Frozen Flame: Jóias Sedentas
2 Kevin: Todos tem seus autos e... baixinhos...
Notas iniciais
Eu olho essas crianças... Para lá e para cá. Brincando e se divertindo. Cheias de energia. Oh mon dieu... Estou falando como um velho ranzinza a beira da morte, que só sabe reclamar...
Ao menos não perdi meu senso de humor.
É difícil pra eu conseguir me divertir de novo. Ver graça nas coisas. Eu não sei dizer se é depressão, já que eu ainda consigo rir de verdade, consigo me socializar com os outros, e não tenho vontade de ficar trancado o tempo todo. Ênfase no “tempo todo”.
Está frio, não tenho nada para fazer. Não tenho muitos amigos para chamar para sair, e os que eu tenho estão viajando e só voltam dias antes de começar as aulas. Acho que vou ao shopping.
Não há nada mais sem graça que um “pseudodepressivo”. Com certeza, se eu parasse para contar minha vida a alguém, essa pessoa iria dormir. Igual a qualquer um que vá a um culto de igreja que dure mais de 2 horas.
Eu mesmo durmo comigo mesmo. Amo dormir. Dificilmente sonho. E enquanto durmo, esqueço-me das lembranças que me atormentam, e que até hoje, nunca as entendo direito.
Se bem que as pessoas que acompanham meu Tumblr até que gostam de mim. Pena que não as conheço. Bem, de qualquer maneira, acho que vou ao shopping.
Peguei meu minha mochila, meu Playstation Vita, coloquei os fones e esperei no ponto de ônibus até passar um que passasse em frente ao centro de compras.
Ao ver que já me aproximava do shopping, guardei meu portátil em minha mochila e dei o sinal para descer.
Após desembarcar, tirei apenas os fones de ouvido e continuei a ouvir música, mas dessa vez sem jogar. Não podia jogar enquanto atravessava a rua. Estou com humor questionável, não com sanidade questionável. Sofreria mais se sofresse um acidente.
Depois de atravessar a rua, segui caminhando em direção às escadas que levam à entrada. Quando faltavam apenas alguns passos para finalmente virar e começar a subir – acho que agora posso admitir que estou em um nível estrondoso de sedentarismo – , ouço sons estranhos de pessoas e sons parecidos como quando alguém bate em um metal, por exemplo, uma caçamba de lixo, vindos de um beco, que também era perto da entrada do centro de compras.
– Aider, quelqu'un me... – A voz, feminina, foi abafada rapidamente, e mais barulhos de metal soaram.
Obviamente não passaria reto. Por mais que eu não seja forte, nem tenha uma cara amedrontadora e coisas desse tipo, não vou deixar de atender a um pedido de socorro.
Corri até o beco e, no mesmo instante, percebi a gravidade do que estava acontecendo e concluí o quão sortuda era esta moça, por gritar por socorro na hora exata em que eu estava passando, já que não havia mais ninguém na rua.
A moça estava caída no chão, escorada na caçamba de lixo – acho que eu deveria apostar na loteria –, sangrando e com sua blusa roxa rasgada, enquanto estava cercada por três garotos. Diria que da minha idade, mas fazendo coisas de uma idade mental que não se pode nem classificar.
– Ei, otários! Deixem-na!
– Fica na sua, garoto! Ou vai querer se juntar a nossa doce amiga? – O mais baixinho respondeu a mim. Após dizer isso, ele mudou seu foco de atenção para a rua. Olhou para mim novamente, e com um rosto de feições raivosas, disse aos outros:
– Peguem-no!
No mesmo instante corri em direção ao círculo onde eles estavam rodeando a moça e pulei em cima do baixinho. Não iria fugir e deixar a garota simplesmente ser usada como uma boneca inflável versão real.
Comecei a soca-lo enquanto prendia seus braços que tentavam revidar. Não durou nem dez segundos. Um outro rapaz me jogou para a parede oposta, me fazendo bater a cabeça contra os tijolos.
Ele se agachou na minha frente e começou a apertar meu pescoço. Por mais que tentasse afastar suas mãos, ele era forte demais. Como reação para me livrar, comecei a me rebater, e por uma incrível sorte, ou algo assim, socando sua virilha.
Eu estava um pouco tonto, por causa da falta de ar. Não conseguia me mexer direito. Com a vista ainda um pouco turva, consegui ver o baixinho se aproximando com algo na mão.
– Agora... – Ele apertou um botão e o canivete se abriu – você vai sair do chão pra ir deitar na cama do capeta. Au revoir – ele se abaixou encostando a faca na minha garganta, enquanto completava – logo a garota fará companhia a você. Assim que terminarmos com ela.
– BAM! – senti que o canivete parou de fazer pressão em minha garganta, mas eu ainda estava afetado o suficiente para não prestar atenção no que aconteceu por conta da falta de ar, e simplesmente fechei os olhos.
Ainda com a cabeça doendo, abri os olhos novamente e minha visão já estava um pouco mais nítida. Uma barra de ferro caiu na minha frente. Olhei para cima e vi que era a garota. Ela pisou no corpo provavelmente desmaiado do baixinho e disse:
– Hoje não, meu querido. Se quer um brinquedinho... – ela pegou meu braço e me puxou, ajudando-me a me sentar encostado na parede – na casa da sua mãe tem um.
Fiquei impressionado com o jeito da moça! Ri um pouco e falei perguntei-a:
– Poderia ter dito isso quando ele ainda estava acordado. Seria mais legal. – Ri e olhei em seu rosto
– Não... ele teria percebido e me atacado. – Ela riu também e me estendeu a mão.
Aceitei a ajuda e levantei. Procurei minha mochila e a vi jogada ao lado da caçamba. Ajeitei minhas roupas, coloquei-a nas costas e me virei a garota:
– Como é seu nome, mon chéri?
– Lorena. E o seu, gentilhomme?
– Kevin. Prazer.
– O prazer é meu. Obrigada por me ajudar.
– Acho que quem tem que agradecer por ajuda aqui sou eu... – Respondi em risos.
– Ei... Não eram três caras?
– Sim... E... Espera... O baixinho você o acertou na cabeça, e o forte que me enforcou? Eu apenas bati nele, mas nada que o deixasse caído no chão até agora...
– Eu bati nele também. – Lorena riu e olhou para os dois caídos no chão.
– E o terceiro? Acho que deve ter corrido. Nem consegui ver seu rosto.
– Verdade... não me lembro do rosto do terceiro...
– Bem, eu estava indo ao shopping. Quer ir comigo? Podemos comer algo. E você precisa de uma blusa nova!
– Aceito comer algo, mas não posso comprar uma blusa nova agora... – Lorena riu de canto, um pouco envergonhada. Talvez por ter dado a entender que sua situação financeira não é das melhores.
Ri para ela, e saí do beco, fazendo um sinal com a mão, pedindo para que me acompanhasse.
Após entrarmos no shopping, várias pessoas notaram o estado de Lorena. Para evitar que a confundissem com alguém com más intenções – sim, isso preconceito, só por causa de sua aparência, mas infelizmente é a verdade, e não quero que a expulsem do shopping injustamente –, tirei minha jaqueta de couro e a cobri.
– M-Merci... – Ela se envergonhou um pouco, mas aceitou, já que era melhor assim. Estranho ela se envergonhar assim... se mostrou tão durona lá fora...
Primeira providência: levei ela até onde fica os banheiros. Ela precisava se lavar e tirar o sangue de seu rosto. E água fria vai ajudar seu rosto, que está com vários hematomas.
Aproveitei que ela estava lá, e fui ao banheiro também. Lavei meu rosto, arrumei com mais cuidado minhas roupas e reparei na marca que estava em meu pescoço. Não quero chegar com ela em casa. De maneira alguma! Acho que vou comprar uma maquiagem na saída para esconder isso.
Olhei para o espelho, e foquei em minha mochila, que havia deixado no chão. Abri-a, peguei meu notebook que estava guardado em um bolso secreto, e sentei-me no chão, escorado na parede. De novo.
Após esse dia um tanto quanto... exótico, acho que seria bom eu escrever sobre ele no meu Tumblr. Antigamente, eu sentia certo prazer em postar, em receber comentários e ver que as pessoas gostavam. Eu sei que deu a entender que o blog é como uma droga para mim, mas não... Ele simplesmente me faz bem. É como se fosse uma válvula de escape. Agora eu acho que deu a entender que sou louco. Mas não. Ah... não consigo explicar. De qualquer maneira, não sei mais dizer se ainda sinto isso hoje em dia.
“Olá!!! Bem, não sei muito bem o que escrever, e nem sei como consegui recuperar minha calma tão rapidamente. Mentira, sei sim. Não, não sei. Na verdade, não deixei de manter minha calma, então... Ai que confusão xD
É que hoje para mim o dia foi um tanto quanto estranho. Não posso contar o que aconteceu. Sim, esse será mais um segredo. E nem venham com mimimi, pois este é apenas o segundo. O primeiro eu realmente não posso contar. É pessoal de mais. O segundo, é tenso demais...
Conheci uma garota hoje. “L”. L é uma garota e tanto! Cabelos ruivos e curtos, forte física (magra, mas se vissem as forças daqueles músculos...) e mentalmente, simpática... E não. Não a namoro.
Enfim. Desculpem-me por mais este segredo. Eu realmente não gosto de mantê-los, mas... Tenho medo. Eu queria ser forte o suficiente para contar. Se sou tão frio, calculista, e tudo mais do que dizem, porque não consigo criar coragem?
Para ser sincero, mas não modesto, porque temos que nos valorizar sim, eu tenho coragem. Mas apenas para algo que não seja sobre mim. Eu não sei o que pode acontecer. Eu ainda nem sei porque continuo contando essas maluquices da minha cabeça para vocês, e vocês continuam lendo, e falando comigo... Eu apenas me pergunto, se vocês são tão meus amigos, porquê não moram perto de mim. Seria ótimo. Com certeza não estaria assim hoje. Eu aposto.
Enfim, mais tarde continuo escrevendo. Preciso ir ver a L. Acho que ela já enraizou no chão me esperando.
Byebye”.
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