Saiki não compreendia o motivo de se sentir triste. Era uma garota normal, de uma família boa e rodeada por amigos. Sua personalidade era forte e gostava de sonhar alto. Porém, às vezes se sentia incompleta.

Isso podia acontecer quando lembrava que sua mãe trabalhava muito e seu pai estava desempregado, ou quando estava na roda de amigos e não conseguia criticar algo junto deles, porque amava aquele suposto "algo" demais. No final, não era muito verdadeira com os amigos e muito menos consigo mesma.

Uma das fofocas da sua roda de amigos era uma garota chamada Tohru. Ela havia perdido a virgindade não fazia muito tempo e a escola toda ficou sabendo, foi um escândalo. Os pais foram contatados pela escola, que a puniram severamente. Já o garoto que ela transara fora parabenizado por sua atitude máscula nos corredores e salas de aula. Desde então, Tohru fora isolada e até mesmo por esse garoto.

Saiki a observava de longe e pensava que ela sim tinha um motivo para se sentir triste, como quando atravessava o campo após a escola e só tinha a companhia do céu azul sobre sua cabeça. Saiki retornava pra casa muitas vezes chorando e sem um motivo aparente.

Não se importava com o pai desempregado, com a mãe que quase não via e nem de ter a aprovação dos amigos. Apenas se importava em ter um motivo forte o bastante para fazê-la chorar tanto. Pelo menos para fazê-la entender por que era triste.

Não era triste, triste era Tohru.

Como a admirava, seus cabelos longos rosados junto de sua pele alva e delicada. Parecia ser tão frágil e ainda assim carregava o peso desse céu azul em suas costas. Mas Tohru não chorava, nem mesmo se isolava. Por mais que ninguém quisesse conversa, ela tentava a todo custo criar algum laço com alguém. Muitas vezes era enganada e caia numa brincadeira de mau gosto, mas não desistia de ter um amigo.

Sua ingenuidade não a permitia chorar e nem a odiar as pessoas. Na verdade, estava louca por atenção. Às vezes se tornava uma espécie de cachorrinho e fazia tudo o que as garotas mandavam, outras vezes prestava alguns "servicinhos" aos garotos da escola. Saiki tinha certeza que Tohru não sabia que era a vítima e que se via sendo a errada nessa história toda. Isso explicaria seu comportamento tão desesperado em se corrigir. Mas sem perceber, Tohru estava cada vez mais corrompida, e não chorava um momento sequer.

Saiki queria pegá-la pelo pulso e forçar um abraço para chorar no ombro dela, pensando que a vida não era justa. Como ela gostaria de ter um motivo tão forte para suas tristezas, mas se sentia apenas uma chorona mimada.

Um dia estava atrás de um prédio da escola chorando escondida de todos, e Tohru apareceu do nada com um lenço em suas mãos. Saiki ergueu a cabeça e viu seu sorriso de perto.

— Saiki, não faz mal chorar, mas use o meu lenço quando terminar.

Por estar tão perto, Saiki notou o quanto o seu rosto parecia cansado e cheio de marcas.

— Não devemos mostrar nossas fraquezas. — Completou.

— Por que não?

— Não temos tempo, precisamos conquistar as pessoas com um sorriso.

A garota deu as costas para ir embora depois de Saiki aceitar o lenço, mas foi tomada de volta pelo seu pulso. Saiki a abraçava e chorava em seu ombro como sempre desejou.

— Você é tão pura. — Disse em meio ao choro. — Muito burra também. — Apertou mais o corpo alheio. — Não há problema em chorar.

Sentindo o calor intenso do corpo de Saiki e aquelas palavras sussurradas em seu ouvido, Tohru finalmente abriu um bocão e começou a chorar por encontrar alguém que não via problema em mostrar o seu lado mais frágil.

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