Friendly Living
39 Capítulo XXXIX. Jack
Notas iniciais

JACK FROST
Stoick abriu a porta do quarto de Jack repentinamente, fazendo o garoto pular de susto na cama, colocando a mão no coração, e fitando o homem um pouco assustado. Entretanto, se Stoick percebeu que o rapaz se assustou não comentou nada.
— Ele já foi, Jack — falou com a voz terna, mas Jack conseguiu ver que ele não estava feliz fazendo aquilo.
O albino ergueu uma sobrancelha.
— Quem, Stoick?— indagou fingindo-se de desentendido.
— Você sabe muito bem quem, e também sabe muito bem porque ficou nesse quarto esperando até eu aparecer — o mais velho rapidamente falou, e Jack fez uma careta, pronto para dizer que estava ali só preparando seu discurso para quando encontrasse Rapunzel, mas Stoick foi mais rápido. — Eu achei que vocês dois já estivessem se acertado, mas pelo o que parece, isso vai longe — comentou, logo saindo dali.
Jack franziu as sobrancelhas, um tanto confuso e irritado. Droga, ele já havia tentado pedir desculpas para o Hiccup umas quinhentas vezes, não era culpa dele se Hiccup simplesmente o ignorava, ou então explodia, e falava umas poucas e boas na cara de Jack e não o perdoava de jeito nenhum.
Jack tinha quase certeza de que Hiccup não o perdoaria nem se ele lhe oferecesse a maior da riqueza.
O rapaz suspirou, olhando-se no espelho novamente, e conferindo se estava tudo ok. Depois pegou um pequeno buquê de flores, uma caixa com uma blusa qualquer que havia comprado para Emma, seu celular, e desceu, colocando suas coisas em cima da mesa e fitando Stoick, que preparava algo na cozinha.
— Eu tento, ok? — Jack soltou, indo perto do balcão, recebendo o olhar do mais velho. — Eu sei que o que eu fiz foi uma burrada enorme, e eu não deveria nunca nem ter cogitado a possibilidade de ter feito aquilo com o meu melhor amigo, mas... — ele parou, entretanto Stoick nada disse, e seu olhar dizia claramente para ele continuar. — Mas o poder sobe a cabeça, eu não tenho culpa! Assim, eu tenho culpa de ter feito o que eu fiz, mas eu não consigo controlar a ganância que tem dentro de mim, eu não consegui simplesmente dizer não pro poder, e ficar com o meu melhor amigo, eu não consegui enfrentar as coisas como um homem, essa é a verdade — confessou, passando a mão no rosto.
— E você falou isso a ele?
— Falei, claro que falei! — Jack exclamou. — Mas toda a vez que eu tento falar com ele, ele faz alguma coisa que machuca ainda mais, e... Ele não é o único que saiu ferido, ok? Por mais que eu tenha sido o estúpido que tenha feito a merda toda, eu também sai ferido da história, e toda a vez, toda a vez que eu vou falar com ele sobre o que eu estou sentindo, ou sobre como eu sinto muito, mas muito mesmo, ele... Ele me machuca ainda mais... Ele me ignora ou ele explode e eu me sinto cada vez mais culpado, ou então ele joga tudo sobre os meus ombros e a culpa se acumula cada vez mais, ou... Ou... Mas... Mas ele nunca me perdoa.
— Nunca é uma palavra muito forte, Jack — Stoick comentou, apoiado no balcão.
— É, eu sei que é uma palavra forte, e eu sei também que nunca diga nunca, mas... É a verdade, Stoick — o rapaz suspirou, sentindo seus olhos marejarem e se culpou internamente por conta disso. — Eu pisei na bola, eu estraguei a nossa amizade de anos por causa de uma coisa simples, só para ser popular... E olhar onde eu estou agora — abriu os braços, com os olhos cada vez marejados. — Na merda, sem amigos, sem ninguém, com a maior vontade de pegar as minhas coisas e voltar para aquela roça chamada Berk!
— Jack... — Stoick deu a volta no balcão, e logo estava abraçando o jovem, que tinha as mãos no rosto, escondendo as lágrimas que insistiam em sair. Porra, eu já não chorei o suficiente, não? — Esta é a nossa vida, rapaz, com altos e baixos.
— Oh, então eu me afoguei no baixo, porque não me vejo subindo tão rapidamente — falou com certa raiva na voz, mas deixando ser abraçado por Stoick. — Agora Hiccup acha que eu só quero a amizade dele de volta por que estou na merda total, sem amigos, sem ninguém — completou, retirando as mãos do rosto, e enxugando as lágrimas que insistiam em cair mais e mais rápido. — Mas não é isso, Stoick — resmungou num muxoxo. — Eu nunca quis acabar com a nossa amizade... Depois que eu fiz a burrada eu só fui cabeça dura o suficiente e não admiti que eu era o culpado de tudo, que fui eu quem detonou a nossa amizade — admitiu, sentindo Stoick lhe apertar mais forte.
— Jack, confie em mim, vocês vão voltar a serem amigos, eu te juro, rapaz — falou, soltando o garoto e o fitando nos olhos. — Hiccup está magoando tanto quanto você. Mas eu tenho certeza que com as palavras certas e com o tempo, vocês dois voltam a se falar.
Jack assentiu.
— Eu espero que esteja certo.
[...]
Assim que Jack chegou na festa — depois de ficar quinze minutos na sua casa, enxugando as lágrimas e se concentrando em não chorar, e por fim agradecendo a Stoick por tudo o que ele havia feito pelo rapaz, e por ele ter pago o táxi que o levou a festa — ele foi logo procurar Rapunzel. Deu o presente para a mulher que estava na entrada, e depois o convite para outra mulher, alegando que seu par era Rapunzel, a filha da mulher que casou com Miles. Depois entrou, olhando ao redor procurando pela loira de olhos verdes e vestido branco — ou ao menos era o que Jack esperava que encontrasse, ela de vestido branco.
Admitia que a casa ali estava muito mais chique que quando houve a noite de Natal, e percebeu que haviam poucos convidados nas salas onde eles passaram o Natal. Só depois de algum tempo que foi descobrir que a festa na verdade estava sendo no quintal de Miles — que Jack nem sabia que existia — e estava decorado da forma mais chique possível.
Aquilo nem parecia um quintal.
A grama logo havia sido escondida pelas madeiras postas em forma retilínea, para onde olhasse, havia grandes e imensos panos que variavam entre branco, prata e dourado, enfeitado e encobrindo o que Jack achou serem “defeitos” na casa — se bem que para o menino, naquela casa seria impossível achar algum defeito. As mesas estavam dispostas em um canto, e Jack notou que só havia pessoas mais adultas e idosas sentadas nelas. Num outro canto, próximo ao bar havia pequenas mesas altas, e cadeiras acompanhando, com todos os jovens reunidos ali. E num canto próximo aos adultos havia mesas pequenas, onde as crianças estavam.
Jack conseguiu avistar a mesa do bolo, onde um bolo — que ele julgou ser de mentira — de cinco andares estava disposto, com grandes detalhes em dourado e branco. Havia várias flores ao redor também, muitos vasos com flores estupendas, e Jack se sentiu um estúpido segurando aquele buquê de sete rosas com um fita branca.
— Muito bonito, não? — ouviu uma voz ao seu lado, e logo virou seu rosto para o lado, encontrando Rapunzel, e Jack quase se chateou por ela não estar de branco, como havia falado que ia. Entretanto, ela estava bonita demais para ele sequer pensar em ficar chateado.
Seus fios louros estavam colocados num lado do corpo, com uma pequena trança entre alguns fios soltos. Seu rosto estava marcado com uma maquiagem que deixava a garota maravilhosa — por mais que Jack pudesse afirmar que ela ficaria maravilhosa de qualquer jeito. O vestido era vinho, e Jack sentiu seu corpo esquentar enquanto fitava Rapunzel no vestido. Ele lhe era totalmente agarrado no corpo até um pouco acima dos joelhos. Abaixo do joelho, o vestido era somente renda, conseguindo ver as pernas nuas de Rapunzel, e seu salto branco, que deixava a menina mais ou menos na altura de Jack. Próximo ao busto era aberto, e Jack conseguiu ver boa parte das costas da garota nua também.
— É da Emma — Rapunzel rapidamente falou, e Jack percebeu que suas bochechas estavam coradas, e se sentiu um tanto quanto idiota por ficá-la secando daquele jeito. Logo ele também franziu as sobrancelhas ao perceber o que a menina falava. — É, eu sei. Eu não queria usar, mas Miles falou que esse vestido ficaria melhor em mim que o outro — deu de ombros, passando a mão por cima do vestido, e Jack estava realmente se controlando para não começar a secá-la novamente. — Pelo menos hoje eu decidi ser uma boa filha postiça — deu um meio sorriso e Jack logo a acompanhou.
Deve ter ficado encarado a menina por longos segundos, até que ela virou o rosto, fitando tudo ao redor, e ele logo se tocou de que deveria imediatamente parar de fazer isso.
— Eu comprei para você — rapidamente falou erguendo o buquê na direção da garota. Rapunzel abriu um pequeno sorriso, pegando o buquê das mãos do rapaz, e o fitando admirada. — Não é grande coisa, é só uma forma de... — o menino passou a mão pelo cabelo, fitando a loira que logo lhe encarou. — De te pedir desculpas por tudo o que eu fiz até hoje.
— Você já me pediu desculpas — Rapunzel falou com um sorriso de canto, segurando as rosas próximo ao corpo.
— Eu sei, é só que... Eu sinto como se devesse te pedir mais desculpas — acrescentou, e a moça a sua frente ergueu uma sobrancelha. — Ou talvez a briga com o Hiccup esteja me influenciando a pedir desculpas a todo mundo — deu de ombros, colocando ambas as mãos na frente do corpo e soltando um suspiro.
Rapunzel se aproximou e Jack sentiu a mão da garota encostar-se a seu braço, logo em seguida entrelaçando seu braço desnudo no de Jack. O rapaz a fitou.
— Você está desculpado — falou com um pequeno sorriso.
E quando Jack estava pronto para convidá-la para um encontro oficial, somente os dois, escutaram a voz de Emma, e Jack virou seu rosto na direção de onde a garota vinha. Ele tinha de admitir, poderia babar por ela.
— Jack Frost, que surpresa, achei que ficaria em casa com a tipóia no braço, tomando sorvete e chorando por ter caído na bosta — comentou com mal gosto, com um sorriso de escárnio no rosto. Jack percebeu o olhar inquisitivo que a garota dava a Rapunzel, como se estivesse odiando ver a menina em seu vestido.
— Prefiro beber álcool a tomar sorvete — o rapaz respondeu, dando de ombros, feliz por ainda sentir o braço de Rapunzel entrelaçado ao seu. — E além do mais, eu nunca perco uma festa, Emma Balzer — colocou o melhor sorriso divertido no rosto, e observou enquanto Emma voltava a fitar Rapunzel com raiva, e depois dava um sorriso irônico.
— Espero que aproveite minha festa — falou, antes de sair dali com cara de quem comeu e não gostou.
— Você enfrenta isso todos os dias? — Jack indagou virando seu rosto para encarar Rapunzel, que tinha um sorriso divertido no rosto.
— Fica mais fácil depois que você aprende o jogo — deu de ombros, logo virando seu rosto e fitando os olhos do rapaz. Jack sentiu uma corrente percorrer seu corpo, e perguntou-se mentalmente se um dia imaginava estar ao lado da loira, de braços dados, sem serem obrigados. — E depois que o vestido dela fica melhor em você — alargou o sorriso, e Jack soltou uma pequena risada.
— Obrigado por me deixar ser seu par — o menino rapidamente falou, e Rapunzel deu um pequeno sorriso, olhando para o buquê em suas mãos.
— Eu que agradeço por ter me convidado — a menina respondeu, e depois voltou a fitar o menino, que sentiu novamente uma onda de arrepios. — Vou colocar num vaso — falou erguendo o buquê, e logo Jack retirou o braço da garota de perto do seu, assentindo com um mínimo sorriso.
Observou Rapunzel adentrar por um corredor, e ficou se perguntando se um dia poderiam ser namorados. Não que Jack queria isso. Ele gostava de Rapunzel, de verdade, e admitia para si mesmo que ficar com ela era incrível e encantador. Mas sua mente vivia viajando, imaginando-se ao lado dela, levando-a para encontros, passeando de mãos dadas, sem se importarem com vozes alheias ao seu redor.
E ficou com isso na cabeça até ver Rapunzel parar e Flynn se aproximar dela, segurando seu braço, e a puxando para um canto longe da vista de Jack. O rapaz parou, pensando seriamente em ir atrás da menina, mas logo deu um passo para trás, virando-se para a festa novamente. Se fosse para Rapunzel continuar com Flynn, ele não interferiria dessa vez. E se fosse para eles serem felizes, ele também não mudaria nada. Ele queria que Rapunzel fosse feliz.
E foi ali, sozinho, que ele prometeu a si mesmo nunca mais beijar mulheres comprometidas.
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