Fugindo da Realidade

22 É assim que tem que ser. Cap 22


Sophia

Aqui é escuro, se não fosse pela única minúscula janela não dava para saber se era dia ou noite, um policial me observa, com olhar de desprezo. Na sala só tem uma mesa e duas cadeiras meia rústica e fico pensando qual a última vez que limpara isso, uma cadeira de frente para a outra, parece aquelas salas de filme policial mesmo, meu pai chega.

– Ai meu deus, filha. – Diz ele me abraçando

– Sem contato. – O policial fala rígido.

Sentamos e ainda não sei onde esta conversa vai chegar.

– Desculpa Sophia. – Ele começa.

– O que aconteceu com minha mãe ? – Interrompo

– Eu não sei

– Ate quando vai mentir ? Achou que conseguiria me enganar esse tempo todo ? Você deve achar que eu sou burra não é ? Você fez da minha vida uma mentira ! – Gritei, jogando tudo pra fora, todas as minhas magoas.

– CALMA ! – O policial me interrompeu.

Meu pai olhava para mim chorando, eu apenas o encarava.

– Sophia você não iria entender.

– Sophia você não iria entender, Sophia você é muito nova, Sophia é para o seu bem, bla bla bla – falei. – O que aconteceu com minha mãe ?

– Nós estávamos muito envolvidos, não tínhamos grana, acho que sua vó já contou isso, mas os bandidos estavam nos ameaçando de pegar você, no dia do seu aniversário, eles queriam ou o dinheiro, ou um refém, sabe-se lá para que eles queriam, e queriam pegar você. Sua mãe se sacrificou, sacrificou por você. Ela deu a vida dela para você continuar viva no dia do seu aniversário, esse era o presente.

Não acredito, minha mãe morreu para me salvar, mas ela me deixou, sozinha, eu não estou conseguindo pensar, queria correr, mas estava parada com um policial me olhando e meu pai chorando.

– Eu iria contar a você, mas não sabia como, não queria arruinar sua vida ou você pensar mal de mim, então menti e menti e depois tudo virou uma grande mentira que foi só aumentando, e agora estou aqui, preso e você sozinha.

– Eu vou para capital com minha avó.

– O que ?

– Vou morar com minha vó na capital

– NÃO, ela te abandonou, eu fiquei com você, EU.

– Ela só não queria participar dessa grande mentira, eu não quero viver visitando meu pai atrás das grades, é difícil, mas minha vó está morrendo, eu vou ficar com ela. – Tenho uma decisão. Seria melhor, para todos.

Meu pai fica olhando para a janela e chorando, não sei como ele iria ficar os dias na cadeia, mas ele tem a família dele, eu queria odiar ele, odiar por ele mentir para mim todos esse anos, bem, eu o odeio, um pouco, mas também o amo. E amo minha mãe profundamente, tento entender ela, se fosse eu faria o mesmo.

– Ok, mas não me abandone. Eu te amo Sophia.

– Eu te amo, pai.

John

Acho que a Sophia me perdoo, eu ajudei ela e vou continuar ajudando, só queria protegê-la. Ligo para ela.

– Sophia ?

– Oi John.

– Você está bem ?

– Seria mentira se eu falasse que sim.

– Como foi ?

– Não sei, preciso de um tempo, vou morar na capital com minha avó.

– Acho que o tempo sempre cura.

– Acho que o tempo não cura, apenas melhora, é como um arranhão, com o tempo vai parar de doer, mas a cicatriz vai continuar lá.

– Nossa, filosofou agora.

– HAHAHAHA, Eu te amo John

– Eu também te amo Sophia.

Depois que entrei no VirtualWord, parecia mais um plano de fuga, para as pessoas não olharem pra mim, não saberem quem sou ou o que vivi, está no passado, todas as coisas ruins, mas o passado não me atormenta, bem, não mais. O passado agora me dar forças para continuar vivendo. Fiz várias escolhas erradas e tiveram consequências, ainda vou fazer várias e várias escolhas erradas, mas não ligo. Agora quero viver cada dia como se fosse o último, aproveitar porque não se sabe o que aconteceria depois. Como a Sophia disse os arranhões que eu fazia em mim mesmo com um tempo vai parar de doer, mas a cicatriz vai continuar lá. Não me orgulho disso, mas não sinto mais vergonha. Não foi o certo fazer isso comigo mesmo, eu poderia não está aqui.

Já pensei em desistir, várias vezes. Mas desistir não é mais uma possibilidade, qual o sentido de desistir ? É como se você estivesse fugindo.

Meus pais chegam, me abraçam e me levam de volta para casa, olho pela janela todas aquelas pessoas vivendo suas vidas, como este mundo é lindo, e feio. Mas é assim, não tem sentido, nem definição é apenas assim e assim é o suficiente.