From a Lost Person

1 Capítulo 1 - Devaneios


Notas iniciais
Se lerem, me contem.

Algumas coisas precisam ser lembradas, memórias são traiçoeiras, perversas, insinuantes mas também são lugares de calma, nostalgia, paz e saudosismo.

Lembro-me que quando mais novo costumava pensar em como meu futuro tinha tudo para ser incrível, eu era um garoto com total confiança no meu potencial, eu sempre soube que pensava demais, mas na época, isso era meu diferencial, o suprassumo do ego inflado de um garoto de família humilde e desejos caros.

Eu era novo, não sei me lembrar ao certo, algumas memórias são só um borrão e o sentimento que faz meu coração disparar e vez ou outra falhar uma batida, o cheiro, o timbre da voz, a textura da língua e o calor que crescia em meu peito de forma que, hoje em dia, com um vocabulário um tanto mais extenso, ainda não consigo explicar.

Eu não gostava de ir para a casa da minha avó, não da sua mãe pelo menos, mas tinha algo que vez ou outra me fazia delirar de fascínio e eu na ingenuidade da idade caí miseravelmente no enlace de seus braços.

Passávamos o dia na rua, lembra? Brincando ou correndo por aí, vez ou outra você se lembrava que era o mais velho e me colocava para assistir o quanto você se divertia ao jogar biloca, ou uma brincadeira qualquer com cartas, com seus amigos vizinhos, na verdade eu me sentia aliviado quando eu era considerado o “café com leite” pois daí eu teria a oportunidade de te observar. Você não era a pessoa mais bonita, tampouco a mais inteligente, eu já podia julgar isso sendo consideravelmente mais novo, mas tinha algo em você que sempre me fez gostar de observar. Eu sentia o carinho, o cuidado e a preocupação que emanava de ti quando o assunto era eu. A gente convivia pouco, menores ainda são as memórias concretas que tenho.

Eu só sentia, eu só sinto, hoje me resta a lembrança.

Lembra que na casa da minha avó tinha aquele canal de desenho, e você me fazia dormir no seu quarto para que pudéssemos assistir juntos? Vários desenhos passavam noite a fora, um seguido do outro, e enquanto ia ficando mais tarde, o exterior do quarto mais escuro e silencioso, íamos nos aproximando, magnetizados, atraídos como lados opostos de um imã potente.

Eu estava deitado, menor que você uns vinte centímetros, sentia sua respiração cada vez mais forte e mais quente em minha nuca, seu corpo vagarosamente ia encontrando e cobrindo cada pedacinho do meu, e de repente posso sentir todo seu peito grudado em minhas costas.

O movimento calmo, sutil, cuidadoso e proibido, por cima de nossas roupas eu te sentia crescer, eu sentia o começo do seu despertar como homem.

Foram alguns dias que somente isso era o suficiente, para mim e para você, mesmo hoje, resgatando a memória sinto a euforia que outrora senti, você mexeu demais comigo, de um jeito que talvez seja irreparável.

Você ficou mais velho, consequentemente eu também acompanhei o tempo e de repente não éramos mais duas crianças com sentimentos incompreensíveis. Você mudou, nos víamos cada vez menos e hoje as memórias a cada instante que se passa ficam mais desfocadas.

Você estava jogando futebol, na rua da casa da vovó, o chão ainda não tinha asfalto, a terra vermelha subia à medida que você e seus amigos passavam de um lado do outro do campo demarcado por uma risca na terra e os chinelos de gol, você respirava forte, o cabelo uma vez escuro e espetado agora estava emaranhado e suado, a gota de suor escorria pela sua têmpora e a media que ia descendo foi ao encontro do seu sorriso, e seus olhos estavam em mim, buscando aprovação e comemoração pelo gol recém feito. E eu só podia sorrir de volta, aquela cena, sob o sol fraco da tarde, era quase que demais pro meu coração, agora mesmo, enquanto escrevo e as memórias voltam a vibrar, um sorriso brota incontrolavelmente no canto de minha boca.

Você era a personificação daquilo que eu achava mais incrível no mundo.

O jogo acabou, minha avó nos gritou de dentro de casa, estava na hora de entrar, você com a pose de criança que quer ser tratada como crescida, entra resmungando e falando que ainda era cedo demais, e que eu poderia aproveitar mais a minha estadia na casa de vocês se ela não nos colocasse para dentro antes mesmo de escurecer e os postes da rua se acenderem. A vovó brava como era te manda ficar quieto e ir tomar banho logo para que não sujasse a casa recém limpa. Limpa demais inclusive. Você suspira, passa a mão no rosto, “limpando” o suor e a sujeira acumulados ali, um movimento da testa até o fim dos cabelos. Lindo de se ver. Quando terminei dei uma risada boba, seu cabelo sujo e agora espetado de um jeito engraçado. Você me olhou com uma cara brava, mas não se aguentou também, soltou o sorriso contido. Você caminhava em minha direção, ainda no quintal de casa, e a cada passo foi tirando a camisa que outrora era branca, agora a terra vermelha lhe dava o aspecto de encardida. Parou em minha frente com a camisa nas mãos e me entregou. “Coloca na roupa suja por favor.” Você acha que eu não lembro, mas sabe que todo mundo se surpreende do tanto que quando se trata de mim você é educado. Eu seguro a camisa suja, te olho com cara de bravo, mas também não me seguro, pois quando se trata de ti, a resposta é sim. Até hoje, se você quisesse.

Reparo que agora você tem alguns pelos querendo crescer no peito, que você ostenta como parte incontestável da sua virilidade. Estufando o peito para mostrar que tinha reparado que eu tinha reparado, piscou com um olho só para mim, sorriu e se virou, com a postura de um galã, em direção ao banheiro para tomar banho e se limpar.

Eu achava que iria explodir, eu precisava me controlar muito, controlar o impulso de te abraçar e a vontade que eu tinha de estar colado em ti, como que para que fossemos um só, ou dois em um, ou um em dois, ou não sei, eu só sentia e aquele sentimento me sufocava.

Era minha vez de tomar banho, aquele banho me lavou a alma, enquanto estava lavando o cabelo com seu shampoo de menta, eu comecei a me recordar do dia que se passou, de nossas noites anteriores e isso começou a se refletir em mim de um jeito que eu não achava que fosse possível, alí, no meio do banho, no banheiro na frente do seu quarto, com seu cheiro tomando conta de todo o espaço, eu senti meu corpo ferver, meu sangue circulando mais rápido do que eu achei que fosse possível, respirar direito era complicado, senti meu corpo estranho e começar a crescer, eu não tinha ideia do que estava acontecendo, inebriado pelos sentidos e sensações e percepções provindas de ti, eu toquei aquilo que outrora não tinha propósito a não ser me aliviar quando bebia água demais, agora, ressignificado, acariciei o membro rijo em minha mão e como num gatilho eu estava em um daqueles abraços, em uma daquelas noites de desenho, eu, você e seu calor. Minha mente funcionava a milhões, pensamentos desconexos, eu não conseguia por ordem em nada, era tudo um caos, era tudo um calor, o cheiro do seu shampoo agora com uma ligação direta no quanto eu estava ficando duro e eufórico, eu queria um abraço daqueles e queria agora, o movimento mais frenético, as palavras sussuradas, coisas que até hoje eu não sei o que queriam dizer foram proferidas, e então aconteceu, meu peito explodiu, eu não conseguia mais me controlar, eu estava tremendo, eu não sabia processar a informação do que eu estava fazendo, eu senti meu corpo quente demais, o ar me faltava os pulmões, os olhos a muito tempo já fechados, só facilitava a lembrança vívida em minha cabeça. E num suspiro eu explodi. Minha respiração a custo, voltava ao normal, passei sabonete no corpo sentindo ainda os resquícios da tremedeira. Terminei meu banho e ao olhar meu reflexo no espelho embaçado, eu senti vergonha, não sabia exatamente do que. Eu não sabia o que tinha acontecido, e me sentir tão bem assim não poderia ser normal, não poderia estar certo, no mesmo instante senti que o que quer que tivesse acontecido, deveria ser um crime, de tão mágico, tão prazeroso, tão…. nem tenho vocabulário para descrever o que.

Mais uma vez suspirei, terminei de me aprontar e me sentei à mesa, onde todos já me esperavam, começamos a jantar, eu não conseguia nem te olhar, e é claro, você reparou isso também, e conhecendo você do jeito que eu conhecia, isso só significava uma coisa: eu estava perdido.

Passei o jantar inteiro calado, a vovó aproveitou para comentar sobre o quanto eu estava bonito e crescido, e claro, reclamava do fato da minha palidez de doente estar cada vez mais clara, eu não sou ou era doente nem nada, mas eu não era muito fã, da rua, do sol, das brincadeiras com outras pessoas, então isso se refletia na minha pele de criança quieta, caseira e estudiosa.

Vovó ameaçava brigar com minha mãe pois criança tinha que brincar mesmo, na rua, conhecer gente, é claro, enquanto dia fosse. Afinal, meu tio do outro lado da mesa, tinha a pele clara também, mas lindamente beijada pelo sol.

A vovó não sabia que eu não era de ficar na rua, por isso não negava que eu fosse com ele, mas pra mim, não era a rua, o futebol, as bilocas ou as brincadeiras. Sempre foi ele, era dele que eu era fã.

Quando saí do meu devaneio, havíamos terminado de jantar e ele foi juntar as louças na pia. Vovó tinha me mandado ir escovar os dentes e me aprontar para dormir.

Eu lembro até hoje, daquele dia, entre a porta do banheiro e a porta do seu quarto. Você me encurralou, chegou perto, olhou no fundo dos meus olhos, o olhar fixo, de cima pra baixo por conta da altura, só te fazia mais intimidador, mais viril, eu sentia sua respiração quente no meu rosto ainda úmido.

Sua voz ecoou suspirada nos meus ouvidos.

Eu não tinha processado ainda. Quando dei por mim eu encarava a porta do banheiro fechada e você já dentro dele.

“Eu sei o que você fez.”

Notas finais
:)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.