Frozen - A Rainha da Neve
17 Anjo ou Fera
Notas iniciais
Depois de atravessarem quase toda a Lapônia, finalmente estavam todos na fronteira de Arendelle. A emoção tomava conta, principalmente de Gerda. Para ela era indescritível a sensação de voltar para casa, depois de tudo que passou. Foi realmente preciso muito esforço para seguir em frente até chegar lá, de volta ao seu país de origem. Porém, no final das contas, ela acabou conhecendo vários novos amigos, se reaproximou do irmão, e até se sentia uma pessoa melhor. Além de ter também ajudado bastante as pessoas que conheceu pelo caminho...
Todos estavam parados se olhando emocionadamente. Em um gesto de união e companheirismo, deram as mãos, e começaram a adentrar juntos o reino que amavam; e de onde ficaram tanto tempo afastados. Gerda apertava fortemente os dedos de Kai, e enquanto andava, resolveu se abrir para ele, falando o quão estranha se sentia, pois mesmo depois de enfrentar todos aqueles desafios, ela estava muito mais feliz. O menino então, lhe explicou que era esse mesmo o plano da Rainha da Neve; e acabou falando também de seus problemas com os poderes, e da falta que sentia dela. A garota quando começou a lhe ouvir, questionou um pouco as boas intenções da dama gelada, mas teve que reconhecer que até a menina-ladra parecia estar cansada de sua vida fora da lei, quando se reencontraram.
E assim foram conversando, até que quando deram por conta, já estavam em frente à fortaleza onde cresceram. Ela estava intacta novamente; nem parecia que havia sido destruída há algum tempo. O cenário era do dia mais típico de primavera, com flores, e árvores verdinhas por todo lado. De repente, eis que os sinos das torres começaram a badalar: eram os guardas que tinham lhes visto, e anunciavam para todo o reino a chegada dos desaparecidos! Rapidamente, Anna e a avó de Kai, apareceram eufóricas, correndo ao encontro deles. Foi um festival de abraços, beijos e carinhos que nem se fala. Depois de todo o longo momento de reencontro, Anna chamou-lhes para entrarem no castelo.
Kai só se deu conta de quanto tempo tinha ficado enfeitiçado pelos espelhos quando adentrou aqueles corredores por onde passou sua infância. Sua lembrança mais marcante deles, era quando houve o incidente que resultou no nascimento de sua Rainha. Por isso, na sua cabeça, o lugar era bem maior do que parecia agora. Aliás, não foi assim só para ele; todos os outros só se deram conta de quanto tempo havia passado desde o fatídico dia em que tudo começou, quando voltaram ao “ponto de partida”.
Para Elsa então, chegava a ser até um pouco assustador, pois ela praticamente não tinha mais posto os pés naquele lugar desde o nascimento de Neve. Por ter que deixá-lo novamente em breve, para ir atrás de sua filha, sem data para voltar, ela se sentiu um pouco mal. Mas sabia que era o melhor a se fazer... lhe apertava mais ainda o coração deixar a moça sozinha por muitos dias. Contudo, de qualquer maneira, antes de partir, precisava passar um pouco mais de tempo com seus familiares, para não sofrer tanto com a partida. Assim, ficou mais um período por lá; que aliás, foi típico de final feliz. Depois de certo tempo, quando se sentiu mais preparada, é que tomou a coragem necessária para se despedir mais uma vez da família. Mas não sem antes tentar falar com eles:
— Escutem, eu amei estar de volta com todos vocês, mas preciso ir atrás de minha filha. Infelizmente, ela estava se sentindo muito culpada por tudo o que aconteceu, e resolveu fugir para a Itália – E com a voz já embaraçada pelo choro continuou- Bem, eu só q-queria que nós... prometêssemos que mesmo nos afastando fisicamente, iremos continuar nos amando, e vamos estar à disposição de ajudar um ao outro...- a partir daí, não conseguiu dizer mais nada; eram muitas emoções ao mesmo tempo que lhe dominavam... a única coisa que fez dali em diante, foi chorar. Jack lhe abraçou imediatamente, reconfortando-a, e aos poucos todos os demais se uniram a ele num grande abraço. Anna era quem mais apertava. Embora Elsa não tivesse conseguido falar direito, todos ali tinham lhe compreendido. E ela também percebia que estava sendo correspondida, mesmo sem ninguém falar nada. Em alguns momentos, as palavras são apenas uma pequena parte da mensagem...
Depois de um tempo de silêncio, num momento de coragem insana, Kai, ao ver que os ânimos começavam a se acalmar, resolveu contar de uma vez um desejo que estava perpetuando, há alguns dias:
— Tia... eu quero ir com você! – E emendou: -Aliás, acho que todos aqui deveriam vir com a gente. Além de ajudarmos a Elsa, poderíamos agradecer também à Rainha da Neve por tudo que ela fez pela gente.
Sua avó, surpresa, foi logo falando:
— Como assim? Ficou maluco?
— Vó, eu sei que vocês têm motivos para desconfiar dela, mas acontece que ela não fez nada por mal. Vou tentar explicar resumidamente, o que foi que aconteceu de verdade: a Neve não sabia controlar seus poderes. Quando criou a tempestade; congelou meu pai; e destruiu o castelo, foi tudo totalmente sem querer... ela só conseguiu aprender a administrá-los melhor quando os libertou, porque percebeu que já que não conseguia contê-los, podia usá-los para controlar o clima do mundo e ajudar as pessoas... Porém, eu, com aquele maldito espelho no coração, acabei seguindo-a quando estava começando a liberá-los, e me prendi num trenó que ela tinha feito. Preocupada comigo, ao perceber que eu tinha lhe seguido e estava congelando, a criatura acabou mudando todos seus planos só para me ajudar a tirar as farpas do espelho; e tentar reparar nossa família, que ficou tão abalada por causa dele. Porém, algumas coisas não saíram como planejado e ela achou que estava era fazendo mal para a gente. Foi aí que resolveu se isolar nos vulcões Vesúvio e Etna. Mas a verdade é que no final, tudo saiu como ela queria que saísse: eu voltei ao normal, meu pai foi descongelado, nossa família se uniu de novo... não acho justo que agora, ela que fez tanto por nós fique vivendo infeliz e se sentindo culpada, quando a gente, que só deu trabalho para ela e interrompeu seus planos, tem o nosso “final feliz”.
Houve um burburinho, porém Anna tomou a palavra e disse:
— Eu sei que o que ele está falando deve ser verdade. Porque fui eu quem a provocou, com meu medo irracional, fazendo ela explodir o castelo e tudo mais acontecer... me perdoem.
— Nós entendemos... Mas quem mais tem que te perdoar é a Rainha da Neve.- falou Kristoff abraçando a esposa. Depois de um longo beijo que deu nela, continuou- não estou te incriminando nem nada, mas pelo o que eu passei lá, sei que no fundo ela não tinha más intenções. Estava apenas assustada, igual você...
— Eu sei, eu errei bastante com ela. Pensei que como foi formada pelos espelhos, ela seria do mal, mas não é.
— Ela na verdade era bem mais bondosa do que nós aqui. Porque mesmo cheia de cristais de gelo, ela se esforçava para fazer o bem. Seu amor era tão grande que conseguia combater a força mortal dos vidrilhos. –Complementou Kai.
— Sim, isso é verdade... Garoto, você... nunca ouvi alguém descrever tão bem a minha filha! Acho que nem eu conseguia ver isso nela. Sempre achei que ela não controlava bem os poderes, mas agora que falou, eu entendo o que a Elsa queria dizer quando defendia nossa menina nesse aspecto – disse Jack Frost olhando para a esposa.
Elsa, ao ouvir aquelas palavras, abraçou Kai fortemente agradecendo-o pelo quanto que ele tentava ajudar sua filha. Meio sem graça, o rapaz respondeu:
— Acredite, também faço isso por mim.
Assim, Anna foi anunciar ao reino que iria deixar um regente em Arendelle nos próximos dias, para ir com o restante da família real atrás da Rainha da Neve. Entretanto, a reação do povo não foi das melhores. Depois de toda a longa temporada de nevasca; da destruição do castelo; e do sumiço do rei e do príncipe, o povo passou a odiar a filha de Elsa. Todos achavam que ela era um tipo de bruxa poderosa e frígida. Os mais bitolados até se puseram na frente do grupo quando saíam, impedindo que eles passassem. Não adiantou dizer, que a economia do reino não ficou afetada; que ninguém teve hipotermia ou se machucou; que a família estava bem agora; ou que ela não teve má intenção. O reino sempre lhe viu apenas como um estorvo, devido as notícias que tinham, e não havia argumento que fizesse os radicais abrirem a mente agora.
Elsa e Jack conseguiram criar um escudo de gelo para passar, porém só dava para eles dois e mais um. Então Kai acabou indo com o casal, e os demais tiveram de ficar no reino mesmo, para acalmar a multidão.
***
— Mais um pouco de vento aqui... e acabou!
Neve estava no topo do vulcão, jogando toda a sua magia para o centro dele, a fim de adormecê-lo. Dali de cima conseguia ter uma visão panorâmica incrível da antiga cidade de Pompeia. Era um lugar maravilhoso para criar tempestades e convocar seu portal mágico, que lhe ajudava a ver o clima no mundo inteiro. Porém, era também bem solitário. Por mais que não quisesse admitir, ela sentia falta daqueles dias em que esteve com Kai e Kristoff. De Kai então, a saudade era maior ainda... Mas ela tinha certeza que agora, ou ele estava morto de frio, ou tinha ficado com Gerda.
“ Ela não o deixou” pensava. “ Porque ele iria se preocupar comigo agora?” E mais pensamentos como esse atordoavam sua cabeça, fazendo-a aos poucos se sentir tão mal a ponto de cair em prantos. Para se acalmar, começou a fazer vários arabescos de gelo no céu. Porém, as lágrimas ainda assim, teimavam em escorrer pelo seu rosto. E estava lá, absorta nessas ideias, quando de repente, sentiu uma mão pesada tocar seu ombro.
— Ham... Você está bem, Rainha?
— Kai?! O que está fazendo aqui?!- disse ela, levando um grande susto. Porém, logo travou ao ver o semblante novamente corado do garoto e suas roupas mais simplórias. Pensou: “Caramba! Ele não só voltou ao normal, como... também ficou... lindo!” Mas acabou só dizendo:
— Que... surpresa!
— Bem, eu sei que você não gosta muito de me ouvir, e prefere tentar me mostrar as coisas do seu jeito... Mas acontece que volta e meia eu lembrava de você. É que não acho justo que a pessoa que deu um final feliz para toda a minha família não tenha o dela.
— Kai, eu prefiro ficar infeliz, mas deixar todos em segurança, você sabe disso. Só que aí, você teimosamente, preferiu se meter numa viagem longa dessa para um lugar que nem tem nada...!! E a Gerda? Foi ela que te salvou de verdade, não foi? Não deveria se afastar dela por minha causa, que só atra...
— E quem foi que ajudou ela a chegar lá no palácio de gelo para me salvar? Quem que chamou, indiretamente, a garota? — De repente, o garoto fechou a cara e interrompeu seu discurso. Depois de um tempo, disse por fim- Porque você não aceita que eu te ame? Esse tempo todo, eu só quis te ajudar, te tirar desses problemas... Você já me ajudou, não vê? Me deixa te ajudar também, caramba! –Falava ele, mais alterado que de costume.
— Kai, eu sei disso. E fico muito agradecida. Só que acho perigoso que a gente se aproxime tanto. Eu nasci de espelhos, vivi sempre solitária, e já te machuquei muito. Já você, é um garoto normal, saudável, com um reino repleto de pessoas que te amam... Olha, fique tranquilo, de qualquer forma, continuaremos amigos! Aliás, que bom que conseguiu se descongelar! Estava aqui aflita pensando se tinha deixado você morrer... Ficou... bem mais bonito assim. – Disse a última parte, um pouco encabulada. Todavia foi logo interrompida por ele:
— Sabe que você realmente me faz mal às vezes, mesmo querendo tanto me ajudar?!
— O que?!!!- por essa ela não esperava.
— Quando você nega meu amor, é pior que ser congelado. Não se maltrata tanto um coração apaixonado, sabia? Eu quero viver contigo, e estou disposto a enfrentar todos os desafios para isso. Você é tão humana quanto eu, talvez mais até. E problemas todos temos, eu mesmo não sou perfeito. É natural para quem ama aceitar os defeitos um do outro. Anjo ou Fera, na paz ou na guerra, é com você que eu quero ficar, com mais ninguém. Porque você trouxe luz para minha vida, me fez ficar alerta para nunca mais virar aquilo em que me transformei nos últimos anos... E também porque agora, é você quem precisa de mim! Mas o que eu posso fazer se você prefere criar uma quizomba, e se esquecer da promessa que tinha me feito quando eu estava congelando? Neve, você jurou que era a última vez que me machucava...- falou o ruivo com pesar.
Em meio a soluços ela respondeu:
— Entende que eu só queria o teu bem! Porque eu também... t-te amo! Pronto é isso!
— Então, eu vou te ensinar a amar: O amor que um casal sente, não é como o amor que você aprendeu a ter pelas outras pessoas... Nele existe a entrega mútua. É um amor para se manter ao lado, pois um completa a vida do outro – Pegando uma flor amarela do chão, que era a preferida de Neve, continuou- Aceita ficar do meu lado? Aceita namorar comigo?
— Tudo bem. Só... vá com calma ok? Porque ainda estou aprendendo.- e deu uma risadinha tímida
Ao ouvir seu “tudo bem” o rosto dele se iluminou. Não podia acreditar que havia chegado o dia em que ele e a Rainha ficariam finalmente juntos. Sem perceber, foi se aproximando dela conforme seu sorriso aumentava, até respirarem o mesmo ar. Com os lábios quase encostando nos dela disse:
— Ok. Mas agora não consigo me conter.
Antes que ela pensasse o que ele queria dizer com aquilo, ele colocou a mão em sua cintura, e puxou-lhe para um beijo. Foi um beijo calmo, longo e profundo. Quando o ar acabou, eles começaram a se encarar como dois bobos, segurando as mãos um do outro. Só aí, foi que a moça notou que seus pais também estavam ali, e tinham visto tudo. Mas ao invés de se sentir envergonhada correu ao encontro deles, lhes abraçando fortemente. E eis que de repente, aparecem Gerda, Anna e Kristoff no alto daquela montanha.
— Hey, o que estão fazendo aqui?
Gerda respondeu:
— Viemos atrás da Rainha fujona. Depois de tudo que fez por nós, precisávamos saber se estava bem. Tivemos alguns probleminhas para chegar aqui, mas nada que o Olaf não resolvesse... bem, isso é uma longa história, não interessa agora. O importante é que chegamos.
Sem dizer nada, Neve abraçou-lhes fortemente em agradecimento por virem de tão longe só por sua causa. E também por estar imensamente feliz de saber que seu plano tinha dado certo, ao contrário do que estava pensando... Até Anna tomou coragem para lhe abraçar e pedir desculpas pelo medo que sentiu dela por tanto tempo. Enfim, foi uma alegria geral!
***
Longe dali, Hans estava em sua casa, escrevendo. Depois que decidiu ser alguém mais bonzinho, abandonou a bruxaria (assim como Moly também fez), e começou a escrever; pois esse era um sonho de infância. Devido às suas experiências de vida, estava se especializando em contos de fada; mas o que escrevia agora era uma história que acompanhou de perto: a da Rainha da Neve. Sentia que precisava relatar o que sabia, para emocionar outras pessoas e servir de exemplo. Também achava que o povo deveria saber direito o que realmente tinha acontecido. Ele narrou tudo; pelo menos até onde ele sabia... (e até onde ele não precisava se incluir, afinal, ainda era o Hans)
De qualquer forma, muitas pessoas continuaram vendo Neve como uma vilã horrenda. E até hoje, muitos ainda mantêm esse ponto de vista. Por isso, escrevo aqui para vocês. Para que entendam os seus motivos, e saibam REALMENTE tudo que se passou por trás dessa história... sei que muitos ainda não compreenderão a Rainha, mas não custa tentar, né?
Como eu sei tanto sobre o que houve? Se eu fosse lhes contar vocês não acreditariam, eu teria que escrever outra fanfic só para me explicar. Mas não duvidem: essa foi a história verdadeira! Agora, só cabe a vocês, acreditar ou não...
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