Fruto do Nosso Amor
62 Alguém Precisa Protegê-la.
Notas iniciais
POV. Tirian.
O chão continuava a tremer em intervalos cada vez menores e com consequências piores ainda mais. Já devia ser por volta das duas horas quando mais um violento tremor sacudiu Nárnia. Rachaduras trincaram o chão e delas saia um ar quente, escaldante.
As ondas estavam mais ferozes, chegavam a invadir o pátio pelas falhas do muro arrastando consigo outras partes da parede e as armas e corpos que encontrava no seu caminho. Eu estava nas proximidades daquela mesma falha quando a primeira onda invadiu. Fui jogado com força para frente, perdendo o fôlego e senti-me ser puxado pela água para o mar. Consegui agarrar-me às bases do muro não sendo levado como vários outros foram.
Recuperei o ar alguns segundos depois tratando de sair daquela área. Já estava cansado, mas ainda tínhamos uma batalha para vencer.
POV. Pedro.
Os arqueiros continuavam incansáveis com seus tiros. O fogo continuava a consumir tudo o que estava nas masmorras, agora em silêncio. Já fazia algum tempo que os gritos tinham cessado.
Desde o primeiro tremor de terra, não encontrei com Aller de novo. Que Aslam me perdoe se eu estiver errado, mas anseio do fundo do meu ser ver Aller agonizar lentamente. Era o mínimo que ele merecia. Ninguém pode sequer supor o ódio que explodiu em mim quando Lilliandil contou que a agressão a qual Rany foi submetida por ele nos rendeu a notícia da gravidez quando esta foi violentamente interrompida. Poupei Rany da notícia. Não sei se fiz certo, mas com o início da batalha tão perto, achei que ela precisava estar emocionalmente bem. Espero ter agido certo.
Vi Tirian erguendo-se, encharcado, quando passei correndo. Avistara Aller lutando próximo ao portão, de costas para mim, soube exatamente para onde ir. Apesar de ter o elemento surpresa, minha consciência não me permitiria atacá-lo pela retaguarda. Quando o alcancei, o atingi fortemente com o escudo. Aller cambaleou para o lado e o fauno com quem lutava o deixou livre para mim.
Ele lançou-me um olhar com certa impaciência enquanto eu lhe dirigia outro, farto de ter que olhá-lo vivo e ansioso para terminar logo com aquilo. Dessa vez eu não o perderia de vista.
POV. Caspian.
Recuei com o impacto de seu escudo contra meu rosto. Quase caí ao tropeçar num corpo, mas consegui manter o equilíbrio para contra-atacar. Com o gosto de sangue na boca, já me sentia exausto. Miraz também demonstrava estar, mas jamais se renderia. Nenhum de nós se renderia.
Respirando irregularmente, posicionei minha espada outra vez. Miraz, com o braço sangrando e feridas no corpo, parecia bem mais cansado.
–Não chegaremos a lugar algum com isso! Renda-se de uma vez! — gritou, os cortes em seu rosto estavam escurecidos pelo sangue seco misturado ao suor. Eu sentia a dor de um golpe na panturrilha esquerda, fios de cabelo grudavam ao suor do meu rosto, o cansaço me dominava, mas Nárnia dependia desse esforço, minha família inteira precisava que eu lutasse até a vitória. Encarei-o mais uma vez para então responder-lhe com o mesmo tom. O chão tremeu.
–Vossa Majestade precisa de um tempo? — debochei logo avançando contra ele.
Miraz defendeu-se com o escudo apressadamente para evitar todos os golpes seguidos com os quais o ataquei, mas com seus braços ocupados e sua guarda baixa, acertei-o no rosto, repetindo o gesto rapidamente várias vezes. Ele recuou, um pouco tonto. Outro forte tremor. Naquele momento, senti um vento forte começar a soprar seguido de um raio, e outro. A neve que estava no chão agitou-se pelo ar a nossa volta, levadas pelo vento que parecia vir de todos os lados e girar em torno de nós cada vez mais forte. A tempestade de raios se intensificou, mas haviam pouquíssimas nuvens no céu. Num relance, vi que Tarva e Alambil não eram mais os únicos a brilharem no céu escuro, aos poucos outros pontos brilhantes começavam a salpicar a escuridão acima de nossas cabeças.
Ataquei Miraz outra vez decidido a acabar logo com aquilo, encurralei-o contra o mar agitado ainda mais pelo vento do lado de fora dos muros. Ele golpeou-me quando percebeu para onde eu o estava levando, embora ainda numa distância relativamente segura. Nossas lâminas se cruzavam ferozmente causando sonoros ruídos metálicos, consegui fazê-lo baixar a defesa, forçando sua espada para o lado. Ele tentava reagir, como numa queda de braço.
–Deixe de ser estúpido, Caspian! Desista desse seu heroísmo idiota! — rosnou ele, quando nossos pés foram molhados pela água da onda que invadira o pátio, esticando-se até ali. — Não percebe o quanto isto é inútil?! Olhe em volta! Vocês estão perdendo!
Só então dei-me conta do entorno, como um choque. Pedro lutava contra Aller nas proximidades do portão, Aller o derrubou. Nas escadas, Digory juntava forças a Franco, Cor, Corin e mais soldados para bloquear a passagem. Mais ao centro, Edmundo era o único que não demonstrava cansaço e agilmente matou dois soldados inimigos de uma só vez. Nosso exército inteiro estava trabalhando, e estava sendo dizimado. Encarei Miraz.
–Seu filho salvará, Nárnia? O que fará? É apenas um bebê e nós temos um exército inteiro lá fora! É inútil continuar lutando por ele!Nárnia é nossa, já vencemos!
Mais outro rápido tremor sacudiu o chão fazendo Miraz, que estava mais inclinado sobre o piso, cair. No mesmo instante pousei minha espada em seu pescoço.
–Seu exército não é nada. Enquanto houver um de nós de pé, lutaremos contra ele e venceremos. — respondi ofegante, fazendo uma breve pausa. — Eu avisei, Miraz. Você tinha razão em temer o bosque.
Com um urro de triunfo ergui a espada e dei o golpe fatal. Com um som vazio, a cabeça de Miraz rolou.
Arfando, olhei em volta. O pátio de Cair Parável estava coberto de corpos e destroços, o vento acentuava ainda mais o frio. Restavam pouquíssimos de nós. À base das escadas, Macaco e André conseguiam penetrar a barreira contra a qual investia junto com alguns dos seus soldados. Corri para lá percebendo que Edmundo fazia o mesmo. Lutando contra Digory e Franco, eles não perceberam quando nos jogamos contra eles, afastando-os das escadas. Os outros passaram a cuidar dos soldados que tentavam subir.
Nós quatro rolamos pelo chão voltando a ficar de pé num salto, perto das chamas. André parecia realmente frustrado. Um outro tremor balançou Nárnia inteira. O mar invadiu o pátio de novo levando consigo alguns corpos e mais um pedaço do muro. Parte do chão cedeu abrindo uma grande cratera que engoliu parte da escadaria na qual estavam Corin e Franco. Eles caíram. Aproveitando, uma porção de soldados inimigos empurram os nossos para a cratera, conseguindo subir os degraus e correr rumo à Susana.
–Não! — protestei baixo. Ninguém foi atrás, os soldados que estavam com Rilian teriam que dar conta destes.
–Se me derem licença, meus caros, existe um alguém aguardando por nós. — Macaco trouxe a atenção de volta. Edmundo e eu os encaramos, minha voz soou decidida e sombria.
–Vocês não vão a lugar algum.
POV. Lúcia.
Estávamos ali há horas, não avançávamos em quase nada. E a expressão preocupante de Lilliandil dizia que Susana estava certa: havia alguma coisa errada, ainda não estava na hora de nascer. Pela primeira vez naquela noite, eu estava começando a temer. Susana arfava, os cabelos grudavam-lhe no suor da face da mesma forma que a roupa lhe grudava no corpo.
–Vamos, Su, mais uma vez, força!
Susana curvou-se para frente mais uma vez, apertando minha mão e soltando mais um forte um forte grito de dor. O chão tremeu mais uma vez e Rany e eu trocamos um olhar. Por uma razão que desconhecíamos, o chão sempre tremia quando Susana começava a gritar e o tremor durava o mesmo tempo que o grito, a mesma intensidade. Algo muito grande estava acontecendo.
–Lillian... — suplicou Susana quase sem forças. — Lillian... Me diga que está tudo bem, por Aslam, me... AAAH! — foi interrompida pelo próprio grito outra vez. Outro tremor. Com a respiração ainda mais irregular, vi lágrimas rolarem dos olhos dela. — Lillian!
–Vai ficar tudo bem, Su. — assegurou. Com um breve e singelo sorriso. Sorriso que não alcançou seus olhos. — Vai ficar tudo bem.
Susana ofegava aceleradamente da forma que Lilliandil orientara. Seu rosto se contorceu de dor novamente e Susana voltou a se curvar para a frente empurrando mais uma vez. O forte tremor que se seguiu não me surpreendeu. O que veio a seguir, sim, quase tirou meu chão.
Senti o aperto de Susana em minha mão diminuir e preparei-me para apoiá-la quando percebi que seu aperto estava frouxo demais e seu corpo mais pesado que antes. Assombrada, tentei sustentá-la. Uma ventania invadiu o quarto. Susana desfalecera.
–Por Aslam, Susana! — tentei me manter calma e não pensar no pior.
–Lilliandil! — clamou Rany. A estrela já havia corrido para a mesa atrás de um de seus frascos.
–Susana! — tentei chamá-la, mas minha irmã não respondeu.
Susana Pevensie eu não permito que nos deixe desse jeito!
Lutei para conter as lágrimas. Lilliandil voltou, abrindo caminho por Rany.
–Ela deve ter desmaiado de dor. — comentou, sendo logo silenciada por um ruído vindo do lado de fora. Eram passos. Muitos passos, seguido de uma agitação.
–Soldados inimigos! — gritou alguém.
–Não deixem que alcancem os aposentos da Rainha! — ouvi a voz de Rilian.
–Pela Juba do Leão! — lamentou Rany.
–Há soldados lá fora – acalmei, tentando afastar a possibilidade de meus irmãos mortos. — Eles vão nos proteger. — o som da luta veio lá de fora.
Lilliandil apressou-se e pôs o frasco aberto abaixo do nariz de Susana para que sentisse o cheiro forte. Ela levou algum tempo para tornar a si. Algo chocou-se contra as portas do quarto e depois caiu ao chão. Com o coração aos pulos, tomei uma decisão.
Deitei Susana com cuidado na cama.
–Cuidem dela. — falei, pondo-me de pé. Rany e Lillian olharam-me aflitas. — Alguém precisa protegê-la se eles conseguirem entrar.
Lilliandil ia falar algo, mas Susana começou a tornar a si e houve outro baque contra a porta. Desembainhei a espada segurando-a com força.
Aslam, nos ajude.
Aguardamos alguns segundos, apreensivas, ouvindo o som da luta e os baques insistentes. Não precisou de muito mais esforço para que a porta abrisse num estrondo. Vi Rilian lutando mais ao fundo, mas minha atenção logo focou-se no soldado que abriu a porta. Seus olhos fixaram-se na cama o que me fez surpreendê-lo com meus golpes. Fui rápida e minha espada logo atravessou-lhe o peito.
Avancei para o lado de fora enquanto Susana lentamente tornava a si. Haviam narnianos e rivais caídos ao chão. Confrontei os que viam a porta aberta e tentavam entrar, mantando-os rapidamente. Ninguém passaria da porta.
Chutei um para fora e avancei um passo para ferir-lhe fatalmente com a espada, ele caiu morto. Lutei com os seguintes. Aos poucos, fomos vencendo aquele grupo. Durante a luta, mesmo tentando evitar, fui levada para o corredor. Senti quando alguém segurou-me os ombros por trás e com força jogou-me para o lado.
–Oh! — gemi ao chocar-me contra a parede, batendo a cabeça.
Recuperei o equilíbrio a tempo de esquivar-me por reflexo do golpe certeiro que vinha em minha direção. Sua espada golpeou a parede e eu o contornei atacando-lhe por trás, sentindo algo quente escorrendo pela lateral de meu rosto. Ele acertou-me com o cotovelo na face, fazendo o rasgo das garras voltarem a sangrar.
Não deixei que isso me impedisse e contra-ataquei. Ele era muito mais forte que os outros e a única coisa que consegui depois de um tempo foi tentar me defender. Até que ele começou a avançar fazendo-me andar para trás. Tropeçando num corpo, não consegui manter o equilíbrio e caí de costas ao mesmo tempo que ele golpeou. Com o coração aos saltos, vi meu fim bem perto.
Mas de repente, outra espada se colocou no caminho, bloqueando o golpe de meu adversário a poucos centímetros do meu rosto. Rilian impulsionou a espada inimiga para longe de mim e assumiu a luta que terminou assim que Rilian o degolou.
Não havia mais nenhum inimigo vivo e apenas um punhado de narnianos ainda respirava. Se outra quantidade daquela de soldados conseguissem nos alcançar, estaríamos perdidos.
Num rápido movimento, Rilian, ainda ofegante, pegou-me pela mão, ajudou-me a levantar de uma só vez e antes que eu pudesse agradecer, senti seu braço livre passar por minha cintura e puxar-me contra si. Choquei-me contra sua armadura quase ao mesmo tempo que senti a pressão de seus lábios macios e quentes contra os meus num beijo urgente. Desfazendo-o com um estalo, Rilian ainda manteve-me com o corpo colado ao seu. Podia sentir sua respiração ofegante contra meu rosto.
–Acho que precisam de você lá dentro. — olhava-me profundamente nos olhos. — Fique atenta à porta. — pediu. Assenti antes de beijá-lo brevemente.
Caminhei de volta ao quarto com o coração acelerado. Alcançando a porta, mas ainda do lado de fora, pude ver que Susana recuperava a consciência finalmente. Seu olhar encontrou o meu e sorri de leve para tranquilizá-la, porém sua expressão contorceu-se num misto de dor e medo.
–Cuidado! — alertou Rilian já vindo em minha direção. Só então notei que um soldado inimigo ergueu-se, ferido, e avançava contra mim pelas costas.
Aconteceu tudo em poucos segundos. Girei para tentar defender-me, mas não consegui. Vi a espada reluzir ao raio que cortou o céu lá fora, vindo em minha direção. Rilian correu para ajudar, mas a espada estava chegando perto demais. Susana curvou-se para frente outra vez, gritou ao mesmo tempo que meus ouvidos surdos quando algo chocou-se contra mim. Ainda senti o chão tremer.
–LÚCIAA!
Fale com o autor