Fênix - Até as cinzas voarem
9 A pressão aumenta
Quando a equipe voltou ao circuito uma semana depois para os preparativos do GP da Estíria, a atmosfera no box da Vortex GP mudou drasticamente. A euforia do domingo anterior deu lugar a uma tensão silenciosa.
Com 22 carros no grid e todas as equipes rivais trabalhando duro nos boxes ao lado para consertar os problemas do primeiro GP, Gustavo e Rafael sabiam que a margem para "milagres" tinha acabado.
— Eles acham que fomos zebras, chefe? —, perguntou Rafael a Eduardo, enquanto ajustava as luvas antes de ir para os treinos.
— O paddock sempre vai achar isso de quem tem menos dinheiro, Rafa —, respondeu Eduardo, encarando os dois carros alinhados na garagem. — Mas a gente não precisa provar nada pra eles. A gente só precisa fazer o VT-01 cruzar a linha de chegada de novo.
E assim, sob o olhar desdenhoso dos patrocinadores e o ceticismo das equipes rivais, a Vortex GP se preparava para alinhar os 22 carros no grid do GP da Estíria — sabendo que, desta vez, o "fator surpresa" não jogaria a favor deles.
Sábado: O Milagre Sob Temporal (Classificação)
O céu sobre o vale de Spielberg desabou no sábado à tarde. A chuva era tão intensa que a classificação atrasou em quase uma hora. Quando os motores finalmente roncaram e a pista foi liberada para o Q1 sob um spray de água aterrador, a limitação de cavalaria do motor Renault simplesmente desapareceu. Na chuva, o que contava era o braço do piloto e a tração mecânica.
E foi aí que o chassi VT-01 revelou sua maior virtude escondida.
Por ser um carro previsível, sem arriscadas soluções aerodinâmicas que perdem pressão de repente em piso molhado, o VT-01 dava uma confiança absurda aos pilotos. Enquanto os carros da Red Bull e da Ferrari rabeavam violentamente nas aquaplanagens, Gustavo e Rafael cravavam as frenagens com precisão cirúrgica.
— Olhem o tempo do Gustavo no Setor 2! — gritou o comentarista da F1 TV. — Ele está em 8º lugar no Q1! A Vortex GP está voando debaixo de tempestade!
Rafael veio na mesma toada, contornando a Curva 3 com a perfeição de quem pilotava no barro e no asfalto molhado desde o kart no Brasil. Para a surpresa e o choque absoluto das equipes de ponta, os dois carros brasileiros avançaram para o Q2!
E a zebra não parou por aí. No Q2, aproveitando o momento exato em que a pista teve uma leve trégua de chuva antes de voltar a fechar, Gustavo acertou uma volta mágica.
Quando a bandeira quadriculada subiu, a tabela de tempos chocou o paddock:
10º Lugar: Gustavo (Vortex GP) — Classificado para o Q3!
14º Lugar: Rafael (Vortex GP) — Uma posição inédita e espetacular no grid.
No Q3, com a pista impraticável, Gustavo garantiu a 10ª posição de largada. O box da equipe vibrou com a demonstração pura de talento dos pilotos. A imprensa internacional correu para entrevistar a "equipe milagrosa".
Mas Eduardo sabia o que estava por vir. O boletim meteorológico para domingo não previa uma única gota de chuva.
Mesmo assim, a dupla de pilotos não passou despercebida nem pelos rivais. Lewis Hamilton cumprimentou os dois com um aperto de mão sincero e um sorriso, parabenizando-os pela bela classificação. Ele, como um gênio no molhado, sabia que aquela dupla mostrou que não eram quaisquer pilotos. Daniel Ricciardo, descontraído e sorridente, abraçou a dupla ao mesmo tempo, rindo.
-Vocês não precisaram da Red Bull para criar asas nesse toró! — brincou ele.
Gustavo e Rafael riram, embora soubessem que a corrida seria difícil.
Domingo: O Choque de Realidade na Pista Seca
O sol forte de domingo secou o asfalto do Red Bull Ring e espanou qualquer ilusão. Com o grid completo de 22 carros e todas as equipes rivais tendo corrigido seus problemas de confiabilidade da semana anterior, a corrida da Estíria foi um massacre de ritmo.
Na largada, Gustavo sustentou a 10ª posição nas primeiras curvas, mas assim que a asa móvel foi liberada na volta 3, o pesadelo começou.
Nas longas retas de Spielberg, a falta de velocidade final e de pressão aerodinâmica do VT-01 transformou os carros da Vortex GP em alvos fáceis. Uma a uma, as equipes de meio de tabela (McLaren, Renault, Racing Point e AlphaTauri) passavam por Gustavo e Rafael sem a menor dificuldade.
— Eles passam pela gente parecendo que estamos de categoria inferior - desabafou Rafael pelo rádio, vendo a Alfa Romeo de Antonio Giovinazzi ultrapassá-lo na reta oposta como se ele estivesse parado.
— Mantenha o ritmo, Rafael - pediu Eduardo, a voz pesada. — Faz a sua corrida.
Ao contrário da semana anterior, ninguém quebrou. As zebras da Áustria não fizeram vítimas. Os sensores das grandes equipes funcionaram perfeitamente. Das 22 máquinas que alinharam no grid, 21 cruzaram a linha de chegada.
Gustavo e Rafael pilotaram de forma impecável, sem cometer um único erro, mas a física e a falta de investimento do carro não permitiam milagres no seco. Eles foram engolidos pelo ritmo do grid e despencaram na tabela volta após volta.
A Linha de Chegada e a Mudança de Tom
Quando a bandeira quadriculada finalmente encerrou as 71 voltas, o resultado final estampou a dura realidade do projeto:
19º Lugar: Gustavo (Vortex GP)
20º Lugar: Rafael (Vortex GP) (Apenas à frente da Williams de Nicholas Latifi e do único carro que abandonou).
Ao saírem do cockpit, exaustos e desidratados, os dois pilotos nem precisavam olhar para a tela. O silêncio na garagem era ensurdecedor.
No lounge da equipe, Hunter e Nicolas olhavam para as telas dos celulares, onde as mensagens dos patrocinadores já começavam a chegar com o tom amargo de "Nós avisamos".
Eduardo se aproximou dos seus dois jovens pilotos, que estavam sentados nos pneus com as cabeças baixas, encarando o chão do box.
— Levantem a cabeça —, ordenou Eduardo, com uma firmeza que surpreendeu a todos. — Vocês colocaram esse carro no Q3 na chuva ontem. Vocês pilotaram 71 voltas no limite sem dar um toque e sem quebrar nada. O carro é lento no seco? É. Nós não temos dinheiro pra trazer asas novas toda semana? Não temos. Mas essa é a nossa realidade hoje.
Ele olhou para a inscrição no bico do carro e depois para os mecânicos.
— A F1 achou que a gente era sorte. Agora eles viram que a gente é trabalho. A temporada tá só começando.
O restante da temporada de 2020 foi uma procissão silenciosa e dolorosa pela Europa. Para a Vortex GP, o brilho dos três pontos conquistados na estreia em Spielberg rapidamente deu lugar à realidade implacável da Fórmula 1: sem dinheiro para desenvolvimento, o tempo não perdoa.
A Maratona do Esgotamento (Hungria, Silverstone e Espanha)
A sequência de corridas no verão europeu foi uma prova de fogo para o físico e a sanidade de todos na equipe. Sem orçamento para fabricar peças sobressalentes, cada volta era pilotada no limite da prudência.
Em Silverstone, um circuito de altíssima velocidade que exige pressão aerodinâmica brutal, o VT-01 virou uma presa fácil nas retas. Gustavo e Rafael lutavam desesperadamente contra a falta de velocidade de ponta, cruzando a linha de chegada em 21º e 22º lugar.
Nos boxes, o clima era sufocante. Com a limitação do contingente de funcionários, os mecânicos trabalhavam até o limite da exaustão física, trocando peças de um carro para o outro e remendando asas com camadas extras de resina. Eduardo não era apenas o chefe de equipe; ele dividia seu tempo entre as planilhas de custos que não fechavam e a montagem das caixas de transporte.
O Caldeirão nos Bastidores
Conforme os GPs de Spa-Francorchamps e Monza passavam sem qualquer perspectiva de novos pontos, a tensão explodiu no motorhome da equipe.
Hunter e Nicolas perderam a paciência. Temendo que a imagem de Gustavo e Rafael ficasse queimada por estarem constantemente no fundo do grid, os empresários passaram a pressionar Eduardo abertamente.
— Nossos pilotos estão sendo vistos como retardatários no feed internacional, Eduardo! — cobrava Hunter, de braços cruzados. — Se o carro não anda no seco, vocês precisam inventar alguma coisa na estratégia!
— Com que dinheiro, Hunter? — rebatia Eduardo, cansado, mostrando a tela do laptop. — Os patrocinadores que prometeram bônus na Áustria sumiram. A gente mal tá conseguindo pagar a conta dos motores Renault para chegar em Abu Dhabi.
A visibilidade na TV despencou, os patrocinadores atrasaram repasses e a pequena bolha de entusiasmo que cercou a equipe no início do ano evaporou.
A Ilusão nos Caos de Mugello e Nürburgring
A esperança só reacendeu em corridas atípicas. No caótico GP da Toscana (Mugello) repleto de acidentes e bandeiras vermelhas, e no gelado GP de Eifel (Nürburgring) a durabilidade do "tanque de guerra" projetado por Gilberto quase fez milagres novamente.
Conforme os adversários batiam ou abandonavam com quebras de motor, Gustavo chegou a andar em 11º lugar nas voltas finais em Mugello, a uma única posição da zona de pontuação. No entanto, sem a velocidade final para se defender e com pneus já gastos, ele foi ultrapassado na penúltima volta pela Alfa Romeo de Antonio Giovinazzi.
Bater na trave do top 10 doeu mais do que terminar em último. A equipe não tinha ritmo para pontuar na raça, e a sorte não bateria duas vezes na mesma porta.
Abu Dhabi: O Balanço Final
Quando a bandeira quadriculada encerrou o GP de Abu Dhabi, sob as luzes do circuito de Yas Marina, os dois carros da Vortex GP cruzaram a linha de chegada em 19º e 20º.
Ao desligarem os motores V6 no parc fermé pela última vez no ano, o sentimento na garagem não foi de festa, mas de um alívio exausto.
Eles haviam sobrevivido. Graças àqueles milagrosos 3 pontos conquistados na estreia na Áustria, a Vortex GP terminou o Mundial de Construtores de 2020 em 9º lugar, ficando à frente da tradicional Williams (10º) e da Haas (9º) que marcou 2 pontos. Um feito heroico para uma equipe estreante que perdeu seu fundador no início do ano e operou com o menor orçamento da história recente da categoria.
Porém, enquanto os mecânicos lacravam as caixas para enviar os carros de volta ao Brasil, Eduardo olhava para a garagem vazia com um nó no peito. A temporada de 2020 tinha terminado, mas a batalha para conseguir verba e colocar a equipe no grid de 2021 estava apenas começando.
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