Fright

3 Farewell


Notas iniciais
Quando Ay já conquistava suas ambições, conseguiste deixar tudo escorregar entre seus dedos, perdendo todo o pouco que já tinha conquistado, sofrendo assim pelo ocorrido. O foco do capítulo é a esperança, algo que no Ay, nunca faltará.

Foi um dia inesquecível.

Foi um dia inesquecível. Fiquei realmente feliz por tudo isso ter acontecido, me sinto mais animado, me sinto mais disposto, pra continuar, seguir em frente, não escolhemos o passado, mas podemos fazer nosso futuro, depois daquele fim de tarde, absolutamente deslumbrante na praça. Fomos embora.

Mas algo terrível acontecera naquele momento, me dói contar isso, me dói descrever essa cena, essa cena que tanto me machuca, que tanto me corrói por dentro, mas é necessário contar. Enquanto voltávamos da praça para casa, enquanto estávamos estacionados no farol, um carro em alta velocidade avançou o sinal da esquerda, e bateu ao lado do motorista, aonde Tito estava, naquele momento, ele me abraçou, e antes que eu pudesse entender a situação, em um instante tudo já tinha acabado, não consegui racionar direito, mas me lembro, me lembro perfeitamente, essa maldição de lembrança não me abandona, é o que me corrói por dentro, me dissolvendo em prantos. A única visão clara que tenho, é de ver tudo embaçado, essa visão caótica, e Tito, ao meu lado, inconsciente, e sangrando demais. Assim que a pancada foi percebida, logo chamaram o pronto0socorro. Enquanto nos tiravam dos destroços, me separaram dele, pareço frio contando esta história novamente, como se fosse algo fácil, mas estou despedaçado, por dentro, não me contenho, não consigo passar um dia sem chorar, sem lembrar daquela cena perturbadora dentro da minha mente, tenho medo de quê algo aconteça a ele.
João foi o primeiro rosto que eu conhecia, a ver, chorando junto a mim ele me levou no carro de Felipe, para seu apartamento.

– NÃO PODEMOS ABANDONÁ-LO!

– Não vamos abandoná-lo, não vamos.

– VAMOS COM ELE, ELE PRECISA DE MIM, NÃAAAAAAAAAAAOOOOOOO...

Choro cada segundo mais, me lembrando dessa tortura, não consigo viver com esse peso na consciência, me sinto completamente culpado, ele me protegendo, sofreu.
Quando chegamos ao apartamento de Felipe e João, pedi imediatamente que fossemos para o hospital, ver o que havia acontecido. Eu tinha esperanças.

– É aqui que foi recentemente internado, um paciente que sofreu um acidente de carro? — Disse João, tentando parecer calmo. -

– É sim, ele está na UTI.

– Não podemos vê-lo?

– Não.

Com aquelas palavras cortantes, minha garganta gelou, meu coração estremeceu, meu cérebro entrou em choque, a única coisa que consegui fazer, foi sair correndo. Na direção que meu coração me guiava, eu fui. Para minha desagradável surpresa, fui em direção a uma sala, fechada, em que havia um homem, em uma maca. Completamente ferido, e para meu desagrado. Era ele.
Esta cena terrível, me fez cambalear, chorando e gritando, agonizando de medo, de dor, em eu coração, permaneci ao chão, implorando para que nada acontecesse de ruim a ele.
Conto esta história no passado, pois faz uma semana que não tenho notícias dele. Eu e João vamos lá hoje, ainda tenho esperanças de que nada grave aconteceu, meus ferimentos foram poucos, graças aos braços dele, que me protegeram, o coração dele que me protegeu de qualquer mal naquele momento.

Chegando ao hospital, apenas um de nós teria permissão de ir. Como sou menor de idade, não pude ir, João foi no meu lugar. Enquanto ele caminhava no corredor, meu coração batia cada segundo mais forte, na esperança tola de que ao ele voltar, veria Tito ao seu lado, vindo de braços abertos à meu encontro. Mas sua expressão tristes, seus olhos inchados e vermelhos, suas mãos trêmulas indicavam que nada de bom havia acontecido...
Ele correra imediatamente em minha direção, me dando um abraço forte. Eu pude sentir sua angústia, e sabia que estava prestes a me sentir igual, apenas com uma dor mais profunda. Entrei em transe, com medo, com pensamentos confusos, imaginando tudo e não pensando em nada, vendo aquela cena, repetidas vezes na minha cabeça, enquanto ele falava, meu raciocínio não acompanhava suas palavras, já estava fora de alcance, minha mente havia ido para uma terra de medo e escuridão. Depois de alguns longos instantes, voltei a sanidade, e ele não estava já se sentindo capacitado de me contar o que viu, o que descobriu. Então o Doutor responsável por ele, veio até mim e pronunciou as mais horríveis palavras. Meu raciocínio ainda sim estava lento, não consegui acompanhar tão bem, mas o suficiente, eu compreendi. Arduamente em meu coração, eu caí.

– Ele está em coma... não sabemos o tempo... estimasse que demore alguns meses até ele voltar... Não sabemos se haverão sequelas.

Aquelas palavras foram suficientes para me destruir, desconcertado caí ao chão, novamente como um Déjà Vu... Comecei a ficar confuso, minha sanidade se perdeu por um breve momento, completamente longe da realidade, a voz da razão se distanciava de mim, não consegui ainda sim compreender o que estava acontecendo comigo. Nem com quem eu mais amo.
Tito estava em coma, minha esperança continuava comigo, mas me sinto tão angustiado, tão morto, escrevendo isso. Pedaços de mim morrem, cada segundo que ele fica distante de mim. A dor é incomensurável dentro de mim. Meu coração está apertado, meu corpo não corresponde a nenhuma ordem do meu cérebro. Posso afirmar que sou dependente dele, para viver.
Isso me dói, saber que a única pessoa que me fez feliz, está sofrendo, está morrendo, fora da minha companhia.

Quando João recebeu um telefonema, não me disse nada, apenas correu comigo em direção ao hospital aonde estava Tito, desesperado, me puxando pelos corredores, procurando a sala aonde estiveras internado, e quando achamos, meu coração se acendeu, por um breve instante, quando vi Tito acordado, consciente e vivo. Pude me sentir vivo com ele novamente, mas algo estava diferente, seu olhar estava completamente diferente.
Quando o Doutor William, saiu pela porta da sala, e constou que ele estava completamente sensível, acabara de acordar do coma, como dito ao Doutor, depois de dois meses, o tempo passou rápido, mas minha felicidade brotava cada segundo mais ao ver meu amado são e salvo.
Ao entrar na sala com João, o que me prendeu olhares foi o próprio olhar dele, ele não olhou pra mim com os mesmos olhos de antes. Tito não sabia quem eu era, o que estava fazendo ali, nem o que havia acontecido com ele. Minhas palavras não tinham efeito sobre ele, ele não conseguia se lembrar de nada, nem de quem eu era, nem do próprio nome. João imediatamente me segurou, para que eu não pulasse nele naquele instante. As lágrimas tomavam conta de mim, ele me observava com um olhar aterrorizado como se nunca tivesse me visto antes.

No corredor, João me explicou que, com o passar dos dias, suas memórias voltariam, e que ele novamente se lembraria de mim, e poderíamos voltar pra casa, enfim.
Fiz o que foi pedido, não falei muito com ele, mas todos os dias, no horário de visita inteiro, eu estava lá, do lado de fora, olhando ele pela pequena janela. Todos os dias eu estava lá, com esperança de que ele voltaria.
Até o dia que eu tomei atitude, entrei na sala e comecei a falar com ele, timidamente, ele, claro.

– O... Oi, meu nome é Ay

– Olá Ay.

– Não se lembra de nada?

– Poucas coisas, porque?

– Esqueceu de tudo, que havia entre nós?

– Tudo oquê?

– Eu te amo, e você costumava me amar, até o acidente, você se esqueceu de tudo.

– Eu era gay?

Desconcertado, olhando para ele, com uma expressão confusa em seu rosto, apenas fiz que sim com a cabeça, e virei de costas, caminhando em direção a porta.

– E... Espere.

– O quê foi?

– Me conte, sobre tudo.

– B... Bom, desde o começo?

– Sim, por favor.

– Começou virtualmente. Nos conhecemos, e eu vim para cá te conhecer, quando nos conhecemos, você na mesma noite me beijou, dentro de um elevador, e de lá pra cá aquele sentimento vem se fortificando, mas parece que apenas eu sinto esse sentimento.

– Isso aconteceu de verdade?

– Sim.

– Desculpe, mas eu realmente não me lembro disso, me lembro de poucas coisas...

– Que coisas? Pode me falar, se não te incomodar?

Ele fazia grande esforço para poder dizer, mas quando estava conseguindo lembrar de algumas coisas, o Doutor anunciou o fim do horário de visita, e fui obrigado a me retirar.
No dia seguinte, estava eu novamente a visitá-lo, quando me aproximei dele, ele me olhou com uma expressão de medo, eu disse a ele:

– Não fique com medo, pode não parecer mas eu sou a única pessoa que realmente se importa com você nesse estado.

– Obrigado por vir aqui todos os dias, realmente sinto muito por não lembrar de nada, e te deixar assim. Me lembro de pouquíssimas coisas mesmo, ainda está interessado?

– Estou.

– Hum, eu me lembro apenas de estar tomando banho com alg..

– Banho?

– Sim, porque?

– Era comigo

– C... Com você?

– É

Com medo da reação dele, eu me aproximei e o beijei. Com medo da reação dos médicos, eu apenas beijei-o sem medo de ser feliz, quando afastei meus lábios dos dele, o brilho que já existiu em seus olhos, retornou, ele me olhou com o ultimo olhar que havia tido comigo, da mesma forma, encantadora.
Um pingo de lágrima escorreu do meu rosto, e caiu no rosto dele, então eu o beijei de novo e sem reação, fiquei sentado ao lado dele. Nenhum de nós falamos nada, apenas um olhando para o outro, e para quebrar o silêncio, o Doutor entrou e novamente anunciou o fim do horário de visita.
No dia seguinte, recebemos uma ligação, dizendo que ele recebeu alta, e já podia ir embora. No mesmo instante fomos buscá-lo, e pelo menos até agora, tudo havia voltado ao normal, contei para ele sobre o acidente, pelo menos do que eu vi e ele não. Ele ficou boquiaberto quando ouviu tudo sobre o acontecido, então ele começou a relacionar e me perguntou, durante quanto tempo ele ficou desacordado, ao descobrir ele ficou preocupadíssimo com todas as suas responsabilidades, questionando que havia pagado suas contas, durante todo esse tempo, e ainda sim, como eu havia ficado, sem estar em cautela dele.
Expliquei a ele, que suas contas haviam sido pagas por Felipe, que também estivera muito feliz com a volta dele, e eu havia voltado para minha cidade, durante esse tempo, vindo todos os dias para São Paulo, de ônibus, para ficar ao seu lado, todos os dias, durante esses tempos. Lágrimas escorriam de seus olhos, suas mãos tremiam e ele calado começou a dizer:

– Como podem fazer isso por mim, vocês não precisavam ter feito tudo isso por mim.

– Ay para mim é um grande amigo, a felicidade dele é a minha, você estando bem, deixando-o feliz, para mim está ótimo. — Disse João -

– É uma grande felicidade para nós ver que o amor, está cada vez mais forte entre vocês dois, acredite ou não, desde o acidente, nunca mais vimos Ay sorrindo. Quando você voltou do coma, ele era outra pessoa. — Completou Felipe -

– Ay, você é um anjo, que cuida de mim todos os dias, se importa comigo, preza nossa relação e acima de tudo, faz de tudo para que ela dê certo.

– ...

Depois dessa longa conversa, decidimos tomar providência quanto a mudança, pequena e mínima mudança, eu não tinha muitas coisas, só traria minhas roupas, meus livros, realmente poucas coisas. Afinal, permissão eu já havia pedido e recebido, meu padrasto não gosta muito de mim, já estava tudo pronto para finalmente eu pode vir morar com ele.

No dia seguinte, Tito, eu, João e Felipe fomos para minha cidade natal, buscar por fim meus pertences, quando chegamos, meu padrasto olhou imediatamente para Tito.

– Que porra é essa? Achei que fosse morar com seu amigo pra poder cursar a federal de lá depois de terminar os estudos.

– Mas é isso mesmo, esse é João, esse é o namorado dele, e esse é o meu namorado.

– Você é viad...

Antes que ele pudesse terminar de perguntar, Tito segurou-o pega gola da camiseta e disse algo pra ele, que nenhum de nós pode escutar, mas só sei que meu padrasto olhava-o com medo. Finalmente entramos, pegamos nossos pertences saímos.

– E não voltem mais.

Tito parou, na porta do carro, voltou e deu um soco no rosto dele, sem dizer absolutamente nada, voltou, entrou no carro, me beijou e partimos, foi realmente um clima tenso, mas após isso, ficamos mais tranquilos, finalmente chegamos em São Paulo, não poderia ainda sim por se dizer que morava com João, eu passava a maior parte do meu tempo com Tito.

Quando minhas aulas voltaram, tivemos de me matricular em uma escola, uma escola perto, claro. Todas as manhãs ele me levava de carro e ia para o serviço, João me buscava a pé todos os dias, e íamos para a praça, conversar.

Todos os dias eu presenteava Tito, quando ele chegava do serviço cansado, porém não cansado para minha surpresa.

Nem tudo que machuca, necessariamente dói.
–Eu

Notas finais
A partir daqui, a história se escreve por si só.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!