Notas iniciais
A arte é o espelho que reflete toda a loucura interior de seu artista.

21.07.1994

Querida Margaret, já se passaram duas semanas desde que George partiu. A cada dia a dor se torna mais e mais insuportável. Os dias parecem mais longos e as noites uma incansável e solitária tortura.

Tento manter-me forte e sã, mas a todo momento desse silêncio inoportuno que me cerca, consigo ainda ouvir o sussurrar suave de sua voz, calma e terna, como um veludo. Oh, Margaret! Como desejo que estivesse aqui. Apenas você consegue acalentar a minha dor. Mas ainda preciso de um momento só. Preciso esquecer o passado e começar a viver por meu futuro.

Espero não prolongar demasiadamente minha estadia por aqui. Estou com saudades.

Catherine.

Cathy selou o envelope e parou por um momento, fitando-o. A lembrança de George invadia sua mente, causando-lhe aquela familiar ânsia que precedia suas crises de choro. Mas não o fez. Ficou apenas ali, sentada em frente a baixa escrivaninha de madeira, ornamentada com delicados detalhes, provavelmente inspirados por alguma composição clássica.

Catherine DeLarge era uma garota alta, em seus 23 anos. Os cabelos negros como a noite, caiam em cascata por teus ombros. Compridos e suavemente ondulados, faziam um belo contraste com a pele branca. Os olhos eram de um castanho escuro, e transmitiam uma imensidão de sensações. Eram olhos poderosos, capazes de prender a atenção por horas sem que se incomodasse.

Apesar da altura, era dotada de movimentos suaves e encantadores. Havia perdido os pais ainda muito cedo e fora criada por seus tios. Por não terem filhos, a criaram e mimaram como tal, fazendo o possivel para que ela sentisse o minímo de falta de seus pais.

Já passava das quatro da tarde e ainda não havia se dado conta que encarava o envelope destinado a amiga, Margaret, desde pouco mais que as onze da manhã.

Não havia comido ainda, e nem sentia fome. Não sentia nada. Perdida em seus devaneios de um passado recente, que porém lhe parecia tão distante, e que a torturava. A ausência de George era angustiante.

Ao lado da antiga caixa cor de salmão, deixada pela mãe, um frasco redondo e amarelo a encarava. Podia vê-lo de relance e queria tocá-lo. Por mais que quisesse, sua mente estava distantem e a parte que se encontrava ali, não exercia poder algum sobre seu corpo. Não conseguia mover-se. Não tinha forças.

Sentiu uma leve cócega em sua face, que se arrastou pela bochecha, caíndo por fim em sua boca, molhando-a. E assim seguiu-se por um breve momento. Sua boca abriu-se em um sombrio sorriso. Suas lágrimas caíam pelo rosto, molhando-o. Fundindo-se assim, a uma profunda e angustiante risada.

Não sabia bem porque, mas estava rindo. Lançou o envelope na mesa e levantou-se da cadeira. O frasco amarelo ainda a encarava.

"Is this the real life? Is this just fantasy? Caught in a landslide, no scape from reality. Open your eyes, look up to the skies and see. I'm just a poor boy, I need no sympathy. Because I'm easy come, easy go. Little high, little low. Anyway the wind blows, doesn't really matter to me, to me."

A música ecoava em sua cabeça e a imagem de George ia e voltava. O chão parecia mover-se, como se estivesse tudo em uma grande roda. O estômago doía e a ânsia voltara. Podia sentir as mãos suando, e as esfregava freneticamente no pescoço, inquieta.

O som deu lugar a um conhecido "Ding Dong", que se repetia. Cathy só foi capaz de notá-lo após a quarta vez. Caminhou até a porta e abriu-a, sem ao menos se dar o trabalho de perguntar quem seria.

Um homem de estatura mediana vestia um terno escuro de aparência nova, e a encarava. Era parcialmente careca, o que ficava bem com os detalhes delicados de sua face, que apesar de toda a delicadeza, ainda era altamente masculino. Era bonito e jovial. Devia ser algum advogado, ou algo do gênero.

— Ah, Senhorita DeLarge ? — disse-lhe ele, abrindo um sorriso cordial.

Catherine o encarava, ainda presa em seus devaneios amorosos. Levou-lhe alguns segundos até que voltasse a si e pudesse receber a visita.

— Sim. — disse-lhe meio indiferente — E o senhor é ?

— Michael. Michael Barnes. Eu me mudei para a casa ao lado, mas ainda não instalaram meu telefone ainda. Quando comprei a casa, o corretor indicou-a como uma boa vizinha, em caso de necessidade. Se importa se usar o teu telefone por um minuto ? Preciso muito fazer uma ligação.

Ela o fitava distraídamente. Ele olhou-a por um momento e parou à sua frente. Só então pode observar o inchaço e a vermelhidão causados pelo choro. Ergueu a mão quase que em um gesto automático e tocou-lhe a face, ternamente.

— O que houve ? — perguntou-lhe.

Catherine apenas o fitava, apática. O rapaz tornou a perguntar o que havia acontecido, mas ela não ouvia. Seus pés pareciam não sentir o chão, e uma imagem escura e vazia se apossou de sua mente. Tudo o que queria era dormir. Ao menos era o que parecia certo. A imagem escura foi dando lugar à um campo aberto, com uma grama muito bem cuidada. A figura do rapaz e tudo o que estava a sua volta começara a se desintegrar, como a um copo de vidro quando encontra o chão em uma brutal queda.

A grama era de um verde forte, de aparência viva. Podia sentir aquele cheiro. O céu estava claro e o vento batia em seu rosto, bagunçando seus cabelos.

Ao longe, podia ouvir o som de uma cachoeira e os pássaros voavam livres pelo céu. Liberdade. Talvez fosse aquilo o que lhe faltara por toda a vida. O vento ficava mais forte, e Catherine corria. O longo vestido azul escuro fazia o contraste perfeito. As árvores que por ela passavam pareciam dotadas de vontade própria. Os galhos balançavam suavemente. O ar já lhe faltava, mas não tinha problema. Corria e ria freneticamente. A visão era perfeita, e seu corpo se enchia de um profundo êxtase.

Corria rápido o bastante para não sentir o chão, e não o sentia. Mas o céu começara a escurecer, e aquela familiar ânsia tomou-a novamente. O chão começou a desintegrar-se, assim como a imagem de antes, e a figura de George surgiu em sua mente mais uma vez.

Ele a olhava, sorrindo. Todo aquele desespero que enchia sua cabeça, deu lugar a uma imensa paz. Conforme ela ia caindo, os olhos de George a acompanhavam, mas já não possuíam mais aquela ternura habitual.

Eles estavam vermelhos e a condenavam.

Aquele vazio se transformou em um angustiante sufocamento. Ela não conseguia respirar. Aqueles olhos a perseguiam e condenavam cada tentativa desesperada de sair dali.

"Goodbye everybody, I've got to go. Gotta leave you all behind and face the truth. Mama, oh oh oh. I don't wanna die, I sometimes wish I'd never been born at all."

Bohemian Rhapsody tocava quase que ironicamente em sua cabeça. Realmente não desejava morrer, mas estava fatalmente condenada a toda a miséria da existência humana.

Michael segurava Catherine em seus braços, enquanto ela tremia e se debatia de um lado ao outro e estava ofegante, quase que perdendo a força para respirar.

"Eu só queria usar o telefone." — Pensou Michael por um instante, e tratou logo de afugentar esse pensamento.

Cathy parou de se debater, mas estava um tanto roxa. George pegou-a no colo e a carregou para dentro da casa.

A casa de Catherine era escura, havia uma grande estante no canto, lotada de livros. O papel de parede era de um marrom muito apagado, com alguns floreios. A escrivaninha estava toda bagunçada e no chão havia um frasco amarelo, caido aberto, com umas "bolinhas" brancas ao lado.

Ele deitou-a no sofá, que se encontrava encostado na parede e apanhou o frasco. Nele continha um rótulo, mas as palavras estavam borradas, e era impossível ler o que se dizia. Provavelmente era algum remédio.

Era um remédio.

Ela dormia tão serenamente. Os cabelos molhados pelas lágrimas colavam em seu pescoço, salientando a forma magra e comprida deste. Aquela imagem despertava em Michael uma estranha calma. Mesmo com tudo aquilo, ela ainda parecia em paz. Colocou o frasco na mesa e olhou para uma pequena pilha de envelopes.

Michael pegou um dos envelopes. Não estava endereçado, apenas continha a frase em uma letra leve, comprida e de traços elegantes, "Á Margaret". Olhou novamente para Cathy. Ela ainda estava dormindo. Não conteve a curiosidade e abriu o envelope.

14.05.1994

Querida Margaret, aqui o tempo parece parado. Mas não é um parado ruim. É algo que te faz pensar. Ando pelas ruas e observo as pessoas, elas parecem se mover em camera lenta.

Fico imaginando como é a vida dessas pessoas, suas angústicas, dificuldades, personalidade.

As vezes passamos por pessoas e as ignoramos. Não nos damos nem ao trabalho de comprimentá-las, ou meramente olhá-las. Quantas histórias incríveis e belas lições de vida perdemos.

Queria que estivesse aqui.

Catherine.

Ele fechou o envelope e quando estava para pegar outro, ouviu Cathy tossir. Ela estava acordando. Michael correu até o sofá para vê-la.

A cabeça de Catherine doía, e a imagem daqueles olhos ferozes condenando-a se impregnara em sua mente. Ela se levantou, ainda meio tonta e acabou tombando de encontro com os braços dele.

Michael não sabia ao certo o que deveria fazer, sua cabeça estava uma verdadeira bagunça. Cathy soltou-se de seus braços e se sentou. Estava com uma aparência adoentada. O cabelo desgrenhado caia-lhe no rosto, e ela passava a mão por ele, segurando-o no topo da cabeça. O rosto encolheu-se numa expressão nauseante e seu estômago doía.

Os dois ficaram assim, parados, por um longo instante. Michael fitava o chão um tanto nervoso. Ele olhou para cima e notou uma bela fotografia na parede. Era de um aspecto avermelhado e mostrava um toureiro em meio a uma apresentação. Aquilo era esquisito. Odiava touradas, mas a imagem lhe passava uma sensação boa. Era diferente das outras que já havia visto. Não lhe causava terror, ou nausea, ou qualquer outro sentimento com o qual já se familiarizara toda vez que presenciava alguma brutalidade com animais.

Seu pensamento sobre a imagem foi interrompido pelo choro alto e agudo de Catherine. E toda aquela sobriedade proporcionada pela imagem, se transformou em algo engasgado em sua garganta, sentia vontade de chorar junto com ela, e em um gesto quase que ensaiado, a abraçou.

Ao perceber, Cathy levantou-se rapidamente e sumiu da vista de Michael.

- Senhorita DeLarge ? — gritou.

Não houve resposta.

Levantou do sofá e andou cautelosamente pela sala até encontrar a saída para o cômodo ao lado.

Era uma sala de jantar ampla e totalmente diferente da primeira. Era bem clara, iluminada. Com uma mobília simples e sofisticada, porém, parecia ser pouco usada.

Havia uma enorme mesa de vidro ao centro, com seis cadeiras dispostas lado a lado, perfeitamente alinhadas. Sobre a mesa, um grande vaso alaranjado com algumas flores secas.

Mortas.

A parede era branca e bem limpa, e continha duas molduras douradas.

Era um dia claro e as quatro pessoas pareciam felizes. Estavam em um parque com um grande lago ao fundo. Um homem que aparentava ter uns 40 anos sorria, abraçando a mulher que Michael deduziu que era esposa dele.

Ela sorria. Um sorriso puro e verdadeiro. Sua mão estava parada sobre o ombro do garoto a sua frente. Era magro e esguio. Usava um boné preto e ria.

Tudo naquela imagem transbordava felicidade, uma felicidade genuína.

Ao lado dele havia uma garotinha. Os cabelos escuros presos em um alto rabo-de-cavalo, e ela parecia bem. Aquele rosto era familiar para Michael. Seus olhos eram de uma pureza tão encantadora, que o fazia sorrir junto com eles. A garotinha era Catherine.

- São meus pais. E meu irmão. — a voz firme de Cathy surpreendeu Michael, que deu um pequeno pulo em recuo.

- Ah. Ahm...são muito bonitos. Você e seu irmão se parecem bastante com eles.

Ele se recompoz rapidamente do susto e virou-se para ela, sorrindo cordialmente.

Ela se manteve inexpressiva e entregou-lhe o telefone. Ele o pegou de sua mão.

Catherine não parecia mais com a garota que ele vira a poucos minutos. Continuava pálida, mas o inchaço e a vermelhidão não existiam mais.

Ela deu as costas e saiu, caminhando lentamente, ainda meio tonta.

Sua cabeça latejava, estava horrível.

Caminhou pelo corredor escuro, até uma porta de madeira escura. Abriu-a e entrou no banheiro.

Era claro, com azuleijos brancos e alguns ornamentos em azul e dourado.

Sentou-se no vaso fechado e suspirou.

O que havia feito de sua vida? Como foi parar ali? Como chegou naquela situação desesperadora? Sempre foi uma garota inteligente, sempre cercada pelos amigos, e estava ali, sozinha e sem a menor vontade de viver.

Levantou e ergueu a tampa do vaso. Fechou os olhos e parou por um segundo. Seus olhos se encheram de lágrimas e ela se ajoelhou em frente ao vaso branco.

Colocou dois dedos na boca, o mais fundo possível e tossiu. Tossiu.

Tossiu.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.