Full of Grace
1 U: these are the hands of fate
Notas iniciais
Quando James Sirius Potter, aos nove anos de idade, abrira a porta do banheiro de sua prima e vira Victoire enrolada apenas em uma toalha, ele soube que definitivamente gostava de garotas. Com a mesma idade, ele beijou sua outra prima, Dominique, nos lábios pela primeira vez. Com doze anos, teve seu primeiro beijo de verdade. Nos dois momentos, ele soube que queria beijar mais garotas.
Beijara várias. Haviam muitos nomes em sua cabeça para que ele se lembrasse de todos, na verdade. Às vezes eram só amassos em alguma festa, às vezes alguém o beijava depois de uma partida de quadribol, às vezes eram muitos beijos atrás das árvores que ficavam perto do Lago Negro. Não passavam de beijos. Beijos muito bons, por vezes, muito quentes.
Amava as garotas, amava as mulheres. Todas elas. Mas teve uma, em especial, a quem ele amou mais do que as outras. Conheceu-a quando tinha apenas treze anos e nevava bastante. Era o terceiro passeio para Hogsmeade e estavam perto do natal, então todos compravam muitos doces, mas essa garota carregava mais doces do que parecia aguentar.
James andava pela rua principal de pedras, rindo tanto com uma piada sobre unicórnios que Fred contara que mal prestava atenção por onde andava, então acabou esbarrando em uma garota loira e sorridente que andava com sua amiga morena, que ele reconheceu como Elizabeth Thomas-Finnigan depois.
Os doces dela foram ao chão imediatamente e ele a encarou, parando de rir do nada. Abaixou-se ao mesmo tempo que ela e os dois começaram a apanhar os lanches para colocarem eles na sacola que ela levava. Ele colocou sua própria sacola no chão e acabou derramando seus próprios doces, que ele apanhou logo depois que terminou de ajudar ela.
— Desculpa — Ele disse enquanto os dois se levantavam. Fred e Elizabeth conversavam sobre alguma coisa da última aula. Não falava em murmúrios ou abaixava a cabeça. Quando pedia desculpas, fazia-o de cabeça erguida e em voz alta. — Eu realmente não estava prestando atenção porque estava escutando as babaquices desse idiota... — Ele sorriu e apontou para Fred, que não o escutou.
A garota riu de volta e lhe deu a resposta mais inusitada que ele poderia esperar. Começara a chover.
— Sabe, você tem um péssimo gosto pra doce.
Ele arqueou uma sobrancelha e sorriu mais abertamente para ela. Ele gostara de seu senso de humor.
— Como?
— Você não ‘tá levando nenhum sapo de chocolate, qual é! — Ela revirou os olhos ironicamente, que fez James gargalhar. — Meu nome é Grace. — Ela estendeu a mão pálida.
— James — Ele apertou a dela com entusiasmo, encarando seus olhos, cor de conhaque como os seus.
Se lembrava de ter achado ela bonita, na época. Claro que a achara bonita, quem seria louco o suficiente para não ver beleza em Grace? Na época, seus cabelos loiros estavam rentes ao pescoço, porque, ele saberia depois, ela, num ato de rebeldia, cortara-os com uma tesoura, por isso ele era tão bagunçado. Quando ela sorria, quase sempre sem mostrar os dentes, seus olhos se escondiam nas bochechas e sua risada era maravilhosa.
Mas não sentia vontade de beijá-la. Gostava de seu senso de humor e de como ela o fazia rir sem maldades. Com o tempo, ele começou a vê-la com mais frequência e a passar os intervalos entre as aulas ao lado dela, sentados junto ao lago, jogando pedrinhas na água e brincando com alguns feitiços. Fred também passava muito tempo ao lado deles e, logo, os dois saíam da torre da Grifinória durante a madrugada e paravam na torre da Corvinal para buscar Grace antes de irem para qualquer lugar do castelo atrás de aventuras.
No segundo semestre do quarto ano, quando o sol estava chegando, ele começou a prestar mais atenção na menina que, agora, era sua melhor amiga. Não propositalmente, mas agora, que ela estava chegando aos quinze anos, parecia estar mais bonita do que antes. Seu corpo, claro, estava mais como o de uma mulher do que como o de uma menina, mas não era bem isso que chamava sua atenção.
Talvez fosse seu cabelo, que agora começava a alcançar seus ombros e tinha uma franja que caía em sua testa. Talvez fossem seus traços que estivessem mais marcantes, mas ainda suaves como antigamente. Talvez fosse sua voz, que não mudara como a sua própria, mas que soava mais madura. Talvez fosse porque ele sentia pequenos choques elétricos toda vez que encostava em sua pele branca como o leite. Ele não tinha certeza. Não teve certeza de nada quando, numa noite, sentado junta à ela numa janela de uma torre qualquer do castelo, a beijou.
Ele já tinha beijado muitas garotas antes de Grace e beijaria garotas depois dela, mas nenhuma delas fez ele se sentir daquele jeito. Poderia falar de seus lábios macios e de como seus olhos se fecharam enquanto ele se aproximava dela, mas aquilo era tudo besteira.
Quando seus rostos se tocaram, ele pareceu esquecer-se de como se respirava. Era como se o tempo e o espaço tivessem congelado apenas para observar os dois. Nada mais importava e ele sentiu como se algo dentro dele que sempre estivera apagado de repente tivesse se acendido. Como se alguma coisa de repente tivesse se encaixado no lugar certo depois de muito tempo estando quebrado.
Depois de exatamente sete segundos e meio, Grace se afastou. Seus olhos não estavam mais fechados, mas sim arregalados. Ela se levantou, confusa e saiu correndo, sem esperar para que James a levasse debaixo da capa de invisibilidade. Eles não se falaram por uma semana. Isso matou o garoto. No final de uma tarde, antes do jantar, ela o puxou pelo pulso em um corredor e o arrastou, em silêncio, até o Lago Negro, escondendo-os do resto dos alunos atrás de uma árvore. Era primavera. Estava quente.
Encarou-o com os braços cruzados, de uma distância considerável. James não entendia o que acontecia no seu peito. Não sentira nada assim, com nenhuma garota. Depois de torturantes minutos, ela começou a falar. Com a voz alta e clara, de cabeça erguida, como aprendera com James.
— Sabe, James — Ela não gostava de apelidos, ele aprendera. Não gostava de chamar as pessoas por outros nomes, nem por seus segundos nomes, nem por abreviações de seus nomes. E gostava demais do nome dele para subtrair qualquer sílaba dele. — Você é meu melhor amigo. E, semana passada, o... — Ela não conseguiu dizer. — Foi... maravilhoso. — Ela suspirou, apertando os olhos. — Mas eu te conheço, James. E eu sei que não dá pra confiar em você quando o assunto é relacionamento, mas... — Ela se aproximou e segurou a mão dele. — Eu sou sua melhor amiga e quero continuar sendo.
Ele sorriu. Gostara de como ela falara — eu sou sua melhor amiga, não você é meu melhor amigo. Ela era segura. Ele a puxou para perto e a envolveu num abraço que estralou algumas de suas costelas, fazendo-a rir, o que fez ele rir de volta. Sabia que ela estava certa. Naquela época, eles nunca dariam certo. James era imaturo.
A amizade deles continuou a mesma. Ela passou o natal n’A Toca, convidada por James. Voltaram para terminar o quarto ano e, no verão daquele ano, ele pareceu mudar. Não era só sua voz que estava mais grossa ou seus músculos que estavam mais definidos e definitivamente não eram os centímetros a mais que ele crescera que fizeram Grace achar que ele finalmente estava diferente.
Parara de beijar garotas por aí e agora parecia dar uma atenção extra aos estudos. Ainda se metia em algumas brigas, mas estava diminuindo isso. Não azarava as crianças menores e definitivamente estava mais responsável. Estava, finalmente, amadurecendo e, mesmo que parecesse difícil, mais do que os outros meninos de sua idade.
Por isso que, mesmo quando Alfie Oakley lhe deu flores, Justin McLaggen lhe escreveu um lindo poema e Carl Boyde, timidamente, a convidou para uma tarde na Madame Puddifoot, ela recusou. E, com o queixo erguido e um sorriso divertido no rosto, na primavera que antecedia as férias do quinto ano, ela chamou James para uma tarde nos jardins para que eles tivessem um piquenique. Um pouco abobado pelo sorriso maravilhoso da amiga e surpreso com o pedido, ele aceitou.
Naquela tarde, eles tiveram seu segundo beijo. E o terceiro, quarto, quinto, sexto. Duas semanas depois, eles começaram a andar de mãos dadas pelo castelo e a dar beijos de despedida quando iam para salas diferentes. Mais uma semana e estavam namorando sério, por mais incrível que parecesse para quem conhecesse James Potter. Mas ela o conhecia mais e, então, sabia que ele era fiel, esforçado e carinhoso. Só precisava da pessoa certa.
O verão chegou e parecia que o tempo que eles tinham não era suficiente. James implorou para que ela passasse o verão n'A Toca com ele e sua família. Grace, com um lindo sorriso, concordou. Gostavam de se sentar perto de uma grande macieira e ter conversas banais enquanto trocavam beijos e brincavam com os dedos entrelaçados aos do outro.
— Você não tem nenhum apelido? — James perguntou, contando os dedos de Grace pela milésima vez enquanto encarava seus olhos castanhos. — Tipo, Grae. Ou Oli, de Olivia. Ou...
Ela soltou uma risada, deixando que o sol banhasse seu rosto.
— Por que quer tanto me dar um apelido?
— Não quero. — Ele prontificou-se em dizer, beijando-lhe os lábios. — Amo seu nome. Não quero tirar uma sílaba dele.
Ela sorriu e retribuiu o beijo, ainda sorrindo. Outro dia, abraçados, observando o sol nascer, ele perguntara:
— Porque você gosta de mim? — Um sussurro. Verdadeiro e objetivo, assim como ele.
— Eu não gosto de você. — Ela sussurrou de volta. Parecia que eles estavam contando segredos, mas não havia ninguém por perto que pudesse escutar. — É diferente, o que eu sinto. Sinto sua falta e quero ficar o tempo todo perto de você. Você é a pessoa mais inteligente, engraçada e maravilhosa que conheço. E você realmente tem cabelos muito legais e os olhos mais bonitos que já vi.
Ele sorriu. As pessoas falavam muito dos olhos verdes de Albus, mas nunca dos olhos castanhos de James. Ela parecia ser a única a notar eles.
— Por que você gosta de mim? — Ela voltou a sussurrar.
— Eu não gosto de você. — Ele parou por alguns segundos. Ela esperou. — Acho que meio que preciso de você. Preciso segurar sua mão e te beijar e simplesmente sentir você ao meu lado. Cada segundo parece ser tão precioso quando tô com você. Não quero perder eles.
Mais tarde, naquele dia, trancados no quarto mais alto e mais distante d'A Toca, os dois passaram sua primeira noite juntos. Foi tudo devagar, silencioso, cuidadoso. Muito carinho e muitos beijos. Voltaram para Hogwarts no final do verão e tudo parecia ir às mil maravilhas.
Mas a vida é como uma montanha russa. Se você está subindo, vai cair. E quanto maior a subida, maior a queda. James e Grace subiram demais. Rápido demais. E a queda foi alta, dura, bruta e dolorosa.
Grace era nascida trouxa. Na sua família, haviam vários casos de câncer. A magia na sua alma não impediu a doença de atingir seus ossos.
Começara com as dores, bem depois que voltara para a escola. Agudas e breves, bem abaixo do joelho esquerdo. Ela sabia do histórico de sua família. Seus pais a levaram para um médico nas férias de natal, mas já sabiam o que ia acontecer. A quimioterapia não adiantaria de nada, a metástase ocorreria de uma forma ou de outra e, em alguns anos, ela iria embora. O médico só lhes deu a certeza: mais cinco anos.
Seus pais choraram. Ela não. Contou para sua melhor amiga e para o resto da família sem lágrimas no rosto. Ia dormir sem chorar. Tinha sonhos belos. Mas quando voltou para Hogwarts e viu James novamente, foi como se todas as paredes ao seu redor estivessem caindo de uma vez. Chamou-o para a torre de Astronomia uma noite, pretendendo contar o que iria acontecer. Estavam deitados no chão frio, encarando as estrelas, quando ela começou a chorar e ele começou a ficar confuso. Era um choro silencioso, apenas lágrimas, nada de soluços, mas ele notou. Ele sempre notava.
— Precisamos conversar. — Sussurros de novo. Sempre sussurros.
Ele se sentou e segurou a mão dela.
— Senta. É só uma conversa.
Ah, James, ela pensava, com um sorriso. Ah, meu amor, se você soubesse, se você apenas soubesse.
Ele a encarava, sem entender nada.
— James. — Ela murmurou. — Eu estou doente.
Ele teve vontade de dizer muitas coisas.
É apenas uma gripe?
Por que você está chorando?
Por que você simplesmente não vai ao hospital?
Tome alguma poção, é tão simples!
Mas ele sabia que nada daquilo teria uma resposta. Ele já sabia, bem lá no fundo, o que significava aquilo. Ele sabia o verdadeiro valor daquelas palavras naquele momento e como elas eram pesadas, tristes e avassaladoras.
Ela tentou lhe explicar o que era câncer, mas ele não entendia muito bem os conceitos trouxas da medicina. Ele só entendia que aquele nome estranho iria levar Grace embora. Pra longe dele. Ele não queria aquilo. Queria ficar ao lado dela o tempo todo, para sempre. E foi o que ele disse algumas noites depois, enquanto os dois estavam gazeando a aula de Astronomia e olhando para as estrelas da torre do dormitório de James.
— Eu vou ficar sozinho sem você. — Sua voz quase não saía. Ele apenas movera os lábios perto dela e ela apertou os olhos, já sentindo que ia chorar. A única pessoa que a fazia chorar era ele.
Mas não chorou.
Se virou para ele e segurou seu rosto com as mãos, fazendo carinho delicadamente em suas bochechas.
— Olha. Eu quero que você me prometa uma coisa, James. James. Me escuta, droga! — Ele não olhava nos olhos dela. Não queria fazer nenhuma promessa. Sabia que era fraco e a quebraria. — Eu preciso que você pegue isso... — Ela levou as mãos à própria nuca e no segundo seguinte estava entregando um colar nas mãos de James. O pingente era um pequeno coração. — Isso é um pedaço do meu coração, James.
Ele mordeu os lábios. Não queria chorar. Não mais.
— Eu quero que você pegue ele e faça dele todo seu... — O cordão de ouro era grande, então ela fechou atrás do pescoço do moreno e escondeu o pequeno coração em sua camisa. — Desse jeito, mesmo quando estivermos separados, você nunca vai estar sozinho. E quando você sentir minha falta, eu quero que feche os olhos... — Ele o fez e ela aproximou o rosto do dele, fechando os próprios olhos e sussurrando em seu ouvido. — E lembre que eu posso estar longe, mas eu nunca terei ido embora. E todas as vezes que você for dormir, quero que lembre que nós estivemos juntos debaixo das mesmas estrelas...
E, como Rose sempre costumava dizer para James nos dias tristes, eles tiveram uma eternidade dentro de dias numerados. Os cinco anos passaram mais rápido do que deveriam. O cabelo dela começara a cair gradativamente, seu rosto estava mais inchado, mas seu corpo estava mais fraco. Depois de um tempo, precisara usar cadeira de rodas. Não estava mais reconhecível, a não ser pelo brilho de seus olhos e o seu sorriso, que estava sempre lá.
No dia quatro de dezembro de 2024, num dos dias mais frios do inverno, Grace fechou os olhos e não voltou a abri-los. No enterro, James não conseguiu fazer nenhum discurso. Só ficou sentado na última fileira de cadeiras, sem nem conseguir chegar perto do caixão. O cordão parecia pesar uma tonelada em seu peito.
Tendo conseguido sua carteira de motorista trouxa alguns meses antes, assim que saíram para o cemitério, ele entrou em seu carro e foi embora. Não conseguia passar mais um segundo naquele lugar, com aquelas pessoas e com toda aquela energia negativa cercando-o. Inconscientemente, passou por todos os pubs, coretos e praças que eles costumavam ficar juntos.
Parou em alguma rua e se sentou em um banco velho. Adquirira a péssima mania de fumar um cigarro quando estava se sentindo mal nos últimos dias e, por mais que Grace o alertasse que aquilo poderia lhe dar câncer, ele estava pouco se fodendo. O que mais queria naquele momento era estar perto dela, se o cigarro fizesse isso, ótimo.
Lembrou-se do último beijo deles, poucos dias antes. Como ele se sentira, do jeito que ela sempre fazia ele se sentir, arrepios, algo dentro de seu estômago e algo inexplicável passando por seu peito e pelo resto de seu corpo. Se lembrara do gosto de seus lábios. O mesmo de sempre, doces. Mas ele podia sentir um pouco dos remédios e da fraqueza que a abatia.
Ele pensava no que ela dizia antes de morrer. Que iria para um lugar melhor do que aquele. Um lugar onde ela não iria sofrer. Mas ele não conseguia evitar os pensamentos. Será que ela estava se sentindo solitária sem ele, do mesmo jeito que ele estava agora?
Se lembrou daquela noite, cinco anos antes. De suas palavras. Da maquiagem escorrendo por sua face. Ou talvez não tivesse nenhuma maquiagem em seu rosto no momento e ele estava apenas inventando pensamentos para tornar aquele momento ainda mais doloroso, como costumava fazer com a maioria das coisas.
Sentia uma espécie de raiva. Não sabia de quem. Não sabia se era dela, do câncer ou se dele mesmo. E os sonhos que ela deixara para trás, as promessas e pedidos às estrelas que eles haviam feitos juntos? Aquela maldita doença a levara. Ela havia ido embora. Ele não havia feito o suficiente para salvá-la. Tudo dentro dele estava remexido, quebrado e fora do lugar. Só queria poder ir dormir e acordar sem nenhuma memória dela em sua mente, iria ser menos doloroso. Não queira ter que acordar sozinho e se lembrar de como era acordar ao lado dela. Não achava que iria aguentar.
Aquela e mais noites passaram e parecia que a dor diminuía. A dor, mas nunca a saudade. Era difícil se acostumar com a falta dela. Era estranho acordar e saber que ela simplesmente não estava mais lá e nunca mais estaria. A morte era uma coisa estranha. Era estranho o sentimento de ouvir o nome dela quando ele não a via há tanto tempo a não ser em fotos, onde ela ria de alguma besteira que James ou Fred haviam dito e seu cabelo ia para a frente do seu rosto, escondendo suas bochechas elevadas como cortinas loiras.
Às vezes, depois de alguns anos, ele juntava coragem para ir até o cemitério onde ela estava repousando. Não levava mais cigarros. Parava em frente à sua lápide e começava a pensar e, às vezes, até a falar sozinho, com as mãos, brancas por causa do frio, enfiadas dentro dos bolsos de seu sobretudo.
Começava a pensar em todas as coisas boas que Grace era, fazia e tinha com ele. Conversava com ela por horas. Alguns bruxos passavam por lá e diziam que ele tinha bebido muito firewhisky, mas não havia uma gota de álcool em seu corpo.
— Se eu acordasse hoje e tudo isso fosse um sonho muito fodido e você estivesse lá, do meu lado, eu nem sei o que eu faria. Acho que só te abraçaria muito e muito forte e nunca mais te deixaria ir embora...
Às vezes, dizia muito. Às vezes, nada. Só fechava os olhos, sentia o ouro gelado encostando em sua pele perto do peito e conseguia realmente sentir que, não, ela não tinha ido embora. Só estava longe e sempre estaria junto dele, como se estivesse tomando conta dele.
Ele sorria. Era exatamente isso que ela faria. Tomaria conta dele. Grace era assim. Ela era diferente. Sempre foi. Ele sempre soube. Ela era especial, única. Ela era perfeita. E ele queria acreditar que, justamente por isso, ela não pôde ficar com ele por muito tempo — ele não merecia pessoas perfeitas como ela. Então, com um último sorriso, ele balançava a neve de seus ombros e se virava para ir embora, com um último pensamento: ele fora muito abençoado, por quem quer que tivesse mandado Grace para ele e permitido que eles tivessem, como Rose gostava de dizer, uma eternidade dentro de dias contados.
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