Era final de mais uma turnê. Como sempre, passariam algum tempo no bar do hotel comemorando algo tão demorado, mas que sempre dava gosto. Ainda mais quando terminavam eles poderiam voltar pra casa. Exceto pra um deles, que odiava ficar em casa com sua esposa, a pior esposa do mundo.

- Finalmente vou ver minha mãe! Não agüento mais de saudade! – dizia Pierre.

- Aff, vou ver minha esposa! Que vontade de sair em turnê sem data pra terminar! – disse David, com cara de tédio.

- Pensa na Bella...

- Agora você me deu animo!

Falando nisso, o celular dele toca.

- Alô?

- Pai...

- Oi meu anjo!

- Pai, é verdade que hoje você volta pra casa?

- É sim. To chegando. Daqui a pouco eu chego ai e vou ficar um tempão com você.

- Oba!

- to morrendo de saudade de você. Não dorme não, to chegando.

- vou tentar... Paiê! Te amo!

E desligou o telefone. David com cara de manteiga derretida olha pra Pierre, o seu melhor amigo.

- Não diz nada! Já vi que agora deu pressa de ir pra casa. – respondeu ele.

Deram um ultimo abraço apertado e David foi embora. Seu carro sempre ficava na casa de Pierre, por ser mais perto do aeroporto e da sua própria casa. Enquanto dirigia de volta, viu uma boneca lilás no banco de trás. Era de sua filha, estava escrito Isabella na barriga da boneca. Era a boneca favorita dela e dele também. Por ter sido sua melhor amiga desde o colegial que a deu assim que soube que ele seria pai de uma menina.

- Ai Eduarda... Que saudade!

Diz ele parado no sinal, que estava vermelho. Ele ouve seu celular tocando.Quando pega pra atender, ele vê o numero e atende sorrindo.

- Alô?

- advinha quem é?

- Nem vem com essa, princesinha! Edu, já sei que é você!

- Vou trocar de telefone e aí quero ver você descobrir. E Edu não! Isso é apelido de homem!

- Ta bom, Duda! Desculpa! Achei que você nem ligasse mais. Você não vai morrer tão cedo. Acabei de lembrar e falar de você.

- Bem ou mal?

- Bem, né? Vi a boneca que você deu a Bella. Ta aqui no carro.

- Ah, você ta dirigindo? Foi mal, não sabia.

- Para! Você tem prioridade.

- quero ver se perto da Alisha você diz uma coisa dessas.

- Vamos mudar de assunto?

- Ok, como sempre...

- O que faz de bom?

- Reportagens, ora! Não sou jornalista?

- da próxima vez pergunto algo menos obvio.

- E você? O que faz?

- Musica, ora! Não tenho uma banda?

- Se você tem uma banda, na verdade você toca e não faz musicas, oh senhor obvio!

­- odeio suas correções até hoje, Portuguese’s Queen.

- nem lembro mais do inglês... Vou desligar, aqui já é de madrugada e eu tenho um jornal às sete.

- Ta bom! Beijo e vê se liga mais vezes.

- Beijo bocó e vou tentar.

Agora ele entrava pela garagem e Bella já o esperava no jardim. Ele desce do carro e ela vem de encontro a ele, correndo.

- Pai!

- Ei meu amor!

Eles se abraçam e ela o enche de beijos. Depois ela o solta e ele repara:

- andou fazendo alguma coisa no cabelo? As unhas? E você também está mais magrinha. Ou é impressão minha por ter tanto tempo que não te vejo?

- fiz escova no cabelo, fiz as unhas... Invenção da minha mãe.

- ela ta querendo te deixar mais bonita, não é não?

- Não sei, mas eu não gosto. Meu cabelo já é liso. Não sei pra que isso. Agora magrinha...

- Você está mais magrinha. Não tem comido não?

- sim. Mas só salada.

- salada?

- É. Nunca mais comi carne. Minha mãe viu uma reportagem na TV que carne engorda e faz mal a saúde. E não deixa eu comer mais.

Ele respira fundo e abre o porta-malas. Tentava esquecer o que havia ouvido. Ia tirando as malas e colocando no chão. Ela adorava carregar as malas dele por causa das rodinhas. Ela ia na frente, quando ele a chama.

- Bella! – ela olha pra trás.- Isso aqui é pra você!

Ela volta, deixando a mala na grama e correndo até ele.

- Uma boneca! – ela olha a boneca de ponta a cabeça e diz: — É impressão minha ou essa boneca parece comigo?

- espertinha! Mandei fazer uma parecida com você. Gostou?

- Gostei! E principalmente, porque vai caber em uma roupinha que eu comprei com a tia Ashley. Aliás, ela ta ai.

- ta? E que roupinha?

- Surpresa!

Ela sai correndo com a boneca nas mãos e deixa a mala pra trás. Ele a pega, negando com a cabeça, mas com um sorriso no rosto. Ao entrar,vê Isabella de novo, dessa vez com uma camisetinha preta vestindo na boneca. Ela estampava no rosto um enorme sorriso, com aqueles famosos dentinhos de quem tem quatro anos de idade.

- Olha agora!- disse ela,mostrando novamente a boneca pra ele.

- uau! Uma camiseta da minha banda? Onde você achou?

- comprei, mas não sei aonde. Ficou bonitinho?

- Ficou lindo! – disse ele, lhe dando um beijo na bochecha.

Ela olha outra boneca em cima das malas, que estavam na cozinha.

- E aquela lá? É pra quem?

- pra outra pessoa.

- Pra mamãe? A mamãe não é morena!

- Dessa vez não é pra sua mãe, não. É pra uma pessoa que brinca de boneca até hoje. Uma amiga minha. – responde ele.

- trazendo presentes pra Eduarda, David? Eu sou sua esposa e não ela! – disse Alisha que viu a cena.

- você não ia querer uma boneca, iria? Então, da próxima vez eu trago uma pra você e não isso. – disse ele, tirando um colar com um coração em diamante.

- Ah, você se lembrou de mim...

- claro né?

- obrigada amor! – disse ela, lhe dando um selinho.

- ta, de nada...

Ele sabia que era pura falsidade. Se ele tivesse trago um cd deles, é capaz dela mandar na cabeça dele, porque ela detesta rock. E ele tinha uma banda de rock. Alisha não parecia amar ele e sim todo o dinheiro dele. Só se casou com ele, porque ele acabou engravidando-a quando estavam no pré-vestibular, há quatro anos atrás. Exatamente o tempo em que ele tinha resolvido juntar-se a banda de seus amigos e deixar faculdade pra trás. Pra ele foi uma escolha difícil. Ele faria jornalismo, junto com Eduarda e Chuck, que é primo dela e colega de banda dele. Hoje eles poderiam continuar juntos, mas por ter feito uma besteira, acabou comprometendo sua vida muito cedo.

- Oi David! – disse outra Alisha. Era sua irmã gêmea, Ashley.

- Oi Ash! – ele a abraça. – Escolhe sim ou não.

- hum, o que é? Ah... Sim!

- Esperta! – ele lhe entrega um presente. Ela abre e vê um cd deles. – Espero que não mande na minha cabeça. Tentamos fazer o melhor possível. E claro, to aproveitando pra fazer uma propagandazinha. – disse ele com uma cara sarcástica.

- Ai, obrigada! Tava esperando pra comprar um. E vocês sabem que são bons, nem vem...

- ao menos uma fã aqui em casa...

- você que não viu o que sua filha fez no quarto dela. – diz Alisha.

Isabella pega o pai pela mão e leva até o quarto dela. Ele vê um quarto cheio de pôsteres da banda dele e coraçãozinhos em volta dele.

- Quanto carinho! Obrigada! Só acho que seu padrinho não vai gostar muito de ver que está sem corações...

- Depois eu dou um jeito! O tio Pierre não liga não, liga?

- Não sei... E esses machucados nas suas pernas e nos seus braços?

Ela abaixa a manga da blusa rapidinho e senta no chão, em cima das pernas.

- Não adianta! Já vi! O que você fez? Você bateu nela Alisha?

- Bati, mas não fui eu que fiz isso não. – respondeu ela.

- Alguém me explica aqui, por favor?

- Diz pra ele o que você tava fazendo, Isabella!- disse a mãe dela.

- Eu... Eu tava andando no seu skate, pai. Ai eu caí. – respondeu ela, com medo.

- Você andando de skate? No meu skate?

- É. Mas eu já pus no lugar de novo. E não vou andar mais. Eu prometo!

- é bom mesmo que não ande. Você é uma menina, Isabella e não um garoto! Skate é coisa da garoto! – disse Alisha.

- Que legal Bella! A gente cai mesmo quando aprende a andar de skate, mas é bom que a gente vai poder andar juntos! – diz David, feliz.

- David! – repreende Alisha.

- que?

- Ai, eu vou arrumar minhas unhas que é melhor do que ouvir uma coisa dessas. Anda Ashley, você vem comigo. – disse ela, saindo do quarto.

- Mas suas unhas estão feitas e bonitas. Pra que você vai fazer de novo? – diz David, espantado.

- Vai cuidar da sua filha, não é ela que é importante pra você?

E sai do quarto puxando Ashley, que também é metidinha, mas não tanto. Isabella levanta do chão e abraça o pai.

- Liga não, a mamãe sentiu sua falta. É o jeito dela mesmo.

David sorri de leve. Sua filha de quatro anos apenas lhe dizendo uma coisa dessas. Ele só poderia levar na brincadeira, pois sabe que Alisha não lhe ama coisa nenhuma.

- ta afim de andar de skate no jardim? – pergunta ele.

- Mas minha mãe não deixa.

- Mas eu sou seu pai e deixo!

- Então vamos!

Os dois vão até o porão, e pegam o skate. David antes de sair, vê seus livros e cadernos da 8º serie, que estudou junto com Eduarda.

[flashback on]

- Anda bocó! Ta esperando perder a aula é? – dizia Eduarda, na porta da casa dele.

- to indo! Espera eu amarrar o tênis?

- Não, to com pressa! –e saiu puxando ele pelas mãos a fora. Ele tropeça e cai no chão, de barriga pra baixo.

- Ai! Olha o que você fez! – diz ele, assustado com o tombo.

- ixi! Desculpa Davizinho!

Ela o ajuda a levantar do chão e rindo, todos os dois. Ele fazendo-se de judiado, diz que machucou.

- ta doendo!

- você não quer que eu te carregue no colo, ne?

- ah, você que sabe...

- Não! Você ta grande e pesado!-respondeu ela, com um sorriso inconfundível.

Eles iam pra escola, faziam trabalhos juntos, andavam com a mesma turma... Sempre unidos. Quando ele ficava conversando com alguma pessoa diferente, ela chegava e dava um abraço nele por trás, sempre o forçando a tirar as mãos dos bolsos da jaqueta da escola. Mas ele não reclamava. Ele não via defeitos nela e nem ela, nele.

[flashback off]

Notas finais
e ai, continua ou nao? bjunda