Fruto Proibido
1 UM

O mundo antes de eu nascer era cuidadosamente sustentado pelo equilíbrio entre a existência secreta do mundo sobrenatural e o mundo humano, mas o fino véu de segredo que nos ocultava teve que ser rompido para apaziguar a terceira guerra mundial, iniciada pelos mortais por questões políticas e religiosas.
Nenhum ser sobrenatural se envolvia em questões humanas, o máximo que poderíamos fazer era usar nossas fortunas acumuladas durante os séculos vagando pelo mundo para garantir que nossos interesses seriam considerados, fora isso deixávamos que os mortais resolvem sua própria bagunça, o que não aconteceu cinquenta anos atrás.
Quando tivemos que nos aliar aos demais seres sobrenaturais, para acabar com a extinção eminente que ameaçava todos nós. Pela primeira vez, mortais e imortais lutaram juntos nas mesmas trincheiras defendendo o seu direito de existência, vencida a guerra, fora-se esquecido a camaradagem da batalha dando lugar a mais um confronto do qual a humanidade foi levada quase a extinção.
Obrigando os poucos humanos que restaram, a viver em subúrbios controlados e vigiados pelos vampiros, enquanto ocupávamos os lugares que outrora foram seus repartindo o mundo em clãs controlados pelas famílias mais influentes e seculares de filhos da lua e vampiros.
Com a morte do meu pai, um ano atrás, coube a mim a responsabilidade de chefiar o clã Kingston já que meu irmão mais velho havia perdido a vida durante a guerra contra os humanos, provocando a cólera do meu antecessor que liderou um verdadeiro extermínio para vingar sua perda. Depois daquele dia, comecei a ser preparada para assumir um lugar que jamais sonhei em ocupar.
Enquanto crescia, era notável os olhares de desaprovação que recebia dos integrantes do conselho dos mais velhos por ser a escolhida para sentar na cadeira que outrora pertenceu ao meu pai e meu falecido irmão mais velho.
Muitos me julgavam sortuda, por ter ascendido ao trono em uma época de ouro e estabilidade para a nossa sociedade, mas o que poucos não sabiam é que me sentia como um pássaro preso na minha gaiola de ouro sem qualquer ponto de refúgio entre as paredes que fizeram parte da minha vida inteira.
E tudo se tornou ainda mais difícil com a partida do meu pai, a única família que me restará já que não pude conhecer minha mãe que morreu horas depois do meu nascimento devido a complicações do parto.
— O clã está ansioso para o baile dessa noite, minha senhora — April disse sorrindo animada entrando na minha sala sem ser anunciada, um privilégio conquistado por ser minha amiga de infância, assumindo sua posse de assessora pessoal e pisquei voltando ao presente vendo a mulher de saia lápis e blusa social vermelha parada na minha frente me encarando — Você precisa se animar um pouco, hoje é o dia em que anunciará seu futuro marido. — Lembrou e revirei os olhos, nenhum um pouco animada para tal marco.
— Não preciso de um homem, April. — Apontei cirúrgica e minha amiga concordou.
— Para governar não, você é altamente competente para isso — destacou e sorri concordando com seu argumento — Mas para gerar o sucessor do trono sim, é seu dever como alfa do clã assegurar a existência da próxima geração Kingston. — Lembrou e revirei os olhos fazendo minha amiga suspirar. — Me permiti um conselho?
— Claro.
— Essa noite todos os clãs de filhos da lua estarão presentes na sua festa, para comemorar sua ascensão ao trono e conhecerem o novo companheiro da alfa, diante disso escolha aquele que pode ser controlado apenas por você. É melhor um marido sob o seu domínio do que ao contrário. — Segredou sabia e balancei a cabeça concordando, tudo que não precisava era de um homem que pudesse se achar no direito de contestar o meu poder para si.
— Você tem razão, April. Preciso de um homem que esteja sob meu comando e que me siga cegamente, sem contestar minhas ordens ou achar que pode tomar meu lugar — disse reflexiva e estratégica — Alguém de quem não precise me preocupar constantemente, porque já tenho problemas demais na minha cabeça para lidar...Alguém tão ocupado com sua própria vida e que não queira se casar... — sussurrei pensando em algo e sorri assim que a ideia tomou forma na minha cabeça.
— April, preciso de informações sobre todos os homens solteiros dos clãs que confirmaram presença na minha festa.
— Irei providenciar imediatamente, minha senhora. — Assegurou pedindo licença me deixando a sós, antes de voltar a leitura dos contratos que estavam em minha mesa.
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Dei uma última olhada no espelho admirando o caimento perfeito do longo vestido branco de seda que usava essa noite, meus cabelos escuros desciam em ondas perfeitas até o meio das minhas costas como maquiagem, optei por algo discreto que realçasse meus olhos amendoados.
Gemi desgostosa assim que meu olhar recaiu para a pasta cinza em cima da minha cama, contendo informações sobre os homens solteiros que confirmaram presença no evento dessa noite. Nenhum deles atendiam aos meus requisitos, porque eram antigos desafetos dos meus antepassados e não estava disposta a colocar um inimigo disfarçado dentro da minha casa, para me apunhalar pelas costas na primeira oportunidade que tivesse.
— Me mostre uma saída, deusa lua. — Pedi olhando a lua cheia pela janela do meu quarto, respirando fundo tomando coragem para enfrentar a longa noite de bajulações, pedidos e conversas vazias que sempre ouvia durante esses eventos.
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