Frozen
1 Snow
Notas iniciais
E mais comentários (não tão) inúteis nas notas finais.
[Frozen]
Frozen tears fall into my skin
Frozen memories of you…
Eram tempos difíceis. Ainda mais naquela terra em que nada crescia, nada vingava. O inverno ali parecia ser eterno, e durante o ano inteiro a neve caía e seu cobertor branco era tudo que os olhos podiam ver, além do horizonte.
Era algo a qual aquele povo havia se acostumado, a dureza da vida e ao eterno frio do inverno. O que doía bem mais que isso era o horror da guerra.
Mas até mesmo ali, nas terras do branco sufocante, ela havia chegado.
-Não vá! – ele pediu novamente, se agarrando ao loiro mais alto. Suas lágrimas viraram gelo antes mesmo de tocar o chão. – Ou me leve com você!
-Sabe que não posso fazer isso... Mesmo que seja meu desejo de todo coração. – ele afagou os fios do menor com carinho e devoção. Não queria que aquela imagem, a imagem que levaria dele consigo fosse banhada em lágrimas.
-Se você for... Sabe que não vai voltar. Isso tudo foi armado pra que não volte, Kouyou. – voltou a falar, tentando chamar o mais velho para a razão.
-Então hei de provar que estão errados e voltar com a glória da Guerra. E mesmo seu pai, o temível senhor desde feudo de gelo, reconhecerá minha honra. E meu direito a estar com você, Takanori.
Mas no fundo, apesar das palavras de coragem, Takanori sabia que não era assim. Sabia que ele era uma vergonha para seu pai, envolvendo-se com um homem. E sabia que glória alguma lhe daria a possibilidade de ter Kouyou.
A beira daquele lago eternamente congelado, teve a certeza de que era a última vez que abraçava seu amado. Sentia isso no fundo de seu âmago. Até o vento soprava diferente. Aquele lugar que era deles parecia se despedir.
O topo do mais distante e frio monte era o único abrigo da maldade humana. A maldade que aplaudia os assassinos de guerra e recriminava o amor de iguais como pedras receptam ao cão sarnento. Eles eram tidos como uma doença. E seu único lugar era aquele, o cume gelado que parecia ter sido esquecido até mesmo por Deus.
-Prometa, prometa que vai voltar pra mim. – Takanori falou, tirando o rosto do peito de Kouyou, e olhando no fundo de seus olhos cor de âmbar. – Eu sempre, sempre estarei aqui te esperando Kou. Não importa o que aconteça, estarei nesse lago, esperando seu retorno. Sempre.
Kouyou sorriu fraco diante da promessa do amante, e desejava mais que tudo poder cumprir aquilo que diria a seguir. Nunca quebrara uma promessa.
-Prometo que voltarei pra você. Pra esse lago.
-E eu estarei aqui quando você voltar. Sempre serei apenas seu. E nem mesmo o vento frio me fará fraquejar.
A vontade dos amantes era tão forte quanto a das cerejeiras secas ao longo do lago congelado. Mesmo que jamais pudessem florescer, estavam sempre ali, e nem mesmo o vento cruel ou o frio arrasador fazia com que elas perdessem a esperança de que um dia, a primavera chegaria e suas flores estonteariam a todos com suas pétalas de veludo róseo.
Com um último beijo, os corpos se separaram. E depois de se virar. Kouyou não olhou para trás. Se o fizesse, sabia que fraquejaria. Sabia que voltaria e o levaria consigo e isso traria apenas infelicidade aos dois.
Com a chama daquela promessa, Kouyou partiu, determinado a cumpri-la. E pela mesma promessa, Takanori ficou.
No tempo que se passou, nem mesmo uma vez as cerejeiras conseguiram florescer. Ano após ano, o cenário ainda era o mesmo, dando a sensação angustiante de que nem mesmo um dia havia se passado.
-o-
Quase vinte primaveras se passaram despercebidas antes que Kouyou pudesse cumprir sua promessa. E durante todo esse tempo, nem mesmo por um dia ou minuto sequer Taka esteve fora de sua mente e coração.
Em todo esse tempo, Kouyou havia se tornado uma pessoa reticente, fechada e amarga. Com muitas cicatrizes; as piores delas invisíveis aos olhos.
Todas as provações foram passadas pensando na promessa que deveria cumprir. Sempre que o brilho da morte o cercava, era o rosto de Takanori que ele via, e as lágrimas que ele derramara por si.
Onde estaria Takanori agora? Eram tão jovens quando tudo aconteceu. Embora tenha sido a razão da vida e luta de Kouyou naquele ambiente hostil de Guerra e durante os anos que vagara perdido e faminto, ferido e a beira da morte... Para Takanori poderia ter sido apenas um amor infantil.
Essa idéia o assombrara várias vezes durante os anos... Até que se deu conta de que... Não precisava do menor para si, precisava apenas vê-lo uma vez mais. Observar seus olhos amendoados e o sorriso infantil, saber que ele estava bem.
Assim como o coração de Kouyou, seu amor era calmo e gentil. Buscava a felicidade no outro e não em si. Foi assim que ele chegou ao lago, e sem surpresa o encontrou vazio. Não chegou mais perto, apenas avistou de longe.
Não queria dar margem a lembranças cruéis. Porque por mais gentil que fosse, não agüentava mais tanta dor. A dor da guerra, a dor da perda, a dor de tão cruéis memórias. Preferia se manter a distância, e ali permanecer por todo o dia, confirmando o óbvio: ele não viria.
Com uma dor dominando seu peito, ele vagou pelo caminho que quando jovem conheceram tão bem, o caminho de seu refúgio até a aldeia que um dia chamara de lar. Sua família, como estaria? Com certeza o davam por morto e isso estava bem. Aos olhos de todos, ele era uma escória, uma vergonha que fariam gosto em enterrar.
Não era por isso que estava ali, pela família que o abandonara. Não, era por aquele desejo latente de vê-lo apenas mais uma vez. Depois... Depois seguiria seu rumo. Procuraria o lugar que nunca teve nesse mundo.
-Matsumoto Takanori-dono, sabe onde está? – ele perguntou a um homem que passava, carregando lenha recém cortada.
-Não sei de quem fala. – o homem respondeu depois de um instante de hesitação. Um pouco nervoso. Kouyou estranhou muito a resposta.
Como assim ele não sabia?
-O filho do senhor dessas Terras... Ou que um dia foi senhor. Não sei se ainda vive. – insistiu.
-O senhor não tem nenhum filho que assim se intitule.
Mediante o espanto da resposta, ficou parado. O outro havia se casado e saído dali, era isso? Ou o homem estaria apenas equivocado. Havia de ser isso. Mesmo que algo tivesse acontecido com Takanori, eles falariam sobre se fosse o caso.
E pensando nisso saiu perguntando. Mas de todos recebia respostas semelhantes a do homem. Por um momento, já exausto ao final do dia, o próprio Kouyou se perguntava se Takanori não era apenas uma ilusão criada por sua mente, para deixá-lo são nos tempos de guerra.
“Não!” gritou uma parte de sua consciência “ele é real, e a única felicidade que já conheci nessa vida”. Não podia desistir. Foi nesse instante que Kouyou ouviu uma voz que parecia chamar por si.
-Ei, você... – era uma senhora já de avançada idade. Por algum motivo ela lhe parecia familiar. – Deveria parar de falar de Takanori-dono assim em alto e bom som. O nome dele foi proibido nessa aldeia.
-Proibido? – perguntou assustado.
-Sim. – a velha continuou. – Eu lembro de você rapaz. E acreditava que a morte já o havia levado há algumas décadas. Mas você cumpriu sua promessa no final das contas... Oh sim, ele me contou sobre isso.
E então Kouyou finalmente reconheceu a figura magra e quase decrépita. Estava bem diferente de como se lembrava dela. Chiyomi, criada de Takanori, pela qual ele tinha muito afeto. E ela já era velha quando Kouyou partiu, quantos anos teria agora?
-Ele também quis cumprir a promessa dele. Acredite em mim quando digo. Era a única coisa que o fazia levantar-se todos os dias. E sempre, sempre ia esperá-lo. Ele estava certo no final das contas. O senhor voltou e cumpriu sua promessa.
“Meu menino nunca perdeu a fé em você.”
Um nó se formou na garganta do loiro, e as palavras pareciam se afogar. Se afogar nas memórias que ele lutava para conter. E ele teve medo da pergunta que faria a seguir.
-Chiyomi-san... Onde ele está, Takanori?
-Deus sabe... – ela respondeu reticente. – Deus sabe senhor. Faz já quase uma década que ele se foi... O pai arrumou um casamento para ele, e indiferente ao quanto ele se recusasse, não cabia a ele escolher. E todos os dias ele me dizia que deveria esperar por você, que havia prometido ser só seu.
“E então aquela manhã chegou e ele já não estava lá. E ninguém nunca conseguiu encontrá-lo. Nunca mais.”
Kouyou ofegou por um instante, pensando em Takanori esperando por ele todos os dias, por uma década inteira, em meio ao frio. E enfrentando seu próprio pai. Já haviam sofrido tanto, e agora não poderia nem mesmo olhar para o amado e saber o que havia acontecido com ele.
-Obrigado...
A voz saiu em um fio, enquanto ele fazia uma mesura e se retirava. Nem a paz de saber que Taka estava bem ele poderia ter. Percebia agora como a vida podia ser mais dolorosa que a morte de tantas formas.
Desejou por um momento ter morrido em paz anos atrás, antes de conhecer tanta dor, com a imagem de Takanori ainda perfeita, guardada no fundo de seus olhos. A mesma imagem que ele lutava tanto pra não perder ano após ano. Dor após dor.
Sem que se desse conta, os passos pesados pela amargura o guiaram de volta pra seu lago. Aquele lugar tão carregado de lembranças que chegava a doer. O sol já estava se pondo no horizonte, fazendo com que o laranja se minguasse em meio ao branco, era lindo.
A dor... Dizem que é uma coisa bela. Se fosse assim, se a dor que apertava seu peito pudesse ser musicada, formaria uma canção agonizante, de tão linda.
Foi pensando nisso que se aproximou do lago de gelo, bem quando a neve começou a cair novamente. E a visão que ele teve, fez o sol ser esquecido. Fez qualquer coisa ser esquecida.
Nada no mundo poderia ser tão belo e tão doloroso quanto aquilo. Nunca em sua vida uma coisa lhe pareceu tão sublime e dilacerante.
Deixou que uma lágrima rolasse e ela virou um cristal congelado antes de se espatifar contra a superfície de gelo do lago.
Abaixo de seus pés, perto da margem do lago, descansando calmamente abaixo do gelo, estava Takanori. E todos aqueles anos, e mesmo a morte, efeito algum tinham causado na perfeição de seu rosto.
Kouyou caiu de joelhos no gelo, passando as mãos acima de onde o corpo do menor repousava por toda a eternidade. Ele tinha um sorriso pacífico e quase imperceptível nos lábios. E melhor que ninguém o loiro sabia o que aquele sorriso dizia: Você voltou pra mim.
Quase pode ouvir a voz de Taka sussurrando em seu ouvido. Ou teria sido apenas o vento soprando?
-Eu voltei, Taka. – ele disse, antes que ainda mais lágrimas escorressem.
Buscando a bainha, ele puxou a velha espada, companheira de guerra. A lâmina afiada cravou uma maculação no gelo perfeito, próximo ao lugar em que Takanori repousava. E ignorando o frio e a dor da água gelada penetrando em sua pele, como se mil adagas o esfaqueassem, ele buscou o amado.
Se jogando na ferida aberta em meio ao gelo, ele abraçou o corpo menor, e também sorriu. Se preparando para dormir por todo o sempre, ele observou o gelo cicatrizar o corte feito, enquanto a neve ainda caía. Os pulmões protestaram pela falta de ar apenas por um instante.
Mas a única coisa que ele sentia, era o corpo do amado junto ao seu. Seus olhos pesaram... E tal como alguém que vai apenas cochilar por alguns instantes, se fecharam derradeiramente.
Não havia dor, mágoa, infelicidade ou ressentimento. Não havia nem mesmo som. Tudo era paz embalando o sono eterno daquele par, finalmente junto. Finalmente em casa.
E eles foram felizes para sempre.
Notas finais
Mas hoje, ao invés de gastar meu tempo pedindo reviews, farei um apelo. Todo mundo sabe do desastre que aconteceu ontem no Japão, mas pouca gente sabe que PODE ajudar.
Esse é o site da cruz vermelha, e aqui você pode doar para as vítimas:( https://american.redcross.org/site/Donation2?idb=0&5052.donation=form1&df_id=5052 )
Lembrando que o valor que você doar será em DÓLAR. Se não pude doar, divulgue!
Obrigada, e espero que tenham gostado da fic!
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