Furacão Iminente
2 O motivo do massacre
Notas iniciais
Em meio ao caminho, vi que estávamos na beira da divisa entre plantas e animais. Vi uma menina loira do outro lado da divisa. No lado das Plantas. Ela parecia perdida. Mesmo assim não dei atenção e continuei meu caminho.
– E então?- Nicole quebrou o silêncio predominante.
– E então o quê?- João, pelo que eu ouvi o homem gritar respondeu rudemente.
– Acho que você nos deve explicações, não?
– Devo?
– Sim, tipo; por que seu Clã matou o Clã dela!
– Eu não sei....
– Mesmo?- Me intrometi.
– Sim.
Abaixei a cabeça e segui andando.
– Não! Espera!- João gritou.- Eu sei o porquê!
Nessa hora eu não me segurei, corri e chacoalhei ele dizendo:
– Por quê? Hein? Me diz!
– Ouvi boatos de que todos os animais na região de nosso Clã foram encontrados mortos e os vivos fugiram.- Ele respondeu calmamente. O soltei e ele continuou:
– Uns disseram que foi um veneno, outros que foram terríveis predadores. Mas foi confirmado. Toda a água de nosso território foi envenenada. E era um tipo de veneno que apenas um Clã poderia fazer.
Eu parei. Todas a mulheres do nosso Clã sabiam fazer diversas substâncias. Mas uma era especial: o veneno água-viva.
Nossa chefe nos ensinou que o veneno água-viva era muito poderoso. Feito com veneno da cobra mais peçonhenta da floresta unido com a erva da morte, seu efeito era doloroso e eficiente. Para esse veneno não havia cura. E ele era feito exatamente para águas correntes.
– O veneno água-viva.....- Murmurei.
– Exato.- Ele respondeu.- Matou dolorosamente vários desavisados do nosso Clã. Mas eu não sabia que pra isso havia-se começado uma guerra.
– Não é possível! Por que isso seria feito?
– Me diga você!- Ele gritou pra mim.
– Eu não tenho culpa!
– Calma gente!- Nicole interviu.- Ninguém tem culpa!
Prosseguimos toda a caminhada de dia em silêncio.
Até chegar a Lua. Precisávamos descansar e pôr as ideias no lugar.
– Precisamos parar. Durante a Lua é perigoso continuar.
– A zebrinha está certa. Temos que parar.
– Já disse para não me chamar assim!
João riu e foi caçar. Nicole foi colher frutas. E fui preparar uma armadilha. Não queria acordar com lobos outra vez!
Após João voltar com uns dois perus na mão, perguntei:
– Por que tenta comida?
– Ué, pra nós três!
– Nicole não come carne.
– Que frescura!
Nicole bufou:
– Não é frescura! É estilo de vida!- Ela respondeu nervosa e eu ri. Ela era engraçada.
Não demorou muito pra dormirmos. Logo já estávamos nos sonhos dos anjos.
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Nós acordamos assustados com gritos na armadilha:
– Alguém me tira daqui, por favor!
Fomos ver e caímos na risada. Era uma menina de cabelos encaracolados, usando a marca de uma pata no braço. Ela tinha uma lança que caiu conforme ficou presa na armadilha, que a puxou pro alto de cabeça pra baixo.
– É Analice, parece que pegamos algo!- João afirmou tendo um ataque de riso.
– Dá pra parar de brincadeira e me tirar logo daqui?!- A garota gritou nervosa.
– Calma!
Quando a tiramos de lá ela se acalmou mais.
– Qual o seu nome?
– Manuela, Clã do Panda.
– Clã do Panda?! Nossa, seu Clã fica do outro lado do rio! Você está bem longe de casa!
– Viagem de experiência, nos mandam pra aprendermos a sobreviver! Mas me perdi do caminho!
– Bom, esses são Analice e Nicole.
– Você é a Analice?! O Furacão Iminente?
Corei quando ela disse isso.
– Sim...sou eu.
– Meu Clã tem muitas lendas sobre você! Dizem que você está destinada à acabar com uma guerra com um grupo de pessoas!
– Mesmo? — Perguntei. O que haveria de especial em mim pra eu ser digna de lendas e contos?
– E pra onde vocês vão?
– Clã da Coruja, leste.
– Nossa, e depois sou eu que estou longe de casa.
– Quer ir conosco?- Nicole convidou.
– Bom, eu tenho que ganhar experiência e acho que vai ser legal.
Umas horas depois,percebi que a chegada de Manuela retirou aquele clima pesado do grupo. Ela ria bastante e vivia nos fazendo rir também. A caminhada se tornou mais divertida.
Chegamos num ponto em que tínhamos que atravessar um rio muito agitado, e o pior é que ele despejava numa imensa cachoeira. Devia ser a Queda do Além, a maior cachoeira de toda a floresta.
– Vamos atravessar isso? — Nicole perguntou com a voz trêmula.
– Por quê? Tem medo de água? — João perguntou com um entre sorriso.
– Não da água. Da cachoeira.
– Teremos que atravessar por aquelas pedras!
Disse Manu, apontando para um grupo de pedras que formavam um caminho traiçoeiro de musgo escorregadio. Engoli seco e fomos. João passou primeiro, afinal era o mais forte poderia nos ajudar a descer do outro lado. Nicole foi depois, eu podia ver suas pernas tremerem quando tocaram a primeira pedra, ela seguiu o caminho todo quase que com os olhos vermelhos de tanto medo:
– Vamos! Está quase lá! — João gritou ao vê-la pisar na última pedra, ele ajudou-a a descer e eu podia jurar que ela teria beijado o chão se João não estivesse ali.
Chegou a vez de Manuela, ela passou cantando pelas pedras, acho que como uma maneira de manter-se distraída para não olhar a Queda do Além. Chegando na margem tranquilamente sem nem precisar da ajuda de João para descer.
Agora era a minha vez. Passei concentrada para não escorregar. E quando cheguei na última pedra a correnteza aumentou violentamente cobrindo a pedra e fazendo o musgo liso me deixar escorregar:
– Analice! — João tentou me pegar, senti a mão dele chegar a tocar na minha, mas não foi o suficiente. Escorreguei de uma vez batendo a lateral da perna na pedra maciça. Urrei de dor quando isso aconteceu. Caí dentro da água con força e imediatamente meus membros adormeceram por causa do gelo em que estava lá. Tentei me segurar com os pés na lama, mas minha perna machucada não deixou, eu me debatia por ar e não conseguia nadar de jeito algum. Senti a correnteza me puxar e o som da cachoeira cada vez mais perto, logo estava tão próxima que eu nem ouvia mais os gritos do grupo por mim. E então; tudo parou. Eu não sentia mais o rio. Só ouvia o ar zunindo nos meus ouvidos. Lembrei do que minha mãe me disse uma vez: " ninguém sobrevive a Queda do Além. Nem o guerreiro mais forte."
Então era isso. Esse era o meu fim. O Clã do Urso nem teria o trabalho de me matar, pois a Natureza se encarregara disso.
Mas assim, do nada, minha mão ficou quente. Olhei pra cima, era Nicole! Ela enfrentara o medo da cachoeira pra me salvar! Nossa amizade valia tanto assim? Me vi pendurada de um penhasco coberto por uma névoa. Mas lá embaixo ainda se ouvia o som de água batendo.
Me puxaram pra cima e senti a terra bater nos meus braços. Toda aquela adrenalina não deu chances de descanso ao meu corpo e me senti leve demais. E foi assim que apaguei.
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