Frustação do Passado

1 O que foi pode ser mudado?


Notas iniciais
È um one shot tristezinho.

Aquele dia começa com uma festa e termina da mesma forma. No começo da noite amigos já escaparam para suas camas. Alguns com ajuda, outros felizes com suas cadeiras de rodas, outros dando abraços em cada um dos seus netos.

Ao fim da festa, a alegria era inexplicável. Domingo e Narcísa, com as mãos dadas, rugas raspando sobre rugas, olhavam pela última vez o salão.

– Olhe essas fotos — Narcísa comenta.

Os dois olhavam para um mural feito por todos os parentes.

– Que bom que comprei aquela câmera, custou minha herança, mas agora percebo que valeu a pena. — Domingo sorri enquanto fala.

O mural era envolto de rosas deixadas por todos os convidados. Eles não haviam pedido nenhum presente. No fim, todos seus amigos, que sabiam o amor mútuo pelas flores que o casal exaltava sem embaraço, deixaram uma rosa amarela em volta do seu mural de lembranças. Curiosamente a rosa amarela significava tempo de mudanças. As fotos eram de jardins, viagem, amigos e principalmente deles juntos.

Algo chamou a atenção de Domingo. Um rosto especial, nunca esquecido.

– Manuel. — falou ele.

Narcísa estremeceu e tentou mudar de assunto. Com sua voz rouca falou docemente:

– Suas orelhas de Dumbo eram super atrantes para mim naquela época. Minhas amigas sempre te insultavam por isso.

Era a pura verdade. Narcísa o amava. Desde seus 20 anos. O florista animado, que despejava paqueras entre todas as garotas e queria aprender inglês para viajar. Nenhum outro rapaz a encantou tanto.

Domingo olhou para a foto novamente, ignorando sua esposa. O rapaz de olhos negros e cabelos cacheados ao seu lado com uma garrafa de vodka sorrindo. Roupas adequadas para o casamento, era o dia do casamento dele. Por isso alguém havia colocado a foto ali.

Eles, com suas cadeiras de rodas, foram com a caminhonete dos enfermeiros até sua casa. Por não terem filhos, felizmente não foram colocados em um asilo contra sua vontade. O que certamente, deprimiria o casal.

– Nossas bodas, amor.

– Daqui a pouco pensarei que estou ficando velho.

– Você está.

– Pelo menos não tenho aquelas barrigas de grávido pela cerveja.

– Você já teve. — ela sorri e vai dar boa noite a sua babá.

Aquela foto mexia com Domingo. Seu coração começou a bater mais rápido. Sentimentos antes esquecidos vinham à tona.

Ele se levantou da cadeira rápido e tentou caminhar, depois de alguns passos caiu em cima do sofá, na traseira, a parte dura machucou suas costelas e ele fechou seus olhos. A dor foi gritante.

Em um segundo Domingo estava na frente do espelho, colocando a gravata.

– Você ainda não conseguiu isto.

"Impossível", pensava ele. Era Manuel a sua frente, vestido de smoking e com os cachos presos atrás da cabeça. Era mais baixo que ele. Não só isso, ele tinha 25 anos. Ou até menos. Já se faziam 50 anos e sua memória não era tão boa.

– Me ajuda — Domingo só queria que ele chegasse mais perto.

Manuel começou a colocar a gravata em Domingo com perfeição. Mesmo nunca tido que ir a um casamento. Aprenderá a amarrar gravatas para ir a escola.

Ele estava envergonhado. Olhava para sua face no espelho. Tinha seus 20 anos novamente. Seus olhos verdes não sumiam mais atrás das olheiras ou sobrancelhas enormes. Ele se sentia motivado novamente. "Bom, isso é um sonho. Então vou fazer o que eu deveria ter feito na época."

Domingo se aproximou do rosto do seu amigo mais querido e para ele sua alma gêmea. Tocou seus lábios contra os do rapaz a sua frente.

– Querido. Você acordou. Se encontrava em uma sala, com mais alguns homens idosos ao seu lado.

– Narcísa. Como vim parar aqui?

– Você se machucou. Me deixou preocupada, pensei que você fosse morrer. — Seus olhos estavam vermelhos. Chamou os enfermeiros e eles o examinaram.

– O senhor quebrou uma costela, então não se mova muito.

– Certo.

O clima na sala estava tenso. Alguns amigos ligaram para o casal, a conversa fluía livremente, mas aquilo não animava muito Domingo. Com seus olhos caídos e envergonhado. Sentindo-se culpado, Domingo comeu a comida do hospital sem sentir o gosto nem o cheiro de nada a sua volta.

– Ainda é nosso aniversário. Falta uma hora para terminar. Preciso te contar uma coisa. — Ela respirou fundo duas vezes e apertou a palma das mãos de Domingo. — Te dei anos da minha vida. Não me arrependo deles mas...Tenho algo que não te contei...

– Não me importo se me traiste. Eu continuarei agradecendo a vida que compartilhamos.

– Meu marido. Eu nunca te trai com nenhum homem. É algo bem mais grave. Eu...

Ele esperou ela dizer com desânimo.

– Eu fiz Manuel ser preso. — A expressão de desespero do seu marido dizia tudo que ela queria evitar — Eu...Eu não podia deixar aquele tipo estragar nosso casamento. Aquele maluco queria ficar com você...- Nervosa e rindo, olhava para suas mãos. — Um tipo daquele.

– Vocês...

Aquilo era imperdoável. Estava explicado como uma amiga de Nacísa, desconhecida por Manuel, tinha o acusado de estupro. Manuel passou 5 anos preso. E foi solto apenas meses antes do seu casamento, na qual só compareceu até ser chamado novamente a delegacia. Ele podia ter tido uma vida ao lado dele, apenas como amigo. Se ele não tivesse ido morar no exterior por algum tempo. Se não fosse aquilo todos que conheciam Manuel não o expulsariam de qualquer lugar ao lado dele. Poderia ter ouvido os sentimentos de Manuel.

Domingo apenas riu sozinho, embaixo dos lençóis inúteis e o clima gélido a sua volta.

Depois de uma semana, chegou ao cemitério. As rodas de sua cadeira estavam imundas ao passar pela sujeira. Cansado pela parte íngreme que andaste e as vezes que parou para esperar, pensou que não conseguiria chegar. Mas chegou.

Os seus sentimentos de raiva e tristeza foram soltos ali. Na lápide escrito o nome do seu verdadeiro amor. Não podia desabafar com ninguém. Nenhum dos seus irmãos com 70 anos entenderia o amor por outro homem. Seria taxado como um nojento, descontrolado.

Arrependimento. Amargura. Escolhas erradas. Aos seus 70 anos bem gastos. Domingo, um homem culto e brusco. Chorou por horas ao odiar a mulher que amou a vida toda e sentir saudades de um amor que não pode amar.

Notas finais
Obrigada por ler.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!