Friends ?
1 Capítulo 1: O Início de Tudo
Notas iniciais
Após horas de viagem já sentia o cansaço da viagem de carro juntamente com uma leve dor nas pernas, proveniente das horas que passei sentada dirigindo, mesmo com as paradas ocasionais em postos de gasolina. Finalmente estaciono meu carro na garagem da casa dos meus pais, sentia o entusiasmo de estar ali novamente após tanto tempo, olhar a construção me fazia sentir uma nostalgia incrível de bons tempos da minha adolescência, e obviamente que havia visto minha família nos quase nove anos que havia me mudado para a grande cidade de Nova Iorque, mas preferi manter distância desta cidade. E certamente eu não sou a mesma de antes, saí de casa com meus 18 anos já que havia passado em uma faculdade de design lá em Nova Iorque e sem duvida foi a melhor decisão que já tomei, serviu para eu amadurecer e me virar sozinha, principalmente levando em conta o momento que passava na época. Saio do veículo e pego minhas malas, as puxando para dentro de casa já que a porta da frente ficava destrancada, como sempre, um dos benefícios de cidade pequena, jamais que em NY eu poderia fazer algo assim.
O hall de entrada estava exatamente como eu me lembrava, piso de madeira maciça e encostada na parede pintada de um tom verde escuro, uma cômoda também de madeira com um espelho antigo encostado, deixo as malas pesadas no chão, fazendo com que o tapete persa abafe o som do choque entre o chão e as bagagens. Meus lábios se curvam em um leve sorriso e fecho a porta atrás de mim, colocando minhas chaves do carro no pote de chaves. Vou em direção à sala de estar, seus móveis eram todos meio antigos porém aconchegantes, exatamente como quando eu era pequena, seguindo a paleta de tons quentes e terrosos.
—Olá? Mãe? Pai? Eu cheguei...
Anuncio andando pelo cômodo e seguindo em direção à cozinha já que havia ouvido barulhos lá, fora o cheiro delicioso de comida sendo feita. Meu pai estava no fogão fazendo provavelmente um macarrão e minha mãe sentada em uma cadeira alta encostada na ilha da cozinha, bebendo um vinho acompanhada de meu irmão. Ao ver essa cena um sorriso aparece em meus lábios, eles olham para mim e logo me aproximo recebendo abraços apertados e beijos babados.
—Quanto tempo! Você está tão linda...- minha mãe fala enquanto acaricia meu rosto.
Sem pensar duas vezes meu irmão me puxa pelo pescoço e bagunça meu cabelo, me desvio dele e o empurro de leve.
—Josh! Para com isso!- exijo tentando soar brava mas não consigo esconder a risada, sentia falta disso.
—Oi marrentinha, senti saudades hein!
Assim que me solto de meu irmão e arrumo meu cabelo, meu olhar se volta em direção à meu pai que se aproxima e me dá um abraço tão apertado que chego a perder o ar.
—Oi, pai..- falo meio sem fôlego enquanto ele me aperta mais.
—Oi filha, como foi de viagem?
—Bem, um pouco cansativa mas bem..
—Um voo de Nova Iorque até aqui é mais ou menos quarenta minutos, por que vem de carro?- meu irmão questiona antes de beber um gole do vinho.
—Porque eu gosto de dirigir, e pensar. Bom... eu vou subir arrumar minhas coisas e tomar um banho. A Sarah vai vir?
—Ela vai chegar só amanhã- meu irmão fala entretido saboreando seu vinho.
Sarah é minha outra irmã mais velha, gêmea de Josh, então já dá para imaginar o quanto sofri e sofro com dois irmãos mais velhos. Mesmo eles sendo gêmeos são completamente diferentes um do outro, de personalidades no caso, porque a pela aparência não engana ninguém, ambos são altos, possuem cabelos loiros dourados e escuros, estruturas faciais fortes e marcantes, além dos olhos claros. Todavia, meu irmão tem uma personalidade mais pé no chão, ele é compreensivo e acolhedor, enquanto minha irmã é meio… porra louca, para resumir bem, é meio feio dizer isso mas ela em muitas ocasiões só se importa com os sentimentos dela.
Após levar as malas para cima com a ajuda de meu pai, arrumo minhas coisas no que foi meu antigo armário, o qual ainda guardava algumas coisas antigas da minha adolescência. Tranco a porta do quarto e caminho até o banheiro, retirando minha roupa e ligando a água quente, eu sabia o risco que corria estando ali, mas uma hora eu sabia que teria que encarar tudo que deixei para trás quando me mudei, penso soltando um longo suspiro e adentro o chuveiro onde tomo um relaxante banho.
Assim que termino, coloco uma ugg, jeans e uma camisa simples de manga comprida, deixando meu cabelo molhado mesmo. Desço para jantar com minha família onde ficamos horas conversando e rindo, algo que senti tanta falta, parecia que de certa forma nada tinha mudado mesmo após tanto tempo. Quando o relógio marca 23h, meus pais sobem descansar enquanto eu e Josh ficamos arrumando tudo.
Josh era um rapaz muito bonito, sendo alto, forte e com olhos verdes bem expressivos, tenho certeza que ele provavelmente não namorava devido à sua profissão de médico, que ocupava seu tempo já que ele estava no começo da carreira. Minha irmã era igual a ele, traços fortes porém seu cabelo era ruivo (pintado) e liso o que fazia dela uma mulher linda, já eu... eu tinha puxado a minha mãe com traços mais delicados, nariz arrebitado e cabelo castanho claro, nunca fui tão interessante ou atraente quanto os dois.
—O que acha de darmos uma volta?- Josh propõe sorrindo para mim enquanto enxugo o último prato.
—Adoraria...
Jogo o pano na pia e vamos para o Hall de entrada onde ambos colocam seus devidos casacos e saímos de casa, começamos a andar pela rua tranquila e silenciosa, eu amava o ar frio da noite e as estrelas, algo que não tinha com frequência em Nova Iorque, lembro de que quando era mais nova, eu saía andar pela vizinhança e as vezes sentava em um balanço que havia em um parque ali perto, onde ficava horas e horas ouvindo música e sonhando sobre meu destino. Caminhamos um tempo em silêncio, mas ambos com pensamentos inquietantes, até que meu irmão se pronuncia:
—Então, como estão as coisas?
—Bem... por que não estariam?
—Não disse que não estavam… não estão?
—Não sei do que está falando, Josh- retruco.
—Eu conheço você... sei que algo te incomoda e sei que foi para Nova Iorque por algum motivo.
—Mas eu fui, a faculdade lá é boa e o mercado de trabalho também. Isso já tem anos, afinal- falo calma e com um tom de indiferença.
—Por que faz isso?
Franzo meu cenho e olho para o loiro sem entender direito a onde ele queria chegar com tudo isso.
—Isso o que?
—Esconde seus sentimentos.
—Eu não escondo… não estou escondendo nada, só não tem nada o que falar.
—Como não?
—Olha, esquece isso! Já tem anos, o passado tem que ficar no passado- falo com a voz um pouco mais firme afim de acabar logo com este assunto e volto a olhar para frente, desde que me mudei nunca havíamos tocado no assunto, sei que ele estava respeitando meu espaço, mas voltar com tudo agora não ajudaria.
Josh suspira baixo, ele era o único que eu contava tudo, desde conquistas até decepções da minha vida, Josh sempre me entendeu e apoiou. Menos sobre isso. Caminhamos mais com ele me contando as histórias de sua residência, até que chegamos na parte central da cidade, que estava toda iluminada pelas luzes de Natal e o chão levemente branco pela neve. Olho tudo meio catatônica, isso tudo me dava tantas lembranças… sentia um turbilhão de sentimentos dentro de meu peito, quando Josh me empurra levemente com o ombro dele e aponta para um lugar.
—Olha só! A lanchonete do Jonny ainda está aberta, acho que no feriado ficam abertos 24h… aceita um sorvete?- ele comenta animado, ele sabia que eu amava coisa gelada, principalmente no inverno.
Olho para meu irmão e concordo com a cabeça, era incrível que mesmo após alguns anos nada de bom mudou. Caminhamos lado a lado até a parte interior da lanchonete, espero um pouco longe enquanto ele vai até a pequena fila comprar nossos sorvetes. Minha cabeça se distrai enquanto observando tudo meio nostálgica, escuto meu celular começar a tocar no meu bolso e pego ele atendendo.
—Alô?
—Madison! Ah que bom que você atendeu!- escuto um suspiro de alívio no outro lado da linha- você precisa me ajudar! Qual é a receita daquela sobremesa que você fez na última noite de jogos?
Franzo o cenho levemente e olho a tela do celular que estava escrito Will como o número de contato.
—O que? Agora?- pergunto confusa.
—Sim! Eu lembrei que amanhã vou almoçar na casa dos sogros…
—Por que não compra uma sobremesa pronta?
—Porque eu quero impressionar, e não estou afim de gastar uns oitenta dólares em uma sobremesa.
—Este é o preço por não se organizar- digo sorrindo e seguro a risada ao escutar ele segurar o xingamento no outro lado da linha- Tudo bem, eu vou te mandar por mensagem, mas você sabe que isso não é uma emergência real né? Quando falei em emergência pensei em algo como… você quebrando um braço.
—Aí como você é sombria! E isso é uma emergência, tá gata? Eu sinto que esse cara vai ser meu marido, e tenho que manter a aparência para os sogros, né? Ah e por falar nisso como foi a viagem?
Sorrio e nego levemente.
—Foi ótima, eu e o Josh viemos tomar sorvete… acho que foi uma boa ideia ter vindo para cá.
—Boa ideia de quem?- diz Will se gabando.
—Sua.
Minha voz sai meio a contragosto, Will e eu somos amigos desde que me mudei para NY e ele foi o responsável por me fazer vir passar o feriado na minha cidade, arrumando soluções para todos os problemas que eu inventava.
—Eu vou desligar, melhor se apressar com a sobremesa… ela demora viu? Tchau.. até mais.
—Tchau, gata! Obrigado e vai dando notícias- ele se despede desligando logo em seguida.
Mexo em meu celular, mandando a receita para meu amigo enquanto me distraio com nosso grupo em que nosso ciclo de amizades estão falando banalidades e besteiras, me fazendo soltar uma risadinha boba. Acabo me distraindo, quando uma voz atrás me trás a tona da minha distração, uma voz a qual não ouço a tanto tempo e mesmo assim me faz arrepiar pelas lembranças, tão familiar.
—Madison?
A voz chama, porém eu travo por milissegundos sem saber o que fazer direito, por instinto me viro dando de cara com alguém que não esperava e nem imaginava encontrar tão cedo, mesmo sabendo que seria inevitável.
—Jenna? -minha voz sai um tanto quanto surpresa, talvez eu estivesse, já que não via ela há anos.
—Quanto tempo... como você está?- sua voz sai calma enquanto a morena me observa.
Não consigo raciocinar direito o que está acontecendo, ela está agindo como se nada tivesse acontecido? É isso mesmo? Observo ela parada a minha frente, constatando que a mesma não havia mudado nada, cabelos escuros caindo em leves ondas, olhos verdes brilhantes e um sorriso largo e contagiante. Tinha vontade vontade era de gritar com ela, de chorar mas ao mesmo tempo de abraçá-la e falar que senti sua falta, e me odiava por isso. Apenas engulo seco e sorrio de canto, sentindo um aperto em meu peito, ela foi o tipo de amiga que todos queremos, mas o destino é sempre cruel.
—Vou muito bem, e você?
—Bem também... você está... diferente...
Parecia que ela tentava escolher meticulosamente todas as palavras, como se alguma errada fosse capaz de me fazer fugir. Um rapaz alto se aproxima de nós duas, fazendo um frio incômodo passar e revirar meu estômago, olho o homem moreno que coloca seu braço sobre os ombros de Jenna, sem dúvidas ele era a última pessoa que eu queria encontrar nessa cidade, tudo o que eu desejava era sair dali o mais rápido possível.
—Lucca... olá... — falo um pouco baixo, minha voz custava para sair. Jamais pensei que voltaria a sentir isso tudo novamente.
—Madison! Quanto tempo! Você está bonita hein?
Sorrio de forma amarga, me sentindo extremamente desconfortável, quando olho para o lado e meu irmão se põe ao meu lado, com uma figura imponente, segurando ambos os sorvetes.
—Foi muito bom encontrar vocês... mas já estamos de saída- falo rapidamente, mas acho que meu tom acaba saindo quase que irônico.
Agarro o braço de Josh e o puxo para fora, saindo sem esperar eles falarem algo, até porque eu não tinha nada para ouvir. Meu coração palpitava e sentia minhas mãos tremerem enquanto um turbilhão de sensações passavam por mim, eu não queria sentir tudo isso... não novamente. Sinto meu irmão colocar sua mão grande e quente em minhas costas, onde ele acaricia tentando fazer eu me acalmar de alguma forma.
—Mad...
—Só… vamos para casa, por favor.
Digo com a voz meio engasgada, lutando muito para meu tom sair calmo e não começar a chorar ali mesmo, ele apenas concorda levemente com a cabeça e fazemos o percurso para casa em completo silêncio. Esse reencontro com eles certamente havia mexido comigo, não esperava encontrá-los tão cedo e também não sabia que estavam… juntos? Assim que chegamos em casa, retiro meu casaco enquanto meu irmão me olha de forma preocupada.
—Está tudo bem… vou descansar, até amanhã.
Tento tranquilizar ele, mas sei que posso não ter o convencido. Ponho minha mão sobre seu ombro e me coloco na ponta dos pés dando um casto beijo em sua bochecha, subindo as escadas em seguida. Entro em meu quarto em silêncio e coloco meu pijama me deitando na cama, ou o o cobertor até o pescoço e encaro o teto como se o mesmo fosse se abrir em um segredo incrível. Então... eles estão juntos? Fecho os olhos e nego levemente, eu não iria fazer isso comigo novamente, não posso permitir. Relaxo na cama e tento esvaziar minha mente, mas então uma coisa vem a minha mente criando uma grande incógnita... e o meu sorvete?
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