Frozen Air

1 Capítulo I


Notas iniciais
Postando em cima da hora mas postando :3 boa leitura

A tempestade de neve se aproximava, o vento ficava cada vez mais frio e violento, mas as renas mantinham suas posturas, enquanto Ashley as desprendia de seus arreios. A maioria já estava em seus estábulos. Na opinião de Ashley, elas deveriam ser soltas para que pudessem voar pelos campos e correr por entre as árvores. Não era certo prendê-las, ainda estavam nervosas e... ela podia ver em seus olhares... tristeza, tentavam disfarçar mantendo a postura voraz, mas ela as conhecia.

Os policiais, que ali estavam para investigar "a cena do crime", estavam apavorados com as renas. As histórias que os humanos contavam sobre aquelas criaturas não condiziam com a realidade: não eram doces, não eram gentis, não eram mansas. Eram enormes feras, imponentes com suas galhadas de gelo, gostavam de destruir, tentavam a todo momento cravar seus chifres e presas em todas as pessoas que viam. Sua gentileza era muita, na verdade, mas só era dada a quem julgavam digno. Nenhum de seus tratadores anteriores conseguira ficar mais de um dia, todos acabavam seus expedientes em hospitais, mas Ashley tinha algo. Noel sempre dizia, algo que os outros não tinham, que a tornava diferente.

Os policiais não concordavam em deixá-las soltas, mesmo Ashley dizendo que as levaria para longe e que lá as soltaria. Eles queriam as criaturas presas. Mal sabiam eles que da última vez que foram presas, ainda nervosas, fugiram e logo já haviam destruído e colocado fogo em metade da fábrica de brinquedos. Sem Noel para defender suas renas, Ashley teve de obedecer os tais policiais, que de Mamãe Noel tinham o apoio.

Começara a subir a montanha coberta de neve junto a Dancer. O trenó se encontrava ao pé da montanha, estava acabado. Ao seu topo, policiais, jornalistas e curiosos, não havia nada que os retivessem ali, apenas o medo das renas. Os policiais iriam procurar alguma coisa que lhes pudessem dar uma pista do que acontecera com Noel, quando as renas já estivessem presas.

Não haviam explicado muito bem a Ashley o que acontecera, sabia ela que, a certo tempo, havia achado o trenó ao pé daquela montanha, sem Noel e sem presentes. Não era, ainda, dia de Natal, este seria em dois dias. Logo, o local, que não era longe da mansão de Noel, estava cheio de pessoas, alguns policiais, todos vindos de longe, jornalistas de cantos diversos do mundo, e os curiosos que eram apenas duendes da cidade. Todos juntos olhavam para o treno sem saber ao menos o que pensar.

Ashley achava engraçado o modo que as pessoas iam para os lados em desespero, se amontoavam e davam gritos abafados quando Dancer movia bruscamente sua cabeça para os lados. A rena era perigosa, ela sabia, contudo, Dancer e nenhuma outra por seus princípios atacariam na presença de Ashley.

Ela ficava a olhar humanos, era a primeira vez que os via. Pensava que deveriam ser mais altos, não havia um deles ali sequer que passasse de sua estatura ou ao menos chegasse perto, por extrema ironia, pensava ela.

*-*-*-*-*

Pelas enormes vidraças, podia-se ver o sol nascendo por trás das enormes montanhas, que o vale cercava. O céu se tornava uma imensa pintura. As aves voavam para todos os lados, mesmo após uma nevasca, ainda cantavam pelo vale e os raios de sol sobre as árvores congeladas.

Ashley via aquela mesma paisagem todos os dias, todavia nunca se cansaria dela. Enquanto caminhava pela plataforma da fábrica de brinquedos, observa cada detalhe. Naquele dia, porém, a fábrica lhe chamara atenção. Em véspera de Natal, tudo estava parado, as máquinas desligadas, alguns poucos duendes andavam lá em baixo, não havia um presente sequer. Aquele lugar que sempre ficava em completa bagunça e agitação, estava parado, com um clima mortuário. Noel nunca deixaria esse lugar ficar assim, pensara com tristeza.

A plataforma balançara um pouco, tirando-a de seus pensamentos. Ashley se desequilibrara, acabara batendo contra a grade. Olhou para frente. Ele ainda segurava a corrente de ferro com uma das mãos e a outra estava nas costas. Sorria para ela, parecia estar a tramar algo. Dylam com seu sorriso sempre feliz e simpático, seria o perfeito exemplo de duende do Noel, caso não medisse mais de dois metros de altura.

–Da próxima vez podia avisar, eu podia ter caído. -Ashley dissera tentando manter sua voz firme.

–Olá, para você também — ele soltara da corrente, agora tinha as duas mãos nas costas — Ora, me diga, que graça teria se eu avisasse?

–Toda, você continuaria se divertindo.

–É. Talvez. Gangorrar por cima de uma fábrica de brinquedos é legal, você deveria tentar. — Ashley olhou por cima da grade, para baixo.

–É muito alto, não sei se...

–Eu poderia te empurrar!

–Eu sei que você iria me empurrar.

–Estou começando a ficar previsível... Ou não.

–Ou sim.

–Ou não — repetiu, firmemente, tirando as mãos de trás das costas. Segurava um caixa vermelha envolvida com um laço verde, era pequena e delicada. Dylan a estendeu a Ashley.

–Ou não- disse baixinho, ainda olhando a caixa. — É pra mim?

–Claro! Ainda não é o seu presente de aniversario, esse você só vai ver em dois dias! Isso aqui foi apenas uma coisinha que vi e me lembrei de você... Vamos lá! Pegue, logo, Ashley! — ele balançou a caixa devagar. Ela não pode deixar de sorrir ao pegá-la. Olhou para ela- Abra logo! — reclamou Dylan- Eu quero ver a sua cara!

–Calma — ela sorriu — Está muito bonitinha pra eu abrir!

–Abra logo!

Ela, por fim, puxou o laço, a bela flor que era se desfez. Abriu a caixa, dentro, junto ao veludo vermelho, havia um cordão de prata com uma pedra azul cintilante, da mesma cor dos olhos de Ashley. Ela ficou admirando-o por um tempo, ainda surpresa.

–O que foi?! — perguntara Dylan — Você não gostou?!

–Como eu poderia não gostar? — ela sorriu pra Dylan.

–Sei lá! — ele dera nos ombros.

–É tão lindo!

–É... Tem a mesma cor dos seus olhos.

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, um grito fora ouvido, o som de algo se quebrando. Ela e Dylan se olharam confusos.

–O que foi isso?!

–Veio da sala do Noel, eu acho — ficaram em silêncio, por um segundo, permaneceram parados, mas logo já estavam a correr pela plataforma. Ela estremecia aos seus passos. Dylan trabalhava ali há séculos, já se acostumara. No entanto, Ashley se via a todo momento caindo dali em direção à morte.

Saltaram de um dos anexos das plataformas. Viam-se, agora, em uma sacada, onde Noel costumava ficar a olhar os duendes em suas correrias pela fábrica. Ashley não precisava fechar os olhos para velo ali. A enorme porta vermelha de sua sala estava levemente aberta. Dylan fora na frente, andava devagar. Ashley estava logo atrás dele.

A porta rangera quando fora empurrada, mesmo devagar, os dois entraram em passos leves e receosos. Estava escuro e frio, mas ainda podiam ver a cena que os surpreendera. A sala de Noel, sempre impecável, sempre aconchegante, estava agora acabada, tudo que ali havia estava destruído. Móveis quebrados, quadros rasgados, protótipos estraçalhados, a mesa de carvalho se encontrava metade de um lado da sala, e a outra, Ashley não podia ver onde estava. As pilastras de madeira tinham marcas de garras, e a lareira perdera a própria forma. No centro da sala, havia alguém, não parecia tê-los visto. Dylan, sem pensar direito, acendeu a luz.No centro da sala, estava Mary, a Mamãe Noel, os cabelos pretos com alguns fios brancos estavam presos em seu típico coque. Ela estava pálida, os olhos arregalados.

–Senhora? — perguntara Dylan. Ela parecia não ouvir, continuava paralisada. -Senhora? — ele chamara de novo, mais uma vez não obteve resposta. Os dois chegaram mais perto. Mary parecia ainda não tê-los notado, seu olhar desesperado se focava na parede.

Dylan estendeu a mão e tocou seu ombro, desta vez a mulher se virou, agarrou seu pulso em um veloz movimento. Mary abrira a boca, mas só conseguia emitir sons finos e abafados, suas mãos tremiam, estava em choque. Ainda tremendo, ergueu a outra mão, e apontou para a parede. Não notaram antes, repleta de marca de garras profundas, escrito em grande escala, com o que lhes parecia tinta negra:

Tarde demais!

*-*-*-*-*

Estava chegando aos estábulos. Pouco tempo depois, a sala de Noel já estava repleta de policiais, cada duende que lá estava ou não, fora interrogado. Já eram treze de Janeiro, mesmo após quase um mês de procura, os policiais ainda não tinham encontrado uma pista sequer, pelo menos até agora. A policial que falara com Ashley tinha um sotaque engraçado, russo, talvez, mal falara com ela. A mulher queria que ela fosse logo aos estábulos ver as renas. Falava desesperada, sobre elas, acusava-as de terem causado tal desastre. Mas elas não fizeram isso, ficara a pensar, renas... não sabem escrever. Mas obedecera a policial, já deveria ter ido a tempo vê-las. Porém, em meio a tudo, não vira mais Dylan.

No fim da plataforma principal, encontravam-se os portões de ferro, após uma breve escadaria, os estábulos. Ashley tirara a mochila, guardara com cuidado o presente de Dylan lá. Iria levar as renas para um passeio, pretendia sumir com elas pelo resto da tarde. Não sabia onde iria, só pensava em caminhar pelas montanhas, por seus cenários gelados, voltar apenas quando estrelas o céu enfeitassem. Encontrara, afinal, o conjunto quase interminável de chaves dos portões, tantas havia, não sabia o que metade delas abririam, mas pretendia descobrir. Enquanto destrancavam um por um os cadeados, podia ouvir as renas, felizes, esperando sua chegada.

Descera a escadaria de pedra, o ar começara a ficar mais gelado a cada passo, lá que sempre fora quente além do normal, começara a congelar. Os degraus da escada acumulavam neve e gelo. Estariam as portas abertas?

Ela descera mais rápido que podia, tentando não escorregar. Chegara aos pés da escadaria, neve se acumulava aos montes, por toda parte havia gelo, as correntes, as celas, tudo coberto pela geada. Ashley andara devagar, até o início do corredor de estábulos, cada uma das renas colocara sua cabeça para fora, as galhadas cintilavam fracamente, seus pelos castanhos cobertos de neve, todas permaneciam em silêncio.

Não havia portas, nem janelas abertas, mas ventava fortemente. Seus casacos pareciam finos e inúteis contra o vento gelado. No silêncio, Ashley ficara ouvindo o próprio bater de dentes. Algo começara a cair, ela estendera a mão,sobre as luvas flocos cintilantes caíam. Ela olhara para cima, não conseguia entender, começara a nevar. O vento ficava mais forte, nevava mais e mais, não conseguia ver muita coisa.

Rudolph viera andando mansamente, só o notara quando parara à sua frente. Suas galhadas brilhavam, a luz iluminava os flocos de neve. Via-se, em meio a uma nevasca vermelha, os olhos. Brilhavam em tons de violeta. Sua luz era fraca perante a de suas galhadas, mas era ainda mais bela. Com o focinho rosado, acariciara o rosto de Ashley, e se afastara, olhando-a fixamente.

A nevasca continuara a sua volta. Rudolph não parecia se importar, nem ao menos notar. Ashley não via nada além dele. Rudolph mais uma vez acariciara seu rosto, quando se afastou. Seus olhos começaram a se apagar junto as galhadas. Os olhos permaneciam da mesma cor, mas as galhadas se tornavam gelo, sem cor e sem vida. Devagar, ele se virou, com passos lentos se afastou. Ashley não o via mais, tinha pelos brancos como a neve, se misturara à tempestade. Ela ficara parada, imóvel, sua mente se embaralhava, nós e mais nós.

Um rugido quebrara o silêncio. Confusa, olhara o corredor, mesmo não conseguindo ver um palmo à sua frente. Ficara a observar. O chão começara a tremer levemente, montes de neve se desfaziam, correntes nas paredes balançavam, e da mesma maneira que se iniciaram, terminaram repentinos os tremores. Continuara a olhar o nada. Uma rajada de vento a acertara violentamente, por pouco não a derrubara.

Ashley ouvira mesmo rugido, desta vez vinha por trás, se virara. Rudolph estava a voar, a tempestade não o atrapalhava, pelo contrário, ele seguia as correntes de vento, rodopiava pelo ar, tentava comer os flocos de neve. Suas galhadas e olhos agora acesos, brilhavam ainda mais intensos, rodopiava, voava para todos os lados.

–Rudolph! — ela chamara com voz rouca — Venha aqui! — Ele parou no mesmo instante, ainda, no ar, ficara a ouvi-la. — Vem cá, vamos sair daqui, me ajude a tirar os outros! — Ele tombou a cabeça para os lados, sinal que deveria ser de confusão, emitira mais uma vez o rugido estrondoso, antes de mergulhar veloz no ar.

Ashley não teve tempo de gritar, de correr, ao menos de vê-lo. Rudolph a acertara vorazmente, mas com cuidado para não feri-la com as galhadas. Ficara ela entre as galhadas de gelo, sobre sua cabeça. Rudolph voava mais alto, fazia curvas violentas e desnecessárias.

Rudolph a metros do chão parara repentino. Jogara com força sua cabeça para cima. Ashley não dizia nada, tentava apenas se segurar, todavia só havia os chifres e estes escorregavam. Mais uma vez guinara a cabeça para cima, com mais força. Uma das mãos de Ashley se soltou. Entrou em pânico, estavam a metros do chão, aquela queda na certa a mataria. Mais uma vez ele jogou sua cabeça. Ashley desta vez fora arremessada.

O dorso de Rudolph era duro, mas melhor que o chão, ele a deixara cair por alguns segundos, mas logo se apressara para apanhá-la. Virou a cabeça, a fim de poder vê-la. Ashley se sentara, o vento a todo momento tentava derrubá-la, seu coração batia em ritmo extremo, sentia que pularia de seu peito. Rudolph, em sua típica calmaria, a olhava intrigado, virava sua cabeça para frente, movia as patas, como se houvesse chão para batê-las. Ashley abraçou seu pescoço, o conhecia, sabia o que estava a pensar.

Ele, por fim, mergulhara em parafuso, era difícil tentar não cair. O vento forte, junto a neve, não ajudara, rodopios e guinadas brutas. Rudolph não parava, voava mais e mais rápido, movia as patas como se estivesse em um gracioso galope, voou por toda extensão do estábulo. Se dirigiu aos fundos, ficara no ar, parado. Ashley havia mantido os olhos fechados, porém notando que a rena parara, os abriu. A luz de suas galhadas iluminava uma pequena parte, mas Ashley pode ter noção de onde ele havia parado.

Rudolph recomeçara seu voo, em direção às portas. Ashley agarrara com toda força o pescoço da rena. Se desesperara, o que Rudolph estaria a fazer? Por fim, teria enlouquecido? Estava prestes a se atirar com toda força e velocidade contra as portas? Isso o mataria! As enormes portas principais, feitas das árvores mais nobres, inquebráveis, enormes e pesadas, eram abertas apenas uma vez por ano, na noite de Natal, para que Noel pudesse sair com seu trenó. E agora,Rudolph estava a se atirar contra elas. Ashley poderia pular de seu dorso, mas estavam alto demais, ficara ali agarrada em seu pescoço, vendo a rena tentar se matar.

Altos estalos ela ouvira, antes de Rudolph atingir com suas galhadas as portas. Ela fechara os olhos, esperava ser esmagada junto à rena. Mas sentira apenas o fim das rajadas de vento, tinha medo de abrir seus olhos novamente. No entanto, sua curiosidade era ainda mais forte. Devagar os abriu e em volta olhou. Rudolph sobrevoava os pinheiros do bosque. Olhara para trás, as portas continuavam em seu mesmo estado, fechadas.

Virou-se para frente, Rudolph continuara a galopar pelos ares, mas calmamente. Sobrevoava o bosque. Ashley nunca lhe dera muito valor, mas visto de cima era uma visão maravilhosa. Começavam a ganhar altura.

–Rudolph- Ashley o chamara. Ele virou a cabeça para trás- Pra onde você está me levando?! -Ele ficou olhando-a por um tempo, continuou a voar em linha reta, mesmo não vendo pra onde iriam. Bufara. Dera um olhar a Ashley, estava a planejar algo. Virou a cabeça para frente novamente. Ashley ficou intrigada, mas teria de ir onde quer que ele a levasse. Por fim, continuou a observar a paisagem.

Passaram o bosque, sobrevoavam agora o lago. Salve-o!pensara ter ouvido sussurros. Ashley olhou para os lados, obviamente não havia ninguém. Salve-nos! ouvira novamente sussurros. Salve-o, salve-nos! sussurraram mais uma vez. Salve-o, salve-nos! repetiram mais uma vez e se calaram. Estaria ela a enlouquecer?

*-*-*-*-*

Perdera a noção de quanto tempo já estavam voando. Rudolph já parecia cansado, mas ainda mantinha o ritmo. A cidade a tempos ficara para trás, fora divertido. Ashley tivera de admitir, voar por entre os arranha-céus, ver duendes e mais duendes, saindo apressados das lojas, todos se amontoando pelas calçadas, querendo ver Rudolph, com suas galhadas acesas e pelagem branca. Era fácil de reconhecê-lo. Estavam alto demais para perceberem Ashley, mesmo assim, ela ficara acenando.

Passaram por florestas cobertas pela geada, vales que Ashley não tinha noção de sua existência, lagos congelados que brilhavam à luz do sol, bandos de lobos em plena caça, ursos polares com seus filhotes. Ashley adorava cada paisagem, todas brancas, todas encantadoras. Porém, agora, não via mais nada. Rudolph a levara tão alto que não podia mais ver o chão, voavam por entre as nuvens, por cima das tempestades. Já se cansara das nuvens, eram todas iguais, não havia mais graça em apreciá-las, agora se encontrava com tédio.

–Rudolph- ele virara-se para vê-la- Estamos chegando? -tentava não soar como uma criança irritante.- Se é que estamos indo a algum lugar! — sussurrou a si mesma em tom irônico. Ele assentira com a cabeça. Ashley bufara e Rudolph voltara a olhar para frente. Tudo ali parecia exatamente igual para Ashley, ficara a se perguntar se ele não iria errar o caminho.

Rudolph parou no ar. Ashley, rapidamente, agarrou seu pescoço, sabia o que ele estava a pensar. Tendo certeza de que Ashley estava "segura", Rudolph descera em vertical. Ashley permaneceu de olhos fechados, segurava-se com todas as suas forças, contudo não parecia o suficiente, começara a se soltar. Entrara em pânico. Rudolph seria capaz de pegá-la? O medo a tomara, tentara se concentrar, tirar a ideia de morrer de sua cabeça, porém, cada rajada mais feroz de vento que a atingia, ela se soltava um pouco mais. Não podia parar de pensar que logo seria arremessada, e que Rudolph poderia ou não salvá-la.

Mais um pouco e Ashley estaria por sua sorte. Todavia, antes que pudesse testá-la, Rudolph parou repentinamente. Ashley já não estava muito agarrada a ele. O solavanco fizera com que fosse arremessada. Caíra sobre um monte de neve, a alguns metros de Rudolph. Ele descera míseros centímetros para que suas patas pudessem tocar o chão.

Ashley se sentara, sacudia a cabeça tentando se livrar da neve. Olhou em volta. Onde estavam? Se via aos pés de uma montanha, sentia-se como uma formiga ao seu lado. O topo era impossível de ser avistado, tão alta que as nuvens se juntavam. À sua volta, havia montes de neve, e mais à frente se inciava uma floresta, abundante demais para o clima. Não havia nela pinheiros, mas, sim, plantas tropicais e exóticas, todas cobertas pela neve. Em tudo aquilo, o que mais lhe chamara atenção, fora uma árvore, a maior que ali havia, com uma extrema abundância de folhas. O curioso nela não era em si o tamanho, mas as cores que tinha. Ao invés do verde clorofila, suas folhas exibiam inúmeras cores: jade, púrpura, belos tons de azul, vermelho, rosa, tantos que Ashley não conseguiria listar. E o tronco prateado ficara a refletir a luz do sol.

Ela se levantara, ouvira suas juntas estalarem. Rudolph se aproximou e ficou ao seu lado. Acariciara o rosto de Ashley, e se afastou, tinha uma expressão tão triste e ao mesmo tempo preocupada. Ashley tentara tocar seu focinho, mais ele recuara. Rudolph bufara feroz, se virou, rapidamente, quase golpeara Ashley. Levantou voo.

–Rudolph! -Ashley gritou desesperada. Ele, no ar, parara, ficara assim até que se virou. -Rudolph!- gritou com mais força. Ele a olhou com tristeza, fizera menção de voltar, mas apenas lhe dera um último olhar e voltou a voar. -Rudolph!- tentou gritar, mas sua voz se abafara. Ashley caíra de joelhos, lágrimas já escorriam por seu rosto, olhara para os lados, estava sozinha.

Salve-o! mais uma vez ouvira os sussurros. Salve-nos! Olhou em volta, não avistou ninguém. Salve-o, salve-nos!Ficara calada, apenas olhando para os lados, com esperança de avistar alguém. Vá! Siga a trilha!

–Que trilha?!-perguntara ao nada.

Olhe atrás da árvore, garota estúpida!

–Eu não sou estúpida! Como eu iria saber disso?

Deveria deduzir. Agora, vá! Levante-se e salve-o, salve-nos, salve-o, salve-nos!

–Salvar quem? De quê? E... onde você está? Como sabe que não estou de pé?

– Não obterá respostas.

Ashley se sentiu, realmente, estúpida ao ficar discutindo com vozes. Poderia estar enlouquecendo, perdendo a noção da realidade. Porém, se realmente houvesse uma trilha...

Levantou-se, mansamente, dirigiu-se até a árvore de prata, deveria ser aquela. O tronco era largo, suas raízes se exibiam por cima da terra. Ashley quase tropeçou em algumas e outras tivera de pular. Atrás da árvore continuava a floresta, repleta de exóticas árvores, contudo, entre elas, passava um estreito caminho composto de pedras de tamanhos diversos e tons variados de cinza.

Ashley tentou ver onde dava, porém ela desaparecia por entre árvores, sumia após a colina. Ficara intrigada, seus pensamentos se dividiam, deveria segui-la, ou voltar e ficar à espera de ajuda? Com certeza a trilha a levaria a algum lugar, entretanto não sabia o que poderia encontrar, poderia até conseguir sair dali,ou seria levada a uma morte certa. Seria mais viável voltar e ficar à espera de ajuda, ou talvez seguir junto à montanha, qualquer coisa seria mais inteligente do seguir a intrigante trilha. Sua curiosidade perdera para o bom senso. Ashley deu meia volta.

Tropeçara mais vezes, e mais raízes prateados saltara. Estava do outro lado, assustara-se com o que vira, ali não havia mais montanha, nem montes de neve, apenas mais árvores tropicais cobertas pelo gelo. Abismada, começou a dar volta e voltas pela árvore. Só via por toda parte aa flores.

Após incontáveis voltas, ficou novamente de frente para a trilha. Sua cabeça se embaralhava, não conseguia organizar seus pensamentos, ao menos tê-los direito. Após tempo parada, observando as pedras cinzentas, deveria por ali seguir, outra escolha até tinha, ficar sentada ao pé da árvore, porém, desta vez, quem triunfara fora a curiosidade.

Caminhou, lentamente, sempre certificando-se de que a prateada árvore estava ás suas costas. Sons diversos vinham da floresta. Ela ficou a procurar de onde vinham, mas não conseguia ver. A colina começara a subir, sentia um frio no estômago, logo não poderia mais saber se a árvore às suas costas estava. Tranquilizara-se, um pouco, ao refletir que ela não ajudaria em nada, mas perto dela se sentia mais segura.

Começara uma ventania, o vento uivava por entre as árvores, suas folhas dançavam. A neve que se acumulara nelas ia caindo, o sol brilhava por entre seus galhos, sua luz se refletia no gelo. Aquela cena tranquilizara Ashley, arrancando-lhe um sorriso de seu rosto.

À medida que subia a colina, o sol por trás das nuvens ia se escondendo, tornando a floresta mais assustadora. O ar começara a congelar, aos poucos o frio tomara conta de tudo. Ashley logo percebera que sua respiração podia ver. Rapidamente, o clima havia mudado. Ela mais uma vez se arrependera de não ter vestido casaco mais quente, não tinha mais seu gorro, este caíra durante o voo.

Do todo da colina, só podia ver mais plantas. As árvores, muito altas, impediam que visse mais além. Virara-se, dera uma última olhada na árvore prateada, e continuou a seguir seu caminho.

*-*-*-*-*

Ashley já estava a andar por quase uma hora. Como não havia nada para distraí-la, ficou observando as árvores, eram tão variadas, pareciam haver plantas de todas as parte do mundo. Vira, ali, até um cactos!

Os barulhos vindo de entre as árvores, ali, pareciam mais altos. Eram diferentes dos que ouvira durante o percurso, estes eram grunhidos mais graves. Ashley não lhes dera muita importância, continuara a seguir por seu caminho. Ali havia nevado, a pouco tempo, ela podia deduzir. Não era possível ver a grama, apenas neve, as árvores estavam mais brancas do que as que vira antes. E lá estava ainda mais frio, porém a trilha que seguira, permanecia intacta, mas Ashley chegara ao ponto de ignorar fatos estranhos.

Os grunhidos se tornaram mais altos. Ouvia, agora, junto a eles, o som de algo se partindo. Ashley começara a andar mais devagar, prestando mais atenção ao seu redor, com receio e medo. Andara mais um pouco, logo à sua frente faltavam várias árvores, havia ali uma clareira, que era cortada pela trilha. Ashley parara. De lá que vinham os sons. Ela saiu da trilha, lá se sentia mais exposta. Começara a andar novamente rente as árvores. Não estava a nem um metro da cinzenta trilha, mesmo assim, não se sentia segura com os pés fora dela.

Usou o tronco de uma árvore e a folhagem de arbustos para se esconder. Devagar olhou a clareira, receosa. Árvores de todos os tamanhos estavam empilhadas por toda parte, ainda havia folhas e raízes cheias de terra. No seu centro, alguma coisa muito grande e peluda estava sentada de costas para ela. Ashley não sabia o que era! Não se aproximaria para descobrir. Seus pelos eram logos e brancos, terra, neve e folhas neles se misturavam. A criatura ficara a grunhir, e os grandes braços balançava de vez em quando.

Ashley fora recuar, porém em um galho pisou. No mesmo momento, a criatura se virou, rapidamente se levantou. Ashley se escondeu nos arbustos, ficando por eles coberta. Cada passo preguiçoso que a criatura dava, fazia o chão tremer violentamente. Algumas das árvores das pilhas despencavam. A criatura olhara a trilha, ficara observando cada lado, bufara frustada. Se virou, começou arrancar as árvores novamente. Ashley saíra dos arbustos devagar, prestando atenção em onde estava pisando.

Seu coração estava disparado, por sorte a criatura não procurou direito. Os arbustos eram densos, a cobriam bem, mesmo assim poderia ser encontrada facilmente. Ficara a pensar o que a criatura seria capaZ de fazer com ela. Poderia ser amigável, mas também poderia facilmente esmagá-la.

Afastou-se da trilha.Sentou-se. Ficara pensando um jeito de passar a criatura. Após poucos segundos, concentrada, tirou a mochila das costas, torcendo para tê-la colocado ali. No fundo, havia um tecido enrolado. Tirou-o devagar, tentado não jogar tudo para fora da mochila. Olhara sua capa, sorriu a se lembrar do Natal em que Noel lhe dera. Ele ria ao falar que já havia recebido inúmeras cartas pedindo uma capa como aquela. Não entendia porque as pessoas queriam tanto uma! Não parecia muito animado afirmando que nunca poderia dar a um humano, entretanto, Ashley não era humana.

Ela levantou-se, cobriu-se com a capa da invisibilidade. Dava passos mansos, tentando fazer o mínimo de barulho possível. Ashley nunca havia visto ao vivo um Pé-grande antes! Havia visto fotos mal tiradas em alguns livros ou jornais, mas nada se comparava a estar a metros de distância de um. Lembrava um gorila, seus pelos brancos se arrastavam pelo chão. Os pés eram realmente grande e negros, dois caninos amarelados ficavam para fora de sua boca, se destacando sobre a pele escura, como carvão.

Ela apressara o passo, queria sair dali o mais rápido possível! Estava suando frio, com a respiração acelerada, toda vez que o gigante monstro se virava com uma árvore nos braços em direção a ela. Ficava paralisada, nenhum membro de seu corpo respondia aos seus comandos. Ficava cantarolando em sua mente " Ele não pode me ver"! Ele não pode me ver, soava como uma cantiga. Isso não a tranquilizava, mas ocupava sua mente, permitia que ela se concentrasse em cantarolar, e não nas variáveis formas que o Pé-grande tinha para matá-la.

Entre breves corridas e paradas repentinas ela passara pela clareira, mesmo assim, continuara com a capa, não a tirou até estar longe dali, até não conseguir ouvir mais o Pé-grande.

Continuava andando, ficava a todo momento checando se o Pé-grande estava olhando pela trilha, procurando por ela. Após segundos de desespero, ela se viu segura. Havia acabado de descer mais uma colina, estava certamente fora do campo de visão da criatura. Meio receosa, tirou a capa, voltou a ser visível. Por ela, teria continuado com ela, não tinha ideia do que poderia estar mais além. Contudo, aquela capa não era a verdadeira, era apenas uma imitação, ela não deixava nada invisível por muito tempo.

Ficara observando à sua volta, ainda parada com a capa entre os braços. Teria, realmente, sido uma boa ideia? Ficara a refletir. O quanto melhor teria sido ficar sentada quieta sobre aquela árvore? Lembrou-se de suas folhas coloridas. Ela poderia ter tropeçado na capa e caído. O Pé-grande a veria, o que faria com ela? Eles não eram seres muito amigáveis, na verdade, nem um pouco. Estava longe demais para voltar, e ela não queria ter de passar novamente por aquele gigante peludo.Olhara a trilha. Ela continuava, continuava e continuava, sumia no horizonte. Guardou a capa na mochila, respirou fundo, e continuou seguindo a trilha, pra onde quer que ela a levasse.

*-*-*-*-*

Os cactos estavam ficando mais comuns, o vento mais forte, o ar mais gelado. O sol não voltara mais, permanecia escondido por entre as nuvens, estas eram escuras e tempestuosas. Ashley já estava cansada, andara muito, sem pausar. Resolvera parar, saíra novamente da trilha, e se sentara sobre uma árvore. Resolvera organizar a mochila, queria algo para ocupar sua mente.

Tirara a capa, toda embolada, cordas, um pacote de biscoito, do qual ela já havia comido metade, chaves, entre outras inúmeras coisas. Organizara tudo dentro da mochila surrada, do melhor jeito que conseguiu, não era lá uma pessoa muito organizada.

Estava colocando-a de volta nas costas a preta mochila, quando notara que algo se mexera, do outro lado da trilha. Alguns arbustos chacoalharam. Ela devagar se levantou, procurando não fazer movimentos bruscos. Levara a mão na cintura, onde havia prendido a adaga, ela sempre a tinha na mochila em geralmente para cortar cordas. Com a adaga na mão, se aproximou dos arbustos, como um gato, mansa e silenciosa. O que estava nos arbustos, saltou veloz. Um pequeno coelho branco com olhos vermelhos estava à sua frente.

Ela suspirara aliviada, começara a rir, havia ficado tão tensa por causa de um mísero coelho. Ela se abaixou, estendeu a mão para que pudesse acariciar seu pelo. Mas o coelho, ouriçou os pelos como um felino vira-lata, abriu sua pequena boca, repleta de dentes pontiagudos como os de um tubarão, soltando um rosnado, quase tão poderoso quanto o de um lobo. Ele se virou, e saiu saltando floresta a dentro. Ashley ficou ainda na mesma posição, boquiaberta.

Após sintonizar-se com o que acontecera, ela se levantou. Estranho, ficara pensando, muito estranho, porém já estava começando a se habituar com fatos estranhos daquela floresta. Ela voltou a andar. O coelho não deveria voltar tão cedo. Haveria ali mais animais como aquele? Continuara a caminhar, tentando esquecer o coelho.

Ela podia estar a enlouquecer, se é que já não era louca, mas jurara que vira de relance luzes brilhando ao longe, entre as árvores, luzes coloridas. Ela apressara o passo, estando louca ou não, sendo as luzes reais ou apenas frutos de sua imaginação, ela não queria ficar por perto.

Vira mais uma vez, em outro lugar. Mais uma vez, vira os feixes de luz, eles ficavam cada vez mais intensos, e abundantes. Se virou correndo, tentando ficar longe deles, mas continuavam a aparecer à sua volta. Olhou de relance para trás, mesmo rapidamente, pode vê-los como criaturas vivas, se agrupando, se tornado apenas um.

Corria mais rápido, não sabia se teria algo viável a fazer, porém era a única coisa que conseguia pensar, o único jeito de fugir. Estava se cansando, não corria mais com tanta velocidade.

–Espere!- uma voz gritara, havia as suas costas uma garota, com cabelos negros ouriçados e roupas esfarrapadas. Ela parecia tão real e, ao mesmo tempo, era como uma ilusão. Seu corpo trêmulo, podia se ver através dela.

Ashley não devia, todavia ficou parada, esperando a garota se aproximar. Seus pés não tocavam o chão, ela ficava a flutuar. Parou à sua frente, não se movia muito depressa. Mesmo sem tocar o chão era ainda mais baixa que Ashley.

–Quem é você?! -ela perguntou com sua doce voz.

–Eu? Responda-me primeiro quem é você?-Ashley tentara não ser rude.

–Isso não importa, eu quero que me responda, quem é você? O que você é? Como veio parar aqui? O que...

–Uma pergunta de cada vez.

–Quem é você?! — a garota que antes parecia agitada, se acalmara, e lhe perguntara com toda sua doçura.

–Eu sou Ashley. Prazer. -ela estendeu a mão, mas esta apenas a olhou, e voltou a perguntar.

–Não... não é um prazer. -ela ainda falava docemente, Ashley poderia dizer algo, porém continuara calada. — O que você é?

–Um duende.

–Como chegou aqui?

–Você estava me interrogando ou o quê? — não recebera resposta -Rudolph, me trouxe, ele é uma rena que voa.

–Eu sei quem é Rudolph, sei que ele...voa- Ashley ficara mais tensa- O que você veio fazer aqui?

–Na verdade, nada. Resumindo, ele me jogou aqui, foi embora e... -ela quase mencionara as vozes, não sabia ao certo o que eram, mas tinha certeza que contar não era uma boa ideia. -Eu achei essa trilha, como não tinha alternativa melhor, segui -não estava mentindo, apenas escondendo uma parte da história.

–Você não deveria estar aqui.

–Eu sei, eu deveria ter levado as...

–Não. Você não pode estar aqui. -não tinha mais tanta doçura no tom de sua voz.

–Por que não?

–Porque... como posso lhe dizer, este vale, ele não... faz parte do seu mundo.- talvez a garota estivesse esperando que Ashley se surpreendesse, porém ela apenas ficara confusa. -Você tem de sair o mais rápido possível! — Ashley se lembrara das vozes -Não é seguro, se ele te encontrar...- ela paralisara, ficara tensa — Não sobrará nada de você! -isso as vozes não lhe disseram.

–Quem?

–Não posso dizer- ela sussurrou, olhara aflita para os lados.

–Por quê?

–Eu não posso, não deveria nem falar com você.

–Então, se me permite peguntar, porque falou?

–Você estava vagando sozinha, por esta trilha, sem saber o risco que está correndo. Eu tinha de ajudá-la. Tinha de avisá-la. Agora, fique quieta e me escute! Esta trilha que você segue, ela... muda de direção, se move com o passar do tempo, mas sempre vai te levar ao mesmo lugar. Não sei ao certo quanto tempo pode levar, pois ela às vezes fica maior e as vezes menor, mas continue a seguir por ela. Não saia! Fique nela! Se perde-la de vista, não a achará mais. Nunca dê meia volta, do contrário vai andar em círculos, até que a morte a leve.

–Mas para onde ela leva?

–Sinto muito, mas não posso lhe dizer.

–Por quê?

–Você só sabe perguntar por quê?- bufara-Porque ele não permite. Não posso... eu não posso.

–Esta trilha, ela me leva para um lugar bom ou ruim?

–Bom.

–E por que eu deveria acreditar em você?

–Por quê? O que eu ganharia te enganado?

–E o que ganharia me ajudando?- Ashley cruzara os braços, tentara assumir uma postura forte. Ela chegou mais perto de Ashley, sussurrou em seu ouvido:

–Porque eu sei melhor do que você o que é ficar aqui, vagando sem rumo, enfrentando o inimaginável. Eu sei o que é morrer com esperanças, de um dia achar o caminho de volta, de ver novamente as pessoas que te amam. Eu não posso voltar para casa, você ainda pode. Ninguém pode mais me ajudar, mas você ainda pode ser ajudada -Ashley ficara a ouvir sua voz, ela falava com tanta tristeza, tanta angústia. Ela se afastou, sorriu tristemente. Bem, boa sorte!

–Eu posso pelo menos saber o seu nome?

–Eu não sei ao certo, mas me lembro que alguém me chamava de Ally. — ela sorriu pela última vez, antes que Ashley pudesse dizer algo, ela começou a se tornar mais transparente. Ela havia desaparecido.

–Ally-sussurrara.

*-*-*-*-*

Da segunda vez que parara, não se sentara aos pés de uma árvore, continuava na trilha. Não sairia dela, seguia agora os conselhos de Ally, ela tinha o nome de sua irmã.

Ela comera mais alguns biscoitos, por sorte ainda tinha mais um pacote, bebera um pouco da água da garrafa, estava com um gosto estranho, mas era melhor do que nada. Continuara seguindo a trilha. O sol já se punha, a temperatura caíra drasticamente. Ashley estava tremendo de frio, entretanto se recusava a parar. Os sons vindos da floreta ficavam mais altos, e mais vorazes à noite. Passos pesados, gritos abafados, grunhidos estranhos, agudos e graves. Ela havia trazido uma lanterna, para sua sorte, em geral, ela a esquecia. Tentava iluminar a floresta, mas nada havia ali, apenas árvores e arbustos, que ficavam a balançar com gelado vento.

Pisara em algo, seu coturno se prendera no chão, ela iluminara com lanterna. Seu pé estava preso em fio brancos e grudentos. Tinha um palpite do que poderia ser, mas não, não fazia sentido, não podia. Iluminara em volta, seu corpo inteiro paralisou, seu coração dispara junto com a respiração. Puxara o pé com toda força, desesperada, estava quase tirando o coturno e correndo de meia, porém as teias arrebentaram antes.

Ela não podia acreditar no que via, árvores, arbustos, o chão, tudo estava coberto por teia de aranha. Por toda parte, finas teias se espalhavam, ela olhava abismada. Quanto maior a teia, menor a aranha, não é? — perguntara a si mesma. Porém, uma pequena aranha não seria capaz de fazer tudo aquilo tudo, seria?

Ela iluminara as copas das árvores. Teias haviam sido tecidas juntando troncos de várias árvores, formando redes, como as de um circo. Ela continuara a iluminar a rede, ficara amedrontada, no entanto, maravilhada. Alguma coisa sibilara às suas costas. Ela não hesitou em virar. O corpo maior do que o de um urso, olhos vermelhos encaravam Ashley, encandecendo no escuro. A aranha, era negra, com pelos ouriçados, presas como navalhas, Ashley se arrepiou ao olhá-la.

Sem pensar, sem hesitar, saiu correndo, deixando a lanterna cair. A aranha logo a quebrou. Corria, desesperada, no escuro, tentando seguir a trilha. Podia ouvir a aranha, subindo por suas teias, correndo sobre suas redes, tentando alcançá-la.

Teias e mais teias se espalhavam pelo chão, tentava não pisar em nenhuma. Porém,ao prestar mais atenção na trilha do nas teias, acabara prendendo novamente seu pé. Caíra sobre a neve. Antes que pudesse pegar sua adaga, a aranha já estava ao seu lado, agarrando-a com suas patas. Ashley se debatia, tentava se soltar do abraço da aranha, mas não tinha forças para vencê-la.

A aranha soltara seu pé, a levantara no ar, começara a descer sua teia envolta de Ashley. Ela era veloz, em segundos Ashley não podia mover mais seus braços, mas suas pernas continuavam livres. desesperada, começara a chutar a aranha. Não conseguia ver onde a acertava, mas podia ouvir seus grunhidos.

Chutava o nada com toda sua força. A aranha gritava, tentava mordê-la, todavia não obteve hesito. Ficou nervosa, deu um rugido que fez Ashley congelar. Ela a segurou com as patas, em um brusco movimento a arremessou. A jogou com toda força contra uma árvore, um estrondo. Caíra no chão, seu corpo inteiro doía, sua cabeça girava. A sua volta só havia árvores.

Podia ouvir a aranha se aproximando, correndo sobre a neve, subindo e descendo de árvores. Debateu-se até arrebentar as teias. Levantou-se. Havia quebrado parte de suas costelas. Ficou de pé, mesmo com sua dor intensa, permanecia firme, tinha agora a adaga em suas mãos. A aranha estava a poucos metros dela, vinha furiosa em sua direção, gritando de raiva. Ela ficou imóvel, em silêncio, juntando pensamentos.

Ela pulou em Ashley, com as presas prontas para dilacerara. Ashley esperou ela estar a centímetros dela, abaixou, e se jogou para o lado. Tinha de dar certo! Rolou pela neve, patas e patas a acertaram. Mas a aranha acertou com toda força, as presas na árvore. Ficou presa. Suas presas de navalha cravaram profundamente na madeira. Ela se debatia, a árvore começou a se partir. Ashley se aproximou devagar, tentando se desviar de suas patas. Algumas a acertavam de relance. Segurava trêmula a adaga. A aranha preocupada em se soltar, só vira Ashley quando ela já havia gravado a adaga entre seus olhos.

Ela se tornara um peso morto, os olhos continuavam abertos, mas sem vida, sem brilho. Ashley tentara tirar sua adaga, mas esta estava muito presa na cabeça da aranha. Mesmo relutando teve de deixá-la ali.

Olhara em volta, sabia o caminho que aranha havia feito. A trilha ainda poderia estar lá, tinha de estar. Seguia devagar, tateado as árvores.

Às suas costas, ouvira um estrondo.Virou-se, por pouco não fora decapitada. A aranha estava logo atrás dela, não estava mais presa na árvore. Esta, de raiva, havia jogado em Ashley. Os olhos incandescentes iluminavam sua adaga, que entres seus olhos continuava gravada.

Ashley correu, seu peito doía com a respiração acelerada. Ela corria o mais rápido que podia, a adrenalina a ajudava, mas logo a aranha a alcançaria. Corria, no escuro, sem rumo, desesperada. A aranha estava perto dela, corria pelo chão. Mas logo subiu em uma árvore, de sua copa saltou, estava na frente de Ashley. Acertou a garota com uma das patas, que bateu contra mais uma árvore.

A aranha foi até ela, com suas patas peludas, a agarrou, levantou-a a altura de sua boca e rugiu. Voltara a tecer sua teia envolta de Ashley. Ela não tentou fugir, não chutou a aranha, aceitaria o fracasso. A aranha, primeiramente, envolveu suas pernas, tentando evitar mais ataques.

Estava tão calma a tecer a teia, ao envolvê-la na garota que estava a ponto de perder seus sentidos. Ashley já tinha o corpo coberto por sua teia, seus ombros e cabeça ainda permaneciam de fora. A aranha abriu a boca repentina. Ashley se assustou. Ela a deixou cair. Olhou para trás e rugiu. Ashley não via o que estava atrás da aranha, mas o ouvira rosnar. Avistara um par pequeno de olhos, brilhavam fracamente em azul. A aranha tentou agarrar o dono dos olhos, mas este com um salto, estava sobre ela.

Mais olhos azuis saiam de entre as árvores, eles rosnavam, famintos. O que, em cima da aranha estava, uivava. Os outros, em sincronia perfeita. Lobos agarravam com seus afiados caninos as pernas da aranha. Dilaceravam-na. Ashley olhava abismada. Os lobos, em segundos, toda a aranha já haviam devorado. Alguns lambiam o chão; outros, a olhavam fixos. Um deles correra para a floresta, voltara com algo brilhante na boca. Correra até Ashley e colocara ao seu lado, um lampião.

A cabeça de Ashley doía, rodava, ela começara a perder os sentidos. A última coisa que vira, foram os lobos brancos a olhando, com seus focinhos cobertos de alguma coisa verde. Seus olhos brilhantes desapareceram, tudo ficou escuro.

*-*-*-*-*

Quando seus olhos se abriram novamente, estava deitada em um sofá vermelho, olhava uma lareira quase do tanho de uma caro, estava logo à sua frente. Sentou-se, olhou em volta, estava no que parecia ser uma caverna, da qual paredes e chão eram puro gelo. Móveis diversos estavam espalhados por toda parte. A lareira não derretia o gelo, não sabia se era por ela, ou se o ambiente realmente era quente.

Ela olhara pelas costas do sofá querendo ver o resto da caverna. Mas, diante dela, estava um homem.

–E então Ashley, como está se sentindo?- perguntara Noel, sorrindo para ela.

–Noel?!- perguntara surpresa.

–Primeiro e único!-ele colocara as mãos na cintura- Então parece que está tudo bem com você, não é? — ele dera a volta no sofá, sentara-se ao seu lado.

–Acho que...- ela levara a mão ao peito, devagar, não sentia mais dor. Suas costelas estavam como sempre, sim.

–Rá! Eu sou ou não sou um bom curandeiro?

–Sim... mas Noel...

–Diga.

–Você não tinha...

–Sumido misteriosamente? É, eu sei.-Ashley ficara encarando-o, parecia orgulhoso de seu feito.- Todo mundo acreditou?

–Sim, acreditaram! A cidade está cheia de policiais. Eles estão te procurando e espera... o que é que tá acontecendo?-ele riu, como se a resposta fosse óbvia.

–Minha cara Ashley, quem sou eu?

–Papai Noel!

–Sim, e o que eu faço?

–Você distribui presentes na noite de Natal. Aonde quer chegar?-ele suspirou.

–Você sabe a quantos anos eu faço isso?

–Não!

–Nem eu, foram tantos que perdi a conta. -não parecia feliz ao afirmar- Essa é a unica coisa que eu faço. Não sirvo pra mais nada.

–Não é verdade. O senhor pode fazer outras coisas, ter outras funções, não precisa apenas ser... o Papai Noel...

–Eu sei que sirvo pra mais coisas, só queria ouvir sua resposta. Bem, um dia qualquer, eu fiquei refletindo: passei todos os meus séculos como Noel, trabalhando naquela fábrica. Fazendo sempre a mesma coisa. Para quê? Para dar as pessoas coisas que podem comprar em lojas? As pessoas só ligaram para mim depois que desapareci. Durante todo ano ninguém se lembra do Papai Noel. Eu me sacrifico o ano inteiro, para dar presentes que com o tempo as pessoas deixam de lado. Todos esses anos, eu nunca pude viver a minha própria vida. Criei um plano maluco, que, na verdade, deu certo... Forjar meu desaparecimento.

–Foi tudo uma farsa? Até a destruição da sua sala?

–Sim! E sim! Tinha de parecer real! Eu estava cansado de viver a merce dos outros. Eu queria viver a minha vida. Pode chamar de egoísmo ou do que quiser, mas os humanos logo vão me esquecer, vou virar apenas uma lenda. O Natal vai continuar mesmo sem o Papai Noel.

–E as renas?

–Você pode soltá-las, com exceção de Rudolph. Eu quero que você fique com ele.-Noel enfiou sua mão no bolso da calça, tirou um longo apito- Eu criei Rudolph desde de filhote, ele não não sabe se virar sozinho, ele precisa de alguém. E eu só confio em uma pessoa- ele lhe estendera o apito, e ela o pegara- para cuidar dele.

–Eu não sei o que dizer...

–Não precisa dizer nada, eu sei que você gostou do presente. Vamos deixar como de aniversário, é amanhã dia quinze? Você faz dezesseis, certo?- ela assentira com a cabeça- Mas agora, minha cara, vamos lá para fora.- ele se levantou -Você já ficou aqui tempo demais. Sopre e Rudoph virá.

–Noel, você sabe porque Rudolph me trouxe pra cá? -Noel sorriu sem jeito.

–Eu mandei. Sinto muito que tenha passado por tudo isso, mas Rudolph te deixou do lado errado do vale. Mandei os lobos buscarem-na, mas eles demoraram para achá-la.-Ashley resmungara -Está pronta para ir?

–Estou! Mas e o Senhor, como fica?

–Não se preocupe comigo. Vou esperar que o mundo me esqueça. Depois pretendo ir embora com May, claro, se ela quiser ir. -Ashley sorrira para ele. Porém algo viera a sua cabeça, Ally.

–Noel... no caminho pra cá, eu...

–Ashley, está realmente na hora de você ir. -Noel olhava sério para ela, havia algo diferente em seu olhos. Ele estalou os dedos e ela não vira mais nada.

*-*-*-*-*

Quando retomou a consciência, estava sobre o dorso de Rudolph. Ele usava uma sela negra, na qual ela estava presa. Ele não voava rápido, nem alto, deveria estar a evitar que ela caísse. Notando que estava acordada, parou seu voo. Virou a cabeça, acariciou seu rosto com o focinho. Ela sorriu ao ver o velho amigo.

Você falou!Assustou-se ao ouvir novamente os sussurros. Havia se esquecido delas. Deixou ele enganá-la! Não o salvou! Não nos salvou!

Notas finais
RÁ vão levar essas duvidas pro tumulo U.U!! Agradecendo a todos que leram, foi bem difícil bolar e escrever esse conto para você :3 mas foi legal, espero que tenham gostado.Reviews, favoritamentos e recomendações são muito bem vindo.Boa sorte a todos que estão participando do desafio.Você estão convidados também a conhecerem os mundos de minhas outras fic.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!