Fruto das Estrelas
5 Caixa de Pandora?
Notas iniciais

– Caixa de Pandora? -
Simplesmente não consigo tirar Natsu de minha cabeça. É como se ele fosse o único a habitar meus pensamentos e isso é, de uma certa forma, frustrante. Como eu queria conseguir pensar em outra coisa... Nem que fosse no preço do dólar ou na quantidade de grãos de areia que tem na praia.
Nesse momento estou parada em frente à porta de seu quarto. Eu não queria simplesmente ter lhe dado um “boa noite” e saído dali, mas foi o que minha timidez me permitiu fazer naquele momento. Respiro fundo e abro a porta de seu quarto novamente. Eu só precisava olhar seu rosto mais uma vez antes de dormir, mas, para a minha infelicidade, ou não, ele ainda não havia caído no sono.
– Lucy? Algum problema? – ele pergunta aparentemente confuso.
– Todos. – falo sem pensar fitando seus olhos que, mesmo na escuridão do quarto, pude perceber que ainda cintilavam.
– Tem algo que eu possa fazer? – sua voz era firme e ao mesmo tempo misteriosa de um jeito incrivelmente sexy. Fico sem fala por uns instantes. Tudo nele me atraía como se fosse cuidadosamente elaborado para isso. Malditos hormônios.
– Na verdade não é nada. Achei ter ouvido um barulho e vim ver se você estava bem. – foi a melhor desculpa que consegui pensar sem surtar. – Me desculpe se te acordei. – dou um sorriso sem graça e saio do quarto.
Ainda consegui ouvir sua voz antes de sair, mas optei por não ligar. Nunca pensei que fosse agradecer a Deus por alguém estar com uma perna engessada. Dessa forma ele não poderia vir atrás de mim.
Caminhando a passos largos, chego até meu quarto e fecho a porta rapidamente. Um suspiro de alívio toma conta de meu corpo. É como se ali eu estivesse segura de tudo e de todos, menos dos meus sentimentos, claro.
– Ótimo. Com que cara irei olhá-lo amanhã? – perguntei para mim mesma enquanto deitava na cama e batia ferozmente em um travesseiro. Meu constrangimento era tanto que nem notei a hora em que adormeci...
Era madrugada e, sem fazer muito barulho, saí de meu quarto percorrendo um caminho muito conhecido, em direção ao quarto do rosado. A casa estava escura e vazia. Todos deveriam estar dormindo, obviamente. Eu simplesmente não conseguia me controlar. Era como se eu estivesse no piloto automático, programada para ir até o quarto dele. Minha mente alertava que era errado, mas meu corpo simplesmente não me obedecia. Finalmente cheguei até o meu destino. Sua porta me encarava como se dissesse um “agora ou nunca” com uma voz tão debochada que me fez ter vontade de abri-la com ferocidade. E foi o que fiz. E lá estava ele, olhando para mim com aqueles olhos ônix hipnotizantes e cheios de mistério.
– Lucy... – fez um gesto com as mãos para que eu me aproximasse.
Como um animal frágil que se aproxima de seu predador, fui andando lentamente até chegar à sua cama, onde me sentei ao seu lado enquanto o fitava.
– Sabia que você viria. – ele sorriu.
– Sabia? – perguntei confusa. Ele apenas assentiu lentamente com a cabeça enquanto o sorriso malicioso ainda habitava seus lábios e sua mão se aproximava da minha. Quando nossas mãos se tocaram, senti uma espécie de choque que fez com que eu as separasse bruscamente e as fitasse com curiosidade.
– Não precisa ter medo. Não vou machucar você. – sua voz era mansa e galanteadora. Apenas afirmei com a cabeça enquanto o via se aproximar com dificuldade por causa da perna engessada.
– Espera. – falei ao ver seu esforço, que por sinal ele não podia fazer. Com uma coragem tirada de sabe-se Deus onde, sentei em seu colo cuidadosamente, por entre suas pernas e de frente para ele. Um sorriso travesso surgiu em seus lábios e, antes que eu pudesse pensar ou falar qualquer coisa, seus lábios atacaram os meus. Um beijo feroz e cheio de desejo como eu nunca tinha provado na vida. Suas mãos passavam por minhas pernas enquanto sua boca não deixava a minha. Nossas respirações pesadas já se misturavam.
– Hime.
Minhas mãos passavam sem censura por seus cabelos e músculos como eu nunca havia feito com qualquer outro homem em toda a minha vida — nem com o bastardo do Loki. Sua boca separou-se da minha para ir até o meu pescoço, meu ponto fraco, me provocando arrepios e fazendo com que gemidos saíssem por meus lábios.
– Natsu... – sussurrei.
– Hime.
Seus toques se direcionavam para minha blusa. Estávamos muito próximos. Eu já podia sentir a pequena peça de roupa deslizando por minha pele e passando por minha cabeça, mostrando meu sutiã de renda. Delicadamente, comecei a tirar sua bermuda, a única peça que ele usava no momento, e não pude deixar de agradecer por isso. Agora ele ia em direção ao meu short. Numa velocidade lenta e torturante ele começou a retirá-lo, aumentando ainda mais minhas perspectiva. Já estava próximo de tirar a peça por inteiro, quando toda a imagem se apaga...
– Hime, acorde! – quase caio da cama.
– Virgo? – pergunto desnorteada. Olho ao meu redor e vejo que estou em meu quarto. Então tudo não passou de um sonho?
– Hime, você está bem? Não parava de chamar pelo Natsu-sama. – a rosada perguntou, preocupada e confusa. Corei instantaneamente.
– O que? Você deve ter se confundido. – falei com uma cara emburrada.
– Desculpe Lucy-sama. Deseja me punir? – ela se curvou olhando para o chão.
– Não Virgo. – sorri amigavelmente. – Eu que peço desculpas. – ela me olhou confusa. – Minha mãe e você me ensinaram a não mentir. – falei sem graça.
– Então você estava sonhando com o Natsu-sama?
– Sim. – corei bruscamente. – E não era um sonho muito puro, digamos assim. – me encolhi na cama para não olhá-la nos olhos. Não teria coragem.
– Então a Hime é uma pervertida? – perguntou aparentemente para si mesma.
– Ora Virgo. Agora sim eu quero te punir. – falei no calor do momento.
– Sim? – é impressão minha ou tinha um certo brilho em seus olhos?
– Claro que não! – falei enquanto me levantava da cama e ia em direção ao banheiro. – Por qual motivo me acordou? – perguntei com um muxoxo. Provavelmente se tivesse continuado dormindo teria visto o final da história. Mesmo que eu já tenha uma pequena noção de como seria.
– Seu pai disse que queria falar com você. Está esperando a senhorita para o café da manhã.
– Ah, obrigada. Diga que já vou, sim? – ela assentiu.
– Com licença Hime. – e se retirou.
Ao chegar ao banheiro noto uma coisa estranha... Mas por que diabos eu estou molhada?!
[...]
– Bom dia Papai. – o dei um beijo na bochecha e sentei ao seu lado. Ele desviou sua atenção do jornal em suas mãos e me fitou com um sorriso no rosto.
– Bom dia filha. Dormiu bem? – corei instantaneamente ao lembrar do sonho.
– Claro, por que não dormiria? – sorri sem graça.
– Por nada, apenas falei por falar. – deu de ombros, mas me olhou como se soubesse que havia algo por trás da minha resposta. Fiz mágica para esconder do meu pai os meus sentimentos no passado. Na verdade, acho que consegui pelo simples fato de não nos vermos muito. Agora, com ele mais presente, considero uma tarefa difícil deixá-lo por fora de algum assunto que me envolva.
– O senhor queria falar comigo? – me servi um pouco de café.
– Sim. Viajarei hoje à tarde para Tókio e ficarei fora por uma semana.
– Coisa de negócios?
– Coisa de negócios. – assentiu. Suspirei. Era sempre assim.
– Tudo bem. – peguei uma torrada e passei um pouco de geleia.
– Se precisar de ajuda com o rapaz peça a Virgo. – o interrompi.
– Natsu.
– O que disse?
– O nome dele é Natsu.
– Tudo bem... Natsu. – revirou os olhos. – O Laxus também disse que estaria à disposição, por sinal acho que passará aqui hoje. – apenas assenti com a cabeça.
Desde sempre foi assim, meu pai viajando e eu tendo que esperá-lo em casa como uma boa e educada filha. E o Laxus? Bem, ele sempre pôde fazer o que queria na hora que queria. Sociedade machista, eu sei, mas fazer o que? O restante do dia passou voando. Talvez pelo fato de eu ter ficado todo o momento perto de Natsu, ou simplesmente por não ter que me controlar e me vigiar para ser a filha perfeita que meu pai tanto quer. Mal sabe ele o que tinha anteriormente por trás de tanta perfeição...
Laxus passou por aqui com a desculpa de que tinha que buscar uns documentos no escritório de nosso pai, mas sei que o real motivo era realmente para me vigiar, mas, por incrível que pareça, nesse caso, eu não tiro a razão dele. Natsu continua sendo um estranho afinal, pelo menos por enquanto.
Eu sinto como se eu precisasse entendê-lo, sabe? Como se eu tivesse que me aventurar em sua história e saber seus medos, receios e até sua comida ou cor preferida. Não me perguntem o motivo, eu só sinto que ele é, de alguma forma, especial. Eu sei que só pelo fato dele ter salvado minha vida já deveria ter este posto, mas é algo que vai muito além disso. Eu quero conhecê-lo como ninguém antes e também quero que ele me conheça, que saiba que eu sou muito mais do que aparência e sentimentos tristes.
Estávamos sentados lado a lado em seu quarto, deitados na mesma cama, porém cada um em seu espaço, e assistindo um filme típico de comédia roântica colegial em que a mocinha feia vira a garota mais bonita da escola e acaba por ficar com o carinha popular. Lógico que Natsu reclamou no início, mas agora suas risadas já são tão chamativas que Virgo veio nos checar diversas vezes. Sinceramente, o que ela acha que nós poderíamos estar fazendo? Tudo bem que o sonho que eu tive hoje foi meio suspeito, mas mesmo assim...
– Vou ao banheiro rapidinho. – falou enquanto pausava o filme e tentava, com certa dificuldade, se levantar da cama.
– Tudo bem. Quer ajuda?
– Não precisa, acho que consigo fazer isso sozinho. – deu um sorriso de canto que para qualquer um pareceria normal, mas juro que vi uma pontada de malícia ali, porém preferi ignorá-la.
– Tem certeza? – perguntei preocupada. Se ele já sentia dificuldades para levantar da cama, imagine para ir até o banheiro e...
– A não ser que... – seu sorriso galanteador foi aumentando.
– Na verdade, também acho que você consiga sozinho – falei corada e sorrindo sem graça enquanto desviava meu olhar do seu.
O rosado, com um sorriso sacana no rosto, foi andando com certa dificuldade até o banheiro e fechou a porta atrás de si. Comecei a olhar ao redor do quarto e notei uma coisa, uma caixinha fina de madeira que lembrava um porta-retratos com tampa e estava posta ao lado da mala do rapaz. Parando pra pensar, esta caixinha também estava com ele quando o visitei no hospital, então provavelmente deve ser algo importante. A curiosidade começa a martelar em minha mente e uma necessidade louca de saber o que tem ali se faz presente em mim. Talvez seja uma pista sobre seu misterioso passado... Não, isso seria invasão de privacidade, não vou fazer isso. Foco minha visão na tela da TV onde uma cena estava pausada para tentar me distrair.
Natsu está demorando muito...
Minha visão novamente se volta para a caixinha que parecia gritar por mim.
Abra-me, abra-me!
Sabe quando você está entre a cruz e a espada? O tempo está correndo, Natsu pode sair do banheiro a qualquer momento, mas eu preciso saber o que tem ali. Pode ser a minha única oportunidade de saber um pouco mais sobre ele. Mando meu senso de certo e errado para longe, trancando-o a sete chaves, e corro até o objeto.
– Tenho que tomar o cuidado de deixar da mesma forma que estava antes. – falo baixinho para mim mesma.
Minhas mãos tremiam e suavam. Era como se eu estivesse prestes a fazer uma coisa muito errada, como se eu fosse abrir a caixa de Pandora. Segurei o objeto firmemente com uma das mãos e, delicadamente, puxei a tampa com a outra.
– O que é que você tá fazendo?! – a voz grossa e com tom irritado de Natsu reverberou pelo cômodo fazendo com que eu levasse um susto e quase derrubasse o pequeno objeto no chão. Natsu estava andando de forma rápida e desajeitada em minha direção e a fúria estava estampada em seu rosto. Talvez a caixa fosse importante demais.
– Eu... – abri a boca algumas vezes, mas nenhuma palavra conseguia ser pronunciada por meus lábios, afinal o que eu estava fazendo? Meus olhos se enchem d’água e eu faço o possível para que as lágrimas não escorram.
– Estava mexendo nas minhas coisas?! Qual o seu problema?! – fiquei encarando-o sem reação. Esse é um Natsu que até então eu não conhecia. – Me dá a caixa. – falou de forma autoritária e rígida.
– Desculpe. – entreguei o objeto em suas mãos e saí apressada do quarto sem esperar por qualquer resposta.
Como eu me sinto tola! Se ele quisesse me contar sobre sua vida teria feito isso por vontade própria, eu não precisava ter forçado as coisas. Maldita curiosidade, maldita hora em que ele passou por aquela porta, maldita hora em que salvou minha vida.
– Tenho pena de você Lucy... – falei com a voz amargurada para mim mesma enquanto, com as lágrimas descendo pelo meu rosto, dava passos pesados no corredor em direção ao meu quarto.
A cena que acabou de acontecer ficava sendo revivida em minha mente repetidas vezes. Na caixa havia uma foto que consegui ver apenas de forma rápida, mas pude ver de quem se tratava, Natsu e uma moça de cabelos brancos. A forma como eles pareciam felizes não me passou despercebida... Quem será ela? Uma namorada, talvez? Não sei, mas com certeza é alguém que vale muito a pena, a ponto dele me tratar daquela forma. É Natsu, você se torna cada vez mais inatingível para mim. E no final das contas, a caixa era mesmo de Pandora, pelo menos para nós dois.
[...]
Continuo remoendo os acontecimentos dessa tarde. Desde o ocorrido, permaneço trancada no meu quarto. Neste meio tempo, já dispensei Virgo diversas vezes, mas, de uma maneira ou de outra, ela sempre acaba batendo na minha porta para me oferecer alguma coisa.
Neste momento, estou deitada em minha cama olhando para o teto do meu quarto. Não é nada de mais, apenas um forro de madeira projetado, mas sempre me proporciona momentos de reflexão. Pena que, neste instante, esse tipo de reflexão não está servindo para muita coisa, apenas para aumentar a depreciação que tenho por mim mesma.
Não consigo esquecer a cara que Natsu fez no momento em que me fitou. Era raiva. Mas não era uma raiva qualquer, era raiva de mim, da minha intromissão e da minha burrice. Também não consigo deixar de retribuir com o mesmo sentimento. Sim, também sinto raiva dele, raiva de sua estupidez, mas, da mesma forma, não posso deixar de sentir raiva de mim mesma.
Como válvula de escape, decido ligar para a Levy. Talvez ela seja a única pessoa que pode me fazer sorrir neste momento. Poderíamos, quem sabe, reunir todo o pessoal hoje? Faz tempo que não me encontro com o restante dos meus amigos do tempo de escola, que não vamos ao bar em que me apresentei pela última vez.
Mãe...
Depois de ter perdido a minha mãe naquele acidente não cantei mais — exceto naquele dia para o... Me censuro ao perceber que falaria aquele nome. Agora que já sei que minha mãe está bem, acho que finalmente poderei voltar a cantar de corpo e alma. Preciso esquecer o que ocorreu hoje a tarde, preciso ocupar minha mente com outras coisas. Pego meu telefone já decidida.
Levy, por favor, me atenda...
[...]
Desde o momento em que cheguei aqui não me sinto bem, mas, como fui que sugeri vir para cá, não quero pedir para ir embora. Afinal, meus amigos parecem estar se divertindo. Cana está completamente bêbada, Jellal ri de uma piada do Gray, mas Levy, ao contrário dos demais, se solta do abraço de seu namorado me dando aquele olhar triste. Estou tremendo e sei que ela vai perceber, então tento me recompor.
– Lu, tem certeza que foi boa idéia vir até aqui?
Neste momento começa a tocar uma música que minha mãe adorava me ouvir cantar, e é como se eu pudesse ver seu sorriso de encanto novamente.
– Sim, vou ter que superar isso um dia... – respiro pesadamente. – Sei que estou trêmula e sei que minhas mãos estão suando. Eu sabia que seria difícil voltar até o lugar onde me apresentei pela última vez, mas não posso deixar que isso me limite.
Lógico que o que eu acabei de falar era verdade, eu só não esperava que todo aquele buraco voltasse até a mim. Não sei se o fato de eu ter brigado com o Natsu e ter saído sem avisar a ele possa ter colaborado para meu atual estado... Não, na verdade eu sei sim, só não quero assumir e encarar minha realidade. A verdade é que eu não deveria me importar com ele depois da forma com que me tratou. Eu nunca o trataria daquela forma, não importava o que ele fizesse, mas não devemos esperar tanto de alguém que conhecemos tão pouco.
– Lucy, se quiser podemos ir embora. – diz Gray meio chateado — Todos nós sabemos como é difícil pra você. – Cana me abraça por trás e Jellal suspira olhando para seus pés. – Podemos ir para uma pizzaria, quem sabe?
– Relaxem pessoal, eu estou bem. — sorrio amarelo. — Vamos nos sentar, ok? As apresentações já vão começar.
Mesmo com as suspeitas do moreno, sentamos à mesa. Com o tempo comecei a ficar melhor enquanto ia rindo das besteiras que Gray falava. Erza chegou logo depois abraçando a todos e deu de cara com Cana, que estava tomando um sermão coletivo nosso por estar bebendo e, graças a isso, só sabia reclamar de como éramos maus com ela. Depois de algumas apresentações e após uma menina baixinha de cabelos ruivos acabar sua música que, supostamente, seria a ultima da noite, vi que o lugar que Levy antes ocupava agora estava vazio e, quando me virei para o palco, notei que ela cochichava algo em um canto com um homem. Lançou-me um sorriso de canto ao notar que eu a espionava.
O tal homem, que aparentava ter seus quarenta e tantos anos, subiu ao palco enquanto Levy começava a andar em direção a nossa mesa. No mesmo momento sinto Erza segurar minha mão e encaro-a de forma interrogativa.
– Para fechar a noite – não acredito que Levy fez isso – teremos Lucy Heartfilia com a música – começo a tremer e olho pra Levy, que me devolve o olhar – Skinny Love.
Um holofote paira em cima de mim e me encontro sem saída. Olho ao redor e noto que todos os presentes me fitavam, alguns curiosos e outros com certa desconfiança, provavelmente pensando que a loira debaixo do holofote passaria vergonha ou sairia correndo. Para meu alívio, quando me viro para meus amigos vejo-os me lançando olhares e sorrisos motivadores.
– Vai lá Lucy! Todos nós sentimos saudades de sua voz. — diz Erza sorrindo enquanto Cana levanta a garrafa para cima em forma de reverência e Levy me encara com os olhos cheios de lágrimas.
Eu queria agradecê-los por, apesar de tudo, não terem tocado no assunto do quase suicídio. Eles me olhavam agora como se estivessem me pedindo para continuar viva, e cantar sempre fez parte do que eu sou.
– Já faz tempo que não treino, mas vou tentar não decepcioná-los. — meu olhar se enche de brilho e quase começo a chorar — Irei cantar por vocês.
Começo a andar em direção ao palco e o momento parece mágico. Aquelas luzes coloridas... Quanto tempo fiquei dentro de um buraco negro do qual eu não conseguia sair? Se não fosse a minha mãe e aquela carta eu não teria forças.
Sabe, passei muito tempo longe dos meus amigos, só tendo Levy como companhia na maior parte do tempo. Mas agora eu entendo porque o restante do pessoal se afastou de mim. Eles não estavam me evitando, eles apenas não sabiam o que fazer para me alegrar e entenderam que eu precisava daquele tempo sozinha, que eu precisava de uma certa distância para colocar os meus pensamentos no lugar.
Tem uma frase de uma de minhas músicas favoritas que se encaixa perfeitamente comigo neste momento: "não é que eu não sinta a dor, eu só não tenho mais medo de me machucar".
Eu vou encarar este desafio. Se for por não por mim, será pelos meus amigos, pela minha mãe.
Subi os degraus e logo estava com as mãos sobre o microfone. Não conseguia encarar a platéia, então opter por olhar para minhas unhas que eu havia pintado de preto. Respirei fundo e comecei a falar.
– Boa noite. — todos que estavam presentes me responderam em uníssono. — Antes de começar, queria agradecer aos meus amigos por tudo que fizeram por mim. – sorri emocionada – Levy, eu sei exatamente por que você escolheu esta música para eu cantar. — ela me olha de longe emocionada e lhe dou uma piscada, ela sorri.
O piano começa a tocar e eu respiro fundo. Hoje um pedaço de mim renasce, e todos sabem disso.
– Come on skinny love just last the year...– todos começam a me aplaudir e Gray aponta pra mim.
– Essa é a minha garota!
Continuo cantando e um sentimento extremamente bom me toma por completo, me sinto tão livre. Não há Natsu para me magoar onde estou, não há problemas e nem mesmo nenhuma dor, pois minha mãe prometeu sempre estar comigo.
Fecho meus olhos para aproveitar melhor essa sensação e me entrego à melodia da música, que acaba por me transportar para outro lugar. Um mundo, digamos, cor de rosa.
Abro meus olhos e não poderia estar mais surpresa. Lá estava ele, encostado na porta de entrada do bar, me encarando com certa... Admiração? Não sei dizer ao certo, mas seu olhar estava fixo em mim. Quando nossos olhares se encontram noto que há algo no sorriso que ele mantém estampado em seu rosto que o entrega. Ele também sabe, nós temos uma ligação. É inevitável não sorrir de volta.
Fecho os olhos novamente e meus dedos seguram firme o microfone. Permito que minha voz flua suavemente. Faz muito tempo que eu não consigo ter uma conexão tão forte com uma música.
Natsu Dragneel. Não sei o que faz aqui e nem como me encontrou, o que sei é que meu peito está ardendo e estou sentindo borboletas no estômago. Como consegue fazer isso comigo, Natsu?
A música finalmente termina, mas eu mantenho contato visual apenas com o rosado. Ele permanece com o sorriso no rosto enquanto me aplaude. Simplesmente não consigo parar de olhá-lo. Ele realmente estava muito bonito com aquela camisa polo preta e bermuda jeans de tonalidade escura. Lembro da forma com que ele reclamava por não poder usar calça jeans graças ao gesso da perna. Isso me faz sorrir.
Sou tirada bruscamente de meu mundinho particular por uma pessoa que me abraça de repente.
– Lucy, você foi incrível! – era Erza que estava completamente animada.
Quando dou por mim noto que todos os meus amigos me rodeavam. Como eu não percebi o momento em que eles se aproximaram?
– Sim, parece que você se entregou completamente à música hoje. – a baixinha sorriu emocionada. – Estou tão feliz por você! – me abraçou em seguida.
– É verdade loira, você foi de mais. Mas agora eu e a baixinha aqui – apontou para a McGarden – vamos ter que ir. Meu sogro está com problemas. Sabe como é aquele desastrado... – Levy fuzilou seu namorado com o olhar.
– Não fique falando asneiras sobre o meu pai, idiota!
Todos nós rimos. Aparentemente, o Sr. McGarden estava com o carro quebrado no meio da estrada e precisava urgentemente de pessoas fortes para ajudá-lo a empurrar. Sorte de todos que ele não se encontrava muito longe dali. Diante disto, todos os garotos foram dar assistência e, por conseqüência, algumas garotas também.
Depois que todos foram embora, comecei a olhar ao meu redor a procura de madeixas rosadas, mas não encontrei em lugar algum, era como se tudo não tivesse passado de criação da minha mente. Mas seria eu capaz de criar tal alucinação? É verdade que, a partir do momento em que notei a presença de Natsu me dediquei mais à música, mas... Não, na realidade eu seria sim capaz disso, afinal o que ele estaria fazendo aqui? Se for verdade, eu estou bem pior do que imaginava.
– Lucy...
Olhei em direção à voz que chamou meu nome e meu coração acelerou...
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