Fênix da Noite Estrelada
21 Chamas da Vida
Notas iniciais
¬ CÊ TÁ DE BRINCADEIRA, NÉ?!
¬ Cala Boca, Milo! — exigia o pequeno virginiano, enquanto afastava-se com o escorpiano da pequena multidão que se formou. — Eu pensei que você fosse ser o mais compreensivo. — sussurrava. — Eu não brinco com coisas assim, olhe os exames.
Shun batia nos papeis que o escorpiano segurava com força, como se sua vida dependesse daqueles papéis.
¬ Olha Shun... — começou engolindo seco. — Eu vou ser bem honesto com você. — esclareceu. — Sei que você é formado em duas das melhores faculdades de medicina do mundo, mas tem certeza de que o prognóstico não tá errado? Você bebeu? Ou tomou os remédios que receita?
¬ É a 5° bateria de exames que eu faço e dá o mesmo resultado, Milo! — sua aflição chegava a ser palpável. — E não, eu não fiz nada disso! — volveu irritado.
¬ Mas isso é impossível, Shun! — tentava retrucar.
¬ Eu sei! — afirmava o menor. — Mas é a realidade!
A vontade que o escorpiano teve de pegar um daqueles livros chatos e velhos sobre filosofia e anatomia do marido, apenas para ter argumentos contra Shun foi gigante, porém ele só conseguia ler o índice daqueles livros, isso, quando se dispunha a ler. Mas estava sem argumentos e com provas concretas em suas mãos, como poderia discutir sobre aquilo? Achou melhor saber das trivialidades.
¬ Já falou com Atena sobre isso? — indagou após suspirar.
¬ E você acha que não? — volveu. — E o pior é que isso é culpa dela.
O comentário fez a expressão de Milo se transformar, conhecem aquela história de “foi d'água pro vinho”? Então, no caso de Milo: foi d'água pro veneno puro.
¬ Cumé quié? — ele limpou o ouvido. — Repete, eu acho que ouvi errado.
¬ Você ouviu direito. Ela brincou com a vida e a morte de novo para realizar esta “maravilha”. — Shun gesticulava com certa frequência, sinal de que estava muito nervoso. — Ela não pensou na vida dele. Nem no acordo que fez com Hades, que, Graças a Zeus, não vai atacar por estar fraco e sem vontade. — existem vantagens em ainda possuir uma pequena ligação com o deus que fez de seu corpo sua moradia por algum tempo. — Ela não pensou em nada, só fez! — aquelas ênfases só estava tornando a conversa mais e mais desagradável. — Esqueceu que antes de tudo ela é uma garota mimada?
¬ Você quis dizer Vadia Mimada que eu sei. — volveu com sarcasmo. — Aquela... — Milo quis xingar mais, porém, não sabia se podia, porque dever, ele devia. — Arg! Ela não aprende! A gente só toma no rabo por culpa dela!
Quis quebrar alguma coisa, rasgar aqueles papéis que segurava, quis bater da própria deusa, quis tocar o fada-se, mas não conseguia e não podia, a aflição estava começando a tomá-lo. Mesmo "adotado", era de um de seus filhos que falavam.
¬ Shun, e agora? — seu tom era mais fraco que o normal.
¬ Eu não tenho ideia. — a expressão do menor remetia ao fracasso, o que arrancou um suspiro do homem a sua frente.
¬ Apenas me conte tudo o que sabe. — pediu. — Como ele está? E a quanto tempo ele está assim? Como vai ser daqui para sempre?
Shun abaixou a cabeça, aquele era um assunto delicado, MUITO delicado. Não sabia nem por onde começar aquela história, mas Milo queria saber de um assunto em especifico, isso já facilitava em muito as coisas.
¬ Depois da “crise” dele, eu fiz uma bateria de exames, mas isso todo mundo sabe, e o resultado dos exames foram esses. — Shun pegou os papéis de volta e os guardou dentro da pasta que carregava. — De inicio eu não acreditei, mas depois da 3° vez, eu comecei a acreditar, e acreditei mais ainda quando ele me contou coisas que estavam se passando com ele. Todos os sintomas se encaixam, eu só não sei explicar essa estranha oscilação dos poderes dele. — Shun passou a mão nos cabelos, uma clara mensagem de como estava cansado. — Ai eu tive que dar remédios antidepressivos para ele, ainda teve as seções de fisioterapia, mais exames, mais remédios. Ele começou a se isolar por causa da dor e do peso dela, agora ele só fala comigo por detrás de uma porta! — até que ponto o ser humano chega? — Eu não sei se são os hormônios ou se ele realmente tá certo. — confessou. — Eu não sei mais o que fazer, Milo! Eu temo pelas vidas deles! — ele suspirou derrotado. — Já fazem três meses... e ele nunca demorou tanto... e... eu não tenho ideia de como vai ser... eu... tenho medo do futuro, Milo.
Aquilo doía. Ver os outros sofrerem dessa forma doía, machucava. Milo não tinha ideia do que era aquela dor, na verdade até tinha, mas não em sua total magnitude, e esperava passar o resto de sua vida sem saber, mas assistir tanta dor, ainda mais a dor de quem você ama, machuca. Tinha quase certeza de que se encontrasse aquele leonino mais uma vez, ele raspava aquela juba e fazia ele miar pelo resto da vida, apesar de saber que também era o culpado por tudo aquilo. Culpado por toda aquela dor.
¬ Shu.
Olharam imediatamente para o lado, encontrando aqueles olhos violáceos a encará-los cheios de tristeza e confusão. Pobre criança... Não entendia em nada o que se passava, por mais que soubesse, não conseguia entender. Não entendia o porquê de seu Otou-san, Ikki, não voltar. Não entendia o porquê de seu Papa, Hyoga, se isolar. Não entendia o porquê de tanta dor. Talvez entendesse, só não demonstrava para não preocupar os mais velhos.
¬ Papa tá te chamando.
Shun não falou mais nada. Pediu licença ao escorpiano e o deixou com a pequena, esta se agarrou ao mais velho e chorou enquanto assistia o virginiano se afastar, dizendo que devia ter contado seu pesadelo. Pesadelo... Como queria que aquilo não passasse de um.
Ele estava indo na direção do mesmo quarto da área hospitalar, o quarto em que o melhor amigo estava desde que desmaiou e onde ele tinha se trancado a quase dois meses. Ao chegar na sala de espera, que ficava de frente para o quarto, pode ver que Camus e Isaak estavam lá. O Cavaleiro de Aquário tinha lágrimas teimosas que escorriam por seu rosto, a dor de ver aquele a quem sempre teve como seu filho, naquela situação era dilacerante, principalmente quando o mesmo nem se quer deseja falar com ele. Isaak estava ao lado do Mestre, tentando acalmá-lo, não chorava, mas estava igualmente mal.
Shun tocou a porta com cuidado e sentiu o frio que ele emanava, quase esquecia que uma das principais razões por ninguém conseguir entrar, era porque a porta tinha sido congelada pelo lado de dentro do quarto. Ele sentou-se encostado a porta, de costas para ela, sabia que o amigo também estava sentado de costas para porta, mas que não falaria nada até ter certeza de que ninguém mais o ouviria. Shun fitou os dois homens com tristeza.
¬ Podem... — começou cauteloso. — Sair? — pediu. — Onegai.
Shun nunca tinha feito esse pedido aos dois, pois eles geralmente estavam ocupados com a base e raramente tinham tempo de ir até ali, mas atenderam prontamente o pedido. Quando só restara Shun naquela sala, ele batucou uma música na porta, que foi respondida logo em seguida com outro batuque. Aquele era o sinal de que o aquariano podia falar o que quisesse, que o virginiano escutaria tudo.
¬ Eu sinto a dor me tomar. — confessou. — Eu preciso gritar, e eu nem sei se a ferida vai fechar...
¬ Hyoga. — o menor o cortou; doía vê-lo se castigando daquela maneira, ele não foi o culpado. — Tente me ouvir. Estou aqui! — pediu pela milionésima vez naqueles três meses. — Você pode esquecer, você pode até chorar se o coração não conseguir mais suportar e eu vou estar aqui, serei seu ombro amigo, sou seu amigo. Mas, por Atena, me deixa entrar.
Hyoga o ignorou, como sempre, precisava falar e não levar sermão, sentia que explodiria se não falasse. Mas não o deixaria entrar.
¬ Eu me sinto tão ferido...
¬ Mas você não deve pensar em parar, pois ainda tem suas próprias pernas para andar! — prosseguiu o virginiano. — Eu sei que às vezes é difícil confiar e ver a sua fé se despedaçar, mas o som do vento que entra nesse quarto vem pra te lembrar que de alguma forma essa dor vai passar e tudo vai melhorar, mesmo que o mundo tente te derrubar, mas se o céu desabar e então você chorar, você estará seguro, não se esqueça... — Shun encolheu os ombros, aquela era uma verdade dolorosa. — Que essa dor, também é o que nos dá força! Tente me ouvir. Estou aqui! — pediu mais uma vez.
¬ “Machucar quem você ama é pior que não se ferir”. — volveu o aquariano. — É o que diz essa voz triste que escuto aqui. E como botões a desabotoar nossos corações foram se separar para outra vez, se obrigarem a lembrar... — o virginiano o cortou mais uma vez.
¬ Essa dor vai passar e tudo vai melhorar, mesmo que o mundo tente te derrubar, mas se o céu desabar e então você chorar, você estará seguro, não se esqueça, que essa dor, também é o que nos dá força! — ele tinha que convencer Hyoga, porém ele continuou a ignorá-lo.
¬ Descobri que a voz a lamentar era a voz do que eu queria falar...
Shun não deixaria que aquela linha de pensamento continuasse.
¬ Desde que começou, você sempre notou, ele não ia te deixar como alguém já deixou e isso é pra você, para você perceber se um sinal é o que espera, eu te digo... Que essa dor vai passar e você vai melhorar e aí, nada nesse mundo vai te assustar... Você terá mil motivos pra sorrir, não se deixe desistir, você estará seguro, não se esqueça... — porque essa parte era sempre a mais difícil de sair? — Você estará seguro, não se esqueça que essa dor, também é o que nos dá força! Tente me ouvir. Estou aqui! — pediu. — Abra esta porta, eu lhe imploro.
Mas Hyoga não abriu a porta, nunca se sentiu tão fraco, não queria ser visto assim pelo amigo.
¬ Já não sei o que é realidade, pois minhas emoções parecem sufocar, meu mundo desabar. — confessou. — Será que sei dizer o que aconteceu? Sinto que só me restou correr, carregando os sonhos que eu fui perder na tempestade de neve queimada. — jamais conseguiria dizer o que aconteceu, pois de tudo o que passou naquele dia, só lembrava da dor, da última declaração e da neve queimada. — E ao final desse meu pesadelo o que será que enxergarei? — indagou — O que me espera? Preciso saber!
¬ Não me diga que não tem forças para mudar o que passou. — Shun odiava ouvir a voz do amigo naquele tom derrotado. — Para consertar tudo aquilo que você um dia errou. — o mais velho via aquele dia como um erro, uma ferida, uma chaga, e o menor sabia disso. — Decidimos seguir por esse caminho e naturalmente fomos encontrar pessoas que nos fizeram tropeçar, nós sempre nos levantamos. Não importava quantas vezes o mundo nos derrubasse, nós sempre levantávamos. Porque agora você não quer levantar? — o tom de Shun estava começando a ficar embargado.
O que o pequeno virginiano nem ao menos desconfiava, era que lágrimas já estavam tocando o chão de concreto há muito tempo do outro lado da porta. Hyoga chorava de dor, dor da perda, já tinha perdido demais para uma só vida e tinha medo de seguir, de perder mais algo, mas ele chorava principalmente por não saber o que faria quando lhe perguntassem de Fênix. O que diria? Que o deixou morrer?
¬ Será que eu vou conseguir vencer mesmo assim? Será que eu vou ter vocês comigo até o fim? — ele indagou ao se encolher, tentando esconder-se em si mesmo. — Meu coração não é de ferro, ao contrário do que você possa pensar. Já lutei mais do que eu aguentava, já perdi mais do que eu posso recuperar. — expressou o pensamento sem dificuldades, parecia que hoje suas palavras estavam fluindo com suas lágrimas. — E se eu não puder apagar as promessas que eu não honrei? E se eu não puder mais mudar a pessoa que eu me tornei? E se eu não puder conquistar tudo aquilo que eu sempre sonhei? E se para ter o que eu mais preciso, tenho que sacrificar algo de valor? Não sei se terei coragem pra perder aquilo que não posso repor! — afirmou com força. — Não há lição sem dor, era isso que ele sempre nos dizia, você lembra? — indagou começando a evidenciar que também chorava. — Mas ele nos jurou que, se um dia ele nos fizesse chorar, que seriam lágrimas de alegria!
Aquilo não era lágrimas de alegria... Nunca foi. Ele os tinha deixado e levado suas vidas junto.
¬ Hyoga... — Shun o chamou depois de um longo tempo em silencio. — Por favor, me escuta. Todos perguntam por você sem parar e me encorajam para falar contigo todos os dias. — contou-lhe a verdade. — Então, me deixa entrar. No momento, só temos um ao outro. — na dor, era somente os dois ali. — O que vamos fazer? Eu não sei, mas temos que decidir. — o virginiano se encolheu como o amigo do outro lado. — Eu sei que o peito pesa. Eu sei o quanto pesa. Mas não podemos desistir. — ele queria manter as esperanças acima de tudo, ainda mais em um momento tão complicado quanto aquele. — Ele sempre retorna, demora, mas retorna. — ditou para si e para o amigo. — Ele sempre retorna, demora, mas retorna. Sempre retorna!
Hyoga sabia, no fundo ele sabia, que Shun estava certo. Ele sempre retornava, demorava algumas vezes, mas ele sempre retornava, só que dessa vez a demora estava muito prolongada, o que fazia aquelas malditas perguntas assombrá-los: “Será que ele volta? Ou ele se foi de verdade?”.
Essa pergunta não importava, não agora, tinha algo que incomodava o aquariano a certo tempo e ele precisava esclarecer aquela história.
¬ Shun... — chamou. — O que é que eu tenho?
¬ Como assim?
¬ Eu sei que tem algo errado. — afirmou. — Eu vi isso em seus olhos na última vez que te deixei entrar e me examinar, era como se eles me dissessem que eu não sabia da missa a metade. — o pequeno arregalou os olhos, então o amigo sabia que ele estava preocupado com o resultado dos exame?. — O que é que eu tenho? Porque me sinto tão estranho? Porque eu tô estranho? — ele tinha suas próprias desconfianças e nem se importava mais em quão loucas elas eram, só queria saber a verdade pela boca do amigo. — Shun... — chamou pela falta de resposta. — Me conta, por favor, eu preciso saber. Eu preciso saber. — suplicou. — Pozhaluysta...
Aquele podia ser um assunto complicado, mas Hyoga merecia saber, não, ele precisava saber, aquilo envolvia e colocava em risco a vida dele. Ah, dane-se o mundo! Ele tinha que saber a verdade!
¬ Você... — mas isso não queria dizer que fosse algo fácil de falar. — Você vai ser...
¬ O quê? — instigou. — O quê eu vou ser?
Shun pegou toda sua coragem, a abraçou com toda força que possuía, respirou bem fundo e respondeu num fôlego só:
¬ Pai... — sua voz saio mais fina que o normal. — Você vai ser pai...
Ele estava esperando uma explosão por parte do aquariano, mas, para sua surpresa, ele começou a ouvir o gelo que segurava a porta rachar. Shun se levantou em um salto, bem a tempo de ver a maçaneta girar bem devagar e a porta se abrir ainda mais devagar.
Hyoga tinha mudado um pouquinho o visual, ele agora estava com uma barba rala, pequenas olheiras de noites sem dormir e estava com uma das mãos sobre o abdome, na altura do ventre, onde se podia ver um pequeno volume.
¬ Eu já sabia, de certa, eu já sabia e era por esse saber que eu me tranquei. — confessou ao fitar os olhos verdes do amigo. — O que direi quando perguntarem dele? Vou ser forte o bastante para olhá-los nos olhos e dizer?
¬ Alexei... — foi tudo o que Shun pode dizer antes de abraçar o amigo entre lágrimas.
Todos estavam reunidos do corredor, todos sentados a espera de Shun. Milo já tinha se juntado aos dois aquarianos, acompanhado de Anna, que fez com que Camus parasse de chorar. Eles tiveram de esperar por um longo tempo, Anna que estava muito cansada e bocejava a todo momento, acabou cochilando no ombro de Isaak.
Quando Shun finalmente saio da sala, todos se levantaram e Anna acordou aturdida, para compensar a “sobrinha” por sua falta de delicadeza, Isaak a pegou no colo e passou a niná-la. Porém a menina não voltou a dormir, assim como os outros, ela queria saber de seu Papa.
¬ Milo. — chamou. — Pode vir aqui, por favor.
Milo foi correndo até o virginiano, entrou com ele na sala e a porta foi fechada. Camus estava começando a roer as unhas, chegou a tencionar ir até lá, mas Isaak o segurou no lugar. Quando Milo retornou, ou melhor, quando Shun o empurrou para fora, ele estava tão branco quanto uma folha de papel e parecia ter perdido sua capacidade de falar ao fitar os demais.
¬ Merci à Atena, Milo! — Camus pulou no lugar e caminhando em sua direção. — O que foi que arrivé? Parce que Shun préfère falar com você primeiro? — Camus estava muito nervoso, dava para ver só pelo tanto de palavras em francês e grego que ele misturava.
Mesmo sendo sacudido, Milo continuava com a mesma cara, só quando ele ouviu alguma teoria louca de Camus sobre o jovem russo ter morrido ou se matado, é que ele despertou, dando alguns passos para trás e sorrindo envergonhado.
¬ Eu sei que isso é estranho. — o escorpiano parecia uma criança que fez uma coisa errada e queria esconder. — Mas... Camus, eu e você seremos vovôs. — Milo tinha falado essa parte bem devagar. — De novo e... sérios.
Anna, que não desgrudava do colo do “tio” finlandês, afastou-se um pouco só para encarar seu bunic Milo.
¬ Como? — perguntou no maior tom de inocência.
¬ Ela tirou as palavras da minha boca. — completou o ex-Marina.
¬ Eh... O Hyoga vai ser pai. — pelo jeito não tinha como falar aquilo sem soar estranho, aquilo fazia o escorpiano torcer os dedos. — Ele tem dois bebês... crescendo dentro dele... há três meses... Ele esta carregando os filhos de Fênix há três meses.
Pozhaluysta — por favor
Arrivé — aconteceu
Parce que — por que
Préfère — preferiu
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