French Kiss

2 01. Confusão pode ser um sobrenome


Notas iniciais
GENTE! Esse primeiro capítulo de French e o próximo têm um pequeno (ou nem tão pequeno assim) probleminha... Eu não tava lá com muita noção de como tinham ficado capítulos grandes e... Bem, é isso. Esse capítulo é gigante, o próximo, pelo menos, é um pouco menor. E eu sei que pouca gente curte capítulos big size que nem de livro, a maioria prefere os mais curtos, mas como já está postado assim na maioria dos sites, então... Vai inteiro mesmo. Talvez depois eu arrume em todos e divida tudo numa três partes, ok? UHAUHSAUAHS Foi mal, galera linda. Tá grande mesmo. BUUUT, se você chegar até lá o final, tenho uma surpresa pra você! Então, topa o desafio?

Casa de Elizabeth Gentil

21 de maio de 2014. Jaçanã, São Paulo, São Paulo, Brasil. 6h24 a.m. – horário de Brasília.

Dinheiro é uma coisa séria. Se você tem demais, ele vai embora num piscar de olhos, e quando não se tem, ele aparece só pra tirar onda com a sua cara – dá oi e se manda sem nem aparecer direito na sua mão. Infelizmente, o meu próprio dinheiro se encaixa na segunda opção e parece fazer questão de me fazer vontade para depois sumir e nunca mais voltar. Felizmente, o dinheiro de tia Roberta não se enquadra em nenhuma das situações drásticas que eu citei. O dinheiro dela está sempre de bom humor e parece render horrores. O melhor de tudo é que ele chega ao Brasil praticamente triplicado. Não tenho culpa de a libra esterlina ser tão cara.

Hoje o dia estava corrido e eu agradecia mentalmente a cada trinta segundos por ter uma tia bem de vida morando na Inglaterra. Qual garota não sonha com isso? Certo, tem as que sonham com um parente rico em Nova Iorque ou em Toronto ou até mesmo no Havaí. Eu prefiro a Inglaterra. Londres, sendo mais exata. E era justamente para lá que eu iria. As malas estavam prontas no meu quarto e eu zanzava pela casa, descendo e subindo as escadas de volta ao cômodo inicial, conferindo se não tinha esquecido nada. Minha avó estava impaciente comigo e a toda hora gritava coisas do tipo “Se aquieta, mulher!” ou “O avião não vai embora sem você!”. Será que ela nunca andou de avião? Se você não está lá, pronto para embarcar e seguir viagem, eles vão embora sim – e aí, meu amigo, só lhe resta acenar para quem te vê da janelinha e esperar que uma nova chance de partir apareça mais rápido do que o normal, de preferência com um preço não muito acima do anterior, para não acabar com o seu orçamento já quebrado pela viagem que você perdeu. Desci até a cozinha e encontrei minha avó preparando um delicioso café da manhã que minha ansiedade não me permitiria tomar.

– Beth, desse jeito você vai acabar com as solas dos seus chinelos – ela falou assim que eu apareci na entrada. – Pare de andar por um segundo!

Fiquei andando praticamente em círculos na cozinha, ignorando as súplicas da minha avó. Estava vendo a hora que ela jogaria uma faca para me fazer parar.

– Vó, faz muito tempo que o Gio saiu. Será que ele não encontrou as garotas? Se elas me atrasarem e eu perder o voo, juro que eu mato essas duas!

Eu me referia aos meus melhores amigos. Giovanni, 19 anos, que morava comigo e minha avó desde que chegou do Rio, e Demetria e Cecília, minhas amigas de escola, ambas com a minha atual idade, 16. Minha avó, com seus 71 anos e seu porte, animação e fulgor de uma mulher de 34, abaixou todo o fogo da panela que estava mexendo e se virou na minha direção, limpando as mãos suadas por causa do vapor no avental. O cheiro que pairava pela cozinha era de mingau de aveia. Isso explicava o fogão ligado a essa hora da manhã.

– Você já ligou pra ele? Se não ligar, nunca vai saber o que está acontecendo. Beth, para pelo menos pra me ouvir. Eu não vou comprar chinelos novos!

– Está certo, vó. Para tudo o que disse.

Saí correndo da cozinha e, pela milésima vez, voltei para o quarto. Joguei-me na cama, já pegando o celular e ligando para o número de Giovanni. Caiu na caixa de mensagens. Liguei no celular da Demi e ela não me atendeu. Eu já estava ficando irritada quando, por fim, tentei o celular da Cissa. Consegui.

– Qual é o problema de vocês? Se eu perder o voo, vocês morrem! – Gritei.

Havia uma barulheira do outro lado da linha.

– Beth, calma, nós já estamos cheg...

A voz de Cissa foi cortada pela de Demi por trás com “Deixa eu falar com ela!” e, depois disso, pelo o que pude notar, ela arrancou o celular das mãos da dona.

– Elizabeth Gentil, quer fazer o favor de não dar piti? Eu consegui te ouvir estando eu atrás do Gio e a Cissa no banco da frente! Nós estamos chegando na sua casa. Desce as malas que você conseguir que nós te ajudamos com o resto.

Ela nem sequer esperou pela minha resposta e desligou o telefone. Eu tenho verdadeiro ódio de quando a Demi faz isso, mas minha ansiedade era tanta que eu nem consegui me afetar com a má educação rotineira da minha amiga. Fiz o que ela disse e comecei a arrastar a primeira mala até o pé da escada. Aquele foi um momento de pânico, pois os degraus pareceram se quadriplicar e eu senti o peso das malas torcendo minha coluna antes mesmo de descer a primeira delas.

– Calma, Elizabeth... Você consegue. – Disse a mim mesma, tentando me convencer daquilo. Algo inútil, assumo.

Aeroporto Internacional de Guarulhos

21 de maio de 2014. Cumbica, Guarulhos, São Paulo, Brasil. 7h12 a.m. – horário de Brasília.

Giovanni procurava por um lugar no estacionamento do aeroporto. Eu pegaria um avião aqui para descer no Heathrow Airport, em Londres, a cerca de 25 km do centro da cidade, onde tia Roberta me buscaria e me levaria para um passeio. Seria minha primeira viagem ao exterior e minha animação não poderia ser maior, tanto que a todo o momento olhava pela janela do carro para ver se já estávamos chegando. Se bem que minha alegria não era apenas por viajar para uma das cidades mais culturais do mundo. Eu tinha mais motivos. Como boa fã de pop, acabei me tornando mais uma que caiu nos braços das músicas dos paparicados One Direction. E não foi à toa, devo confessar. Há bandinha mais linda? O fato é que eu apenas gostava de suas canções uns três anos atrás, mas fui me tornando cada vez mais fã e amando cada vez mais os garotos. A mesma história de sempre. Creio poder me considerar uma directioner. Aliás, uma louca directioner. Mas não é só isso. Quando fiquei sabendo que os ingressos para os shows aqui em São Paulo e no Rio estavam sendo vendidos, era tarde demais, pois já tinham sido esgotados. Sim, trágica realidade. Tia Roberta tem o costume de falar comigo por WhatsApp, já que só requer internet, ou até mesmo liga em casa quando pode, e eu acabei comentando com ela que não poderia ir a nenhum dos shows. Sequer do dia 11 de maio, o show extra. Sabe quando eu falei que é o sonho de qualquer garota ter uma tia bem de vida na Inglaterra? Pois é, eu não estava exagerando. Minha tia me fez uma surpresa e tanto. Por correio, ela me enviou uma passagem de avião para Londres – a que eu usarei hoje – e, juntamente disso, um ingresso para um dos shows na cidade dentro de um bilhete. Simplesmente duas palavras que não poderiam me ter feito mais feliz: Você merece.

Obviamente, eu quase morri do coração e saí pulando pela casa, contando para a minha avó e pro Gio. Vovó ficou felicíssima por mim e o Gio não pareceu surpreso como eu esperava. Foi estranho, porque ele até me apoiou, coisa que eu não esperava, já que ele costuma bancar o amigo protetor e ciumento. Naquele dia, ainda liguei para Cissa e Demi, contando as novas para as duas, que também agiram estranhamente. Mas nada disso me afetou, porque eu tinha uma única coisa em mente: show dos garotos na minha terra de coração. Eu poderia surtar mais?

Até que fizemos todo o trajeto da minha casa até o aeroporto em um tempo bom. Tivemos que vir até Guarulhos, pois o único aeroporto internacional é aqui, mas o trânsito colaborou. Gio finalmente encontrou um lugar para estacionarmos. Começamos a não fácil tarefa de descarregar o carro das minhas bagagens. Eu, Cissa e Gio analisamos o porta-malas por alguns segundos, tentando encontrar por onde começar, quando nos demos conta de que Demi não fazia nada para cooperar.

– Demetria com nada de Devonne e muito menos Lovato, posso saber por que você está mexendo no celular ao invés de nos ajudar a descer minhas malas? – Questionei-a.

– Baby, você acha mesmo que eu vou estragar as minhas unhas incríveis com as suas malas pesadíssimas? Você só pode ter enlouquecido. – Ela passou a observar os próprios dedos, erguendo-os para o sol, tarefa que não era tão ruim assim quando se usava frente aos olhos um aviador lindo e caro como o dela. – Fora que eu estou ocupada. Não posso ajudar vocês agora. É um pouco urgente.

– E posso saber o que de tão urgente você está fazendo que não possa ajudar sua amiga a viajar para o lugar dos sonhos dela?

– Negócios, baby. Negócios.

Dito isso, Demi deu um sorriso e eu sabia que, por trás daqueles óculos maravilhosos, ela me olhava com vitória sobre minhas argumentações. Eu odiava perder uma discussão para Demi, mas não sabia o que responder – pelo menos não dessa vez. Dado um segundo após seu ar altivo, ela colocou o iPhone no ouvido e voltou a encarar as escandalosas unhas recentemente pintadas. Pareciam um carnaval de cores e estampas, mas estavam realmente lindas. Demi parecia ditar a moda. Não me surpreenderia se, daqui a alguns meses, talvez na época “Verão 2015”, suas loucuras se tornassem tendência por toda a América Latina. De repente, Demi deu como que um tique e se virou de costas para todos nós, abandonando-nos com as malas que já estavam sendo colocadas no chão por Cecília e Giovanni. Sua ligação havia sido atendida. Ela começou a se afastar do carro, mas, antes que tomasse muita distância, consegui ouvir o que dissera logo no início: Fica tranquila, tudo está saindo como o planejado...

E então suas palavras se tornaram incompreensíveis. Ainda tentei chamar por seu nome, mas ela se limitou a abanar a mão por cima do ombro, mandando-me ficar quieta. Afastou-se rapidamente de nós e estava indo na direção da entrada do aeroporto. Parou na frente da porta. Gio me gritou para que eu despertasse da espionagem com Demi e ajudasse a ele e Cissa a carregar minhas próprias malas. Folgada, foi disso que ele me chamou. Não posso negar que estava mesmo sendo uma, mas não admitiria isso logo para o Gio.

Arrastamos tudo até a entrada do aeroporto e lá encontramos Demetria sentada em uma mureta com as pernas cruzadas e o celular em mãos. Pela primeira vez na semana, ela não estava usando uma de suas costumeiras perucas. Demi adora perucas. Pelo menos são perucas “normais” e não aquelas coloridas. Hoje, o cabelo dela estava de chapinha e preso com uma piranha atrás da cabeça, com a franja atrás da orelha. Ela estava vestindo uma camiseta branca de mangas curtas e tecido fino, uma calça preta daquelas que brilham como verniz e sapatos pretos de salto bem alto. Além disso tudo, ela usava uma jaqueta preta linda que eu amo, mas que raramente ela me emprestava, e que agora repousava pendurada em seu braço. Resumindo, Demi estava linda, realmente parecendo minha tartaruga Lovato em sua época rock. Cissa e eu estávamos mais simples, com menos roupa. Quer dizer, talvez mais ela do que eu. Eu estava completamente agasalhada, já que chegaria à Europa, mais especificamente na cidade que mal faz sol, então achei mais prudente passar um pouquinho de calor agora do que chegar lá e passar frio. Um cachecol roxo de tricô, que tinha ganhado da minha mãe aos 11 anos, estava elegantemente enrolado ao redor do meu pescoço para ajudar meus cabelos soltos a esquentá-lo, uma blusa de tecido mais grosso e mangas compridas – toda branca, assim como a da Demi –, uma calça jeans de lavagem escura e um sneaker branco e bege. Jaqueta varsity vermelha compunha a imagem de cópia feminina do Zayn que eu gostava de manter na mente, mesmo que ela fosse falha na vida real. Pelo menos minha jaqueta tinha escrito atrás: Mrs. Styles e era feita sob ajuste. Presente da tia Roberta, claro. A Cissa estava com um casaquinho de crochê rosa retrô e uma blusinha de flores bancas e rosas por baixo, uma calça branca e sapatilhas delicadas. O cabelo preso em rabo de cavalo. Nós três éramos quase que opostos uma da outra, talvez por isso nos déssemos tão bem. Saindo da categoria estilos e voltando para a realidade, deixei de reparar nas nossas roupas para chamar Demi e enfim entrarmos no aeroporto. O relógio estava próximo de marcar a exata uma hora antes do meu voo e eu precisava fazer o check-in.

7h36 a.m. – horário de Brasília.

Depois de uma fila não tão comprida quanto eu esperava, fiz o check-in e então começamos a nos dirigir para perto do portão de embarque. Todos eles estavam agindo normal demais e eu continuava achando isso esquisito. Quando eu lhes contei sobre a viagem, eles também não pareceram muito animados ou até mesmo preocupados com o desfalque em nosso “grupinho”, mas sempre me perguntavam como eu estava, se estava ansiosa e coisas assim. Normais. Hoje, todos pareciam ter se esquecido do assunto, conversando entre si sobre coisas aleatórias. Coisas essas que eu não conseguia compreender devido aos milhares de pensamentos que rolavam pela minha cabeça, o que me fazia ficar sempre com cara de boba sob alguma pergunta surpresa, enquanto Gio e Cissa riam de mim e Demi me chamava de volta pro mundo.

A hora não passava. Meu voo estava marcado para as 8h30, mas eu tinha a certeza de que ele sairia atrasado. Já estava ficando com fome quando Cissa notificou-nos que se encontrava na mesma situação. Demi reclamou em seguida e então Gio me olhou interrogativo. Queria saber sobre mim – ou sobre minha barriga, mas tanto faz. Confirmei com um aceno de cabeça e ele, fingindo exaustão, nos chamou para comer em um dos vários pontos do aeroporto. Fomos todas correndo atrás dele.

Tomar café da manhã parecia a melhor coisa para acalmar meus ânimos naquele momento. Pena que não deu certo. A todo o momento, minha avó – mega antenada nas tecnologias, devo dizer – mandava-me um torpedo, perguntando-me como tudo estava indo. Na mesma, eu respondia na maioria das vezes. Cansada de ver meus amigos conversando sem que eu entendesse uma só palavra, cacei meu celular e fones na mochilinha que eu estava usando pra carregar coisas essenciais e que eu usaria durante o voo, como máquina fotográfica e celular com muita música. Coloquei os fones nos ouvidos e One Direction para tocar, pra já entrar no clima do show, mesmo sendo ele daqui a alguns dias. Os CDs tocavam em ordem contrária, portanto, o Midnight Memories vinha antes do Take Me Home e do Up All Night. Entrei no twitter para ver o que estava rolando por lá. Fui rodando a time line para baixo e lendo alguns tweets de fã-clubes que eu seguia. Eu estava basicamente passando os olhos por cima da maioria quando um me chamou a atenção.

#1DNews Os meninos devem embarcar hoje no aeroporto de Guarulhos para Londres, onde ficarão até amanhã e depois irão para Dublin.

Quase caí da cadeira quando li o tweet. Pausei o final de Best Song Ever para poder dar toda a atenção possível e impossível àquilo. Respondi, perguntando à garota se aquela informação era segura e que horas eles embarcariam. Ela me comunicou que a informação estava certa, mas que a hora não havia sido divulgada. Lamentei em uma nova resposta e ela reagiu a isso dizendo-me que haviam rumores de que seria de noite o voo deles. Todas as minhas esperanças foram pelo ralo. Agradeci a menina e travei o celular, jogando-o na mochila com o fone. Era aproximadamente oito da manhã e eles estariam no aeroporto logo mais à noite. Os únicos pensamentos que passavam pela minha cabeça eram: “Calma, Beth, você vai vê-los no show. Não se desespere!”, mas nada disso parecia surtir efeito. Minha maior chance de encontrá-los estava marcada para hoje à noite e eu viajaria de manhã. Era muito azar. Subitamente, senti cutuques e vozes ao longe. Notei o quão distraída eu estava. Olhei para meu lado esquerdo e vi três rostos confusos.

– Beth, onde você estava? Nós estamos te chamando há tempos e você não responde. – Cissa perguntou com ar de preocupação.

– Gente, vocês não vão acreditar. Os garotos devem embarcar para Londres hoje. Aqui! Mas só de noite. O que eu vou fazer?

– Você vai entrar num avião e ir para Londres também, só que mais cedo. É tão difícil de entender?

Direcionei meu olhar para Giovanni, que sorria de canto extremamente sarcástico. Fuzilei-o com o olhar, mas ele apenas riu com mais liberdade.

– Gio! Você sabe como isso seria incrível pra mim!

– Ah, para, Beth! São só um bando de garotos com cabelos que parecem perucas!

Antes que eu falasse algo, Demi respondeu-o, e ela não parecia muito satisfeita com o comentário besta de Gio. Entendi por quê.

– Ei, respeitem minhas perucas.

Por dentro, eu queria muito rir do que ela tinha dito, mas a raiva que me atingiu me manteve calada. Minha boca abriu e meus olhos se estreitaram. Como ele poderia falar assim dos meus meninos?

– Giovanni Carvalho Filho! – Exclamei, talvez mais alto do que eu achei que sairia.

– Beth Pirulita! – Retrucou.

Eu estava prestes a bater em Giovanni por ressuscitar um apelido tão antigo e ridículo como aquele, mas fui impedida por Demi, que estava entre nós dois e rapidamente compreendeu meus planos.

– Ok, podem parar! Eu não quero ficar no meio desse furacão e não estou nem um pouco a fim de levantar daqui antes da hora. Portanto, parem! Gio, você cala a boca, e, Beth, para de histeria. Não é porque o seu Harry Gostoso Styles vai aparecer aqui mais tarde que você precisa armar todo esse circo. Ele e sua turma conseguem fazer isso por si só – pensei em retrucá-la também, mas ela continuou antes que eu pudesse fazê-lo. – E nem adianta vir reclamar comigo. É isso e pronto.

– Posso falar? – Inqueri irônica. Ela me deu a vez. – Fico feliz que você saiba que o Harry Gostoso Styles é meu – falei o nome fazendo uma graça sem graça, mostrando minha indignação por ouvir a Demi falar assim do Harry de novo. – Tire o olho. Você já pôs suas garras carnavalescas no Niall.

– Cuidado, baby. Amo ser bígama. Rawr – ela fez como se fosse um gato ameaçando outro com as unhas, mas de uma forma feminina e debochada.

8h31 a.m. – horário de Brasília.

Para a minha surpresa, as coisas ocorreram excepcionalmente pontuais. Estavam fazendo a primeira chamada para o meu voo e eu me apressei em correr para onde deveria. Antes de entrar, porém, me despedi dos meus amigos. Fui primeiro em Demi, que estava de braços abertos e mascando um chiclete que eu não me lembrava de tê-la visto pôr na boca. Tomei um choque inicial por ela demonstrar querer um abraço meu antes de viajar, mas acabei formulando duas alternativas relevantes: primeira, ela queria se despedir de mim, o que é perfeitamente normal e compreensível, já que somos amigas. Segunda opção, ela e sua bipolaridade não detectada pela medicina moderna resolveram fazer as pazes e agora ela está de bom humor. Achei ambas tão possíveis que preferi não escolher nada e simplesmente corresponder ao abraço que me fora oferecido.

– Boa viagem, minha anãzinha de jardim!!! – Ela me abraçou pela cabeça, apertando-me contra si, o que acabou me colocando de cara com as enormes melancias que ela carregava sobre o peito.

– Também te amo, Demi. E me tira de dentro desses seus melões porque eu gosto é de outra fruta!

Ela me soltou e fitou-me maliciosa.

– Hm, eu sei, você curte mesmo é uma banana... Safadinha!

Bati com a mão no rosto numa falha tentativa de apagar a última frase de Demi da minha mente.

– Tchau, Demetria. – Completei rindo.

Andei até Cissa, que meigamente também me estendia seus braços, convidativa.

– Nos vemos em breve – disse ela.

Eu e Cissa tínhamos praticamente a mesma altura, sendo eu ainda um pouco mais alta que ela. Não tínhamos entre nós as mesmas brincadeiras idiotas que existiam entre Demi e eu. Cissa era comportada demais para isso – ou simplesmente tinha mais juízo que nós. Abracei-a forte.

– Até mais, minha pipoquinha.

Soltamo-nos e ela virou os olhos com um sorriso singelo no rosto. Dirigi-me até Giovanni.

– Eu nem deveria te abraçar. – Disse com birra.

– E eu não deveria querer tanto te abraçar, palhaça.

– Palhaça, eu? – Gritei com ele, que me abraçou de súbito e rodou comigo, obrigando-me a largar a mala que eu já segurava pela alça no chão.

– Ficaaaaa! – Ele me pôs no chão. – Você não precisa de cinco caras que nem sabem que você existe. Você tem a nós. Tem a mim. Fica, por favor!

Gio segurava minhas mãos e balançava nossos braços para cima e para baixo. Juntos. Ele nunca me deixava ficar brava com ele por muito tempo; sempre dava um jeito de me alegrar e fazer as pazes comigo. Eu amava esse seu jeito. Olhei-o com ternura.

– Eu volto.

Dei um demorado beijo em seu rosto, necessitando levantar-me nos pés para tal, e ele me abraçou pela cintura com força.

– Assim espero – ele aproximou a boca do meu ouvido –, minha baixinha. – Sussurrou.

Arrepiei-me inteira, mas não pelo fato de ter sido Giovanni a sussurrar no meu ouvido, porque ele tinha a maldita mania de fazer isso direto, mas pela sensação de ter alguém murmurando algo tão perto. Sensação boa. Afastei toda e qualquer reação do meu corpo aos abusos emocionais de meu melhor amigo e me dirigi à salinha onde todo o processo de embarque começava. Acenei para meus amigos uma última vez antes que eles sumissem de vista.

9h03 a.m. – horário de Brasília.

Estávamos todos nós, passageiros do avião, numa grande fila na última saída do aeroporto antes de partimos em direção ao avião, a fila onde eles pegavam nossas passagens. Inesperadamente, comecei a ouvir barulhinhos vindos da parte de trás da pequena sala em que nos encontrávamos. Olhei para onde meus sentidos apontavam e vi alguns seguranças indo até as mulheres que pegavam as passagens, no início da fila, ao lado da porta de saída. Eles disseram algo para elas reservadamente e então foram embora. Tanto eu quanto outros passageiros ficamos sem entender o que estava acontecendo. Decidi perguntar ao homem que estava a minha frente.

– Com licença, senhor... – Cutuquei-o e esperei que ele se virasse. Era um homem com pelo menos 35 anos, alto, magro, bem magro, com óculos retangulares e pequenos sobre os olhos e um celular no ouvido. Pareceu-me simpático. – Será que poderia me dizer o que aconteceu?

Apontei na direção das mulheres com as quais os seguranças haviam conversado. O homem não dividia sua atenção entre eu e o telefone, então supus que a pessoa com a qual ele tentava se comunicar ainda não tinha atendido à sua ligação. Ele colocou uma pasta debaixo do braço que segurava o telefone e se virou para a direção que eu apontara, mantendo a cabeça o mais virada para mim que era possível, a fim de que eu lhe ouvisse.

– É que parece que aquela bandinha pop que estava fazendo shows aqui vai no avião também. – Disse ele, não se dando conta da informação que me fornecia.

– É o quê? – Falei demasiado alto.

– Não grita, menina! – Ele girou completamente até mim. – Tô esperando minha mulher atender. – Eu assenti com um aceno de cabeça, dando-lhe espaço para continuar a falar. – Tinha uma bandinha aí... One... Eu não lembro o nome. São um bando de adolescentes.

– Homens.

Eu o corrigi sem pensar e ele me fitou por cima dos óculos, meio confuso.

– Eles não são mais adolescentes há um bom tempo, senhor... Como é o seu nome mesmo?

– Tadeu. Doutor Tadeu, advogado.

Estendeu-me a mão livre de telefones e pastas e eu lhe cumprimentei.

– Elizabeth. Pois bem, doutor Tadeu, eles já não são mais meninos... Isso está só na cabeça das fãs. Sabe, não é legal imaginá-los como um bando de homens que saem por aí ficando com um monte de garotas, do mesmo jeito que acontece aqui no Brasil, mas é essa a verdade. Como diria a minha amiga – lembrei-me de Demi falando –, quanto mais rápido você aceita a situação, menos dói. Decidi seguir o conselho dela.

– Ah, você é fã deles?

– Directioner, prazer.

Eu ri discreta para o Dr. Tadeu, mas ele não pareceu apreciar muito minha última fala.

– Por favor – ele começou, já com a mão cobrindo os óculos, mostrando certo desconforto –, diga que você não é uma daquelas adolescentes malucas que ficam gritando quando veem seus ídolos.

Pensei por um instante, ponderando se era relevante a informação de que, sim, eu era.

– Não, fique tranquilo. Sabe em que classe eles vão? – O homem ia começar a falar, mas não permiti, notando quão imbecil havia sido a minha pergunta. – Esquece. Eles vão de primeira classe. Em que mundo cantores internacionais voltariam para casa no meio de uma turnê de classe econômica? Ai, céus, só eu mesmo pra perguntar uma coisa dessas...

O homem se limitou a um levantar de sobrancelhas. Loucamente, uma ideia me surgiu na mente. Cutuquei o Dr. Tadeu, que já tinha se virado para frente e dado mais um passo na direção do início da fila.

– Com licença, doutor... – Ele me olhou como quem diz “O que você quer dessa vez?”. Minha ideia de simpatia sobre ele estava correndo sérios riscos de mudança. – Aonde vai?

– A Londres? – Respondeu, tentando deixar claro que não haveria resposta mais óbvia.

Ironia detectada. Conceito redefinido. Nota mental: não tentar dizer o que as pessoas são antes de fazê-las descobrir que você é uma directioner ensandecida.

– É claro – forcei um sorriso –, mas quero saber se vai de primeira classe ou classe econômica.

– E para quê?

Abri a boca para falar, mas segurei as palavras dentro de mim e comecei a pensar melhor sobre elas, o que resultou numa careta típica de pensamento em horas inapropriadas.

– Vou de primeira classe. – Abri um sorriso enorme e ele pareceu captar meus pensamentos. – Espera, você não quer que...

– Então, doutor – continuei antes que ele negasse minha proposta de cara –, o que o senhor acha de trocar de lugar comigo? Olha, juro, eu pago por isso mais tarde! O senhor pode falar com minha tia em Londres! Eu não tenho dinheiro aqui, agora, mas ela que me comprou a passagem, ela tem. Ah, por favor, não me olhe assim. Eu não vim de Marte para o senhor me olhar como se eu estivesse lhe pedindo um absurdo.

– Mas está! – Discordou em alto e bom som.

– Nada disso. Veja bem – a fila andou –, se o senhor trocar de lugar comigo, eu ficarei na mesma classe que a banda e agirei como um ser humano normal, não como uma macaca no cio. Prometo! E ninguém precisa saber que eu não deveria estar ali. Fico quietinha, mudinha, só para passar despercebida. Juro que ninguém vai me ligar ao senhor!

Ele ainda estava com o celular no ouvido, mas não com a mesma chamada de quando eu requeri sua ajuda pela primeira vez. Antes que eu o chamasse de novo, ele já tinha tentado uma vez e estava ligando de novo. Dessa vez, quem eu supus ser sua esposa atendeu. Dr. Tadeu estendeu um dos indicadores a minha frente, mandando-me esperar quieta enquanto respondia quem estava do outro lado da linha.

– Oi, amor. Sim, eu já vou embarcar, fica tranquila. Você me encontra no aeroporto? Certo. Não, não estou nervoso. Ah, querida, só estou falando um pouquinho mais rápido que o normal. Tá, tá, tudo bem, eu digo. É que uma adolescente me pediu para ir no lugar dela na classe econômica para ela ficar no meu lugar na primeira classe, só porque a tal bandinha lá que você está trabalhando vai no mesmo voo que a gente. Não, eu não vou trocar. Isso não se faz assim...

A voz do Dr. Tadeu sumiu dos meus ouvidos no instante em que suas palavras finalmente fizeram efeito no meu cérebro lento e complicado. Só porque a tal bandinha lá que você está trabalhando, foi isso mesmo o que ele disse? A mulher dele trabalha com a 1D? Um estalo soou na minha mente e eu cutuquei o homem que estava a minha frente pela terceira vez. A fila andou novamente.

– Ei, ei – ele fez “Shhh!” e colocou um dedo na boca, mandando-me ficar quieta e quase virando para frente outra vez, mas impedi que isso acontecesse. Prossegui falando baixo, para não chamar a atenção da mulher dele. – Ei, espera! Deixa eu falar com ela!

Tentei pegar o telefone de sua mão, mas ele se virou com tudo, tentando evitar que eu obtivesse sucesso em minha missão.

– Não, amor, não é nada. – Joguei a mão na direção do celular pela frente de sua cabeça, mas acabei acertando os dedos em seus óculos. – Caramba, garota, para! – Gritou comigo.

– Eu preciso falar com a sua esposa, doutor!

Nós permanecíamos com nossa disputa pelo celular do homem e eu continuava sem entender como ninguém tinha interferido ainda, quando ele parou na minha frente com o indicador quase que na minha cara, fazendo-me parar também e prestar atenção ao que ele falava.

– Espera. Calma, amor. Tá. Tá. Tá, eu entendi! – Ele me estendeu o celular. – Satisfeita? – Murmurou bravo, tentando não chamar a atenção da mulher.

Meu sorriso se abriu e eu peguei o telefone de sua mão.

– Alô?

– Hey, garota. Você é fã dos One Direction, estou certa?

Mais um sorriso largo.

– Sim, eu sou! Por isso pedi ao seu marido que trocasse de lugar comigo. Eu preciso ter a chance de vê-los de perto!

Ela riu do outro lado da linha.

– Está bem, passe o telefone ao Tatá.

– Tatá? – Inqueri confusa.

– O Tadeu! Desculpa. – Riu mais.

Estendi o telefone de volta ao homem.

– Ela quer falar com você.

Ele tomou o telefone de mim. Fiquei prestando atenção ao que ele falava e às caretas que fazia.

– Mas, amor... Ok! Tá bom! Também te amo. – E desligou. Olhou para mim, meio bronqueado, meio desconfiado.

– E então...?

– Então que você conquistou minha mulher. – Sorri aberta e descaradamente. Ele tentou cortar meu barato. – Escuta aqui – começou a falar mais baixo –, eu não poderia estar fazendo isso, mas, já que não vai ter jeito, então que façamos isso direito. – Nós estávamos quase chegando na mulher que pegaria nossas passagens. – Vou dizer aos comissários de bordo que você precisa trocar de lugar comigo porque é afilhada da Marie...

Interrompi-o.

– Espera. Marie? A gata?

Dr. Tadeu me olhou num misto de confusão e indignação. Depois ele pareceu entender de que Marie eu estava falando e sua indignação pareceu ficar maior ainda.

– Você tá falando sério? – Não respondi. – Marie, minha mulher. – Ele falou quase gritando. – De onde você tirou essa história de gata? Marie é linda, sim, mas é humana. Bem humana. Tanto que se compadeceu de você! Agora pare de bobagem e preste atenção. – Já tínhamos entregado nossas passagens e estávamos nos encaminhando para o avião. – Você é afilhada da Marie. Estamos indo para Londres porque você vai passar um tempo conosco. A sua passagem está como classe econômica e a minha como primeira classe porque não fomos nós que fizemos a operação de compra e precisamos trocar de lugar, já que não poderemos ir os dois de primeira classe. O resto eu converso lá. Mas lembre-se disso para o caso de ser necessário!

Acenei positivamente, já tentando processar todas as instruções recebidas. Meu raciocínio costumava ter algumas paradas em momentos importantes e esse foi um deles. Comecei a bolar o que eu falaria para os comissários de bordo e as aeromoças assim que entrássemos pela frente do avião.

Os passageiros que estavam antes de nós na fila para entrar foram encontrando seus lugares e os que estavam atrás de nós passaram a nossa frente. Demos passagem a eles. Meu estômago tinha se contorcido em um grande e confuso nó e eu estava sentindo que iria passar mal se aquela situação constrangedora não acabasse logo. Dr. Tadeu conversava com os comissários de bordo, explicando nosso plano. Quer dizer, explicando a eles o que nós tínhamos combinado que iríamos dizer, é claro. Uma das aeromoças pareceu desconfiada. Ela apontou o indicador na minha direção enquanto falava algo ao Dr. Tadeu. Sorriu e eu percebi que ela estava tentando ser esperta e nos pegar na mentira. Decidi que faria minha melhor atuação naquele momento.

– Você é a...? – Perguntou-me enquanto se aproximava com aparente simpatia.

– Elizabeth. Sou Elizabeth Gentil, muito prazer. – Estendi-lhe a mão e ela me cumprimentou.

– Meu nome é Andressa. – Fez uma pausa e pareceu formular algo. – Você é o quê daquele senhor?

Minha barriga, que já não estava lá muito bem, pareceu implodir. Ela estava me testando. Procurei me lembrar de tudo o que eu tinha ouvido do Dr. Tadeu. Sou afilhada da mulher dele... Vou para a casa deles em Londres... Passagens erradas e trocas necessárias. Ok, eu estava pronta para responder.

– Na verdade, eu sou afilhada da Marie – pausei subitamente ao me lembrar da confusão que eu mesma fiz quando ouvi essa história do Dr. Tadeu pela primeira vez –, mas não a gata! – Falei enquanto chacoalhava as mãos de um lado para o outro, tentando impedir que ela trocasse as Maries. – Marie, a mulher dele. – Apontei na direção do advogado que estava me ajudando a me infiltrar na primeira classe do avião.

– Sim, entendi – a aeromoça riu fraco –, mas ela é sua madrinha?

– Perfeitamente! – Respondi. De onde veio essa expressão? – Ela é minha madrinha. Vou passar um tempo na casa dela e do... – Olhei para o Dr. Tadeu e vi que ele conversava com o comissário de bordo. O que estariam falando? Ele me olhou de soslaio e eu sorri com algo que me passou instantaneamente pela cabeça. Coloquei a mão na lateral da boca, de forma que meus lábios não pudessem ser lidos por Dr. Tadeu, e me aproximei da aeromoça como se fosse lhe contar um segredo. – E do tio Tatá. Ele odeia que eu o chame assim, diz que eu devo chamá-lo apenas de Tadeu, mas, como a madrinha o chama pelo apelido e ela é como se fosse uma tia para mim, não tem motivo para eu o chamar pelo nome, não é mesmo? Só não deixe que ele ouça isso ou ficarei sem passear na London Eye! – Brinquei.

A mulher pareceu se convencer de que eu realmente era afilhada da mulher do Dr. Tadeu e assentiu, mandando-me para o corredor da primeira classe e encaminhando meu comparsa até a saída, para levá-lo à classe econômica. Antes que ele saísse, senti que tinha esquecido de falar algo.

– Tio! – Ele não me olhou. – Tadeu!

O Dr. Tadeu se virou e me fitou um tanto interrogativo. Andei até ele e o abracei, o que foi uma ação completamente inesperada e compreendi que ele ainda estava forçando os miolos para explicar o que eu fiz, por isso não retribuiu. Rapidamente, ele entendeu minhas ideias e me abraçou também. Até forçou um riso!

– Valeu, tio. Você poderia ter deixado que eu ficasse na classe econômica, mas, só porque é a minha primeira viagem internacional, você trocou de lugar comigo.

Ele me olhou sarcástico, como se me dissesse: “Não abusa”.

– Você sabe que sua madrinha me daria uns bons puxões de orelha se eu não fizesse isso, né?

– Sei sim. – Ri. – Ah! Mais uma coisa. Lembra que eu troquei de número? Então, preciso te passar o novo. Dá aqui seu celular.

Ele pareceu me fuzilar internamente, mas torceu um pouco os lábios para o alto e me entregou o telefone de má vontade. Sorri com grande ironia – era a segunda vez que ele era obrigado a dar o celular pra mim. Digitei meu número e liguei, ignorando a chamada pelo meu próprio aparelho.

– Pronto, salva o número aí.

Entreguei-lhe o celular e ele o pôs no bolso traseiro da calça.

– Lembre-se de me esperar quando chegarmos a Londres. Ainda precisamos conversar, mocinha.

Gelei um pouco com suas palavras. Isso me lembrou meu pai quando vinha falar comigo depois de eu ter aprontado algo na companhia do Giovanni. Meu semblante recaiu um pouco, mas tratei de me recuperar antes que alguém percebesse o que eu senti.

– Claro.

A aeromoça o empurrou para fora pedindo agilidade, já que estávamos atrasando o voo, e eu sorri enquanto lhe acenava. Ele sumiu de vista. A mesma aeromoça que me interrogou e empurrou Tadeu – acho que já posso chamá-lo assim – para fora do avião me conduziu novamente ao corredor. Dessa vez, entrei. E completamente atenta. Olhei para um lado e para o outro, procurando qualquer sinal da banda, mas nada. Concluí em pensamento que era melhor não perguntar nada para a aeromoça, pois ela poderia desconfiar sobre minhas reais intenções, e me dirigi até a cadeira que ela me mostrou. Desapontada, me joguei contra a poltrona do avião, forçando um sorriso para a mulher que já saía de perto de mim. Eu tinha ficado numa cadeira da janela, do lado esquerdo do avião, mais ou menos na quarta fileira. Eram três lugares. Nem prestei muita atenção ao luxo da primeira classe; minha mente estava ocupada demais imaginando o que havia acontecido para os garotos não estarem no voo ainda. Nada me veio em mente. Decidi que o melhor a fazer seria relaxar e esperar que o avião decolasse, aí sim eu teria certeza se eles tinham embarcado ou não. Peguei o celular e os fones, ligando a playlist que estava tocando na hora do café da manhã, então ouvi o finalzinho de Best Song Ever e Story Of My Life começou. Reacomodei-me na poltrona e fechei os olhos.

10h01 – horário de Brasília.

O avião estava andando com velocidade na pista e eu percebi que cochilei rapidamente. Uma aeromoça estava repetindo que desligássemos os celulares e eu notei que havia esquecido completamente dessa norma. Retirei os fones e os guardei na minha mochilinha, desligando o celular e guardando-o num dos bolsos da jaqueta. Recostei a cabeça no vidro da janela e observei o avião subir até acima das nuvens. O sol brilhava intensamente e eu percebi que todo o frio que estávamos passando no aeroporto era por causa das nuvens, que encobriam a luz solar e não permitiam que seu calor atingisse o solo. Fiquei olhando para fora e esperando o momento em que os aparelhos eletrônicos seriam liberados.

Alguns minutos depois de subirmos ao alto céu, a aeromoça nos avisou que poderíamos religar os aparelhos e eu corri em pegar minhas coisas. Coloquei os fones novamente e percebi que só estava uma música adiante. Diana soou dentro da minha mente com o volume elevado. Fechei os olhos, na tentativa de dormir outra vez, mas o sol forte não me deixou desligar as funções cerebrais. Frustrada e já sem me lembrar o motivo disso, joguei-me na poltrona mais uma vez.

Quatro músicas depois, senti meu cabelo solto caindo no rosto e um calor me subindo a espinha pelo fato de que não estava frio no ponto em que nos encontrávamos. Olhei para o meu lado direito e vi um homem que parecia ter de 40 anos para mais. A poltrona ao lado dele estava vazia e eu agradeci mentalmente. Seria menos gente para notar minha loucura ao despertar enquanto ouvia One Direction. Sorri discretamente quando vi que o passageiro ao meu lado me observava. Virei-me rapidamente para a janela, incomodada com os olhares do homem sobre mim, quando senti minha bexiga apertada e foi só aí que eu me lembrei que ainda não tinha ido ao banheiro. Com toda aquela agitação da viagem e a falta de líquido descendo a minha garganta, eu não tinha sentido ainda a necessidade de visitar o toalete. Mas aquele era o momento. Pensei em chamar uma aeromoça para me dizer onde era o banheiro, mas criei vergonha na cara e escolhi procurar eu mesma. Não sou tão enferrujada assim. Com cuidado, passei pelo senhor que me acompanhava e comecei a seguir pelo corredor em direção ao meio do avião, não prestando muita atenção em ninguém, já que Strong estava tocando alto nos fones e essa era, sem dúvida, a minha música favorita do Midnight Memories. Meu sonho era que algum garoto chegasse e cantasse isso pra mim. Encaminhei-me até uma portinha e verifiquei se era o banheiro. Bingo. Mexendo a cabeça e fazendo um falso biquinho, na tentativa de não começar a cantar, entrei no cubículo.

[Coloca essa música pra carregar.]

Necessidades feitas, era a hora de lavar bem as mãos e arrumar o cabelo. Enxuguei os dedos no papel e joguei as folhas usadas no lixo. Meu cabelo estava bonito. Um castanho escuro, bem escuro, comprido quase até a cintura e todo onduladinho. Eu poderia não gostar de muitas coisas em mim, mas meu cabelo, definitivamente, não era uma delas. Eu não usava franja, mas, em compensação, meu cabelo era todo em degradê e repicado desde o queixo e, quando encolhia, dava uma impressão de franja. Ao contrário da Demi, por exemplo, eu amava meu cabelo. Ele estava legal daquela maneira, mas eu já estava morrendo de calor e decidi prendê-lo. Estava com um daqueles prendedores em forma de fio de telefone ao redor do pulso. Arrastei as mangas da jaqueta e juntei rapidamente meus fios grossos de cabelo num rabo de cavalo no alto da cabeça.

– Linda, baby. – Comentei com meu reflexo no espelho.

O cachecol estava fora de questão naquele momento, já que eu realmente não precisaria dele estando no avião. Retirei-o também. Achei estar pronta para sair da cabine do banheiro. [Play!] Fui saindo pela porta quando senti que meu corpo se movimentava sozinho ao som dos fones. Logo entendi o porquê. Happily. Essa deve ser a música com melodia mais gay de todo o CD, porque é muito contagiante e é alegre ao extremo, o que nos faz querer dançar sem parar. Fechei a porta da cabine e saí pelo corredor rebolando os quadris e girando meu cachecol roxo, que estava dobrado ao meio para não acertar ninguém, enquanto cantava em pensamento e mexia os lábios. Cheguei à minha poltrona dançando e passei pelo homem que se assentava ao meu lado com cuidado. Sentei-me novamente na janela e, dessa vez, as coisas pareciam mais divertidas. Era a magia de Happily. Eu aproveitava a melodia de olhos fechados na tentativa de não ver os olhares curiosos que poderiam ser direcionados a mim. Zayn cantava a ponte antes do refrão e eu estava ainda mais animada.

1, 2, 3!

I don’t care what people say when we’re togeeeeetheeer...

Meus braços estavam jogados no ar e eu os balançava de um lado para o outro enquanto cantava a música. Meu cabelo, mesmo preso, batia no meu rosto com toda aquela agitação. Eu amava fazer isso ouvindo essa música. Era minha música perfeita para dançar e me sentir feliz, assim como Strong era para me fazer sentir realmente mais forte e Right Now era num momento de sofrimento nostálgico. Ou sofrimento de fã, o que é quase o mesmo. Nostalgia de memórias que só existem na minha imaginação. Mexia-me mais devagar quando a música saía do refrão. Indo da esquerda para a direita, estava achando que meu companheiro de viagem já poderia estar incomodado. Não liguei muito para isso. Se ele se incomodasse, poderia me cutucar e avisar, então eu pararia. Até lá, meus braços continuariam para o alto; e boa sorte, meu senhor. O refrão começaria outra vez, entretanto, fui cutucada. Será que esse homem sabe ler pensamentos e decidiu acabar com a minha alegria justo agora?

Contrariada por não poder continuar dançando, tirei o fone do ouvido direito, já me virando para o homem na intenção de lhe perguntar, muito mal-educada, o que ele queria comigo. E eu teria feito isso, se fosse aquele homem que estivesse ali.

– Mrs Styles?

Notas finais
SOBREVIVENTES! Vosso prêmio vos espera na linha de chegada. Não sei se vocês gostaram do capítulo, se vão querer ler o próximo capítulo (já que eu já avisei que tá grandinho também UAHSAUSHAUS), mas, bem, vou deixar umas linhazinhas pra vocês ficarem com gostinho de quero mais, ok? :3 Não esqueçam de deixar seus reviews! Very important to me, babies. Xx, Lily. ************************************************************************************************** "Estávamos no ar e o sol brilhava forte. Queria que ele aparecesse assim em Londres. Já com o celular ligado, eu tentava me distrair com algum joguinho que havia baixado. Niall se ocupava de escrever algo, acredito que uma música, quem sabe, e Louis continuava a observar o céu. Liam e Zayn conversavam. O voo, para mim, estava realmente tedioso. Guardei o celular no bolso frontal da calça, notando o quão baixa ela estava, mas já havia desistido de mantê-la próxima à cintura há muito tempo. Passei a reparar no que ocorria a minha volta. As coisas também não estavam muito interessantes por lá, até uma garota se levantar. Ela tinha o olhar perdido e os fones de ouvido muito altos. Ou eu estava maluco ou ela estava ouvindo Strong. A nossa Strong. Ela passou e foi em direção ao banheiro. Eu até poderia dizer que eu estava mesmo maluco, que era Niall ouvindo o nosso próprio CD – o que seria ainda mais estranho – e que aquela era apenas uma garota bonita, mas não tive dúvidas de que era ela ouvindo nossa música quando encontrou a porta do banheiro. O Mrs. Styles que pude ver atrás de sua jaqueta praticamente brilhava para meus olhos. Sim, ela era uma directioner." ************************************************************************************************** Vejo vocês em breve!