Notas iniciais
Esta história tem apenas um capítulo, espero que gostem.

Eu estava sentado naquele mesmo banco. Era uma madrugada fria. Não havia ninguém nas ruas, e a luz fraca do poste iluminava a praça.

Me lembro daquela noite como se fosse ontem.

Foi a primeira vez que eu a vi depois de tanto tempo.

Ela continuava graciosa, com seus passos leves e o seu jeito de ser.

Mas seu olhar era frio.

O vento bagunçava seus cabelos, e sua expressão era de indiferença. Aquilo me perturbou muito.

Onde estava seu sorriso costumeiro? Onde estava o brilho naqueles olhos castanhos?

Mas eu havia me sentido feliz ao vê-la. Não importava se ela tinha me ignorado ao passar por mim. Eu só queria correr até ela e abraçar-lhe. Sentir seu perfume e afagar seus cabelos. Mas eu fiquei imóvel, e ela se foi, sem me perceber.

Aquela noite mudou tudo.

Todas as noites eu ia me sentar naquele banco da praça, e ela sempre aparecia. Às vezes, me fitava insistentemente.

Seu olhar indiferente, seus olhos opacos já não me incomodavam mais, pois a paixão que eu sentia por ela, mesmo depois de tanto tempo, ainda ardia em meu peito.

Quando chovia, o cheiro de terra molhada que trazia consigo quando passava por mim me fazia feliz, e eu passei a gostar do som da chuva.

Agora que estou aqui, mais uma vez, no mesmo banco, esperando-a, comecei a pensar em um fato que me deixou perturbado.

Será que ela ainda se lembra de mim?

Talvez por isso ela me ignora.. talvez por isso ela não me olha mais nos olhos..

Será que ela me perdoaria pelo que fiz?

Até que enfim, ela apareceu. Mas hoje, ela parece diferente.

Fico de pé, e a encaro. Olhos nos olhos, faz muito frio agora.

Ela está.. sorrindo?

Então ela se lembra. De tudo.

Ando lentamente até ela. Finalmente poderei dizer tudo o que queria, que ficou enjaulado em meu peito por tanto tempo.

Não tenho coragem de tocá-la.

Ela não se move, apenas me olha. Seus olhos me atravessam como estacas de gelo.

Eu não estou com medo.

Em um sussurro quase inaudível, eu revelo o que há tempo mantive em segredo, algo que ela nunca teve a oportunidade de saber:

- Eu.. te amava.. e ainda amo. Eu não queria que você fosse embora daquele jeito... Pensei muito depois daquilo, e percebi que tudo que eu mais desejava era ir com você, estar junto a você onde quer que você tivesse ido. Eu.. queria que você.. me levasse com você.. Só não escape de mim de novo, por favor..

Ela me abraça.

Não é um abraço quente, comum e confortável.

Esse dói.

Congela o que ainda me resta de um coração.

Engasgo com as palavras. Sei o que vai me acontecer se eu continuar, mas eu preciso fazer isso.

Com um fio de voz, sussurro em seu ouvido:

- Mas.. não me arrependo do que fiz.

Seu abraço machuca. Suas mãos em minha costas, seus dedos... são como lanças perfurando minha pele.

Eu sei que ela também me ama.

Tarde da madrugada, não há ninguém nas ruas.

Os poucos transeuntes que por aqui passam não me percebem neste banco da praça. E mesmo se o fizessem, nunca lhes passaria pela mente, nem mesmo em um súbito pensamento insano, que essa garota, de olhos castanhos opacos e frios, com a expressão indiferente e os cabelos bagunçados pelo vento que repousa suas mãos sobre meu peito e arranca meu coração..

É a mesma a quem assassinei há 8 anos atrás.

Chegou a noite em que finalmente serei levado com ela.

Notas finais
Provavelmente, no futuro vão haver muitas dessas 1C (um capítulo só).
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!