Funeráis
1 Observador
"Esta noite, fui a um enterro bem peculiar. Todos de preto, como a muito deixaram de estar. Não havia quase ninguém, quem diria, e os que ali estavam, mal pareciam ter vida. Não olhavam para o corpo, então eu também não o fiz. Uns choravam em silêncio, outros até se partir. Era tão pouca gente, e ainda sim, parecia haver mais ódio que tristeza. A dor de uma inconformação, com eles mesmos ou com a pessoa ali seca. “Tão nova”, disse alguém, e pôs-se logo a amaldiçoar a criatura no caixão, por deixar de respirar.
Antes de fechar, o ultimo lugar onde aquele cadáver estaria, não contive a curiosidade e olhei por cima. O corpo no caixão, quase translúcido, emanava o frio da morte quase como um sussurro, de suas dores e sua paz, se é que isso era capaz. Seu olhos coloridos, já sem cor, não abririam mais. A boca não fingia mais sorrir, estava séria como quem vê um amor, por conta própria, partir. O caixão foi enterrado e logo a chuva cinza caiu. Quem restou ali do lado, depois de um tempo também saiu. Só restou a minha alma, que estava ali de intrometida, pois o corpo sob a terra, era meu quando estive viva."
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