Fukurou
1 Fukurou
Notas iniciais
Agradeço de antemão pela atenção e espero que possam aproveitar a leitura como desejam.
Poema inspirado na música da Kokia, "Fukurou".
Desejo-lhes uma boa leitura.
Obs: Se possível, leiam ouvindo a música. Garanto uma experiência muito interessante.
Devido ao sol se encontrar baixo, o vasto céu azul ameaçava se tornar alaranjado. A brisa levemente quente atravessava o vasto caminho e as colinas verdejantes. Para a pequena criança, a liberdade de correr por aquele local era o ápice de sua felicidade. Com a imprudência infantil, aqueles que a observavam apenas puderam suspirar em derrota, mas alegres com a animação da garotinha.
— Somali, não corra para muito longe. – o Golem ordenou sem emoção, porém, era evidente o cuidado que tinha por sua menina.
— Papai, papai. Estou vendo um coelho logo ali. – e antes que um novo protesto fosse dito, a criança correu em direção ao pequeno animal.
— A energia da Somali é admirável. – caminhando ao lado do grande Golem, um ogro oriental comentou ao tentar evitar que um pequeno sorriso surgisse em seu rosto.
— Ela deveria tomar mais cuidado. – afirmou a outra criatura.
— Você é um pai muito protetor, senhor Golem. – entre um riso gentil, uma voz aguda tomou toda a atenção dos dois seres. A voz era pertencente ao ogro anão que parecia liderar a caminhada, demonstrando estar em total paz.
— Apenas estou evitando um possível infortúnio.
— Está tudo bem, senhor Golem. – o pequeno ser sorriu calmo, tentando trazer segurança ao amigo. – Essas terras são conhecidas por sua segurança. Além disso, estamos próximos da floresta.
— O que isso deveria significar?
— Ah. É natural que você não conheça a Floresta de Fukokia. – dando seu comentário, o ogro oriental se dispôs a explicar. – A Floresta de Fukokia é conhecida por abrigar as Bestas das Sombras. Dizem que são criaturas místicas de enorme poder e conhecimento. Contudo, apesar de não serem hostis, não gostam de interagir com outras criaturas que não forem aquelas que provaram seu valor.
— E devido à sua força, muitos respeitam essa região e, até mesmo, a evitam. – completou o ogro anão, entre um sorriso descontraído. – Principalmente, devido ao fato que criaturas ruins são punidas dependendo do ato cometido.
— Entendo. E vamos encontrar sua amiga aqui?
— Mirin, certamente, nos receberá. – o pequeno ser confirmou. – Além disso, ela pode nos guiar pela floresta para agilizar nosso objetivo.
O Golem não disse mais nenhuma palavra, fazendo com que os ogros se perguntassem qual a opinião do amigo. Contudo, a chegada da garotinha ganhou destaque, fazendo com que palavras doces fossem dirigidas a esta quando a menina entregou as flores que colhera com tanto cuidado.
Ao caminharem por mais alguns metros à frente, o ogro anão apresentou o que parecia uma trilha esquecida. Na realidade, o Golem não soube afirmar se aquele caminho já fora, realmente, uma passagem. A vegetação parecia intacta, como se nunca tivesse sido alterada antes. Assim que o pequeno ogro anão caminhou para dentro da mata, seu corpo deu um sobressalto, como se tivesse se lembrado de algo importante. Os outros adultos estranharam aquele comportamento, contudo, a pequena garotinha não pareceu se importar.
— Por que parou, Shizuno? – inocente, a criança se mostrou curiosa.
— Sabe, Somali. Enquanto estivermos na floresta, você não pode se afastar de nós. Nem por um momento. Não colha nenhuma planta ou ameace os animais que vivem aqui.
— Ah... Não posso brincar, então?
— Sinto muito. – o ogro anão sorriu gentil. – Apenas por agora.
— Somali, venha aqui. – o Golem pediu e a garotinha o atendeu.
Habilidosamente, a criatura tomou a pequena em seu único braço. Dessa forma, ele teria certeza de que Somali não faria nada do que fora dito pelo curandeiro. Contudo, apesar da preocupação ter sido solucionada, o antigo protetor da floresta não estava tranquilo. Algo despertava seus instintos e, assim, não era capaz de se manter em paz ou mesmo de não se sentir intimidado.
— Só espero encontrarmos Mirin antes das corujas. – o ogro ao lado do Golem comentou um pouco incomodado.
— Acho muito difícil. – Shizuno argumento e, rapidamente, seu olhar acompanhou uma silenciosa sombra a voar para longe deles.
Continuando sua jornada, o pequeno grupo desbravava a enorme floresta. Diferente do convencional, os ruídos da mata eram quase nulos. Pareciam distantes... Como se respeitassem o reino da quietude. O Golem, curioso com aquele fato, abriu seu único olho e percorreu com a visão a sua volta. Eles não estavam sozinhos. Haviam animais por toda a parte, mas pareciam calmos. A criatura não sentiu nenhuma hostilidade vinda dos outros seres, muito menos medo ou receio. Era como se não se importassem com a presença do grupo... Ou mesmo, não houvesse a necessidade de entrarem em alarme.
— Isso é estranho. – o Golem acabou por dizer.
— Sei como se sente. Eu também estranhei na primeira vez que vim aqui. – o ogro oriental ao seu lado comentou. – Mas até agora, ainda não sinto paz com tanto silêncio.
— Já esteve muito aqui, Yabashira? – Somali perguntou com um doce sorriso.
— Umas cinco vezes. Shizuno me arrastou todas às vezes.
— Ora, você mesmo disse que queria saber como a Mirin estava. – o ogro anão riu enigmático, escondendo usa reação com a manga de sua vestimenta.
— Confirmando detecção. Algo está vindo.
No mesmo instante, o pequeno grupo parou e se pôs em alerta. A quietude se prolongava, não oferecendo qualquer alívio. Por terra, nenhum deles percebeu qualquer movimentação suspeita. O Golem, porém, dirigiu seu olhar para o topo das árvores, vendo que nos galhos das árvores que os cercavam estavam sendo ocupados por diversas grandes corujas e, sobre o galho à frente de seu grupo, uma criatura encapuzada estava sentada. Observar detalhes daquele ser era impossível devido ao manto negro que escondia quase que por completo seu corpo, porém, as pontas de afiadas garras eram aparentes ao fim do longo tecido e, com a parcial visão do queixo da criatura e mechas longas de cabelo escuro, era possível dizer que era um ser humanoide. Logo, os outros integrantes do pequeno grupo também notaram a presença desconfortante daqueles indivíduos.
— Oh! Quantas corujas! – gritou a pequena criança em animação.
— Era isso que eu não queria. – Yabashira sussurrou baixo, querendo guardar aquele comentário apenas para si. Porém, ele havia se esquecido de que o Golem tinha uma excelente audição e, se o ogro oriental estava incomodado com isso, não tinha como o Golem não sentir o mesmo.
— Bem-vindos ao nosso lar. – a criatura central os cumprimentou, não movendo nenhum músculo, nem mesmo sua boca. – Vejo que retornaram novamente.
— Sim, senhora Kufu. Viemos visitar Mirin. – Shizuno explicou-se calmo, o oposto da forma em que Yabashira se mostrava.
— Ora... Ela ainda vive entre nós?
A pergunta regada em desprezo fora rapidamente acompanhada pelos grunhidos das corujas. Algo semelhante a risos maldosos. Naquele ponto, até mesmo o pequeno ogro anão se sentiu mal e Somali perdeu seu inocente sorriso.
— No entanto, vocês dois têm permissão de adentrarem nossa morada. Quanto aos outros dois...
Sentindo uma certa hostilidade sendo passada sobre eles, o Golem posicionou-se melhor, caso algo acontecesse. A pequena criança viu a atitude de seu pai e agarrou-se ainda mais nas vestes deste, buscando mais proteção naquele colo.
— Eles cumpriram as regras da floresta. – Shizuno se apressou e tentou conquistar a atenção das criaturas.
— É mesmo? – o indivíduo central pareceu não acreditar.
Em resposta, uma das corujas se pronunciou em bom som. Finalmente, a entidade se moveu, olhando diretamente para a origem do ruído. Ela permaneceu daquela forma por muito tempo e, lentamente, moveu-se para sua postura original.
— Um Golem e uma humana. Que visitantes mais incomuns.
Para a surpresa de todos, a identidade da pequena garota fora facilmente descoberta. Isso os incomodou e vendo o medo no olhar de cada um deles, as corujas começaram a produzir um grave e intenso ruído.
— Se quiserem continuar, deixem o filhote de humano.
— Papai... – Somali abraçou o Golem com força, demonstrando o seu terror.
— Por quê? – Shizuno perguntou confuso.
— Humanos são perigosos. Eles não respeitam nossas leis. Somos os guardiões dessa floresta. É nosso dever prezar pela paz das Bestas das Sombras. Por isso, ela não é uma convidada.
Devido ao timbre rude e sem empatia, os ogros ficaram tensos no mesmo instante. Assim que algumas corujas desceram dos altos galhos e pousaram no chão, o olhar penetrante do Golem demonstrou hostilidade.
— Não vou permitir isso. – alertou o ser enquanto trazia sua criança para mais perto de seu corpo.
— Isso explica o motivo de eu não as ter encontrado mais cedo.
Ao ouvir o pronunciamento de uma vez desconhecida, a atenção de todos caminhou para a direção de origem. As corujas que se encontravam em terra voaram de volta aos galhos altos e devidamente atentos, as criaturas observaram a chegada de outro indivíduo.
— Não há motivos para estar aqui, Mirin. – não dando ao luxo de olhar para o ser recém-chegado, Kufu não deixava de demonstrar desgosto em sua voz.
— Bom, vocês estão ameaçando meus convidados. É óbvio que tenho motivos.
— Até mesmo o humano?
— Todos eles.
Com a tensão imposta, algumas corujas deixaram o local. A criatura humanoide apenas manteve seus olhos alaranjados fixos na imagem da líder daquele grupo de aves, severos e indomáveis. Seu olhar demonstrava que esperava, pacientemente, o próximo passo que seria dado por Kufu. Então, em puro desgosto, um par de asas fortes e de plumagem escura se abriram as costas do ser encapuzado.
— Raposa imunda.
Assim, os seres desapareceram em meio as sombras.
A luz do pôr-do-sol pareceu ganhar vida após a partida dos guardiões. Os feixes de luz atravessavam as copas das árvores e pintavam tudo em tons de castanho, laranja e dourado. Partículas sólidas infestavam o ar, dando densidade a atmosfera e trazendo a agradável sensação de calmaria. Enfim, o silêncio mostrou-se acolhedor.
Ambos os ogros suspiraram em alívio e, sorrindo gentilmente, Shizuno se aproximou da criatura feminina.
— Obrigado, Mirin.
— Ora. Você sabe que não gosto do grupo da Kufu. Estão sempre tentando implicar com os moradores da floresta e com nossos convidados.
— Olá, Mirin. Você nos salvou por muito pouco. – cumprimentou o ogro oriental.
— Há quanto tempo, Yabashira. Me perguntava quando seria a próxima visita de vocês. – amigavelmente, a criatura meio raposa alternou seu olhar gentil entre seus antigos amigos. Contudo, sua atenção se voltou para a presença do grande Golem e da pequena menina em seu braço. – Quem são eles?
— São nossos amigos de viagem. – Shizuno explicou ao olhar para os companheiros. – O Golem é o senhor Golem e a pequena é sua filha, Somali.
A criatura manteve seu olhar manso, mostrando toda a sua gentileza. Ainda assim, o medo permanecia presente, principalmente sobre a criança. E como forma de amenizar aquele estado e erradicá-lo, a criatura sorriu amável.
— Por favor, não tenham medo. Está tudo bem, agora.
Somali olhou para o ser de forma tímida, porém, sorriu inocente ao notar que nada de mal aconteceria. E à medida que se afastava do corpo do Golem, este também voltava a sua postura natural, escondendo seu olho místico.
— Sou Somali e quem é você?
— Olá, pequena Somali. Meu nome é Mirin. – simpática, a criatura riu em graça.
— Você tem a minha gratidão. – oGolem se pronunciou e os olhos atentos do ser metade raposa pousaram intensamente sobre si. – Algum problema?
— Ah... Não. Queria me perdoar. – Mirin riu constrangida, culpando-se por sua atitude deselegante. – Está escurecendo. É melhor irmos andando.
— As corujas não vão mais nos incomodar? – Yabashira perguntou preocupado.
— Elas não quebrarão suas próprias regras. – a raposa afirmou. – Vocês sãos meus convidados e apenas eu posso agir a respeito disso.
— Pelo visto, Kufu ainda não te aceitou.
— Ela não aceita nenhum membro que não for uma coruja também. Ela acredita que outras criaturas não são dignas de proteger a floresta.
— É uma guardiã também? – perguntou o Golem.
— Algo do tipo. – a criatura sorriu gentilmente. – Vamos?
Ao andarem pelo meio das árvores, uma conversa amistosa se iniciava entre os ogros e a raposa. Contavam suas aventuras e matavam a saudade aos poucos. Eles pareciam se divertir muito e até mesmo a pequena humana participou do diálogo. O Golem, por sua vez, apenas se expressava quando era questionado ou quando o assunto atraía sua atenção. Lentamente, a conversa parecia render o início de boas amizades e após muito andar, o pequeno grupo se viu adentrando uma pequena campina, quase como uma clareira. Ali, flores tomavam o chão e atraíam pequenos vagalumes. Havia também um pequeno riacho, trazendo constantemente uma água cristalina. Em meio ao descampado, uma pequena residência ganhava destaque. Era simples, porém, muito bem feita.
Assim que a raposa olhou para a sua residência, esta olhou para o Golem e sorriu.
— Já pode soltá-la. Este pequeno campo não trará nenhum mal a ela.
— Mesmo? – o ser pareceu se questionar.
— Kufu pode não gostar de mim, mas mantêm o respeito que prega. Além disso, a partir do momento em que os acolhi, vocês estão sob minha responsabilidade. E dou permissão para que interajam com a floresta.
— Quer dizer que posso brincar e acariciar os animais? – com a pergunta eufórica e ingênua, Mirin riu doce com a ansiedade da criança.
— Claro que pode. Só tome cuidado, está bem?
— Tudo bem! – assim que o Golem colocou a criança no chão, esta correu pelo campo, rindo e se divertindo com cada local que olhava. – Papai, papai. Tem esquilos andando pela grama.
— Somali, tome cuidado. – ordenou o ser.
— Ela está tão animada. – Shizuno comentou entretido. – Vou atrair eles para que ela possa brincar.
— Mirin, a porta está aberta? Se quiser, posso preparar o jantar.
— Obrigada, Yabashira. Poderia fazer aqueles pestiscos também? – com a pergunta, o ogro oriental sorriu confiante e feliz.
— Sem problema algum.
— Conto com você. – vendo os dois amigos partindo, a criatura voltou seu olhar para o Golem. As írises alaranjadas transmitiam interesse, ao mesmo tempo que pareciam preocupadas. O Golem percebeu a atenção que recebia, mas antes que perguntasse, a raposa se voltou para si. – Senhor Golem, podemos conversar?
Concordando, o ser fora guiado para um local mais reservado, saindo da vista dos amigos.
Sozinhos, Mirin caminhou para perto do riacho e esperou que o Golem lhe acompanhasse, porém, este parou a metros de si. A criatura não o culpou por ser tão cuidadoso. Após o encontro com as corujas, era o mínimo que esperava. Por isso, ela se sentou à beira do córrego e apresentou um lugar ao seu lado.
— Sei que Golens vivem com pouca coisa e que a água é um elemento fundamental. Por favor, sente-se comigo. Quero lhe oferecer forças.
O Golem não se moveu, fazendo com que a raposa já esperasse uma resposta negativa. Mas, para seu espanto, o ser acabou por se aproximar.
Voltando sua atenção para a água, o Golem ficou inerte mais uma vez. Mirin imaginou que este estivesse perdido em pensamentos. Após um tempo, o ser retirou suas vestes e exibiu seu corpo danificado. A imagem, para a raposa, era dolorosa e triste. Desse modo, não pôde deixar de transparecer sua simpatia. Sorria fraco, sem forças, não sabendo o que dizer naquela hora e, na verdade, acreditou que nada deveria ser dito. Assim que o Golem estava despido, ele mergulhou suas pernas nas águas gélida e se sentou às margens. Seu silêncio não foi um incômodo, diferentemente do de Mirin. No fundo, o Golem tinha diversas perguntas, porém, não sabia por onde começar. Os olhos tristes da raposa ainda estavam sobre si, desfocados e sem brilho.
Logo, sua atenção se voltou a correnteza novamente. Por alguma razão, sentia-se mais forte e disposto. Seu movimento despertou Mirin que, com o retorno de seu sorriso gentil, parecia lutar contra uma vontade involuntária de rir.
— Como se sente?
— O que você fez? – o Golem retrucou indiferente.
— Não fiz nada. As águas dessa floresta são as mais puras que você encontrará neste mundo. Tudo por causa de uma Besta das Sombras. Sinceramente, não sabia se seu efeito curativo fosse funcionar com o senhor e estou feliz que meu palpite estava certo.
— Realmente, me sinto renovado. – o ser comentou ao olhar para sua mão e movimentá-la para constatar que o ranger de suas juntas havia diminuído.
— Doí? – a raposa perguntou abatida.
— Golens não sentem dor.
— Eu sei, mas... Como posso dizer? Não te incomoda?
— Não sei dizer. Até alguns dias, eu acreditava que não tinha sentimentos, mas...
— Foi a garota, não? – o Golem se voltou para a criatura.
— Somali disse que tenho emoções.
Com uma risada breve e sem maldade, Mirin atraiu ainda mais a atenção para si.
— Você me lembra muito de um Golem que eu conheci, antes de me mudar para cá. Falam até parecidos.
— Então, é por isso que sabe sobre mim.
— É... Viajei muito antes de encontrar um lugar que eu pudesse ser aceita. Experimentei e vi de tudo. Por isso, sei que você está no seu limite. – a raposa tentou ser mais alegre, mas seu sorriso era carregado em tristeza. – Você sabe quanto tempo ainda tem?
— A informação é incerta. Não consigo estipular um limite.
— Entendo. Por enquanto, aproveite essa fonte.
— Ah, sim. Obrigado.
— Então, era aqui que vocês estavam. – a voz de Shizuno se aproximava aos poucos, fazendo com que Mirin acreditasse que os passos apressados fossem da pequena humana.
Colidindo contra as costas do Golem, a criança carregava um enorme sorriso e ria inocente. A raposa observava a interação em silêncio, não entendendo bem o que sentia exatamente. O ogro anão pareceu notar isso e acabou suspirando entristecido.
— Papai, eu consegui brincar com os esquilos e até apareceu um gato.
— Mesmo? Que bom. Não causou problemas, não é?
— Shizuno deixou, né?
— Sim. Eles eram tão fofinhos.
— E macios... e quentinhos. – a garotinha completou ao rir ingenuamente.
— Yabashira estava chamando. – o ogro anão comentou para Mirin, fazendo com que esta lhe cedesse sua atenção. – Deveríamos entrar?
— Podem ficar mais um tempo. Eu vou ver em que posso ajudar. – a raposa se levantou e sorriu ao amigo. – Se estiver tudo pronto, eu vou chamá-los.
Shizuno acabou assentindo em resposta e, assim, a criatura partiu sem demora.
Somali sentou-se ao lado do Golem e ficou brincando com a água. Obviamente, o ser tentava contê-la para que esta não caísse por acidente ou que molhasse muito suas roupas. O ogro anão, por sua vez, apenas se aproximou e tentou participar da conversa amistosa. Não demorou muito e o pequeno ser perguntou ao Golem, curioso.
— Está melhor?
— Sim. Meu corpo não está mais rangendo e eu estava precisando repor minha água.
— Essa água é muito clara. – Somali observou ao juntar um pouco daquele líquido em suas pequenas mãos e, depois de um tempo, provou-o. – Ah. É meio doce. Que gostoso.
— Cuidado para não cair, Somali. – divertindo-se com a alegria alheia, o pequeno ser olhou para o riacho, com feições indecifráveis.
— Você sabia disso?
— Na verdade, só me lembrei agora. O que eu precisava pegar com a Mirin era algumas raízes que só existem aqui.
— Sua amiga é estranha. – o Golem comentou sem medir suas palavras, o que não foi uma ofensa para o outro.
— Acho que isso era de se esperar. – a criatura riu.
— Ela é má, papai? – a humana perguntou.
— Não, ela não é má.
— O que seu pai está tentando dizer é que Mirin é diferente dos outros.
— Mas por quê?
E antes que pudesse responder, o grito de Yabashira exigiu a atenção de todos. Ele estava anunciando que o jantar estava pronto e, sem perder tempo, o pequeno grupo se arrumou para irem rumo a cabana.
Assim como por fora, o interior casebre era simples, porém, muito bem organizado e decorado. Ali haviam, em especial, muitas frutas e almofadas, fazendo com que toda a moradia tivesse um cheiro doce e naturalmente refrescante. Um lugar em específico chamou a atenção dos recém-chegados. Uma mesa baixa já arrumada para a refeição. Como assentos, os travesseiros estavam posicionados para trazer mais conforto. Logo, a anfitriã chegou ao recinto com uma pequena cesta com doces preparadas pelo ogro oriental. Algo que esta sempre pedia quando o amigo a visitava. E com todos presentes, eles se juntaram a mesa e iniciaram a refeição.
O momento foi descontraído e agradável. As risadas e feições contentes tomavam o ambiente e construía a segurança que o Golem estava buscando. Finalmente, havia abaixado a guarda e, para a sua própria surpresa, passou a se divertir com a animada conversa. Nisso, adquiriu novos conhecimentos. Desde sobre como era a região ao redor da floresta e até mesmo de seus habitantes.
Pelo relato da raposa, aquela floresta era única e com suas próprias normas. Muito mais severas e que eram levadas a sério. Principalmente, pelas corujas. Desde que as Bestas das Sombras passaram a viver naquela mata, há milênios, o primeiro povo a ser aceito naquele local foram as criaturas aladas. Elas eram como filhos daqueles poderosos seres e tinham extremo orgulho de sua função. Por isso, geralmente eram hostis com outras raças, em especial aos indivíduos que eram aceitos por uma Besta.
— E com essa aceitação, você pode morar aqui. – concluiu o Golem.
— Sim. A aceitação é como o reconhecimento. Aos olhos das Bestas, eu e as corujas somos iguais. Somos filhos e guardiões dessa floresta.
— Por isso, Kufu tem tantos ciúmes. – observou Yabashira, fazendo com que a raposa risse sem graça.
— Como está a Somali? – perguntou Shizuno ao tentar olhar para atrás de Mirin.
No mesmo instante, todos fizeram o mesmo. A pequena menina dormia abraçada a causa grande e felpuda de cor dourada da anfitriã. Até poucos minutos atrás, a humana havia pedido para tocar no membro da raposa e esta não negou. Agora, ao notar o rosto adormecido, as bochechas se encontravam rubras e um bobo sorriso delineava sua boca. Ver aquela visão fez com que Mirin sorrisse gentil, levanto sua mão para acariciar os cabelos à mostra.
— É melhor ajeitá-la no colchão. – Yabashira se voluntariou e tomou a criança no colo.
— Obrigado. – oGolem agradeceu ao ato e, como resposta, acabou por receber um sorriso caloroso do ogro oriental, em sinal que estava tudo bem.
Com a saída da criança e do indivíduo, a raposa ajeitou os longos cabelos dourados, junto das orelhas pontudas e de mesma e dos delicados bigodes em suas bochechas. Em primeiro momento, sua atitude fora vista com naturalidade por ambos os presentes, contudo, logo pôde-se notar seu receio e preocupação. Shizuno imaginou o motivo e olhando para sua xícara de chá, acabou por suspirar.
— Somali é uma boa garota, Mirin. Não se preocupe.
Olhando para o amigo, a raposa segurou um delicado riso, movimentando apenas os ombros e não deixando nenhum ruído escapar.
— Eu sei bem disso, Shizuno. Na verdade, nunca tive nada contra os humanos, mesmo depois daquele incidente.
— Incidente? Você sabe onde os humanos moram? – o Golem perguntou interessado, mas o olhar melancólico da criatura anfitriã o fez entender que o assunto não era agradável. Mirin mostrou-se abatida, como se mergulhasse em lembranças ruins.
— É isso o que busca?
— Meu objetivo é entregar Somali aos humanos. É onde ela pertence e estará segura com eles.
— “Segura”? – novamente, a raposa riu, mas não conseguiu evitar que sua atitude demonstrasse mais apatia do que contentamento. – Os humanos não estão mais seguros, senhor Golem. Infelizmente, não há lugar nesse mundo para eles... E isso é resultado de ambos os lados. Culpa de nós, criaturas, e deles. Mesmo assim, admiro sua atitude. O senhor é muito gentil.
— Por que você diz isso?
— Se não fosse, não estaria cuidado da criança, estou certa? Golens são imparciais com outros seres, não criando vínculos ou favoritismo. Sei que defendem a ordem da floresta, mas, diferente do que acreditam, vocês têm um coração... Só nunca aprenderam a usá-lo.
— Aprendeu isso como aquele outro Golem?
— É... Morei em sua floresta por muito... muito tempo. Tivemos tempo para aprender um com o outro. Sabe... Minha raça é considerada amaldiçoada. Por diversos aspectos, todos tem medo e nos evitam. Raramente procriamos, vivemos mais do que qualquer outra criatura e se perdemos o controle, trazemos caos por onde quer que passamos. Busquei muitos lares. Como na aldeia de Shizuno, em florestas, comunidades pequenas e grandes... Até mesmo, com os humanos.
Shizuno abaixou sua cabeça, não querendo se lembrar daquele passado. Sua ação acabou por chamar a atenção da anfitriã que, com calmas expressões, tentou transmitir paz.
— Está tudo bem agora, Shizuno.
— Mas eu me lembro de como você ficou, Mirin. Não posso, simplesmente, esquecer isso, mesmo depois de tentar tanto.
— Eles fizeram algo com você? – O Golem perguntou sem entender. Os olhos da raposa caíram sobre ele e, suspirando baixo, a criatura deixou claro que a informação era muito dolorosa para si.
— É... Minha raça consegue mudar de forma e me transformei em uma humana para viver em uma pequena comunidade que estava muito bem escondida. Em primeiro momento, tudo estava indo bem, mas, depois de alguns meses, houve um ataque. Eu os defendi, obviamente, mas acabaram descobrindo quem eu realmente era. Após isso, eles me prenderam e me ridicularizaram. Não os impedi disso, mas doeu... Doeu ser tratada daquela forma, mesmo depois de tê-los salvado. Achei que me aceitariam, mas foi muita inocência da minha parte.
— Humanos tem medo de tudo. São criaturas que abominam o desconhecido.
— De fato. – a raposa concordou com o Golem. – Eu sei disso e, até mesmo, entendo o ponto deles. Em comparação a nós, os humanos são muito mais fracos. Sua força está no trabalho em conjunto, mas que pode ser facilmente superado. E você sabe o que animais fracos fazem ao verem que não estão no controle. Fogem ou lutam. Mesmo assim, eles poderiam ser mais compreensivos. Muitos de nós aceitaríamos suas diferenças e suas fraquezas. Mas, no fim, depois da guerra, será que os humanos estavam tão errados em relação a nós?
— Onde você quer chegar?
— Eles pregaram que somos monstros grotescos, aberrações assustadoras. Que nós queríamos apenas devorá-los até os ossos e extinguir sua raça. Não foi exatamente isso o que aconteceu?
— Mas eles começaram. – Shizuno afirmou.
— É... Mas nós cedemos, não é? – a raposa respirou fundo. – Se tivéssemos apenas delimitado nossos territórios e nunca mais interagido com eles, não precisaríamos ter chegado a esse ponto. Muitos de nós adoram dizer que somos superiores aos humanos, mas nos tornamos exatamente o que eles pregavam. Nós os caçamos, nos divertimos com isso e consumimos sua carne. Hoje, humanos são sinônimo de comida para nós. Onde isso é ser superior?
Shizuno mostrou-se surpreso com a conclusão da amiga e, envergonhado, não conseguiu não concordar com aquele raciocínio. Ele tinha visto isso pessoalmente nas minas, quando um grupo de mercenários os atacou para devorarem Somali. Não havia sentido... A criança era inocente, por mais que seus ancestrais erraram com eles.
Realmente, não havia lado certo ou errado... Todos tinham se perdido para o que eles eram no fundo.
— Bom... Eu não sei dizer se ainda há humanos lá, mas seguindo para o norte e cruzando as montanhas, há uma pequena floresta, seguida de campos remotos e silenciosos. Eu vi uma pequena comunidade humana morando por lá, já que é um local de pouco acesso. Mas isso foi há 200 anos atrás... Muito antes de eu sequer conhecer Shizuno e Yabashira. Não é a mesma vila que eu tentei morar. Por isso, não posso garantir nada, senhor Golem. Peço desculpas por não conseguir ajudar como eu gostaria.
— Não se preocupe. Já sou grato com essa informação. – ao ouvir isso, Mirin sorriu mais alegre.
— Se precisarem de abrigo, estou disposta a acolhê-los novamente. Vocês sempre serão bem-vindos.
Movendo-se muito pouco, o Golem continuou a encarar a criatura, parecendo surpreso. De alguma forma, o clima pareceu ficar mais leve.
— Obrigado...
— Oh... O que vocês estão conversando? – Yabashira surgiu das escadas com seu ânimo característico, fazendo Shizuno rir e sendo seguindo por Mirin.
— Ora... Está curioso, Yabashira? – provocou o curandeiro.
— É claro que estou. – o ogro oriental confessou, juntando-se aos outros naquela baixa mesa.
Após a reunião, a conversa se estendeu por mais algum tempo. Logo, os ogros se despediram para irem dormir e o Golem aproveitou a deixa para se acomodar na sala espaçosa da casa. O quarto de Mirin não conseguiria abrigá-lo, sendo que os outros três estavam ocupando todo o espaço. A raposa lhe ofereceu mais almofadas e cobertores, tendo o agradecimento do ser. Após isso, a anfitriã lavou a louça e preparou-se para sair, o que chamou a atenção do Golem.
— Onde vai?
— Caminhar um pouco. Eu costumo fazer isso quando não estou com sono.
— Desculpe pelo incômodo.
— Não. Não é nada disso. Isso acontece com frequência. – a raposa sorriu gentil. – Vou também providenciar um caminho seguro para vocês atravessarem a floresta.
— Isso seria de grande ajuda. Muito obrigado.
— Não há de quê... Tenha um bom descanso.
— Tudo bem.
Mirin, mesmo após dizer aquelas palavras, permaneceu onde estava. Ela esperou pacientemente, olhando para o Golem imóvel. Apesar de não ter uma confirmação física de que este havia adormecido, a raposa apenas sabia por instinto. Com grande zelo, a criatura se aproximou e ajustou as cobertas sobre o ser. Ela tinha ciência de que Golens não sentiam frio ou calor, mas acabou não conseguindo evitar de fazer aquele pequeno ato. Sorrindo carinhosa, Mirin se dirigiu para a porta de sua casa e respirou fundo. Haviam tarefas a serem feitas e estava contente por conseguir, ao menos, realizar esses serviços em prol aos seus novos amigos.
E, silenciosamente, a raposa partiu em meio a escuridão da floresta.
Notas finais
Caros leitores de todas as idades. Gostaria que, humildemente, deixassem uma palavra a esta escritora que aqui vos escreve. Não é pedir muito um simplório comentário para dar a luz que um escritor necessita.
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