Futuro
1 Prólogo
Abro meus olhos subitamente quando me dou conta que está hora de levantar da cama. Na noite anterior, tomei o medicamento que iria fazer meu sono se esvair depois de nove horas e confirmo o horário no relógio situado ao lado da cabeceira da cama.
Caminho pela casa com meus pés descalços colidindo no piso gélido e contemplo meu rosto pálido no espelho junto com cabelos castanhos emaranhados que roçam levemente em meus ombros desnudos. Apesar de ter descansado o tempo necessário, olheiras contornam meus olhos e imagens aleatórias dos pesadelos preenchem minha visão.
Ouço passos ecoando no piso de madeira e franzo as sobrancelhas assim como meu batimento cardíaco aumenta. No reflexo do espelho, encontro um homem de idade avançada e olhos cansados atrás de mim e quando fito seu rosto vejo um sorriso sendo esboçado. Não o conheço, não faço ideia de como entrou em minha casa. Gelo.
- Miranda, você está pronta? – Diz com o homem com a voz rouca.
Fico paralisada, como se estivesse encarando um animal selvagem e a única saída plausível é encarar a fera, caso contrário, serei atacada. Ele se aproxima e consigo ver as rugas que marcam sua face, denunciando sua idade. Respiro irregularmente e entro em pânico. Agarro o objeto mais próximo e tendo golpeá-lo, mas sinto uma picada em meu pescoço e meu pulmão é presenteado com um peso invísivel e desabo — num baque surdo — no chão. Minhas pálpebras ardem, suplicando para que eu as feche, pisco diversas vezes e, quando me dou conta, estou deitada numa mesa metálica que faz com que meus pelos se eriçem devido ao frio que ela transmite. Sinto uma dor latejante nos pulsos e noto que eles estão presos com um material que não consigo identificar nas laterais de meu corpo.
Ouço diversos bipes e descobro que diversas pessoas me rodeiam. Algumas tomam nota em seus aparelhos portatéis e outras batucam os dedos nos seus respectivos teclados digitais enquanto olham atentamente ao monitor. Há vários deles assinalando códigos e medindo minha frequência cardíaca.
- Onde estou? – Pergunto.
Uma mulher de jaleco e lábios vermelhos se aproxima, suas mãos acariciam levemente os fios rebeldes de meu cabelo.
- Querida, não se preocupe. Você não precisa se preocupar, apenas durma. – Sua voz é materna e o toque em meus cabelos faz meu corpo relaxar.
- Não... Eu preciso sair daqui. – Digo exasperada.
Uma carga de adrenalina corre por minhas veias e forço as barras que me prendem à mesa, o material machuca meus braços e trinco os dentes para surportar a dor incômoda. As pessoas em seus jalecos brancos se levantam, surpresas e uma delas dá alguns passos em minha direção. E meu corpo gela imediatamente.
Eu a conheço.
- Miranda? – Ouço uma voz distante – Miranda?
Há duas mãos posicionadas em meus ombros e tenho um leve sobressalto quando elas me sacodem. Reconheço a voz e quando pisco diversas vezes para confirmar a pessoa da qual a voz pertence e, após várias tentativas, contemplo o rosto de Caio.
- Miranda! – Seu tom de voz está com uma nota de preocupação, ele me fita e me puxa para um abraço. E eu retribuio, um pouco perdida. – Você está bem?
Apenas o aperto ainda mais contra meu peito e fecho os olhos com força e aprecio o cheiro de roupa limpa que ele possui. Minha cabeça está me matando e meus pulsos estão doendo. E por um momento me pergunto se o que ocorreu segundos atrás foi real.
- O que houve? – Caio pergunta e consigo sentir o seu hálito colidindo contra minha nuca.
Fito a sala e franzo o cenho ao perceber que não estava nela. Há cacos de vidros espalhados pelo tapete, a tela da televisão está trincada e o sofá está em uma posição totalmente diferente. E o questionamento de Caio passa a me intrigar também.
- Eu... Eu não sei.
Afundo ainda mais meu rosto em seu ombro e sussurro diversas versas a frase anterior, caindo um choro abafado.
- Eu não sei. Eu não sei.
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