Fênix da Noite Estrelada
30 Dia-D
Notas iniciais
¬ PAPAAAA!!
Miguel chorava a plenos pulmões no meio do Salão do Grande Mestre, apontando para irmã, que segurava um cavalinho de madeira, e chamava incessantemente pelo mais velho. Anna, que estava lendo Coração de Tinta, tentava acalmá-lo de tudo que era jeito, mas o pequeno queria o pai. E ainda tinha um Macaco de Taiwan, extremamente familiar, correndo ao redor das crianças procurando uma forma de ajudar, mas que tornava a cena cômica e só parecia piorar a situação.
Hyoga, como o bom pai que era, foi socorrer o filho, o pegando no colo e balançando para lá e para cá.
¬ Calma, Miguel. — falava gentilmente com o filho. — Calma.
Todos sabiam que Sarah e Miguel eram filhos legítimos de Hyoga, mas achavam que eram filhos dele e de uma desconhecida que morrera no parto, já que nunca a viram – a história das alianças diferentes estava dando muito certo, certo até demais, ele não aguentava mais especulações sobre a maternidade/paternidade das crianças. Agora a pequena libriana era adotada dele e de Ikki, porém os demais acreditavam que eles dividiam a menina, dia era do leonino, dia era do aquariano, um acordo justo.
Ikki observava a cena ao longe, estavam falando com Saga quando o pequeno abriu o berreiro e "sequestrou" o aquariano dos demais.
Estavam reunindo os Cavaleiros para que as estratégias usadas naquela Guerra Santa fossem discutidas. Ainda faltavam algumas pessoas e tinha vários grupos espalhados pelo salão, então a reunião ainda não podia ser iniciada.
Na verdade, estavam todos reunidos para se revelar a existência da missão secreta de Fênix e suas descobertas, par que assim um novo plano de guerra fosse elaborado.
¬ Agora, conte-me o que aconteceu. — pediu.
¬ A-A... Sa... Pe-pegou... meu binquedo. — revelou ao pai.
O leonino observava a cena com carinho. Era incrível o jeito com que Hyoga cuidava dos filhos, com um cuidado e carinho difícil de se acreditar. O leonino tinha até medo de ficar perto das crianças por achar que não seria um bom pai, apesar de falarem que pai melhor aquelas crianças não podiam desejar.
Falando nas crianças... Elas nem ali deviam estar, ou melhor, onde eles deveriam estar? A guerra estava consumindo o mundo inteiro, não tinha lugar para se esconder, mas eles não deviam estar ali. Eram apenas crianças, deviam estar guardadas em um mundo mágico à sete chaves.
O leonino chegou a pensar na ideia de mandá-los para Jamiel com Kiki – que quando não estava lá por conta da restauração de armaduras, estava com o Mestre no batalhão –, o único lugar no mundo onde você só chegava se tivesse a cosmo-energia de Atena lhe protegendo, porém, como todo pai ciumento que se preze, ele não gostava da ideia de deixar Anna perto do ariano, com quem a menina se dava absurdamente bem.
¬ Sarah...
¬ O Mi econdeu minha boneca! — acusou.
¬ Essa aqui? — Anna, que agora estava com aquele macaco na cabeça, tirou uma boneca de pano da mochila que levava nas costas.
Sarah arregalou os olhos, soltou o brinquedo do irmão e pulou sobre Anna, pegando a boneca de suas mãos e abraçando-a com força. Ela então olhou para o irmão, que ainda estava no colo do pai, e abaixou a cabeça envergonhada, pegou o brinquedo do chão e ficou parada de frente para os dois. Hyoga colocou o caçula no chão, que cruzou os braços, fez uma cara de sério pior que a do maior e esperou, assim como o mais velho. A menina fazia bico, mas não olhava nos olhos do irmão menor, estendeu o brinquedo ao irmão como uma espécie de trégua.
¬ Mi. — chamou. — Me deculpa? — o menino desfez a pose de sério, pegou o brinquedo da mão da irmã, colocou no chão e abriu os braços.
¬ Eu nunca fico bavo, Sa. — a resposta foi o que bastou para menina pular nos braços do irmão.
A cena fez boa parte das Amazonas derreterem e alguns dos Cavaleiros ali presentes admitirem que foi bonitinho, e os que não fizeram parte disso, se seguraram para não passar de um sorrisinho.
As pessoas que faltavam foram chegando depois e foram muito bem recebidas, mas o caso de Kiki e Mu foi um pouco diferente. Quando os dois chegaram, Hyoga pode respirar aliviado – e Ikki pode ficar de cabelo em pé –, as crianças saíram correndo atrás do ariano de 19 anos, que não tinha muita escolha, afinal as crianças o adoravam e ele também gostava muito delas, e Mu foi se reunir com os outros, deixando seu aprendiz a mercê de crianças cheias de energia.
Miguel agarrou-se a perna esquerda do mais velho e Sarah agarrou-se ao braço direito, parecia que nunca iam soltar. Kiki, por outro lado, só tentava sair do salão sem cair. Anna os seguiu, sabia que aquele não era assunto para eles, o macaco estava sentado em seu ombro e brincava com seus cabelos. Ikki riu ao reconhecer aquele pequeno ser, era o mesmo macaquinho que ele mandou Shun cuidar anos atrás, pelo jeito o virginiano o deixou solto no Santuário onde era mais seguro.
¬ Goku! — pode ouvir a filha reclamar antes de sair. — Eu não tenho piolho! — a última frase fez boa parte do salão cair na risada.
O riso foi morrendo aos poucos e a dúvida foi crescendo na maioria dos presentes. A quanto tempo não riam assim?
O salão já estava cheio, ainda faltavam algumas pessoas, em sua maioria estavam ocupadas demais para comparecer e, infelizmente, alguns tinham morrido em batalha. A reunião poderia ter se iniciado assim que a porta foi fechada, porém, somente quando Atena, vulgo Saori Kido, decidiu aparecer, é que a reunião pode ser iniciada de verdade.
Os Cavaleiros formaram um corredor até o assento do Grande Mestre e o assento destinado a deusa em reuniões como aquela, todos enfileirados em seu nível de importância, primeiro os Ouros, depois os Prata e por fim os Bronze, com exceção daqueles que seriam a voz da reunião, que estavam parados ao lado dos “tronos”. Quando a deusa entrou, todos se ajoelharam e somente com o consentimento dela, é que voltaram a se erguer.
¬ Companheiros nossos vieram a perecer nessa guerra e sua falta pesa em nossos corações. — iniciou Shion. — Dentre eles estava Fênix, porém, como todos podem ver, ele está aqui conosco. A verdade é que ele esteve em uma missão cuja existência foi confiada somente aos Cavaleiros de Ouro. — explicou. — Ele trabalhou esses últimos 3 anos como agente duplo no exercito inimigo e irá nos relatar suas descobertas.
¬ Ikki de Fênix. — chamou a jovem deusa.
O leonino deu dois passos a frente e encarou cada um dos Cavaleiros ali presentes, por fora estavam normais, mas conseguia ver que por dentro a guerra tinha destruído todos e ainda estava destruindo. Ninguém ali seria mais o mesmo quando aquilo acabasse, só podiam esperar que a essência ainda estivesse intacta.
¬ Afrodite está usando a guerra como uma fachada para uma vingança pessoal. — elevou sua voz o bastante para que todos ouvissem com clareza. — Ela tem ódio de Atena, mas ela tem um ódio ainda maior de dois Cavaleiros em especial. Tudo o que ela tem feito até agora, é para atingir nossa deusa e esses dois Cavaleiros, nada mais. De acordo com a própria Afrodite essa guerra nada mais é “do que um pequeno detalhe, vidas são perdidas todos os dias, e todos os dias guerras são travadas, os humanos não tem o direito de reclamar; eles mesmos se destroem, esta guerra é apenas um reforço dessa autodestruição”.
Foi possível ver muitas expressões de nojo na multidão, de fato, aquilo não era algo que se diga na frente de um Cavaleiro, homens e mulheres que faziam tudo para proteger a humanidade e a Terra e que podiam ser cruéis quando muito bem queriam ao serem provocados. Porém, ainda tinha algumas expressões curiosas, e o motivo de sua curiosidade logo foi expresso.
¬ Quem são esses Cavaleiros odiados? — a voz dos que estavam confusos foi Misty de Lagarto.
¬ Eu não sei. — respondeu. — Seus nomes ou constelações nunca foram citados. Só sei que o ódio dela é milenar, talvez desde o nosso surgimento, Cavaleiros de Atena, sinal de que eles agora devem ser reencarnações. — alguns riram.
¬ Qual a graça? — questionou Dohko de forma que todos se calaram, era o menor de todos ali, mas sabia impor respeito. — É absolutamente normal os Cavaleiros serem os mesmos desde o principio, apenas com corpos e nomes diferentes. O exemplo perfeito disso é Shaka, ele é o Homem Mais Próximo De Deus, todos sabemos disso, e sabemos que seu título se deve ao fato dele ser a reencarnação da maioria dos Cavaleiros de Virgem de outrora, eu conheci uma de suas vidas passadas, e todos eram a reencarnação de Buda, assim como ele próprio.
¬ Obrigado, Dohko. — volveu o leonino. — Mas antes que questionem. O ódio dela deve-se ao fato de que eles a humilharam de alguma forma. E o ódio que ela dedica à Atena se deve ao fato dela protegê-los e salvá-los todas as vezes que Afrodite pensou ter triunfado.
¬ Tudo bem, o motivo dessa guerra sem sentido já foi esclarecido. — expressou-se Aiolia. — Mas como é lá?
¬ Em uma palavra? — questionou. — Tártaro. — viu alguns estremecerem, os gregos sempre acreditaram que palavras tinham poder, e falar das profundezas do Inferno não devia trazer boas coisas. — Como todos sabem, os soldados deles nada mais são do que pessoas obrigadas a lutar, eles nem queriam estar ali, mas se desobedecerem, eles serão responsáveis pela morte de muitos. A desobediência se paga com a vida daqueles que amamos naquele lugar. — teve quem buscou o olhar amigo na multidão. — No tempo em que fiquei lá, pude ver homens rezarem todos os dias pela morte, achando que se morressem sua família estaria a salvo, e vi homens rezarem por liberdade, esperando que nós pudéssemos acabar com esse suplício. Arrisco dizer que se invadimos uma base deles agora, todos os soldados se voltariam contra seus superiores, que são servos de Afrodite. Não tem um único servo de Afrodite que não esteja em uma hierarquia alta dentro do exercito.
Sobre os servos todos sabiam, todos já tinham encontrado ao menos um, então não havia necessidade de explicar nada sobre eles. Sabiam que a alcunha deles, Flechas, vinham de suas armaduras, que tinham a forma de flechas, a única diferença entre elas era a ponta. Cada um representava uma espécie de Amor, platônico, carnal, possessivo, fraternal, parental, traidor, entre outros. No total eram 54 Flechas, sendo que apenas 4 deles ficavam ao lado de Afrodite o tempo inteiro. Também sabiam que o leonino tinha matado um desses caras, um tal de Glory de Colomba, então era um a menos para se preocupar.
¬ Agora que sabemos dos fatos. — ditou a deusa. — Gostaríamos que expressasse seu plano Fênix.
Um sorriso brejeiro enfeitou os lábios do leonino, enquanto seus olhos faiscavam de expectativa.
¬ Conhecem o Dia-D?
¬ Isso é hora de brincar, Fênix? — indagou Shaka de Virgem.
¬ Eu não tenho por habito brincar, loiro, e você como meu amigo sabe disso. — respondeu. — Estou falando sério. Conhecem o Dia-D?
¬ Quem não conhece o desembarque da Normandia? — volveu Camus de Aquário um tanto irritado pela falta de resposta dos companheiros. — Foi a invasão da Normandia pelos Aliados, também conhecida como Operação Overlord e Operação Netuno, durante a Segunda Guerra Mundial. O desembarque começou na terça-feira, 6 de junho de 1944, com início à 00h15min. — comentou austero, como sempre. — O assalto foi realizado em duas fases: uma aterragem de assalto aéreo de 24 mil britânicos, norte-americanos, canadenses e tropas livres de franceses aerotransportados pouco depois da meia-noite e um desembarque anfíbio da infantaria aliada e divisões blindadas na costa da França, com início às 6:30 da manhã. — isso explica a irritação, a pátria mãe estava no meio. — Havia também as operações de engodo montado sob os codinomes Operação Glimmer e Operação Tributável para distrair as forças da Alemanha nazista das áreas de pouso real. A operação foi a maior invasão anfíbia de todos os tempos, com o desembarque de mais de 160 mil tropas. Cerca de 195.700 pessoas das marinhas navais e mercantes aliadas em mais de 5.000 navios foram envolvidos na operação. Soldados e material foram transportados a partir do Reino Unido por aviões carregados de tropas e navios, desembarques de assalto, suporte aéreo, interdição naval do Canal Inglês e fogo naval e de apoio. Os desembarques ocorreram ao longo de um trecho de 80 km na costa da Normandia dividida em cinco setores: Utah, Omaha, Gold, Juno e Sword. — concluiu.
Todos assistiram Milo afundar o rosto avermelhado nas mãos. Camus geralmente era um cara reservado, mas quando falava, ele não falava, ele humilhava, e isso matava o escorpiano de vergonha, porque era como se o aquariano estivesse chamando os demais de burro. Milo fazia suas presepadas, mas Camus fazia ele pagar todos os pecados com essa mania dele. O leonino quis rir.
¬ Mesmo assim, agradecemos a aula de história. — respondeu Ikki tentando conter o riso. — Agora que o Dia-D fora explicado por nosso honrado Cavaleiro de Aquário. Eu lhes proponho repetir o feito.
O salão explodiu em comentários de protesto. Até uma criança já tinha ouvido falar do Dia-D, era óbvio que os inimigos também sabiam, tentar repetir o feito era burrice, era um truque manjado.
¬ SILÊNCIO!! — a voz de Shion reboou pelo salão, calando todos que tinham bom senso. — Fênix ainda tem o que falar. — ditou firme.
Ikki acenou para o Mestre como um agradecimento, poucos sabiam, mas o leonino e o ariano eram muito amigos. Shion sempre foi uma figura paterna para todos os Cavaleiros, seu instinto paternal era gigantesco, talvez seja porque tinha visto a maioria dos Cavaleiros nascerem e crescerem, mas mesmo aqueles que ele não tinha acompanhado o desenvolvimento, o viam como um pai. Quando conheceu Ikki, o leonino era muito distante e somente o irmão tinha um elo real com ele. Quando eles se conheceram de verdade, Ikki estava chorando e Shion foi seu ombro amigo, o ariano nunca disse nada sobre aquilo, mas desde então, sempre que o leonino precisava, ele estava ali, tal como um amigo e pai estaria.
¬ Eu não estou propondo uma cópia. — explicou. — Eu estou propondo repetir um feito. Só vamos dar uma pequena exagerada. — ele sorria como um jogador experiente, acostumado a vencer.
Ikki passou a explicar o seu plano, passo por passo. O que ninguém sabia, talvez, somente Saori por sentir a presença, é que Anna estava escondida sob uma das janelas que davam para um precipício do lado de fora, ela estava agarrada as pedras para se segurar e tentava ouvir tudo com um macaquinho em sua cabeça.
¬ Goku! — repreendeu o bichinho em um sussurro. — Assim eu não escuto!
Sabia que aquele assunto não era para ela, sabia que não devia estar ali, mas algo a fez dar meia volta e espiar, não era uma força divina ou algo do gênero, era algo mais primitivo, mais humano, a vontade de proteger a quem você ama. Ikki e Hyoga a salvaram em meio a uma batalha, sabendo que não precisavam e que provavelmente não deviam, eles foram contra tudo para ficar com ela, se lembrava das brigas que se deram pelo simples fato dela estar parada em pé em algum lugar. Ela deu muito trabalho aos homens que a salvaram, aos homens que ela aprendeu a amar e a chamar de pais. Agora, o que ela mais queria era compensá-los por todo amor e carinho que lhe dedicavam.
Anna olhou para o céu, pensando em sua falecida avó, agradeceu a qualquer deus que tivesse escutando por ter aprendido muita coisa estranha e as vezes desnecessárias antes de sua vida antiga se perder em meio a guerra.
¬ Otou-san disse que deviam usar tudo? — ela sempre pensou melhor quando falava sozinha – Então eu usarei tudo o que puder para ajudar. — determinou.
¬ Anna!? — ouviu a voz de Kiki. — Anna!?
A pequena libriana saio as pressas da área de risco de onde espiava a reunião, pegou algumas flores no caminho para disfarçar seu delito e, para não chamar tanta atenção, foi correndo por outra caminho até o ariano.
¬ Estou indo! — respondeu por fim.
Mesmo sendo um plano insano, a pequena o cumpriria de qualquer jeito.
Com o termino da reunião, Ikki e Hyoga puxaram Mu para um canto, para que assim pudessem conversar em paz. Pediram que ele transmitisse todo o assunto da reunião à Kiki e pediram mais uma coisinha.
¬ Um favor? — indagou o ariano. — E o que seria?
¬ Tem a ver com nossos filhos. — respondeu Ikki.
Mesmo sendo algo que castigasse seus corações, aquariano e leonino já tinham se decidido a cumprir.
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