Fugindo do Destino
2 A Escolha
Notas iniciais
– Sim, o que eles estão fazendo é um absurdo, mas- — Ele havia pegado meu celular, o que me surpreendeu muito.
– Michiko-chan, não acha uma falta de respeito fugir sem dizer nada aos seus pais? Eles estão muito preocupados. — O tom seco e sem sentimentos com que ele dizia essas palavras me dava nojo, e eu me segurei para não lhe cuspir na cara.
Me puxando pelo braço, Kyo me forçou a olhar-lhe nos olhos. Seus olhos castanhos que nunca pareciam demonstrar o que ele sentia, como se ele fosse um boneco.
– Yoshida... — Disse com um tom de ódio. Eu não gostava muito dele.
Ele percebeu como estava irritada. Kyo suspirou.
– Vou te fazer um favor, por uma vez na sua vida. Você pode ir embora, mas em troca... vai prometer que vai se casar comigo, como seus pais querem tanto. — Ele sorriu.
A proposta era maliciosa da parte dele, mas eu queria tanto sair dali sem ter que ver meus pais, que eu aceitei imediatamente.
– Ok... — Olhei para baixo, nervosa com a situação que me encontrava no momento. Práticamente entre a espada e a parede.
Senti seu olhar sobre mim, e como ele soltava meu braço sem nenhuma delicadeza.
– Boa garota. — Ele disse me devolvendo o celular e indo embora.
Esperei até que seus passos eram inauditíveis para que levantasse minha cabeça. Quando olhei para meu celular, percebi que ainda estava na ligação.
– Fuyu-chan... você ouviu tudo, não é? — Estava preocupada, aquela proposta era perigosa e eu sabia disso.
Ouvi como ela engoliu a seco e então me respondeu.
– Michy-chan, você está se metendo em uma situação mais complicada... — Ela conhecia Kyo desde a infância, como eu.
Ele era um garoto muito bom, e eu amava ele até que meus pais propuseram o casamento. Desde então, ele ficou tão obsecado que já não sentia nada. O único objetivo dele era agradar meus pais.
– Eu sei, mas... eu realmente não queria ser aprisionada. Você sabe o que houve da última vez. — Lhe lembrei da primeira vez que fugi e fui proibida de sair de casa. Nas férias.
– Sim, e você não vai poder se esconder aqui de novo. É um esconderijo muito óbvio, do meu ponto de vista. — Fuyu deu sua opinião e eu concordei.
– Realmente, eu deveria alugar um apartamento, se é para me esconder assim... — Pensei e pensei, mas não carregava dinheiro comigo e não conhecia ninguém que poderia me ajudar naquela hora.
Suspirei profundamente. Estava totalmente sozinha naquela hora, não podia confiar em ninguém além de Fuyu, já que todos os outros poderiam estar trabalhando para meus pais. Eu não era rica, mas meus pais gastavam até demais com pessoas para me trazer para casa quando eu fugia.
Me levantei do banco do parque e me despedi de Fuyu.
– Fuyu-chan, eu vou achar uma forma de me esconder. E vou te ligar assim que estiver em um lugar seguro. — Lhe prometi.
– Claro, se cuide Michy-chan! E cuidado com o Kyo-kun! — Eu achava estranho como ela ainda era tão carinhosa com ele apesar de tudo que ele fez para nós duas depois que mudou completamente.
– Eu desliguei e coloquei o celular no meu bolso. Olhei para os lados. Para onde me dirigiria agora, sozinha?
Decidi caminhar na direção oposta a de onde vim, e procurar algum lugar em que poderia trabalhar para conseguir dinheiro. Seria uma longa jornada...
Fui em diversas lojas em que se precisava de trabalho, mas nenhuma me aceitou. Todas tinham critérios como “Ser maior de idade” ou “Ser experiente”. Meu deus, como alguém consegue trabalho pela primeira vez se sempre se deve ser experiente? Me perguntava.
Uma senhora então me recomendou um jovem que precisava de ajuda cuidando de sua irmã. “Ótimo, um trabalho como babá”. Ela também disse que ele oferecia moradia junto com o emprego. Perfeito!
Na direção que ela me deu, observei como o prédio era alto. Olhei para os botões perto da porta, e apertei o do lado do que dizia “4A”. Demoraram um pouco, mas no final atenderam.
– Hmm, Quem é? — Ouvi uma voz infantil do outro lado. Deveria ser a irmã que eu teria que cuidar.
– É uma garota que quer falar com seu irmão. Ele está aí? — Disse tentando soar gentil. Queria causar uma boa impressão para ela.
– Não, o Onii-chan disse que já viria. — Ela me respondeu, soando um pouco solitária.
Eu então pensei um pouco no que dizer para ela.
– Ah, entendo. Voltarei mais tarde então. — Falei e ouvi ela ir para longe do interfone.
Suspirei um pouco triste. No final não iria achar um trabalho nem um lugar para ficar, não é?
Percebi como o céu estava alaranjado, anunciando o final da tarde. Já estava muito tarde para ficar na rua, e ainda não havia encontrado um lugar.
Decidi sair de lá, até que vi Takeshi vindo. Eu fiquei surpresa, o quê ele estava fazendo ali?
– Satou-san! — Eu corri em sua direção ao dizer isso. Vi a cara de surpresa dele ao me ver.
Parei na frente dele, e Takeshi demorou alguns segundos para reacionar.
– Inoue-san, o quê faz aqui? Não disse que seus pais estavam preocupados? — Ele me lembrou da mentira que havia lhe dito.
Eu fiquei um pouco triste e, como sempre faço quando confesso que menti sobre algo, eu olhei para baixo e coloquei minhas mãos atrás das minhas costas.
– Eu sinto muito por mentir para você, Satou-san, mas.. eu tenho um grande problema. Eu preciso de um lugar para morar e um emprego por um tempo... é uma longa história. — Lhe olhei nos olhos para mostrar como estava sendo sincera para ele.
Ele então tocou no meu cabelo como fez antes de ir embora anteriormente.
– Está tudo bem, as vezes se deve mentir pelo bem das pessoas. E é uma coincidência, eu moro aqui nesse prédio – O moreno apontou para o prédio em que a garota morava com seu irmão – e preciso de ajuda com a Natsumi, minha irmã. Você me ajudaria? — Takeshi sorriu para mim.
Meus olhos brilharam ao ouvir o que ele me disse. Como era possível tal coincidência?
– E-eu … — Estava chocada por um instante. — Claro! Eu adoraria! — Sorri, mostrando todo o meu agradecimento com meu olhar.
Entramos no prédio pela porta de entrada, e eu observei cada canto daquele lugar. Havia uma planta do lado da porta, e tinha cara de ter sido muito bem cuidada.
Os corredores eram bem limpos e tinham alguns quadros pendurados na parede. Observei um quadro que mostrava o que parecia ser uma mulher com um rosto que demonstrava tristeza, e seu amor em seus braços, morto. Era uma cena um pouco dramática, mas os tons de negro na paisagem faziam com que aquela pintura tocasse o coração de quem a visse. Era extraordinário.
– Esse quadro é demais, não acha? — Percebi que o moreno estava do meu lado, olhando para a pintura. Lhe olhei e vi seu leve sorriso.
Fitei o quadro novamente, e dessa vez me dei conta que havia uma pequena caixa de música do lado da mulher e seu amado. Ela tinha formato de concha, e dentro havia uma boneca bailarina. Mas a boneca parecia estar rindo, rindo da desgraça daquela jovem. Eu me aterrorizei.
– Sim, me dá até arrepios só de olhar... — Olhei para onde Takeshi deveria estar, mas nenhum sinal dele. Já assustada por causa da boneca, agora estava entrando em pânico – S-..Satou-san?
Continua...
Fale com o autor