Frozen Heart
1 Capítulo Único
Faltavam pouco para que mais um ano acabasse. Um ano onde tudo o que foi possível acontecera na vida de Dominique. Sua mãe morrera no início do ano. Seu pai, após dois anos de divórcio, resolveu se casar com outra mulher e se mudou para o outro lado do país. Sua irmã havia conseguido um ótimo emprego na França e estava lá com seu noivo e seu filho de dois anos. Nenhum parente próximo era confiável o suficiente para que pudesse pedir ajuda, pois nunca fora uma família unida. Logo, alugou uma casa longe do local de onde morava com sua família recém-separada e de toda a confusão que teve que aturar durante os últimos vinte e tantos anos.
Dominique pagava suas dívidas trabalhando em um restaurante no centro da cidade. Trabalhava até o fim da tarde e depois ia para a faculdade de gastronomia. Seu sonho era abrir um pequeno restaurante ou confeitaria, já que desde criança se aventurava na cozinha da avó. Como nunca gostou de depender de ninguém e nem tinha amigos para que desse uma força, fazia o que era necessário para viver; O salário ainda não era o suficiente para todo o mês, mas graças às economias conseguia sobreviver quase que como uma pessoa da classe média. Os dias podiam ser cansativos, mas nem tudo é tristeza. Em meio a toda a confusão, uma alma bondosa surgiu: ele se chamava James. A princípio surgiu para ajudar na administração do restaurante, mas com o passar do tempo, entre olhares e ofertas de carona, uma amizade nasceu. Fora ele quem conseguiu suprir a necessidade de um abraço familiar, embora vindo de um estranho. Como não tinha muitos amigos, James tornou-se uma pessoa muito importante e quando perceberam estavam sentindo algo que não era uma simples amizade.
A paixão aconteceu muito rápido. Desde o começo da amizade até o primeiro beijo e a primeira vez em que fizeram amor foram menos de dois meses, mas com o tempo o ciúme não declarado de James começou a surgir junto com pequenas desculpas aqui e ali. Logo depois, as coisas começaram a mudar. Primeiro James pediu demissão. Fora trabalhar em outro lugar e com isso começou a se afastar. Dominique temia que pudesse ficar sozinho de novo, e não queria que isso acontecesse novamente. E é aí que começa a história.
~ 12h30min
Dominique caminhava pelas ruas gélidas do centro da cidade que estavam cheias de pessoas atrás de presentes ou a caminho do lugar onde iriam comemorar a passagem de ano. O clima frio nunca desanimou o povo que se embrulhavam em cachecóis de lã e casacos de peles falsas ou jaquetas de poliuretano. Entre elas estava Dominique, que em uma mão carregava uma sacola, onde dentro uma caixa de bombons de licor estava embrulhada para que seu amado pudesse degustar mais tarde, já que eram seus favoritos. Na outra mão, um Chocolate quente com hortelã-pimenta comprado em um quiosque do Starbucks, soltava fumaça no ar gélido de oito graus deixando um aroma adocicado no ar. A princípio pensou que não fosse gostar, mas até que era bom. Enquanto isso, por onde quer que olhasse era possível ver as pessoas sorrindo, se beijando, de mãos dadas... Dominique pensava se só ele achava esse época, uma das mais estranhas. Cheia de sentimentos dúbios e passageiros. Logo se lembrou de James. Iriam celebrar o inicio de ano juntos no apartamento dele, da onde seria possível ver a queima de fogos e ele prometeu fazer uma janta especial. Sem mencionar no provável pedido de noivado, já que semanas atrás havia encontrado uma pequena caixa com uma aliança dourada dentro, no fundo da mala quando ele retornou de viagem. Foi algo tão inesperado que quando viu, retornou o objeto ao seu esconderijo. Esse assunto já fora tema de discussão à quase um mês, pois com a correria de suas vidas, era pouco o tempo que podiam ficar juntos ou se falar pelo telefone, mas em poucas horas estariam juntos e ainda mais felizes novamente. Seria uma prova de que deveriam esquecer as brigas e dúvidas que tinham e aproveitarem o começo do oitavo mês de namoro.
Com as pernas cansadas, Dominique se sentou em um banco na praça da biblioteca nacional e ligou para James, mas depois de vários toques caiu na caixa postal. Tentou novamente, mas a mesma coisa aconteceu. Olhou para o relógio e faltavam quinze minutos para que seu expediente recomeçasse. Tentou mandar mensagem, mas ele também não visualizou.
- Por que não atende? – perguntou para si mesmo depois da quarta tentativa frustrada enquanto segurava seu pingente em forma de cruz preso á um cordão dourado que ganhara dele – Deve estar ocupado... Ele não esqueceria o celular em casa ou no carro. Ele nunca esquece. Talvez tenha deixado na gaveta do escritório ou deve estar no mudo... Depois ele liga – disse para si mesmo ao perceber que estava pensando demais.
Dominique respirou fundo e voltou a caminhar em direção ao restaurante. De qualquer forma James iria até lá depois do trabalho.
Enquanto isso, o movimento das pessoas que não precisavam trabalhar, aumentava aos poucos enquanto sua ansiosidade e dúvidas só aumentavam, pois sentia que algo estava estranho no relacionamento. E isso não era recente.
~ 15h10min
Com o baixo movimento, Dominique tenta ligar para a casa de James, mas sem resposta aproveita para enviar uma mensagem. Embora fosse estranho, alguns escritórios costumavam funcionar em plena véspera de natal e virada de ano para que tudo fosse concluído de acordo com o cronograma. Ás vezes Dominique tinha pena de ver James ir trabalhar na folga devido a algum documento importante ter chegado em cima da hora ou simplesmente ter sumido.
- “Te liguei mais cedo, mas deveria estar ocupado. Espero que esteja tudo bem. Te vejo mais tarde.”
A mensagem foi enviada. A anterior havia sido lida, mas nenhuma resposta foi enviada de volta.
~ 16h32min
Faltava pouco para que o restaurante fechasse. Dominique havia se esquecido de James na última hora, mas acabou lembrando-se dele quando sentiu o celular vibrando. Com o coração acelerado, pegou o aparelho, mas o sorriso diminuiu ao ver que não era ele. No seu lugar era Aaron, desejando feliz ano novo e dizendo que estava com saudades.
Aaron surgiu durante a primeira briga que Dominique teve com James. Ele era funcionário de uma filial do outro lado da cidade e iria cobrir as férias do chef atual. Aaron também era o contrário de James: Sorridente, gostava de trabalhar ao lado de Dominique por que ambos dividiam o mesmo sonho e ainda por cima frequentavam o mesmo instituto de gastronomia. Enquanto isso James, que às vezes era tachado de antipático pelos funcionários, sentia ciúmes do jovem chef em treinamento por passar mais tempo que ele mesmo ao lado de Dominique. Mas tudo parou quando Aaron fora transferido de volta para seu restaurante depois de dois meses e meio. Longe o suficiente para não se verem por um bom tempo, já que ele teve que trancar a faculdade para enfim assumir o cargo de chef de cozinha. A última vez que se encontraram, foi em meados de outubro quando Aaron o convidou para visitá-lo em sua nova casa. Naquele fim da tarde, Dominique estava triste, pois desconfiava que James estivesse tendo um relacionamento com outra pessoa. Quando se despediu de Aaron na estação do metrô, o abraçou, mas não esperava que Aaron roubasse-lhe um beijo na boca que Dominique sequer rejeitou. Mas então, James pressentindo que algo estava diferente, reaproximou e desde então nunca mais brigaram. Quanto ao episódio entre Dominique e Aaron, ambos preferiram guardar a sete chaves. Das vezes que se falaram, ou se viram nas reuniões, comportavam-se como se nada tivesse acontecido.
- “E se... Fosse tudo diferente...” – pensou Dominique enquanto respondia a Aaron que também sentia sua falta e que desejava que seus desejos pudessem se realizar nesse novo ano que estava por vir.
Dominique não queria admitir, mas aquele dia nunca saiu de sua cabeça. Os devaneios só pararam quando um último cliente entrou. Era um casal de idosos que se acomodaram em uma mesa indicada pela recepcionista.
- Dominique? Poderia atender a mesa sete?
- Sim. Pode deixar – respondeu pegando o tablet que funcionava como o antigo caderno de comandas e indo atendê-los – Boa noite. Me chamo Dominique e...
- Ué? Você é quem se chama Dominique? – interrompeu a senhora que deveria estar no auge dos 70 anos – Pensei que fosse...
- Pois é... – riu Dominique – A senhora não é a primeira a confundir. Minha avó era francesa.
Dominique já nem se importava com isso. Às vezes, estranhavam quando se apresentava aos clientes já que seu nome naquele lugar sempre gerava dúvida se era um homem ou mulher quem atendia pelo nome de Dominique. Alguns comentavam outros não, mas o importante era atendê-los cordialmente.
- Certo. Estarei trazendo seus pedidos em alguns instantes – sorriu enquanto via o casal dar um selinho carinhoso.
~ 17h32min
O restaurante já havia fechado e a equipe de funcionários comemorava o fim de ano. Ficariam ali por mais algum tempo em meio a bebidas, comidas e música alta e depois iriam se juntar a multidão que caminhava lá fora para a grande festa da cidade. Dominique esperava por algum sinal de James. Olhou para o celular que não tocou nenhuma vez desde a mensagem de Aaron e bebericou o vinho branco que distribuíam entre eles mesmos. Essa não era a primeira vez que não se falavam por horas, mas dessa vez ele não ouvia a voz de James desde o começo da noite do dia anterior.
- “O que está acontecendo?” – Perguntou-se.
O horário que James prometeu aparecer já havia passado e não tinha como culpar o trânsito já que do escritório para o restaurante eram poucas quadras e de carro poucos minutos. Ao olhar para a hora, se despediu dos amigos e saiu depois de uma ou duas bebidas. Lá fora uma fina neve havia começado a cair sobre a cidade, cobrindo as ruas e as pessoas que andavam de um lado para o outro enquanto celebravam todas as coisas que haviam realizado.
~ 18h10min
O motivo para Dominique pensar que tinha algo errado era que James não era um anjo. Costumava sair com os amigos e beber de mais. Mesmo com vinte e sete anos se comportava como um adolescente de dezessete anos, mentindo e omitindo certas coisas. Já que ele apareceu no restaurante, Dominique então decide ir até seu escritório. Há algum tempo atrás, James havia lhe dado um cartão de visitante da última vez que foi visitá-lo em seu trabalho e com ele passou pela portaria e subiu até o sétimo andar do prédio onde James trabalhava. O elevador parou com um suave solavanco e logo depois abriu as portas para um corredor que levava a recepção da empresa onde seu namorado trabalhava. Pela porta de vidro era possível ver dezenas de pequenos mini escritórios onde cada funcionário realizava suas tarefas diárias.
Essa era a terceira vez que entrava naquele lugar, que costumava ser cheio de pessoas que iam e vinham a toda hora. Da última vez, limitou-se a ficar no corredor. Lá só conhecia duas pessoas: Uma era Michelle, a recepcionista muito bonita que usava aparelhos e tinha os cabelos encaracolados abaixo dos ombros. Desde a primeira vez que se falaram, ela se mostrou ser uma pessoa muito inteligente e amigável. O pouco que sabia dela era que era noiva e tinha sérias dúvidas sobre o futuro para com seu noivo Phil.
- Feliz ano novo! Como você está? – perguntou ela sorrindo, enquanto dava um abraço e um beijo na bochecha de Dominique.
— Estou bem. O cansaço está batendo, mas bem. E você?
— Ah... Estou muito feliz. Phil está me esperando lá embaixo. Vamos passar o ano novo juntos na casa dele. Conversei com ele e vi que estava sendo muito egoísta e agora estamos mais apaixonados do que nunca – disse sorrindo demonstrando grande felicidade.
— Que bom. Torço muito por vocês dois. Deixa eu te perguntar uma coisa: Você viu James por aí?
— Bem... Algumas pessoas já saíram, mas se você quiser, ele deve estar no escritório dele. Pode ir lá. Mas não demore tá? – sorriu – Dominique deixe-me ir se não ele vai começar a buzinar lá embaixo. Tenha um feliz ano novo e aproveite com quem você ama – disse piscando um de seus grandes olhos castanhos e logo depois de um abraçou de despedida, saiu pela porta em direção ao elevador com um sorriso nos lábios.
De fato todo o andar estava quase vazio. Com exceção de um senhor que saiu do banheiro vestindo um casaco preto pronto para sair no frio e algumas poucas pessoas que desligavam seus computadores. Dominique caminhava pelo corredor tentando imaginar como deveria ser trabalhar ali. Tentava imaginar James indo de um lado a outro super atarefado. Talvez seja por isso que andava tão sem tempo.
- Será que eu estou sendo egoísta? – Pensou.
O escritório de James fica bem no meio da sala e quanto mais se aproximava, mais o coração de Dominique palpitava.
- E se ele não estiver lá? – pensou novamente ouvindo a porta de uma sala bater.
Faltando quatro cabines para que chegasse ao lugar, Dominique avista a segunda pessoa que conhecia ali. Era David. Um amigo dos de James. Conheceram-se em um happy hour depois do trabalho, em um bar, quando ele surgiu com sua recém esposa e então James os apresentou.
- Dominique! Feliz ano novo! O que faz por aqui? James pediu para buscar algo para ele? – disse abraçando e envolvendo-os com um hálito de uísque barato.
- Hã? Como assim? Você viu o James?
- Hoje não. Afinal não o vejo desde ontem – disse pegando diversas sacolas.
Dominique sentiu um aperto no peito e perguntou novamente:
- Sabe onde ele está?
- Não sei não... – Respondeu se levantando da cadeira — Deve ter ido comemorar o fim de ano com alguém ou sei lá...
- Ele disse alguma coisa?
- Não. Mas ele. Parecia bem animado ontem à noite. Deve estar preparando algo especial. Bem, feliz ano novo e se cuide. Minha esposa está me perturbando para ir pra casa. Se o vir, manda um abraço pra ele – disse tropeçando com as sacolas.
~ 18h38min
Dominique permaneceu de pé, olhando a neve cair através da janela e ouviu a porta se fechar assim que David passou por ela. Suas pernas travadas impediam de continuar até o local de trabalho de James. Era como se alguma coisa prevenisse de encontrar algo que não quisesse confirmasse um fato que atormentava sua cabeça. Um frio percorreu sua nuca e se espalhou por seu corpo, embora nenhuma janela estivesse aberta. Olhou novamente para o celular e nada. Nenhuma mensagem ou ligação dele.
- Será que ele esqueceu o celular em casa, ou a bateria acabou...
E então começou a pensar em outras possibilidades;
- Será que ele passou mal? Deve ser por isso que não veio e por não me respondeu...
Com a curiosidade perturbando, decidiu então ir ao escritório dele. A cada passo o coração acelerava. De qualquer forma aquilo ia ter um fim e teve assim que viu a cabine vazia.
Tudo estava no lugar. O computador, a cadeira, as folhas de papel, canetas, lapiseiras, cadernos e outros objetos. James não gostava de levar coisas pessoais para lá, com exceção de uma foto onde estavam reunidos com a família numa festa na praia. Dominique deixou a bolsa com os chocolates no chão, puxou a cadeira e se sentou. De fato ele não havia ido trabalhar, já que alguns dados estavam escritos na agenda com a data do dia anterior. As gavetas estavam trancadas e a lata de lixo vazia. A intuição de Dominique gritava que tinha algo mais do errado. Logo, começou a sentir os olhos marejarem de lágrimas que desde a morte da mãe não haviam caído mais, por mais que se sentisse sem esperanças de vez em quando. Então levantou a cabeça, encostou as costas na cadeira e fechou os olhos por alguns segundos. Lá fora o som de fogos de artifício espalhou o eco de seus estouros pelo ar enquanto cornetas eram sopradas por pessoas na avenida sete andares abaixo.
Ao perceber que não tinha nada mais o que fazer, resolveu ir embora. Mas quando colocou a cadeira no lugar, percebeu dois papéis: um amassado e outro preso por trás do móvel de madeira branca. Logo se abaixou e pegou a mais acessível. Era uma folha com a impressão de confirmação de uma passagem de avião para uma cidade no estado ao norte do país. De fato ele não estava por perto, mas por que ele iria sem lhe dizer nada? Mas no outro papel, que com muita dificuldade custou para sair do local onde estava preso chegando até a rasgar, estava a prova de que sua intuição estava certa. O papel por fim provou ser uma foto e nela estava James e uma mulher — aos beijos. Atrás da foto havia um nome que lhe fez sentir uma pontada no peito: Rachel Sullivan. E pela primeira vez em quase um ano, quis chorar.
Lembrou-se que poderia ser Rachel, a ex-namorada de James. Dominique só a conhecia por conversas. James havia a mencionado quando se conheceram e ele disse que havia terminando o namoro, pois ela fora trabalhar na Inglaterra. Mas no fundo ele sabia que James ainda a amava de alguma forma e teve duas provas disso; a primeira aconteceu enquanto faziam amor e ele sem querer deixou escapar um “Rachel” num sussurro. E a segunda foi quando recebeu uma notificação do facebook enquanto acessava a internet pelo tablet dele. James desconversou e disse que era só uma de suas colegas de trabalho.
Dominique sentiu raiva por ter sido tão idiota em ter ignorado os sinais. No fundo sabia que eles deveriam estar juntos há muito tempo, desde o retorno de Rachel ao país. Até a viagem a negócios que ele fez tomou outro significado agora. James havia reencontrado o que deixou no passado e estava dando uma segunda chance a isso. Ao perceber no que havia se metido, Dominique viu que o relacionamento na verdade não passou de uma alternativa, um passatempo. Era como se tudo tivesse servido de distração por uma pessoa que não gosta de ficar sozinha. Mas que tipo de pessoa com o coração quebrado, quer curar o seu quebrando a de outros? Dominique pegou os dois papéis, rasgou e deixou sobre a mesa junto com a caixa de bombons que daria de presente e o cordão que havia ganhado. Essa seria uma prova de que esteve ali, que o amava, mas que havia descoberto uma traição, que havia levado o relacionamento ao fim.
~ 19h25min
Dominique sentou no banco do trem e respirou fundo. O estresse, cansaço e tristeza estavam deixando seu corpo fraco. O vagão estava quase vazio, a não ser por um casal apaixonado sentado ao fundo que se beijava e demonstrava afeto sem exageros. O transporte começou a andar sobres os trilhos e quando alcançou o ar livre foi coberto com a neve que caia levemente. Os fogos e as gritarias continuavam lá fora. Enquanto que o trem subia uma elevação onde de lá era possível ver parte do oceano. O começo da noite chegou com uma neblina fina que também cobriu seu coração. Em um solavanco do vagão, Dominique sente sua mão repousar em algo dentro de um dos bolsos de sua mochila e logo pegou o objeto; uma pequena lata arredondada cujo conteúdo não usava há um bom tempo, mas sempre andava acompanhado. Eram seus antidepressivos. Presente de várias consultas ao psicologista e suas crises de adolescência. Isso era a única coisa que o livrava de voltar ao passado sem amigos, com uma família que brigava e tentativas de suicídio. Logo abriu o cilindro, tirou um comprimido róseo e o olhou por alguns segundos:
- “Feliz ano novo...” – pensou enquanto o engolia o comprimido a seco.
~20h43min
As ruas já estavam com uma espessa camada de neve quando Dominique alcançou a rua depois de descer na estação de trem no bairro onde morava. Sentia os pés gélidos, as maçãs do rosto frias e a cabeça que ainda estava dolorida. Ao redor, as casas estavam iluminadas e onde quer que passasse escutava risos e cantorias. Logo pensou o que faria quando chegasse em casa. Não havia planejado nada e a única alternativa era se encher de comprimidos e dormir profundamente a ponto de não sentir dor e esquecer tudo o que estava acontecendo.
~ 21h
Finalmente Dominique chega em casa. Nos últimos minutos sentiu a visão turva por alguns momentos e agora estava tendo problemas para encontrar as chaves dentro da mochila. Depois de alguns segundos que pareceram minutos, debaixo da neve que começara a cair um pouco mais forte, a chave não conseguia entrar na fechadura e só na terceira tentativa acertou e girou a maçaneta para abrir a porta. Tudo estava tão escuro que chegou a tropeçar e quase cair no chão. Cambaleando tateou a parede da entrada até a sala mais ao fundo. Ligou o abajur e jogou a mochila no chão. Quanto aos sapatos, largou-os em um canto. O casaco úmido e com raspas de neve pendurou e depois se jogou no sofá. O antidepressivo já estava fazendo seus efeitos; acalmando, trazendo sono e bloqueando alguns pensamentos.
- “Se todas as dores sumissem assim tão rapidamente...” — Pensou antes de fechar os olhos.
As preocupações não passavam de fragmentos de lembranças ruins girando em espirais psicodélicas-multicoloridas-abstratas que giravam sem fim em direção ao nada. Só teve tempo de desligar a luz para em seguida adormecer.
~ 23h40min
A campainha tocou uma vez, duas vezes e na terceira despertou Dominique. Estava tudo tão escuro que havia até perdido a noção de tempo. Talvez estivesse já em outro ano e nem percebera. Pensou ter ouvido a campainha soar longe, mas como estava tudo quieto, voltou a fechar os olhos. Quem sabe poderia voltar para o maravilhoso sonho que estava tendo. Mas então a campainha voltou a tocar. Alguém estava na porta.
- Quem é? – perguntou sem vontade alguma de se levantar do sofá e nem ligando para o caso de ser um assaltante conferindo se tinha alguém em casa. A resposta foi o silêncio.
A campainha volta a soar novamente.
- Quem é? – voltou a perguntar, agora acendendo o abajur. Ninguém respondeu. Somente o som dos fogos de artifício em algum lugar do bairro podia ser ouvido.
- Dominique? Dominique, você está aí?
Dominique sentiu o coração acelerar. Levantou tão rápido que sentiu o mundo girar sob seus pés. Enquanto se perguntava quem poderia ser àquela hora, ligou a luz e por reflexo checou para ver como estava seu rosto antes de ir á porta. Estava um pouco amassado devido à posição que dormiu no sofá, com olhos vermelhos, o cabelo desgrenhado, mas não se preocupou muito. Aquela voz não se importaria com isso.
~ 23h50min
Dominique ligou a luz da porta e respirou fundo antes de abri-la. Nem quis olhar pelo olho mágico. Com as mãos trêmulas girou a maçaneta fria. A luz dos postes e os flocos de neve foram os primeiros a entrarem pela porta que quando se abriu por completo exibiu aquele que no fundo ainda amava. Estava coberto de neve e sua respiração formava um vapor condensado à medida que expirava.
- Desculpa... Não consegui deixar de pensar em você. Estava preocupado – disse ele pondo o capuz com flocos de neve em direção a nuca.
Dominique sorriu e não pensou duas vezes em envolver o corpo frio de Aaron em um abraço apertado.
~ 23h55min
Dominique e Aaron se sentaram lado a lado no sofá com uma garrafa de vinho que ele havia trago.
- Desculpa. eu não planejei nada para hoje... – disse se referindo a ausência de espírito festivo enquanto ligava o rádio. Uma música melódica alternativa tocava. Dominique logo identificou sua cantora preferida com sua voz incomparável, limpa e tão pura. Exalando dor em forma de letras que nunca fizeram tanto sentido quanto agora – Mas... Como sabia que estaria aqui? – perguntou olhando para Aaron que tirava o casaco e repousava no encosto de uma cadeira.
- Não sabia. Somente senti que você precisava de mim. Parece besteira, mas parece que te sinto de alguma forma – respondeu com um sorriso.
- E se eu não estivesse aqui?
- Saberia que o que sinto por você é algo que só eu sinto.
Dominique calou-se sentindo o rosto vermelho e se assustou com um rojão que estourou no céu sobre a casa. Nem tinha percebido que estavam a poucos minutos de um novo ano. A TV exibia as pessoas felizes no centro da cidade: Seria felicidade real ou só uma forma de alegria temporária. Algo que duraria algumas horas até o efeito da bebida passar e se tocarem que se não mudassem por si próprias nunca encontrariam uma razão para serem felizes e continuariam sem esperanças no ano que estava por vir. De repente a câmera focou na contagem regressiva em um telão que exibia gigantes números brancos. Enquanto isso, dentro de casa, ambos assistiam à regressiva. Cada um com um tipo diferente de sensação, algo inexplicável.
- 10!!! – Gritavam as pessoas apertadas um ao lado do outro na multidão vista pela TV.
- Dominique, eu queria te dizer uma coisa – disse Aaron depois de um longo suspiro.
- 9!!! – Na TV as pessoas pulavam, outras choravam.
- O que houve Aaron? – disse Dominique com o coração acelerado.
- 8!!! – Na TV um homem beijava uma mulher e depois sorriam. Os olhos de Aaron brilhavam.
- Eu queria...
- 7!!! – Na TV havia pessoas de diferentes países, raças e crenças. Enquanto que Dominique sentia o coração palpitar.
- Eu queria te desejar todas as melhores coisas do mundo...
- 6!!! – Até crianças disputavam um espaço para comemorar. Enquanto que nenhum dos dois prestava mais atenção na TV.
- Eu desejo que você continue essa pessoa incrível que você é.
- 5!!! – Estavam na metade da contagem. Aaron nunca havia se sentido tão nervoso.
- Nunca deixe as pessoas te derrubarem. Mantenha-se firme.
- 4!!! – O clímax estava chegando.
Aaron então pegou a mão de Dominique e a segurou firme.
- 3!!! – Algumas garrafas de champanhe já estouravam. Dominique sentiu a mão quente de Aaron se juntar a sua. Era confortante.
- Aaron... – Dominique sussurrou a ver que a distância entre os dois havia diminuído muito nos últimos oito segundos.
- 2!!! – A TV pareceu emudecer por um segundo. Ambos se olhavam como nunca antes.
- Dominique – disse Aaron olhando nos fundos dos olhos da pessoa sentada a sua frente.
- 1!!! – Os primeiros fogos de artifício foram disparados no céu, iluminando a cidade.
- Eu te amo – disse Aaron por fim pondo pra fora algo que estava guardado desde o dia em que percebera que o que sentia por Dominique estava além da amizade.
~ 00h
Dominique não sabia o que fazer diante de tal declaração. A televisão pareceu estar muda, embora milhões de pessoas gritassem em meio à comemoração de virada de ano. A sala iluminada pela luz amarela da luminária, agora exibia rápidos brilhos coloridos derivados das explosões dos fogos de artifício cujas luzes atravessavam a janela. Tudo parecia ter parado no tempo. Era muita coisa para um único dia. Seria isso o que chamavam de milagre de ano novo? Seria esse a realização de um pedido feito há tanto tempo atrás, num período de devaneio? Dominique não soube quanto tempo ficou observando o rosto levemente avermelhado de Aaron, mas quando voltou a si, segundos depois, piscou e olhou para baixo. Suas mãos ainda tremiam junto às dele, mas seu coração estava feliz. Percebeu que era com ele que deveria estar todo esse tempo. Dominique encarou Aaron de volta e sorriu. Um sorriso que pareceu expulsar toda a tristeza que tinha e iluminar o rosto de Aaron que sentiu que seu sentimento era recíproco chegando a ficar vermelho. Sua mão agora tocou o rosto de Dominique e com o polegar evitou que uma lágrima caísse.
- Aaron, eu... – Dominique abriu a boca, mas estava sem palavras para expressar tal felicidade.
- Não diga nada... – Sussurrou Aaron.
O beijo foi inesperado e o mais aguardado. Seus lábios pareciam estar ansiosos por esse toque que há tempos esperavam acontecer novamente. Suas mãos agora apertavam o corpo um do outro. No fundo era tudo o que queriam. Dominique precisava de alguém que realmente o amava e Aaron precisa declarar todo o amor que sentia pela pessoa que nunca saiu de sua cabeça. Ambos se completavam de todas as formas e sabiam que não era obra do acaso e sim do destino. Poderia tudo ser muito recente para isso acontecer, mas era um ano novo. Era tempo de mudanças e de deixar tudo o que estava atrasando ou deixando Dominique triste para trás. Era hora de seguir em frente.
- Feliz ano novo – disse Aaron abrindo a garrafa de vinho e pondo em uma taça. Seguido do som de tilintar dos vidros, degustação e uma mão estendida convidando Dominique para uma dança no meio da sala, onde uma música os envolvia numa atmosfera etérea onde pensamentos negativos pareciam não existir.
- Feliz ano novo – Sorriu Dominique timidamente beijando Aaron mais uma vez enquanto sentia que um novo futuro estava nascendo.
~ FIM ~
(^.^)v
~by Hikari-Ouji
Notas finais
Depois de um bom tempo sem postar um capitulo, eis que volto a postar algo. Bem, como de costume, vamos aos bastidores de sua criação.
Frozen Heart foi criada há cerca de um ano. Foi feita no fim de 2013 para 2014 e postada em um site que não frequento mais, pois literalmente o lugar parecia mais uma rede social do que um site onde possa postar uma história. Enfim... Frozen Heart é uma história que ilustra o que muitas pessoas passam no fim de ano. Não são todas que estão animadas, felizes e apaixonadas nessa época. Sempre haverá alguém triste, alguém que está sofrendo, alguém que não está em clima de felicidade. Daí veio a inspiração, pois eu sou um desses que não é muito fã de datas festivas.
O título “Frozen Heart” significa “Coração Congelado” que por sua vez lembra outra palavra “Broken Heart” ou “Coração Quebrado” – um dos títulos que me veio a mente.
Outro fato é que a fic em si foi inspirada em uma música lançada no álbum de 2013 pela incrível Dido. Quem tiver curiosidade e quiser ouvi-la, irá sentir a atmosfera da história. Se eu transformasse a história em um curta, ele teria essa música como trilha sonora.
Como disse a fanfic foi escrita no final de 2013 e foi editada novamente para consertar algumas coisas. Uma delas foi o gênero. Não sei se perceberam, mas não se sabe qual é o gênero do personagem principal; Poderia ser uma garota, como também poderia ser um rapaz. Você escolhe. Por isso escolhi o nome Dominique, que na França é muito usado por homens e mulheres. Nos últimos tempos nos EUA, também se tornou comum e raramente achamos alguém com esse nome no Brasil. O/A personagem principal ia se chamar Alex, mas parecia muito óbvio.
Se fosse para dar uma cidade onde se passaria a história, com certeza seria Manhattan, para a região onde trabalham e Long Island, para onde Dominique mora. Escolhi omitir a cidade para não ser muito clichê, mas tudo foi inspirado em lugares reais.
Por muito pouco a história não teve outro final inesperadamente mais dramático e trágico que aconteceria depois do final original, mas será reaproveitado em outra história. Um fato que entrou no último minuto depois que tudo estava pronto foi o caso do anel de noivado e da fotografia. Um não existia e o outro era um papel com um endereço de e-mail.
Para terminar, eu dedico essa história a todos os corações solitários, a todos os apaixonados, a todos que comemoram ou não o fim de ano. Desejo um ótimo começo de ano e que seus desejos possam se realizar. Lutem pelo o que acreditem e sejam felizes.
Abraços, Hikari-Ouji
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