Frozen - A Different Story
9 Capítulo 9: Unhappy Endings
A vida em Weselton era exatamente o que Elena esperava que fosse. Seu marido era absolutamente amoroso, seus sogros eram demasiadamente agradáveis com ela e seus deveres como rainha eram exatamente aqueles para os quais fora preparada durante toda a sua vida. De certa forma, era o que sempre esperava para sua vida e muito mais do que isso, pois nem em seus melhores sonhos ela pensara que teria um marido como Andersen.
Havia apenas um problema. Os tios de Andersen, o duque e a duquesa de Weselton. Por qualquer que fosse o motivo, ambos absolutamente desprezavam a jovem rainha, que nada fizera para merecer tal comportamento por parte dos dois. Eles jamais concordavam com qualquer decisão que ela tomasse e, não fosse pelo fato de o conselho do reino estar tão encantado pela antiga princesa de Arendelle, ela jamais conseguiria governar o reino ao lado de Andersen.
Era um dia de reunião e, como sempre, ambos Elena e Andersen estavam presentes, sendo, afinal, rei e rainha do reino de Weselton. Era, aparentemente, um dia comum, até que fosse chamada a atenção de Elena, que, em um primeiro momento, não notou seu nome ser chamado devido a um súbito mal-estar que se abateu sobre ela, forçando seu rosto a uma palidez doentia, drenando toda a cor de suas bochechas.
— Pelo que vejo, a rainha não está em condições de prosseguir com essa reunião. – A voz venenosa da duquesa de Weselton foi o que trouxe Elena de volta para a reunião, embora ela ainda não se sentisse bem. Não era a primeira vez que isso acontecia, na verdade. Nos últimos dias, não havia estado em sua melhor forma, apesar de não saber exatamente o porquê. Mas tinha consciência da preocupação de seu marido, que comumente a pedia para consultar o médico do castelo, Henrik.
— Você está bem, querida? – Como o marido amoroso e preocupado que era, Andersen não desperdiçou tempo em se levantar e ir até ela, ajoelhando-se à sua frente enquanto segurava suas mãos. Elena dirigiu seus olhos azuis a ele, piscando fortemente para se livrar da tontura insistente sobre ela.
— Sim. – Assentiu com a cabeça, ainda não completamente recuperada de seu mal-estar, mas esforçando-se para colocar a melhor fachada possível para seu marido, não querendo preocupá-lo. – É apenas uma tontura. – Dispensou a situação como se não fosse importante, mas reconhecia que não tinha a menor condição de continuar naquela reunião, tampouco tinha disposição para isso, de modo que se levantou. – Se as damas e cavalheiros não se importam, eu vou me retirar. – Pediu educadamente, recebendo gestos em concordância de todos os conselheiros e também dos pais de Andersen, mas não dos tios dele, que torceram o nariz em desgosto, como esperava que acontecesse.
— Quer que eu vá com você? – Andersen propôs, sentindo-se desinclinado a abandonar Elena quando ela obviamente não estava se sentindo bem, mas deixava a escolha para sua esposa, uma vez que sabia muito bem que ela não gostava que ele tomasse decisões por ela.
— Não é necessário. – Elena pôs em seu rosto o seu melhor sorriso falso numa tentativa de tranquilizar o agora rei de Weselton, mas sabia muito bem que aquele que era seu marido e que foi seu amigo durante tantos anos não seria enganado por tal gesto. – Essa reunião é importante. Você precisa estar aqui. – Tentou convencê-lo. Era verdade. Aquela reunião deveria decidir a renovação de seus acordos de comércio, o que era de vital importância para a sobrevivência do reino.
— E você também. – Andersen franziu o cenho. Não estava acostumado a lidar com tudo sem a presença de sua esposa. Elena sempre tinha uma opinião sobre tudo a respeito do reino, geralmente uma opinião certeira que os levava a períodos de prosperidade ainda melhores do que aqueles proporcionados por seus sogros, o que a tornava bastante popular entre todos no reino, com a exceção, é claro, do duque e da duquesa.
— Tenho confiança que você pode cuidar de tudo sem mim. – Era verdade. Ela tinha plena consciência da capacidade de Andersen de cuidar de tudo sem ela, embora ele houvesse se acostumado a contar sempre com sua opinião para tudo. – Prefiro descansar no momento. – Declarou, sabendo que ele não iria se opor a isso. Na verdade, era mais provável que encorajasse, sempre preocupado demais com o bem-estar dela.
— Como quiser. – Como Elena pensara, Andersen concordou rapidamente, não fazendo qualquer objeção. – Mas, por favor, antes de retornar ao quarto, veja o médico. – Claro, ela devia saber que nada seria tão fácil assim. Ele se preocupada e, muitas vezes, demais, na opinião dela.
— Andersen... – Tentou convencê-lo, mas foi interrompida antes de poder concluir uma frase.
— Por favor, Elena. – Ele insistiu. Nos últimos dias, havia tentado não obrigá-la a nada, apesar de perceber que não estava bem, mas, naquele momento, apenas não conseguia mais conviver com a incerteza a respeito da saúde da mulher que amava. – Não é a primeira vez que você se sente assim. Eu estou preocupado. – Tentou convencê-la. – Pode me prometer que irá ver Henrik? – Pediu. Não era comum que pedisse algo a ela. Na verdade, fazia o possível para jamais exigir nada e dá-la tudo que ela possivelmente pudesse querer, mas seu desespero o obrigou a quebrar aquela norma.
Fitando a feição preocupada de seu marido, Elena não foi capaz de negar ao seu pedido:
— Como você quiser. – Concordou por fim, recebendo um sorriso aliviado por parte dele. – Agora, continue. Como eu disse, essa reunião é importante. – Argumentou.
— Nada é mais importante do que você. – Já estavam casados há algum tempo, mas o coração de Elena ainda saltava algumas batidas quando Andersen lhe dizia palavras assim. – Eu irei encontrá-la no minuto que isso terminar. – Deixando um beijo rápido e singelo nos lábios dele, ela se despediu de todos os demais presentes e deixou a sala de reuniões.
Apesar de não julgar necessário, Elena fez o que lhe foi pedido por seu marido e seguiu em direção à ala médica do castelo, onde Henrik devia estar esperando. No entanto, no caminho para lá, uma ardência em seu peito a impediu de continuar e uma súbita fraqueza fez com que se apoiasse em uma das paredes do corredor para se sustentar. Contra sua vontade, uma série de tosses lhe escapou, fazendo com que cobrisse sua boca com a mão livre.
Quando finalmente a dor foi embora, vários minutos depois, e as tosses se aquietaram, Elena afastou sua mão de seu rosto apenas para vê-la manchada de vermelho. Havia tossido sangue.
...
Elsa dissera a Elena que ficaria bem sem ela, mas aquela era talvez a maior mentira que já havia contado em toda a sua vida. Desde que sua irmã mais velha foi embora, nada estava bem. Ela se sentia mais solitária do que nunca, mesmo com as visitas constantes de seus pais, que se esforçavam para permanecer tão próximos dela quanto possível, e, certamente, os pedidos constantes de Anna para que a deixasse entrar não ajudavam em nada a melhorar seu atual estado.
Do you want to build a snowman? (Você quer construir um boneco de neve?)
C’mon, let’s go and play. (Vamos lá, vamos brincar.)
I never see you anymore. (Eu nunca te vejo mais.)
Come out the door. (Abra a porta.)
It’s you’ve gone away. (É como se você tivesse ido embora.)
We used to be best buddies. (Nós costumávamos ser melhores amigas.)
And now we’re not. (E agora não somos.)
I wish you would tell me why. (Eu desejo que você me dissesse o porquê.)
Do you want to build a snowman? (Você quer construir um boneco de neve?)
It doesn’t have to be a snowman. (Não tem que ser um boneco de neve.)
Okay, bye. (Tudo bem, tchau.)
Todas as manhãs, Anna fazia isso. Aparecia à porta de seu quarto, batia e implorava para que saísse. Apenas para receber resultado nenhum. Era um tormento para ela, mas, ainda assim, era bom, pois significava que sua irmã ainda se importava com ela, o que lhe trazia uma pontada de esperança ao seu coração.
Quanto a Elena, sua irmã mais velha lhe mandava cartas todas as semanas. Cartas essas que, com o tempo, ela parou de responder. Manter contato com a morena apenas significaria mais dor e sofrimento para ambas, o que era algo que ela não queria, principalmente para alguém que amava tanto quanto amava Elena.
Suspirando, Elsa tentou se forçar a se acostumar com aquela solidão, pois, para a segurança de todos, era daquele modo que ela deveria permanecer para o resto de sua vida.
...
Como em todas as manhãs, Anna estava na porta de Elsa, mais uma vez pedindo-a para sair e brincar com ela:
Do you want to build a snowman? (Você quer construir um boneco de neve?)
Or ride our bikes around the halls? (Ou andar de bicicleta pelos corredores?)
I think some company is overdue. (Eu acho que alguma companhia seria bom.)
I’ve started talking to the pictures in the walls. (Eu comecei a falar com os quadros nas paredes.)
It gets a little lonely. (Fica um pouco solitário.)
All those empty rooms. (Todos esses quartos vazios.)
Just watching the hours tic by. (Apenas assistindo as horas passarem.)
Do outro lado da porta, Elsa ouviu a voz dela se afastar, indicando que foi para outro lugar. Não era incomum que Anna acabasse por perambular pelo castelo durante as manhãs, de modo que ela já se acostumara. Mas, como era há tantos anos atrás, os apelos constantes de sua irmã mais jovem por sua companhia eram o maior tormento que já enfrentara em toda a sua vida, o que lhe servia apenas para fazer com que perdesse o ínfimo e instável controle que acumulara naquela manhã, congelando seu quarto novamente.
...
Fazia alguns anos desde que Elena descobrira que não tinha tantos anos mais para viver. Ao menos, havia sido isso que Henrik dissera. Ela estava doente. Ele não sabia exatamente qual era o problema, mas alertara que era uma doença progressiva e degenerativa e que iria matá-la aos poucos. O prazo que ele estipulara era de seus trinta anos, embora, pelo modo como ela piorava a cada dia, ele houvesse alertado de que poderia ocorrer antes.
Ela não tivera coragem de contar para Andersen. Quando os sintomas, que incluíam tosses, tonturas e dores no peito, se mostravam, ela, geralmente, conseguia disfarçar bem, e, caso contrário, era capaz de inventar uma boa desculpa.
Aquele, no entanto, era um dia ruim. Ela tinha mais cinco anos para viver, na melhor das hipóteses, mas, com as tosses violentas que a atormentavam desde que acordara, parecia ser muito menos do que isso. Como na primeira vez, sangue acompanhava cada uma de suas tosses e ela agradecia aos céus por seu marido não estar presente para presenciar aquilo.
— Elena? – Pensara cedo demais. Ao menos, foi isso que praguejou em sua mente quando ouviu a voz de Andersen vinda do outro lado de sua porta trancada, acompanhada de leves batidas. Ele estava preocupado com ela, especialmente nos últimos dias, devido ao estranho comportamento que ela demonstrava. Ele confiava nela o bastante para não fazer perguntas, assim como tinha consciência de que ela não gostaria de questionamentos, mas sabia que algo estava errado. Algo que ela não queria que ele soubesse. – Chegou uma carta de Arendelle para você. – Ele explicou quando não ouviu qualquer resposta vinda dela.
Esforçando-se para que as tosses cessassem, Elena, então, dirigiu-se até a porta e, recomposta, abriu-a.
— Uma carta de Arendelle, você disse? – Sua voz estava rouca devido às tosses que a atormentaram momentos atrás, mas ela fez o melhor que pôde para disfarçar. Estava, também, mais pálida do que poderia ser considerado saudável, os olhos fundos com olheiras e o corpo mais magro do que jamais fora. Não estava bem, isso era mais do que claro, mas se recusava a dizer a seu marido que, em breve, ele seria um viúvo.
— Sim. – Andersen lhe estendeu a carta, que então ela notou que já estava aberta, e a expressão de infelicidade no rosto dele lhe alertou de que, naquele papel, não havia uma boa notícia.
...
Anna acabava de retornar do enterro de seus pais. Havia estado sozinha nele, visto que Elsa não havia saído de seu quarto sequer para isso. Era a primeira vez que deixava o castelo em anos, mas a liberdade momentânea não a trouxe a felicidade que sempre pensara que faria, especialmente devido às circunstâncias.
Ao término da cerimônia, retornou ao castelo, querendo mais do que tudo voltar a sua cama, adormecer e acordar como se tudo aquilo fosse apenas o pior de seus pesadelos, que, no dia seguinte, seus pais a estariam aguardando para tomar café da manhã. Era um desejo vão, mas ainda era o mais forte presente em seu coração.
No entanto, ao invés de seguir para seu quarto, foi em direção ao de Elsa. Como fizera todos os dias nos últimos dez anos, bateu à porta que jamais se abrira para ela, mas, como em todas as vezes que tentou, não obteve resposta. Então, decidiu fazer um último apelo:
Elsa?
Please, I know you’re in there. (Por favor, eu sei que você está aí.)
People are asking where you’ve been. (As pessoas perguntam onde você esteve.)
They say “have courage”. (Eles dizem “tenha coragem”)
And I’m trying to. (E eu estou tentando.)
I’m right out here for you. (Eu estou bem aqui para você.)
Just let me in. (Apenas me deixe entrar.)
We only have each other. (Nós só temos uma à outra.)
It’s just you and me. (Somos só você e eu.)
What are we going to do? (O que nós vamos fazer?)
Do you want to build a snowman? (Você quer construir um boneco de neve?)
Não sabia o porquê de ter esperado uma resposta, mas, como sempre, ela não veio. Não devia ter se surpreendido, mas a dor da rejeição, em conjunto com a agonia da perda de seus pais e a saudade que a atormentava fizeram com que escorregasse pela porta até que estivesse sentada no chão. Encolheu-se e chorou.
O que ela não sabia era que, do outro lado da porta, Elsa se encontrava na mesma posição, chorando do mesmo modo que ela fazia. Mas, ao redor da loira, o quarto era coberto de gelo, causado por toda a sua dor e desordem emocional. E tudo que a princesa loira queria naquele momento era que Elena estivesse ali, que a dissesse que tudo ficaria bem, que a confortasse mais uma vez com suas palavras. Não pela primeira vez durante todos aqueles anos, Elsa desejou que Elena estivesse ali com ela.
...
Em Weselton, Andersen não via sua esposa desde que ela se trancara no quarto após ler a carta. Não podia culpá-la. Havia tomado a liberdade de ler a carta antes de entregá-la a sua esposa e sabia a reação que o aguardava desde que soube que o navio que levava o rei e a rainha de Arendelle para Corona havia afundado durante uma tempestade.
Ele não sabia mais o que fazer. Tentara de tudo, mas nada obteve qualquer resposta dela, do outro lado da porta. Havia apenas mais um último recurso, sua última tentativa de tirar sua esposa daquele quarto:
Elena?
Please, I know you’re in there. (Por favor, eu sei que você está aí.)
Everybody ask how you’ve been. (Todos perguntam como você esteve.)
Please, just have courage. (Por favor, apenas tenha coragem.)
I know you’re trying to. (Eu sei que você está tentando.)
I’m right out here for you. (Eu estou bem aqui para você.)
And I’ll always be. (E eu sempre vou estar.)
You just don’t want to be bothered. (Você apenas não quer ser incomodada.)
Even if it’s by me. (Mesmo se for por mim.)
What are you going to do? (O que você vai fazer?)
Do you want to build a snowman? (Você quer construir um boneco de neve?)
Não sabia exatamente o que o levara a usar a frase mais usual de Elena com suas irmãs, mas o fizera de qualquer maneira. No entanto, como antes, não obteve uma resposta, sequer uma palavra como retorno. Então, deixou-se cair de joelhos frente à porta, derrotado. Liberou um suspiro longo e cansado. Na verdade, estava física e emocionalmente exausto. Apenas queria que sua esposa ficasse bem. E isso era algo que ela não conseguiria por muito tempo. E, durante todo esse tempo, ele estaria ao lado dela.
Elena, do outro lado da porta, estava encolhida em sua cama, por debaixo dos lençóis confortáveis. Seu rosto vermelho e molhado por lágrimas transmitia uma dor que não poderia ser entendida por quem não a sentisse. Estava destroçada, principalmente por se lembrar de uma carta enviada por sua mãe há muitos dias, avisando-a da viagem para Corona. Ela tivera um pressentimento ruim e mandara uma resposta, pedindo para que Idun não realizasse a viagem. Infelizmente, seus pais não a ouviram. E seu pressentimento estivera correto.
No fundo de sua mente, ela se lembrou de suas duas irmãs, Elsa e Anna, que ela não via há tanto tempo. Imaginou como elas deviam estar se sentindo. Talvez de forma semelhante a como ela estava naquele momento. E, por um momento, sua mente foi invadida pela realização de que, em muito tempo, seus pais não seriam mais do que uma lembrança em sua mente e que, futuramente, ela tampouco seria mais do que uma lembrança nos pensamentos de Elsa e Anna, pois, como seus pais, muito em breve, ela abandonaria suas meninas. E para sempre.
Em sua infância, havia lido contos. Todos tinham algo em comum: Seus finais felizes. Ela pensara que, com seu casamento com Andersen, talvez pudesse ter um, mas se enganara. Nada estava funcionando. Claro, ela era uma rainha boa e justa que era amada pelo povo, tinha um marido amoroso e sogros amáveis. Mas estava doente, morreria em breve, não via as duas pessoas com quem mais se importava no mundo há anos e acabara de perder seus pais.
Não era exatamente o que chamaria de um final feliz.
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