Frost-Proof
1 Capitulo 1
ㅡ Bom dia, flor do dia!
Uma voz cantarolou no pé do meu ouvido me arrancando de um sonho perfeito de campos floridos e dragões desconhecidos para a realidade gelada do inverno. Só existia uma pessoa cruel o suficiente para fazer isso.
Jack Frost.
Ele tentou me levantar e eu gemi em protesto, o rapaz conseguia ser insuportável e não ter o menor senso comum quando queria e ele parecia sempre querer. Horrível.
ㅡ Ah, vamos Hiccup, olhe que neve linda lá fora!
ㅡ Frost — eu disse coçando os olhos, numa tentativa tão falha de focalizar qualquer coisa a mais de um palmo da minha cara quanto a de conter a frustração na minha voz. — normalmente as pessoas dizem “que Sol lindo lá fora”.
Olhei pela janela identificando com dificuldade a neve caindo no céu branco, tomando consciência do frio que tomava meu corpo. Apertei a coberta procurando coragem para levantar e olhei para o ser mágico que zanzava pelo meu quarto.
ㅡ Isso vindo de mim seria estranho não? — perguntou o Frost, ficando de cabeça para baixo e fazendo biquinho. Seu rosto mostrava tristeza mas tudo nele exalava o espírito travesso que eu já conhecia bem demais para me deixar enganar.
ㅡ Você é ridículo. — Eu me espreguicei e levantei da cama para em seguida perceber uma nuvenzinha sobre a minha cabeça. — E a sua neve também é ridícula.
Minha voz soava irritada, mas fazia um bom tempo desde que ela havia perdido qualquer vislumbre de raiva, já acostumado a presença dele. Entrei no banheiro, por algum milagre desacompanhado na nuvenzinha, e retirei a minha camisa sentindo meu corpo se arrepiar com o frio. Por reflexo olhei ao redor atrás do guardião, não o vendo em lugar algum.
ㅡ Cara, você precisa começar a malhar.
Assim que eu vi aqueles cabelos brancos eu soltei um grito. Mas que infernos ele estava fazendo no meu banheiro? E de cabeça para baixa ainda por cima.
ㅡ Mas calma que não tá tão urgente assim pra você gritar. — eu ouvi ele rindo
ㅡ Jack Frost, saia do meu banheiro. Agora!
ㅡ Okay, okay — ele disse voltando a rir e dando de ombros. — estou indo, moreno, mas não se esqueça: malhar.
Eu joguei uma toalha nele enquanto o via fingir levantar pesos imaginários e ia saindo do meu quarto acenando cinicamente. Sério, um dia eu ainda quebro a cara daquele… daquele loiro platinado, Malfoy maldito!
Eu sai do banheiro já vestido, apenas por precaução. Era estranho olhar ao redor e não ver o Jack em canto nenhum, mas aquilo significava que eu poderia respirar aliviado, um privilégio que não tinha há alguns dias. Parei para procurar os meus equipamentos, afinal fazia mais de uma semana que eu não treinava com a Astrid, ou melhor, eu nem falava com ninguém. Diferente do Jack, que pode viajar o mundo sem ninguém o ver ou ouvir, todos ali me viam e ouviam, ou seja, falar com ele do lado de fora era como carregar uma placa escrito “eu sou louco, por favor, me expulse da ilha”.
Mas, por outro lado, não respondê-lo era como aceitar suas provocações.
ㅡ Oi, pai. Tchau, pai!
Eu sai de casa voando, pude ouvir meu pai reclamar comigo por um tempo, gritando da janela. Fui falar com Astrid bem rápido, eu precisava ver Toothless, mas a loira parecia realmente interessada em falar comigo.
Viu? Ela é loira, não Malfoy.
ㅡ Hey, Hiccup! Por onde você estava?
ㅡ Ah? Ahn… Bem… Eu estava meio... Gripado! Resfriado, morrendo de frio.
De qualquer forma não era uma mentira. Não exatamente. Eu estava omitindo, não mentindo.
ㅡ Sério? Mas fazia tanto calor aqui… — Ela colocou a mão sobre minha testa e desceu para minhas bochechas. — E você me parece bem coradinho, para alguém que estava resfriado.
Astrid me encarou, me olhando de forma divertida como se estivesse me chamando para um desafio. Eu tirei a mão dela do meu rosto e senti minha bochechas esfriarem.
ㅡ Ah, mas parecia que estava nevando sobre a minha cabeça. Você não faz ideia. Eu vou indo, preciso ver o Toothless.
entreguei-lhe os materiais de treinamento mais alguns papeis onde havia escrito algumas coisas e fui encontrar meu dragão, tentando sair de uma forma que não parecesse que eu estava fugindo. Bem, encontrar era a melhor palavra que eu poderia ter usado, já que o fúria da noite não estava em canto nenhum. Sinceramente, tava tudo contra mim.
Eu preferia esse tipo de problema, um dragão amigável desaparecido era mais interessante que o projeto de Peter Pan, mas depois de um bom tempo caminhando eu encontrei um rastro de neve sob os meus pés. Frost.
ㅡ Va-vamos lá, garoto. E-eu não vou te machucar. — junto a voz eu pude ouvir alguns grunhidos. Mas que inferno, Frost! — Fazemos assim: eu faço nevar para você e você me deixa ir. Que tal?
Vi Toothless se aproximar dele mostrando as presas enquanto o rapaz tropeçava em seus pés tentando se afastar.
ㅡ N-não? E-então… que tal se eu–
ㅡ Toothless! — chamei o dragão, que se jogou em mim me lambendo, seus dentes já escondidos novamente.
ㅡ I-isso é o Toothless? Hiccup, eu não sei se você já foi para a escola, mas Toothless, banguela, quer dizer sem dentes. E essa coisa totalmente tem dentes!
Banguela rosnou pra ele expondo novamente suas presas. Eu suspirei, o quão idiota aquele ser poderia ser? Coloquei a mão na cabeça e falei sem esconder a irritação:
ㅡ Ele não é uma coisa. Toothless, ele tem nome! E o que você estava fazendo com ele, Frost?
ㅡ Eu? Fazendo algo com ele? Não acha que é o contrário? Isso é o oposto do que você havia dito. Isso não é nada fofo, nada carinhoso e muito menos inofensivo!
ㅡ Eu já disse: Ele tem nome. E será que eu vou ter que repetir a pergunta?
Jack bufou e cruzou os braços, virando de perfil. De olhos fechados como se não quisesse me encarar de jeito nenhum. Oh. Ele estava fazendo birra para evitar aquela conversa.
ㅡ E-eu pensei em levá-lo para te ver. Sabe, você não saía de casa, então eu achei que estariam sentido falta… um do outro.
Jack Frost. Frost. Gelo. Era impressão minha ou ele estava tentando se fazer de bom moço e ser um pouco mais caloroso? Eu não pude me conter e quase cai no chão, gargalhando, ao perceber que ele havia tentado fazer amizade com o Banguela. Aquilo era ridículo.
ㅡ Tá, chega, para! Já entendi que foi uma ideia boba, não precisa ficar rindo, okay?
ㅡ Jack… Sinceramente, por que você insiste em atazanar minha vida?
Não era uma idéia boba. Era incrível e muito gentil da parte dele, por assim dizer. Eu respondi a ele entre os risos, vendo-o fechar a cara novamente, mas minha pergunta era retórica e eu não senti a ânsia de reclamar das ações dele. Pela primeira vez desde que nos conhecemos eu o chamei de Jack.
ㅡ Calado! você ainda precisa começar a malhar!
Tinha completado algo mais que um mês desde que eu conheci o Jack, não posso reclamar de ter sempre um amigo pronto para te ouvir, mas é ridículo apenas eu poder ouvi-lo!
"ㅡ Se eu fosse você dava cabo desse dragão de uma vez por todas- repetiu Jack... Pela enésima vez naquela tarde.
ㅡ Não, não devemos matar os dragões. quanto tempo vai levar até que você entenda?- eu respondi
ㅡ Eu sei, Hiccup, eu só ia testar a resistência dele ao fogo. Fica calmo!
Astrid falou me encarando, estranhando o meu comentário. Droga, Frost!"
Ele era divertido e rir das suas gafes toscas era inevitável, principalmente com o "amor" dele pelos dragões. O sentimento com certeza era mútuo.
"ㅡ Sinceridade... Essas coisas são um atraso de vida, acha não?- Jack sacudia os braços enquanto voava tentando livrar sua perna da boca de um dragão.
ㅡ Pelo amor, Frost. Quantas vezes terei de dizer que eles não são coisas?
ㅡ Eles deveriam ser extintos, isso sim!
Eu comecei a rir mandando ele ficar calado, enquanto o "Malfoy" batia na cabeça do dragão com seu bastão inutilmente. Todos me olhavam como se eu fosse louco. Sério, ele deve fazer isso de propósito."
Eu me lembro quando ele me empurrou em cima da Astrid, eu devo ter ficado escarlate.
"ㅡ Se você gosta dela, deveria ir lá falar.- ele disse de cara fechada, aparentemente irritado com algo.
ㅡ Eu não gosto dela!
ㅡ Não gosta?- Ele me olhou surpreso.
ㅡ Quer dizer, não como você pensa. Não é porque eu acho ela a garota mais bonita da aldeia que eu... Aff!
Jack virou a cara novamente e quando se voltou para mim ele tinha um sorriso estranho no rosto. Em questão de segundos eu estava no chão, com uma Astrid em baixo e um Frost em cima me impedindo de me levantar.
ㅡ Maldito!- sussurrei.
ㅡ O quê? Dá pra sair de cima Hiccup?"
Era por esse tipo de coisa que eu odiava ficar próximo ao Jack.
ㅡ Jack?
ㅡ hum?
ㅡ Porquê você não deixa os outros te verem?
ㅡ humn?!?
ㅡ Quer dizer, é chato só eu te ver. Porquê não deixa os outros te verem também?
ㅡ huum!
ㅡ Entendeu?
ㅡ HuumHumn!
ㅡ Então responde!
ㅡ Não é eu deixá-los me verem ou não, eu escolho se as pessoas vão me ver ou não, e não se elas podem me ver ou não. Só pode me ver quem acredita em mim. Você acredita em mim, eles não, essa é a diferença. E eu estou pensando seriamente em fazer os dragões não me verem mais. Só preciso saber como.
ㅡ Então... Eu volto mais tarde... Eu... preciso trazer uns amigos... pra você conhecer, Jack, alguns novos amigos pra você!
Eu sai correndo pensando o quão louco eu deveria parecer gritando com a grama e quão mais louco seria quando eu contassem a todos sobre o Jack. Vou te trazer novos amigos, Jack. Eu prometo.
Contar para todos sobre o Jack fez com que eu me sentisse ridículo, mas ter o líder do seu lado, acreditando em mim ajudou bastante. E, bem quando se convive com dragões é fácil acreditar em qualquer coisa um tanto quanto absurda.Mas o maior desafio foi fazer o Jack aparecer, sinceramente, viu? Eu tentando socializa-lo e ele some.
Rodei por toda a Berk gritando o seu nome como um louco apenas para, depois de algum tempo, o achar no topo de uma árvore.
ㅡ Caramba! Onde você estava? Eu andei te procurando a mais de três dias!
Quase perguntei se ele estava em um "relacionamento sério" com aquela árvore.
ㅡ Onde eu estava?!? Onde você acha que eu estava? Fugindo de você, talvez?
ㅡ De mim?- coloquei a mão no peito em um ato de indignação- Porquê?
ㅡ Sei lá, acho que é por que você querer me usar como Atração de Circo!
ㅡ Atração de circo! Ficou louco? Eu estava tentando te dar amigos!- o encarei apontando para o resto da ilha.
ㅡ Amigos? Pensa que não sei que você pretendia impressionar a Astrid e só?
O tom de desprezo que ele usou no nome dela me fez estremecer, era como ouvir um dragão rugir após passar anos aprisionado.
ㅡ Se você não quer acreditar em mim... Achei que fossemos amigos.
ㅡ Eu também pensei assim! Mas agora eu sei, eu entendo...
Jack estava de braços cruzados e de costas para mim como se esperasse que eu saísse de lá. De novo, quem esse Malfoy pensa que é?
ㅡ Jack Frost! Eu não sei sua idade, de onde você veio, se tem família, namorada, animal de estimação ou o que, inferno, você é! Eu nem mesmo sei seu nome verdadeiro! E mesmo assim quis ser seu amigo, mas o que eu sinto, o sentimento que eu tenho por você, é mais forte que isso. Eu... Eu nunca tive amigos antes de me tornar o "dono" do fúria da noite! Eu nunca conheci alguém que gostasse de mim desde o início . Nem mesmo o Banguela!
Eu gritava e as pessoas ao redor me encaravam, mas eu não me importava. Jack iria me ouvir. Ele começou a se afastar o que me fez segurar ele pelas costas e o jogar no chão, o segurando no lugar. Exagerado? Só um pouco.
ㅡ Eu. Não. Me. Im-por-to! Você é meu amigo! E por isso eu quero e preciso fazer você feliz, é isso o que os amigos fazem... Não é? E se pra isso eu tiver que me afastar de todos eu o farei. Eu fiz! Então, por favor, faça o mesmo por mim. Deixe meus amigos se tornarem seus também.
Ele virou seu rosto para o lado e me encarou pelo canto dos olhos enquanto eu ainda segurava seus braços.
ㅡ ...gime.
ㅡ O-o quê?
Eu pude ver que ele estava com um bico no rosto antes que virasse a cara para mim de vez.
ㅡ Regime. Malhar não vai resolver todos os seus problemas de peso.
ㅡ Yaa! Seu Malfoy maldito!
ㅡ O Quê?!?
ㅡ Malfoy é um person-
ㅡ Eu sei quem é, Potter! Seu traidor do sangue!
Quando ele falou que eu precisava de um regime, todos já podiam nos ver, então nossa briga idiota se tornou ainda mais idiota. Eu odeio quando ele fica "em cima de mim" nos treinos com dragão ou o modo que ele age com a Astrid, mas eu aprendi a amar suas conversas sem nenhum sentido, seus planos de ataque, a maioria das suas piadas idiotas e o modo como ele é espontâneo.
Ah, e eu adoro quando ele cria neve e, apesar de não gostar muito do frio, eu acabei aprendendo a amar a geada também.
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