Fábula Tixa E Tata
1 A história entre a lagartixa e a barata.
Era uma vez uma casa antiga de um senhor idoso que vivia sozinho, que tinha uma velha caminhonete estacionada há muito tempo em sua garagem, ele mal a usava nos dias de hoje, em virtude disso, naquele local úmido, escuro e que quase ninguém aparecia habitavam pequenos seres, entre eles uma lagartixa muito inteligente e esforçada e uma barata preguiçosa e falastrona.
Ao cair da noite as duas se encontravam na traseira da caminhonete, a barata vivia sozinha, sua família mudou-se para um local onde havia mais comida e recursos de sobrevivência, e ela como era conhecida por seus amigos, a Tata acabou ficando pelo local que tanto gostava e lhe dava conforto desde que fora apenas uma ninfa. E Tixa como era chamada veio de outros lugares mais distantes, mais acabou ficando ali pela generosa fartura de comida e pelo sossego que o lugar lhe proporcionara.
Teoricamente Tixa seria predadora da Tata. Só que na prática este conceito não era nada aplicado, as duas desde seu primeiro encontro já se gostaram. Tixa já estava satisfeita por comer vários pequenos insetos que rodeavam um pequeno foco no canto da garagem e Tata estava com a barriga tão cheia dos seus lixos que o senhor deixava na porta da garagem a ponto de ficar com tanta preguiça de não querer fugir de seu predador natural. Tixa já fora um tempo atrás uma aventureira, conhecia muitos lugares e tinha muitas histórias a contar. E Tata apesar de sua língua grande não conhecia muita coisa, seu mundo girava em torno daquela velha caminhonete e do cômodo escuro em que vivia.
Um dos assuntos das longas conversas que tinham durante a noite era o preconceito que os homens grandes, eram assim que elas chamavam os humanos, tinham em torno deles, diziam que eram pequenas espécies de animais que a maioria chamava vulgarmente de bichos estranhos e nojentos. — Os homens grandes é que são estranhos, têm preconceito contra tudo, nosso senhorio, por exemplo, sei que não gosta dos mais jovens e eles dele. Não enxergam a sabedoria que alguém mais velho pode ensinar, e o velho senhor não entende as atitudes dos jovens que raramente batem a sua porta. Dizia Tixa desapontada com os seres humanos. A queixa da Tata era outra, porém parecida com a de Tixa. – Esses homens grandes são detestáveis, esmagam o mais fraco na primeira oportunidade de se dar bem em relação ao outro, são egoístas e não sabem dividir. No mesmo tempo que disse isso observava um micro inseto andando em cima de uma metade de um pedaço de pizza deixada pelo velho. Então no mesmo instante ela disse a Tixa sua amiga – Que tal fazermos algo juntos, não uma troca de interesses, mais algo que beneficiará tanto você como eu, esta vendo aquele inseto na comida, aquela é a pizza que estou comendo desde a semana passada, que tal você ir lá, comer o inseto e eu poder saborear minha comida tranquilamente? A resposta de Tixa foi imediata, sem pensar ela disse – Claro minha amiga, vamos juntas fazer isso, comerei o inseto, ficarei muito satisfeita e você poderá comer sua pizza. As duas apesar de serem espécies totalmente diferentes, um inseto e um réptil, mesmo assim se gostavam e a cada dia aprendiam uma com a outra.
Embora Tixa fosse superior a Tata isso não a afetava, principalmente em relação aos homens grandes, quando o senhor raramente abria a porta da garagem e via a Tixa ele dizia. – É apenas aquela lagartixa que vive por aqui, vou deixá-la em paz, não poderá fazer nada contra mim e, além disso, poderá comer os insetos menores que aqui vivem. E quando via a grande e gorda barata já tratava de pegar uma vassoura ou algum objeto do tipo e já ia correndo atrás dela, sem nunca conseguir pega-la dizia resmungando no final – Barata insolente, ainda vou conseguir dar uma chinelada em você.
— A visão dos homens é distorcida, tem medo daquilo que desconhecem, exageram nas suas atitudes, pisam no menor a primeira vista sem se importar com ele, muitas vezes parecem que não tem sentimentos. Dizia dona Tixa com toda sabedoria que conhecia do mundo la fora. E Tata nem se atrevia a por suas seis patas la fora, sabia que as pessoas odeiam as baratas e a primeira vista já seria pisada e esmagada sem dó.
Teve uma época que o senhor dono da casa contratara uma faxineira para limpar sua residência e apesar das ordens dele para a mulher não entrar na garagem ela de vez em quando tentava arrumar aquela bagunça que aquele local se encontrava. Um dia ela tentando limpar a lâmpada do foco que ficava aceso a noite chegou a quebrar o pequeno foco de luz que havia no local. De noite as duas se encontraram, e Tixa reclamando da falta de luz e conseqüentemente a ausência de alimentos que ela deixara. Tata também reclamava, aquela mulher limpou todo lixo que se alimentava. Então as duas desconsoladas só podiam contar uma com a outra, mesmo sem alimentos e sem energia, ainda sim se encontravam para conversar e contar histórias uma para outra. Depois de cinco dias, sem lâmpada acesa e nem uma migalha sequer na porta da garagem Tixa resolveu novamente se aventurar garagem afora como há muito tempo não fazia. Resolveu ir atrás de comida tanto para ela quanto para sua amiga Tata. Mesmo tendo que ir para fora e que correria perigo saindo do local de tanto conforto sabia que era necessário. Ao tardar da noite se despediu de sua amiga e foi em sua jornada, Tata ficou esperando ansiosamente, não pela falta de comida ou se pela Tixa conseguiria alguma coisa, mais estava preocupada com sua amiga, queria que ela voltasse logo e assim voltariam a ter uma vida normal como tinham antes.
Horas depois, estava quase amanhecendo e Tata andava de uma parede a outra, sem não conseguir parar no lugar, já estava quase desistindo que sua amiga voltasse quando ela de repente apareceu no vão da porta da garagem, não parecia aquele réptil tão ágil que conhecia, andava devagar e ao reparar direito em Tixa chegando mais perto viu que sua cauda estava cortada quase pela metade, e ainda carregava em sua boca com grande esforço um pequeno pedaço pão velho. Tata se aproximou rapidamente e perguntou o que aconteceu. Tixa disse que no meio da noite fora até a casa dos vizinhos da casa em que moravam em busca de insetos e resto de comida para as duas. Seguiu em direção a umas luzes na varanda de uma casa há alguns metros do lugar que morava, chegando ao local disse ter uma sensação boa, viu que tinha duas grandes lâmpadas acesas na varanda de uma casa, no meio tinha um banco de madeira e atrás dele uma pequena janela que estava entre aberta e dava direto para dentro da casa, ela não se interessou em entrar naquele local, pois era frio, e ela preferia ficar entre as grandes lâmpadas acesas, em volta delas havia pequenos insetos, nos quais com sua grande rapidez e agilidade em poucos minutos conseguiu abocanhar alguns e logo já estava satisfeita, só que não por inteira, sabia que sua amiga Tata a esperava com algum resto de comida ou qualquer coisa que a pequena barata poderia se alimentar. Foi então que viu logo à frente no quintal uma montanha de lixo encostada num grande latão, resolveu sair do ar quente e cheio de sua própria comida e se arriscar ainda mais no quintal e chegar até a lata de lixo. Não era especialista nesse tipo de assunto, mas sabia que qualquer coisa para sua amiga já estaria bom, chegando à sacola de lixo entreaberta resolveu entrar dentro e tentar levar o que conseguia, no fundo tinha uma metade de pão já velho, era esse mesmo, conseguiu apanhar com a boca, e na saída do local a surpresa, um grande gato grande e gordo espreitava o movimento dentro da sacola, logo que o viu e os dois se olharam rapidamente Tixa usou seu artifício mais poderoso, o de deixar um pedaço de sua cauda para chamar a atenção do felino, e assim conseguir sair correndo com suas pequenas patas para longe daquele local desprotegido. Mesmo com apenas metade de sua cauda ainda carregava o pão velho para sua amiga, disse a si mesma que o esforço seria um bom agrado para sua amiga. E não foi em vão. Na volta e depois de explicar tudo o que ocorreu Tata ficou enormemente agradecida pela generosidade que Tixa tinha. Estava agitada e como uma barata não parava no lugar, dizia mil palavras para sua amiga, era uma forma de agradecimento e felicidade ao mesmo tempo de ver que as duas estavam juntas novamente.
Alguns dias se passaram e as duas ficaram ainda mais unidas, de noite Tixa contava de suas aventuras pelo mundo e Tata sempre tagarela perguntava detalhes de cada história contada por sua amiga, quando se deram conta uma noite à lâmpada que a mulher que limpava a casa acendeu-se, então elas repararam que o senhor durante o dia trocara a lâmpada e Tixa voltou a ver os pequenos insetos que cercavam a lâmpada e assim se sentiu aliviada pela presença de alimentos que ali estavam. No mesmo tempo que viram a lâmpada acesa repararam em mais uma coisa. O lixo de Tata também voltara para a porta da garagem. Deduziram então que a mulher que limpava a casa já não estava mais trabalhando no local, pelo que parece foi uma triste experiência tanto para o dono da casa quanto principalmente para as duas amigas. Depois daquela noite e nas seguintes parecia que tudo tinha voltado ao normal, as duas com alimentos e conforto, a amizade entre elas cresceu e assim ficaram felizes até o resto de suas vidas.
A história acima se refere caro leitor, a quebra de pré-conceitos, estes empregados em nossas vidas, não é porque seres diferentes um do outro que tem que se detestar e no caso da lagartixa e da barata se devorar. Uma boa conversa antes de tudo pode resolver a maioria dos assuntos incompreendidos entre duas ou mais partes. O poder de uma amizade verdadeira quebra todos os paradigmas inseridos em nossa sociedade, mesmo uma espécie sendo superior em vários aspectos a outra não quer dizer que esta tenha que passar por cima e pisar em cima dela. Ao longo de nossas vidas passamos por várias dificuldades, e se tivermos alguém para compartilhar estes momentos difíceis estes não serão tanto assim, depois da dificuldade vem a recompensa, o amor e amizade cresce entre suas vidas, sentimentos bons ficam mais fortes e os maus são esquecidos e jamais lembrados na vida de cada um.
Fale com o autor