando Ikki nos ombros e largando todo o resto, Hyoga o arrastou de volta para o abrigo, onde deitou o leonino em um dos "sacos de dormir".
Ikki apresentava todos os sinais graves de hipotermia aguda. A aguda é a mais perigosa, onde há uma brusca queda da temperatura corporal, por exemplo quando a pessoa cai em um lago com gelo, justamente o que aconteceu. Nesse estado a pessoa fica imóvel e inconsciente, as pupilas se dilatam e a frequência cardíaca diminui, se tornando quase imperceptível, a pele fica fria, os músculos enrijecem, as extremidades do corpo apresentam tonalidade cinzenta ou levemente arroxeada. Se não for devidamente tratado, a morte é inevitável. Sabia que Ikki precisava de um hospital e rápido. Mas em que caralho de lugar do Polo Norte tinha um único hospital, porra?!
Ele não estava nada bem. Hyoga sabia o que tinha que fazer, mas sentia seu rosto queimar com a hipótese. Um lado seu dizia que era o certo, que estaria ajudando-o. Outro lado dizia que era uma excelente oportunidade. E outro lado dizia que ele conseguiria se safar sozinho. A incerteza era tanta que ele chegou ao ponto de afundar o rosto na neve para ver se surtia algum efeito. Foda-se todo o resto! Ikki precisava de sua ajuda.
Hyoga despiu o leonino de todas as suas roupas, só deixando-o com a cueca. Pegou todas as cobertas do lugar, despiu-se da mesma forma e engoliu seco ao encarar o moreno tremendo de frio, respirou fundo três vezes – como Mestre Camus lhe aconselhara antes de partir – e rumou até Fênix.
Hyoga estava mais vermelho que o cabelo do detentor da Armadura de Aquário quando deitou-se sobre Ikki. Ele estava muito gelado e tremia muito, Hyoga puxou todas as cobertas tentando tapar todas as fendas que podiam existir e abraçou o corpo abaixo com força. Não deixaria Ikki morrer. Jamais.
Mesmo que a vergonha fosse sua companheira naquele momento, o aquariano veio a adormecer enquanto pedia que os deuses, até mesmo Hades estava nessa lista, tivessem piedade do leonino.
Horas e horas mais tarde, Ikki sentia-se horrível. Lembrava-se vagamente do que tinha acontecido, então estranhou ao ver o teto do abrigo. Tencionou levantar-se, mas sentiu um peso sobre seu corpo, não era incomodo, era até bom. Olhou para baixo e quase pulou no lugar.
Hyoga dormia sobre seu peito, com os braços em torno de sua cintura e expressão carregada de preocupação, mesmo durante o sono. Aos poucos foi se lembrando de que não tinha sequer entrado no abrigo depois que a tempestade começou, ou seja, Cisne o procurara. Aos poucos foi ligando os pontos e percebendo seu estado. Estava seminu e o aquariano também, este dormia abraçado a ele, com todos os cobertores que tinham jogados sobre os dois. No mínimo, ele estava sofrendo nas mãos da hipotermia e Hyoga o salvou.
Ikki não deu muito importância para aquilo no momento. Hyoga estava com a cabeça apoiada um pouco abaixo da curva de seu pescoço, jamais estivera tão perto dele quanto agora. Fênix não soube bem o que o movia, mas passou algum tempo estudando Cisne, cheirou seus cabelos, beijou-lhe a cabeça, lhe fez carinho nos fios loiros, nuca e costas, o que suavizou a expressão de Hyoga, ele chegou a esboçar um sorrisinho, que arrancou um sorriso radiante do leonino.
Passou mais algum tempo assim, até voltar a dormir novamente. Quando Hyoga acordou mais tarde, verificou se Ikki tinha melhorado e após concluir que sim, se vestiu e foi dormir no seu próprio cantinho.
Eles não tocaram mais nesse assunto. Só que Shun tinha que ligar, né?!
¬ Alô?
¬ E ai, como é que você tá?
¬ Estou ótimo, Shun. — Hyoga sorria, o que era raro de se ver. — Esqueceu-se de que passei mais da metade da minha vida em lugares frios como este?
¬ Mas não tão frios quanto o Polo Norte, né, moço? — brincou. — Só que depois eu falo com você, Hyoga. Têm como passar pro Nii-san?
¬ Claro. — estendeu o telefone para Ikki, que estava assando um dos peixes que pescou. — Ele quer falar com você.
¬ Nossa... — já começou com a ironia. — Ele lembrou que tem irmão... — Hyoga revirou os olhos.
¬ Atende logo.
Ikki pegou o aparelho e ficou longos minutos em silencio depois que disse: “Alô?!”
¬ Eu quase morri, por isso você sentiu meu cosmo sumir... Eu quase morri um monte de vezes, Shun... Calma, Shun! Eu tô falando com você, não tô?... Então. Não chore, não fique assim, sabe que odeio quando fica triste... Hun... Tô de olho em você moleque... Diga... — Ikki começou a corar e seu corpo inteiro enrijeceu. — Ah... O Hyoga me ajudou... Bem... — Ikki esboçou um sorriso envergonhado. — Ele me manteve aquecido... — a expressão de Ikki se fechou. — Shun, desde quando é tão safado? Não me diga que Afrodite, Kanon e Milo estão começando a poluir sua mente?
Foi a vez de Hyoga corar. Ficou tão vermelho quanto o cabelo de seu Mestre.
¬ Como quer que eu não pense uma coisas dessa se você me sai perguntando, “em que sentido ele me manteve aquecido?”, num tom de quem quer a confissão de uma putaria por escrito?
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