Freedom Planet: Faith & Shock
58 Estórias do deserto - Parte 3 extra: Ainstisar alsabaqa
Notas iniciais
Uma semana depois...
Casa da família Al’Halawi | Noite
Sentadas frente a um altar decorado com gemas sortidas e velas aromáticas de cor vermelha, Tahn e sua mãe faziam uma oração a Kyubiko. Sua imagem estaca estampada em um quadro: era uma raposa feneco de aproximadamente três metros de altura, com a ponta das caudas vermelhas, contrastando com sua pelugem bege. De fato a gravura simbolizava a entidade ancestral, que preservava sua natureza.
Ao fim da oração, Tahn disse:
— Ela sempre está comigo, mãe... Aliás, com todos nós.
— Sim, minha filha... A Kyubiko ajudou a todos no passado, no presente... e no futuro. Ela é uma raposa que sabe escolher quem deve confiar...
— Sim, mãe... “A Kyubiko fortifica com suas chamas vermelhas quem és digno de sua confiança. Nelas, nas chamas vermelhas, está seu poder, e nela, a raposa feneco de nove caudas, está a sabedoria”.
— Exatamente...
Após um tempo em silêncio, a jovem não conseguiu esconder sua aflição:
— Estou com medo, mãe. Estou mesmo preocupada com o que terei de enfrentar com o Mu amanhã...
— Todos nós, minha chama linda. Mu é um garoto formidável. Vocês vão conseguir, eu sei...
— Mas... Eu nunca senti o que estou sentindo nesse exato momento.
— O que seria?
— Esse medo que sinto... Ele é diferente. É como se eu estivesse sendo julgada e... odiada só por eu ser o que sou. Acho que é assim que o Mu se sente o tempo todo...
— Minha filha, você deveria confiar mais em seus instintos. O Mu é a melhor definição de perseverança que eu vi em um feneco. Lutar sem as chamas é algo extraordinário... Faz bem você ter medo, porque isso te faz ser mais madura, ter cuidado e dar importância a vida. Mas você não pode se acovardar... Quem detém as chamas vermelhas da Kyubiko não pode ser assim.
Tahn abraçou sua mãe no mesmo instante que ela se emocionou, com lágrimas saindo de seus olhos. Ela, ainda chorando, disse:
— Eu não vou desistir! Por mim e pelo Mu... EU NÃO VOU DESISTIR!
— A Kyubiko está com você. Tenha fé, minha linda chama.
As duas remanescentes da família Panthoora tinham uma fé enorme pela Kyubiko. Não era para menos: a herança genética passada de geração a geração para casa uma das remanescentes desta família era “uma dádiva dos deuses de Avalice” como Gran Rajad sempre dizia. O orgulho por isso era grande. O credo em Persania era rico... mas poucos tinham conhecimento da Kyubiko.
Enquanto isso...
Casa da família Al’jazii | Noite
Indo até a casa de Mu, o jovem estava em seu quarto, pensativo e bastante inquieto. Mas, para conversar, eis que entrou em seu espaço o Sr Al’jazii.
— Oi, Musrie...
— Hm... Pai...
— Já está um pouco tarde. Não deveria ir dormir? Amanhã você terá um dia bem cheio...
— É por isso que não consigo dormir, pai...
— Ah sim... Não consegue relaxar...
— Não tem como relaxar. Sabendo porque estão fazendo isso comigo, fica muito difícil segurar a ansiedade. Eu só quero que termine, rápido e sem ninguém se machucar...
— Muito bem, meu filho... Eu entendi o ponto onde quer chegar.
— Hã?
— Escute, nós dois sabemos que isso é muito desgastante. E sabemos também que essa gente não gosta de você... Então vou te dizer uma coisa: abrace isso tudo. Não tente esconder... É um problema que precisa ser enfrentado de frente, com seriedade e sem arrependimentos.
— Pai...
— É isso mesmo que você pensou, Musrie: é sua vida em jogo. Seus sonhos, seus objetivos... Essa é sua vida. Nem eu ou sua mãe podemos fazer algo, é fato. Mas você pode. Eu só lamento por você ter de parar por tudo isso sendo tão jovem... Eu sempre trabalhei duro pra dar a vocês a melhor qualidade de vida possível em Persania, mas tem coisas que gemas não compram: honra. Por isso, no momento que você se sentir em uma situação adversa, quando a sua vida estiver em jogo... lute com tudo que tiver.
— Com tudo?! Mas...
— Nesse momento você vai descobrir que nem sempre usar de suas habilidades será o suficiente. Você deve entregar acima dos 100%!
— Acima?! Mas como isso é possível?
— Você saberá. Não existe uma explicação para se lutar acima dos cem por cento... O que você tem que saber é: lutar até seus ossos quebrarem, ir além do limite e fazer seu adversário saber que você é forte. A honra não está em vencer e sim valorizar a si mesmo. Vivo assim todos os dias. Meu bisavô disse a meu pai, que disse a mim... e agora digo a você. Ser um Persan é isso, Musrie: fazer o que dizem impossível possível.
Musrie ficou um pouco mais motivado, mas:
— Tenho medo de falhar e ferrar com tudo...
— Você tem medo de sonhar?
— Hã?! Claro que não!
— Tem medo de viver?
— O que?! Não!
— Você tem medo de sentir medo?
— Hã?! Como assim?!
— Não há nada de errado em sentir medo. Vocês jovens tem medo de tudo... Medo do escuro, de não atingirem seus objetivos, medo de tomar banho depois de comer... Jovens tem medo das coisas porque não entendem o mundo. Sabem pouco e essa ignorância é onde a magia da vida está: ter medo te coloca num estágio de atenção, onde você pensa duas vezes. O problema está quando você tem medo de ter medo: você esquece de enfrentá-lo. Você sabe porque?
— Não, pai... Porque?
— Simples, meu filho: você tem os meios, os fins e os objetivos. Mas o temor de sentir medo te impede de enxergar a única coisa que vai te fazer seguir em frente.
— Que coisa?
— Coragem. Com ela você consegue tudo a seguir. Perseverança. Esperança. Fé. Você tem atenção, tem meios de se proteger... Nada disso vai te ajudar se você não der o primeiro passo. Por isso digo, Musrie: no momento que estiver prestes a cair no abismo da perdição, quando não houver outra coisa a fazer, faça acima dos 100%! Use tudo que tiver, não se entregue...
— Mas e se eu falhar mesmo assim?
— Não existem falhas quando se mostra tudo que pode fazer. Isso valoriza tanto a você quanto a seu adversário. Honra, Mu. Faça disso sua motivação. Até agora só vi bons exemplos seus... e sei que sua honra se manterá intacta.
— Pai...
Mu correu até seu pai, o abraçando carinhosamente. Por muitos momentos complicados que o jovem teve, seu pai incondicionalmente o apoiou, fazendo com que seu espírito de lutador se fortificasse ainda mais. Mu nunca deixou de acreditar em si mesmo, mesmo durante sua depressão. Ele estava mais forte.
Mas desta vez ele teria a maior luta de sua vida.
No dia seguinte...
Magnanimous Arena | Início da noite
O pomposo ginásio da Academia Persania estava pronto para realizar uma edição extraordinária do exame Qabul Birasan. Longe de ser um evento mainstream, as formalidades foram muitas por parte do corpo docente da instituição de formação de Persans.
Mu e Tahn estavam no vestiário B, ao norte do lugar e, no outro extremo, estavam Cid e Gio. As salas segregadas Rubem um motivo bastante considerável, o que veremos a seguir.
Vestiário A | Setor Sul
— É, Gio... Chegou a hora da gente colocar essa dupla pra fora da academia.
— Isso mesmo, Cid. Precisamos mesmo aproveitar essa chance...
Os jovens se aprontaram quando, subitamente, a porta se abriu e, dela, surgiu o ministro Aldiiz. Cid, surpreso, disse:
— Ei... Eu conheço o senhor! É o ministro Aldiiz!
— Bom saber disso, jovem. Eu vim conversar com vocês dois...
— O que quer com a gente, senhor ministro?
— Cidal e Giomeh... Fico muito honrado em saber que dois jovens como vocês tem essa responsabilidade em mãos.
— Ah sim... Quer nos felicitar pela luta? Estamos muito motivamos e iremos vencer!
— Certamente... Eu creio que a vitória de vocês já é um fato. Mas quero facilitar as coisas para vocês...
— Facilitar?!
Cid e Gio poderiam ter total antipatia por Mu e Tahn, mas se existia uma coisa que eles não eram era:
— Não somos trapaceiros! – Disse Gio, convicto.
— Jovens... Acalmem-se. Eu também não sou e sequer compartilho tal ato repulsivo. Muito pelo contrário, aliás.
— Pelo contrário? Como assim? – Perguntou Cid.
— Permitam-me elucidar melhor as coisas: vocês irão lutar contra esses algozes das nossas tradições. São inimigos, deveras. E você sabem como devemos tratar tais indivíduos? Simples: com força.
— Mas carinho que não iríamos fazer mesmo. Onde está a surpresa nisso?
Aldiiz, com um sorriso maquiavélico brotando de seu rosto, disse em alto e bom som:
— Batam pra valer. Façam com que se arrependam de terem existido na nossa tão amada cidade. Mostrem a eles que Persania clama por ordem e por suas tradições. Tanto o Maleun quanto aquela garota devem sofrer na pele o que é trair sua pátria!
— O que?! O senhor quer que peguemos pesado? Mas... Mas isso vai contra as normas da academia! Vamos lutar sem proteções, e isso... – Cid foi interrompido.
— ... pode machulá-los. E sei... E daí?
— E daí? Mas...
— Jovens... Reflitam: ninguém se importa com eles. Eu vi o comportamento de seus colegas por essa semana... Acha mesmo que alguém vai reclamar?
— Mas os Dukes estarão lá e...
— Deixe isso comigo, não se preocupem. Aliás, seus únicos deveres serão varrer o chão com os dois, custe o que custar!
— Se-senhor... – Cid estava mesmo preocupado.
— Jovem Cidal... Você tem um dever para com sua pátria. Os fins justificam os meios. E de qualquer forma, eles poderão desistir a hora que quiserem. Vocês tem uma chance de ouro que eu sei que irão aproveitar totalmente. Então se preocupem em fazer o seu dever cívico e destruam o mal! Acabem com a raiz para que o caule broche, seus galhos apodreçam e que suas folhas murchem... pois os frutos carregam consigo o gosto amargo dos perdedores. Percebe? Vocês dois, postulantes nobres e puros, aquecidos por nossas tão adoradas chamas, farão disso tudo um marco! Vocês serão os responsáveis pela purificação!
As palavras fortes e “inspiradoras” proferidas pelo ministro fizeram com que Cid e Gio se enchessem de vontade. Certos de que estavam fazendo o bem, gritaram com força, exaltados pelas chamas.
Aldiiz havia conseguido conquistá-los, mostrando sua visão e sendo compreendido por eles.
Os dois estavam convictos.
Enquanto isso...
Vestiário B | Setor Norte
— Postulantes, o exame Qabul Birasan vai começar. Apresentem-se ao ginásio imediatamente.
O Duke encarregado de fiscalizar ao exame convocou a dupla formada por Mu e Tahn.
— É, Tahn... Chegou a hora... Vamos nessa.
— Isso aí... Vamos entrar, lutar, mostrar nossas habilidades...
— Sim... Vai ser rápido. Logo estaremos todos juntos no setor S. Todos nós...
O corredor que levava até ao ginásio tinha o mesmo isolamento acústico que o vestiário. Isso era para que a concentração no postulante não fosse quebrada até sua entrada a Magnanimous Arena.
Entretanto, ao abrir o portão de acesso ao ginásio, tudo isso foi dizimado dos dois: todas as cadeiras da arquibancada estavam tomadas por pessoas. Tahn logo se manifestou:
— Mas... O que significa isso?! Isso... Isso não seria só um exame?!
— Tahn... Essa gente... Eles... Quem são eles?!
O público, ao vê-los, expressaram sua emoção, cochichando aos poucos e começando a esboçar um tom mais de revolta e, após esse primeiro momento, vaias. Naquele instante foi constatado que o ambiente estava tomado por opositores... ou melhor dizendo: odiadores. Mas embora fossem uma imensa maioria, não eram todos: a mãe de Tahn estava junto aos pais de Mu na arquibancada, horrorizados pelo o que estava acontecendo. E, sentada ao lado deles, lá estava Ayane, que disse:
— Eu avisei a você, Mu... Agora arque com suas escolhas.
Seus pais ouviram isso... e a reação não foi legal de se ver.
Longe dali, na tribuna de honra, lá estavam o ministro Aldiiz, que estava fazendo companhia ao Sacerdote Dimintro Al’ma. Satisfeitos com a lotação do lugar, eles conversavam acerca disso:
— Tudo está indo bem, caro ministro. Foi um prazer ter marcado esse programa agradabilíssimo para os fiéis da Wings of Salvation from the Flames of Persania.
— Precisamente, nobre senhor. Hoje veremos uma celebração as Flames of Persania e, como evento principal, sua aplicação contra aos traidores de nossas tradições.
— De fato... Com isso a utilização de chamas trará ainda mais visibilidade para com os fiéis. Um espetáculo peculiar, devo dizer, e oportuno.
— Fico extremamente cativado por suas palavras, nobre Sacerdote.
— Estou cativado por sua devoção, ministro Aldiiz. QUE AS CHAMAS DE PERSANIA QUEIMEM O MAL!
— Sim! Justamente!
O semblante contente do Sacerdote Dimintro Al’ma era visível para todos, mais do que da última vez. O evento parecia ter deixado claro ainda mais sua satisfação, juntamente a Aldiiz. Esse último estava confiante, bem mais do que costume.
E tudo isso se somou ao comportamento na área de combate da Magnanimous Arena: perfilados uma frente do outro, as duas duplas se encaravam enquanto o Duke encarregado lhe diziam as regras:
— Esse será um duelo aberto. Não haverá proteções de corpo e cabeça, então sejam firmes mas não violentos. Esse duelo será dividido em dois rounds. A dupla vencedora será declarada quando:
A dupla adversária desistir da luta;
O score final definido pelos Dukes observadores;
A dupla adversária ter os dois integrantes inconscientes ou fora de combate, ou seja, algo que os impeça de lutarem.
Essas regras eram totalmente diferentes do que Mu havia encontrado até hoje. Tanto que o jovem protestou:
— Ei, espere... Inconsciente?
— Sim, postulante. Alguma dúvida?
— Como assim “inconsciente”? Tipo, estamos em um exame e não em uma batalha campal.
— Essas regras foram instituídas pelo nosso excelentíssimo diretor Jismael. Entretanto, caso seja de sua decisão, pode desistir desse duelo imediatamente!
— Não... De boa. Eu vou lutar... – Disse, mostrando preocupação.
Tahn percebeu a insegurança de Mu mas, quando pensou em confortá-lo, Cid aproveitou o momento para dizer:
— No final desta luta, vai ter sorte se ainda conseguir andar, garota bonita.
— Como é? – Disse a jovem, surpresa – Porque está falando isso, idiota?
— Simplesmente não vamos pegar leve com vocês... O Duke deu uma chance de se salvarem, mas estou vendo que eu e Gio teremos que esfolar vocês dois aqui, na frente de todos. Não será só uma vitória nossa: vamos livrar a academia de duas sementes do mal que são uma ameaça.
— Eu sabia que você era um idiota, mas não esperava que chegaria a esse nível...
— Diga o que quiser. Vai ser divertido vê-los gritarem de dor e implorarem que paremos. Pode ter certeza que iremos parar, mas se implorarem com jeitinho...
Mu não suportou ficar calado ouvindo aquilo. Se ele esperou até agora pra fazer algo, foi parte não estava acreditando:
— CID, MAS QUE BESTEIRA VOCÊ ESTÁ FALANDO? PERDEU A RAZÃO DE VEZ?!
Cid, demostrando nojo em seu rosto, se limitou a dizer uma única palavra. Aliás, ele gritou com muito ódio no coração:
— MALEUN!
Seu grito ecoou, chegando até às arquibancadas. E delas, para desespero dos pais de Mu e da mãe de Tahn, todos os fiéis do culto às chamas de Persania fizeram um coro ensurdecedor:
MALEUN!
MALEUN!
MALEUN!
Todos estavam dizendo essa palavra torpe, como uma extensão da provocação que Cid havia feito. E ele, sorrindo, disse a Tahn:
— Todos aqui estão no lado certo. VAMOS LIMPAR NOSSA ACADEMIA HOJE! – Disse, levantando um de seus punhos – AS CHAMAS DE PERSANIA PREVALECERÃO ETERNAMENTE!
Parecia um espetáculo armado, mas tudo era realizado espontaneamente. Cid e Gio foram ovacionados antes mesmo do combate começar. Fazendo pouco, Cid conquistou a empatia do público, que lotava a Magnanimous Arena.
Após esse acontecimento nada usual, as duplas estavam no certo, aguardando o início do duelo. E Tahn, olhando como Mu estava assustado, disse:
— Ei, Mu... Está tudo bem?
— Não, Tahn... Não está...
— Mu?! O que está falando?!
— Tem muita gente aqui, Tahn... Você ouviu do que eles me chamaram...
— Mu, não deixe que isso te atrapalhe!
— Tarde demais, Tahn... – Disse, com o semblante baixo.
Sem querer saber de nada detalhes, o Duke enfim anunciou o início do combate:
— Postulantes, irá começar o exame Qabul Birasan! Façam o seu melhor... LUTEM!
Com Mu ainda um pouco abalado com o que havia acontecido, Tahn partiu para o ataque, indo em direção a Cid. Ela, irritada e desferindo uma sequência de socos contra o feneco, disse:
— VOCÊ É MAIS FEDIDO QUE EU IMAGINAVA, SEU IDIOTA!
— O mal nunca irá triunfar! NUNCA! – Disse, se esquivando dos ataques.
— O que?!
Sem mais nem menos, uma gama enorme de chamas é concentrado em uma das mãos de Cid, sendo arremessado contra Tahn. Usando de suas habilidades de dança, ela conseguiu evitar o ataque, mas uma constatação abismal veio em seguida: era uma enorme bola de energia, que foi em direção as laterais da Magnanimous Arena, causando uma explosão absurda. Embora a torcida tenha vibrado, Mu e Tahn se assustaram, olhando sem acreditar no tamanho do poder que Cid usou para:
— *... nos atingir com isso?! Se essa bola atingisse a Tahn, na certa ela...* — Pensava Mu, sendo interrompido.
Antes que o jovem pudesse completar seu pensamento, ele foi atingido por Gio em sua barriga com:
— FLAME PILAST! (Pilasta de Chamas, em inglês)
Gio tinha a habilidade de criar barreiras, mas também de moldar formas e usá-las para atacar. E foi justamente assim que golpeou Mu violentamente, o jogando para longe. A proporção do golpe foi tanta que ele se chocou contra as margens do ginásio, chegando até mesmo a cuspir sangue. Com um só golpe Mu foi ferido, tamanha a intensidade do movimento de Gio. Indo ao chão ajoelhado e abraçando o dorso atingido, entre sentia dor enquanto a torcida gargalhava satisfeita por sua queda:
— *Eles... Essa gente está contente por eu... eu estar sentindo dores?! Mas... porque Gio... Porque ele me atingiu assim? Está doendo... muito!*
Nesse momento de pensamentos profundos, Mu perdeu totalmente a noção do que estava prestes a ocorrer: Gio estava concentrando suas chamas. Por sorte Tahn percebeu e, ignorando Cid, ela correu até Mu, gritando:
— MU, SE CONCENTRA! GIO VAI TE ATACAR!
— O que?!
E ela fez exatamente isso:
— FIRE BARRIER! – Gritou Gio, criando uma massiva barreira de fogo.
O muro de chamas percorreu vários metros em direção a Mu, iluminando o percurso. Mu não teria como fugir nem se defender, mas Tahn era ágil o suficiente para chegar a tempo e, usando suas chamas, atingiu o muro com bastante força, desfazendo o ataque de Gio. A jovem, preocupada, disse:
— Você está bem, Mu?
— Não... Estou péssimo...
— O que?!
— Tem algo errado, Tahn... Tem algo muito errado nisso tudo...
Poderia ser uma análise tardia o que Mu havia feito: Cid, usando de toda sua força naquele momento da luta, voltou a concentrar com muito mais intensidade que antes suas chamas, dizendo:
— Regra número um do código dos Postulantes a Persan da Academia Persania: se o inimigo ousar denegrir e/ou ridicularizar as Flames of Persania, seja como for, direta ou indiretamente, isso se tornará um crime! Sem perdão... Sem remorso algum... TOMEM ISSO! INFIJAR ALNIYRAN ALQAWIA — انفجار النيران القوية ! (Explosão das Chamas Poderosas em árabe)
Uma imensa bola de fogo é arremessada por Cid, que ia até deixando uma marca chamuscada no chão tão grande era seu calor. Mu e Tahn não tiveram tempo de se jogarem para os lados, escapando de serem acertados diretamente, mas não sem danos: a forte explosão que veio após a bola se chocar contra uma coluna de proteção fez com que estilhaços e chamas acesas voassem para todos os lados, atingindo aos dois de raspão, fazendo até mesmo feridas a eles. Até mesmo a platéia sofreu com isso. Mas pelo frisson que estavam com a intensidade do golpe, eles sequer se importaram com isso, vibrando ainda mais.
Tahn, se levantando enquanto se limpava, disse:
— Esse poder... O desgraçado é forte mesmo!
Ela olhou para Mu, que anda estava no chão. Ela logo gritou:
— VAI LOGO, LEVANTA!
— Ah... – Mu ainda estava pasmo – Olha isso tudo que está acontecendo, Tahn...
— Temos que lutar, Mu!
— Tem muita coisa errada acontecendo...
O feneco não tinha ideia do que estava ocorrendo. E essa sua dúvida só trouxe desatenção para ambos, já que Cid e Gio não cessaram seus ataques. A luta seguiu com imensa superioridade por parte da dupla adotada pelo ministro Aldiiz, juntamente com a torcida dos membros da Wings of Salvation from the Flames of Persania, inflamando o ambiente hostil contra Mu e Tahn. O Sacerdote Dimintro Al’ma estava entregue a algazarra, observando suas “tão adoradas chamas de Persania” que sempre exaltava com tanto entusiasmo.
Por mais que Mu, mesmo demostrando empenho (um pouco disso, aliás) contra Cid, era visível a superioridade de seu antigo rival, tento seus golpes e sequencias anulados com facilidade por causa do poderio pirotécnico de Cid. Mu, por diversas vezes que tentou atacá-lo, chegou a exaustão inclusive, mas seu oponente era forte e muito implacável. Mu estava recebendo golpes flamejantes, o deixando até com marcas em sua roupa, sendo castigado sem pena alguma.
Igualmente a ele, Tahn vai tinha vida fácil contra Gio, que controlava as ações da luta usando de suas barreiras. A jovem perdia no poder ofensivo, mas ganhava na sua agilidade. Seus dotes como dançarina lhe proporcionava essa vantagem, mas não era o suficiente.
Separados e sabendo de que não tinha o necessário, ela ficou em uma situação que só lhe restou:
— Kyubiko no Akai Hono — 九尾狐の赤い炎!(Chamas Vermelhas da Raposa Feneco de Nove Caudas, em japonês).
Mas bastou um segundo da jovem começar a manifestar suas chamas para que Gio criasse um tipo de muro com chamas, onde Cid, estando na vantagem contra Mu, simplesmente arremessasse contra Tahn o:
— MUHAFIZ ALLAHAB – محفز اللهب ! (Catalizador de Chamas).
A habilidade especial consistia em seu um tipo de jato de ar quente quase invisível, que atingiu Tahn e quebrou seu ritual de emanação das chamas vermelhas da Kyubiko.
— Acaba com ela, Gio. Aqui eu já estou terminando também... – Disse Cid, voltando a golpear Mu.
Interrompida durante sua prece pelas chamas vermelhas, Tahn perdeu a concentração, sendo golpeada com força por Gio com um chute em sua barriga, a jogando para longe onde Mu estava. Ela precisou recuar, pulando para trás a fim de escapar da barreira de fogo de Gio, que fez questão de separar os dois.
Mu agora estava sozinho.
Esse era o momento que Cid estava tanto esperando.
Parecendo não ter do que se preocupar, o jovem lançou conta Mu uma saraivada de bolas de fogo uma atrás da outra, assustando-o. O feneco precisou se esquivar, mas ele não estava lutando contra um qualquer.
— Você não vai escapar, Maleun... – Dizia, observando os movimentos de esquiva de Mu.
Enquanto isso, Gio atormentava Tahn com suas barreiras de fogo, fora os ataques poderosos com suas pilastas. Ela, sendo pressionada, disse:
— Vocês nunca lutaram assim! E você machucou o Mu!
— Em breve tudo vai ter terminado! Desista dessa luta, garota!
— Desistir? Nunca faremos isso!
— Você fez sua escolha... RECEBA MINHAS CHAMAS! FLAME PILASTS!
Ele arremessou duas pilastras poderosas com suas chamas, onde Tahn tentou acertá-las para evitar maiores danos com vontade de fogo, mas:
— O que?! Ele mandou duas de propósito para evitar que meus poderes desmantelassem esse seu golpe!
— TENHA O SEU FIM AQUI, SUA GAROTA INTROMETIDA! AHHH!
As pilastras atingiram Tahn em cheio, com uma explosão ocorrendo. Logo o corpo leve da raposa feneco foi jogado para trás, indo até o solo. Nesse momento era impossível Mu não ter percebido o dano que sua amiga tinha recebido.
E era isso que Cid queria desde o início.
Ele, novamente se aproveitando, esmurrou Mu em sua barriga, causando um dano severo no jovem. Não satisfeito, manifestou chamas em suas duas mãos, para potencializar ainda mais sua golpes. Sem pensar duas vezes, golpeou o rosto de Mu com dois violentos socos, o ferindo em seu nariz, que começou a sangrar. E, para completar, o socou novamente na barriga com muito mais força, lhe tirando quase todo o ar e o fazendo cair de joelhos.
Sentindo fortes dores e sangrando, Mu estava devastado psicologicamente falando. Ele não acreditava no que estava acontecendo.
— *Vou... Vou terminar assim? Cid... Gio... Eles... O que houve com eles e... A Tahn... Como ela está?!*
A sua frente, imponente, lá estava Cid. Recebendo glórias de todos do culto das chamas, ele concentrou mais uma vez suas chamas em uma das mãos. Uma imensa bola de fogo surgiu, possivelmente seu golpe final para terminar com a luta.
Tahn estava caída... e Mu de joelhos.
O fim estava próximo...
Mas o alarme indicando a primeira parte soa:
— FIM DO PRIMEIRO ROUND!
Ainda que o público tenha protestado, era de fato um exame... ou deveria ser. O fim do round frustrou os planos de Cid, que olhou com desprezo para Mu em seguida. Lhe dando as costas, caminhou para seu corner, onde um dos Dukes o chamou para se reunir com Gio e retornarem para seu vestiário. Mas antes que Cid se afastasse mais, Mu, sagrando e com o semblante melancólico tanto quanto uma depressão, disse com a voz embargada:
— Cid... Como pôde fazer isso... Cara... Nós éramos amigos... NÓS ÉRAMOS AMIGOS!
Mu foi ignorado, tendo de aguentar as gozações do grande público, fora as vaias e sinais de repúdio. Ele olhou ao redor e começou a chorar. Desta vez ele percebeu definitivamente de que nada havia mudado quanto ao que ele representava a Academia Persania. Ferido e com o a sua moral esfarelada, usou o pouco de força que lhe restava e seguiu até Tahn, mesmo que com dificuldades. A jovem feneco estava no chão, tossindo como se estivesse com falta de ar e ofegante. Era visível o nervosismo que estava sentindo.
Os dois estavam tecnicamente derrotados.
Enquanto isso...
— AYANE, SUA INCONSEQUENTE!
O Sr Al’jazii estava furioso com sua filha. Ela, mostrando tranquilidade em seu rosto, nem parecia a mesma pessoa:
— Eu o avisei, meu pai. Mu buscou por isso...
— Porque não nos avisou sobre essa balbúrdia toda antes disso acontecer?
— Existem lições a serem aprendidas, pai. Mu desrespeitou nossas chamas... Ele tem que pagar por seus atos... Tudo isso é culpa dele!
— CULPA?! ELE É SEU IRMÃO! SUA FAMÍLIA! SANGUE DO SEU SANGUE CORRE PELAS VEIAS DELE!
— Mas não as Flames of Persania.
A decepção do Sr Al’jazii era muita. Ele, furioso, se controlou para que não chamasse mais atenção. E colocando no juízo, disse:
— Seu cinismo me incomoda a um ponto que você não imagina, Ayane. Se Mu se machucar por causa disso, pode ter certeza que muita coisa vai mudar na sua vida...
— Quero o bem para ele, não me entenda mal!
— Bem?! Pare de ser esse tipo de pessoa doente e fanática! Eu te dei tudo do melhor, Ayane... Inclusive instrução!
A Sr Matsuzawa ouvia tudo aquilo, apoiando seu marido, mas após um tempo ela avistou caminhando cercado por Dukes o:
— MINISTRO ALDIIZ?! SEU CANALHA FACÍNORA!
— O que? – Disse, olhando para ela – Aquela mulherzinha ignorante veio então...
— GRR... EU TENHO CERTEZA QUE VOCÊ, DESGRAÇADO, ESTÁ POR DETRÁS DE TUDO QUE ESTÁ ACONTECENDO!
— Um evento que envolve jovens postulantes na Academia Persania que sonham serem Persans... Eu sou o responsável também.
— NÃO TRIPUDIE DA MINHA INTELIGÊNCIA! FOI VOCÊ O MISERÁVEL QUE COLOCOU O MEU FILHO E SUA AMIGA NESSE DUELO VIOLENTO!
— Uh... Mulher, abaixe sua voz...
— DESGRAÇADO! GRR... – Gritou, indo em direção ao ministro.
Entretanto, a Sra Matsuzawa foi impedida pelos Dukes, sendo segura pelos braços com brutalidade.
— ME SOLTEM!
— Mulher... Eu já estou farto de suas intrusões ante a mim. Esse exame é necessário para filtrarmos os postulantes aptos dos não aptos. Não existe nada errado acontecendo... E se insistir nessas acusações sem fundamento, pode ter certeza que será presa!
— SEU CALHORDA! Não se esconda por detrás desses Dukes!
— Oh... Então você deseja ir para frente com sua “luta pela justiça”? Tenha dignidade...
— VOCÊ É UM IDIOTA!
O Sr Al’jazii precisou tomar partido do que estava ocorrendo. Sua esposa estava com total razão de se manifestar, mas:
— Querida... – Disse, lhe tomando a frente – Não há o que fazer a não ser respeitar essa decisão.
— O que?! Ele está praticamente jogando contra nosso filho todo o preconceito dessa gente aqui que veio do nada e você quer que eu simplesmente deixe pra lá, meu esposo?
— Não... Quero que você continue assim, do mesmo jeito. Só que faça isso sem precisar que esse energúmeno fique olhando nós desprezarmos sua conduta e presença.
Aldiiz não gostou nem um pouco do que ouviu:
— Que audácia a sua de referir a mim com esses termos tão ofensivos!
— Tenho mais de onde esses vieram, “renomado” ministro...
— Mas que... – Ele foi interrompido.
— TRATE DE CALAR A SUA MALDITA BOCA! – Gritou Sr Al’jazii , continuando – Esse evento, essa celebração ao ódio que estão fazendo, não vai ficar impune. Senhor ministro Aldiiz, se alguma coisa acontecer a meu filho, pode ter certeza de que farei de tudo para eu ser preso e trancafiado no mais escuro calabouço de Great Desert! Porque o que farei a você será lembrado por todos os seus descendentes...
— Espere... Está me ameaçando?
— Eu não sou de fazer ameaças. Isso é um aviso... Então esteja preparado.
Diante Dukes, Sr Al’jazii confrontou Aldiiz com total coragem. O ministro, visivelmente intimidado, se retirou rapidamente, sendo escoltado. Sra Matsuzawa, surpresa, virou para seu esposo, dizendo:
— Zahiri... Você...
— Nanami, você me conhece. Sabe muito bem que eu sou uma pessoa equilibrada e bastante paciente. Só que quando mexem com minha família, eu sou tão durão quanto você...
— Querido...
Ela o abraçou, sabendo que seu sentimento era o mesmo. Mas eles não estavam sozinhos a causa.
Enquanto isso...
Vestiário B | Setor Norte
O espaço reservado a Mu e Tahn estava em silêncio. Enquanto a jovem estava deitada a uma cama, se recuperando, o feneco era tratado em seu rosto pela mãe de Tahn.
O clima era de derrota, como esperado. Tahn, virando seu rosto, pôde ver Mu aéreo, com um olhar vazio e sem direção. A Sra Panthoora, o tratando, disse:
— Tem algo mórbido em tudo isso... Onde já se viu permitirem que postulantes pudessem lutar sem limite algum?
— Mãe... – Disse Tahn, se sentando a cama – Isso não foi nada... Ah... – Ela ainda sentia dores.
— Fique deitada, Tahniiswara!
— Não... Temos que...
— BASTA! Deite-se agora! Você foi atingida em seu dorso por aquele inconsequente das pilastras! Por sorte você é uma rainha peso pena, senão...
— Ah... – Tahn se deitou, dizendo – Nem fale isso...
— Falo sim! Descanse!
A Sra Panthoora tinha um pouco de conhecimento de medicina, já que foi criada junto a seu irmão. Mas como essa era uma noite de acontecimentos escusos, eis que a porta se abre: era um Duke, que logo disse:
— Senhora, devo pedir que se retire desde espaço imediatamente!
— O que?! Ninguém veio analisar e tratar deles!
— Temos uma comissão médica exclusiva para qualquer postulante. Basta assinarem desistência do exame Qabul Birasan e serão devidamente tratados e conduzidos ao hospital de Persania.
— Desistir?! Eles só terão atendimento médico se desistirem? Minha filha foi severamente atingida no dorso e por sorte ela não sofreu coisa grave! E esse jovem, o Mu, teve várias escoriações pelo corpo e até o rosto dele está inchado!
— Esse é um exame de aptidão de combate e resistência. Persans são treinamos para irem ao extremo. Então tudo isso faz parte do exame, senhora. É meu último pedido para que saia deste espaço e me siga até a área externa!
— Mas...
Entendendo o momento, Mu segurou em uma das mãos da Sra Panthoora e, lhe olhando nos olhos, explanou:
— Vá... e muito obrigado, senhora.
— Mas... Vocês...
— Vamos ficar bem... Agora vá.
Atendendo ao pedido cortês de Mu, a moça deixou o lugar, não sem antes se despedir de sua filha.
Sozinhos, o silêncio se manteve por alguns segundos, até Tahn dizer:
— Você não está pensando em desistir, né?
— Sem piadas, Tahn...
— Tá, levamos uma surra. Eles são fortes para um caramba...
— Para, Tahn...
— Que foi? Nunca levou uma surra?
— Para...
— Ei, eu estou...
— PARA, TAHN! CHEGA!
— Mu... O que foi?!
— Esta tudo errado nisso...
— Errado? Mu, você lá no ginásio estava estranho... Nem parecia você...
— Você não entende... Tipo, nem te culpo... Não tem como você saber de tudo mesmo...
— O que foi?
— Esse ódio todo... Eu ouvi todo mundo me chamando de Maleun, rindo de mim, tirando sarro da minha cara... e enquanto isso eu era esmurrado pelo Cid... Você não tem ideia do que eu estou sentindo...
Mu começou a chorar, bastante até. Isso chegou a assustar Tahn.
— Mu... O que... Mas...
— POR QUANTO TEMPO MAIS EU TENHO QUE LUTAR? PORQUE ELES TEM TANTO ÓDIO POR MIM?! EU SÓ QUERO VIVER EM PAZ SEM DESEJAR O MAL A NINGUÉM! Porque tanto ódio? Porque tanta encarnação por eu não ter chamas? A um ano atrás eu era muito inocente... Aí veio o dia do Aflorar de Nirvana e tudo mudou... Eu enfrentei tudo do pior, um ódio enorme de todos os postulantes... Eu caí, me derrubaram mais, esfregaram na minha cara toda essa desgraça de não ter as Flames of Persania...
Mu desabou em lágrimas. Seu choro ecoou pela sala, emocionando Tahn. A jovem, também com lágrimas nos olhos, tem um esforço e se levantou, caminhando em direção a seu amigo, que continuou:
— Aí você apareceu na minha vida... Eu tive preconceito por você também...
— Mu, esquece isso... Ah... – Ela quase caiu no chão, mas continuou a caminhar lentamente.
— Você disse que eu estava estranho lá na luta, Tahn... Sabe porque? E se fosse outro a não ter as Flames of Persania? Eu teria o mesmo comportamento do Cid e do Gio...
— Não fala isso, Mu!
— Como não dizer? Eu ia ser o mesmo feneco odioso que eles são comigo... Não entende? Eu seria um desgraçado, um feneco com chamas preconceituoso e violento... NÃO VÊ, TAHN? EU SOU UM AMALDIÇOADO! SEJA COM OU SEM AS CHAMAS!
— NÃO, VOCÊ NÃO É! – Disse, se desequilibrando.
— Ah?! TAHN! – Disse, correndo para acudi-la.
Por sorte Mu chegou a tempo, evitando que sua amiga fosse ao chão. E ela, sorridente, disse:
— Haha... Tá vendo? Como que um cavalheiro como você poderia ser uma sementinha do mal?
— Isso não tem graça, Tahn! Você poderia ter se machucado!
— Poderia mesmo... Mas olha só: você me salvou, valoroso guerreiro divino!
— Será que tudo pra você é uma brincadeira?
—"Levar a vida a sério sempre vai te fazer ficar velho cedo”... foi o que meu pai disse pra mim várias vezes.
— O que tem isso?
— Mu, falando bem sério agora... Essa gente que você disse que te odeia... Eles estão mesmo certos?
— De que sentido está falando? Eu não tenho as chamas...
— Não... Não é sobre você ter as chamas ou não. Bobo, quero dizer se eles te conhecem de verdade. O que de errado você fez a essa gente maluca das arquibancadas? Nada. Você nem conhece... e nem eles a você.
— Cid e Gio, Tahn... Eles eram meus amigos. Crescemos juntos, desde o educandário... Juramos nos formarmos como Persans juntos... E veja o que se tornaram. É isso que me machuca mais, Tahn. Meus melhores amigos, que conhecem muito de mim do mesmo jeito que eu a eles, que brincávamos juntos, nos divertimos... E no pior momento da minha vida, me ignoraram e me surraram até tirarem sangue de mim...
— Mu... – Disse a jovem, o abraçando forte – Eu sinto muito por tudo isso... Eu sei que você carrega uma barra gigante, mas não tinha ideia de como você e eles eram próximos...
— Eu sempre vivi na esperança de tê-los de novo a meu lado, da gente se reunir no bosque da cidade e conversar groselha... Só que agora... Eu só vejo ódio no rosto deles e dessa gente lá de fora... Isso machuca, Tahn... Dói demais... Por isso eu disse essas coisas ruins que eu penso pra você... Me desculpa.
— Eu entendo... E não se desculpe! É que... Eu não tinha mesmo noção do que isso te causava... Eu que devo desculpas...
— Não me deve nada, Tahn. Eu que devo muito a você... Esteve a meu lado todo esse tempo... Me apoiando sempre.
— Mas... O que vamos fazer agora? Temos que continuar com a luta...
Os dois agora estavam cabisbaixos.
A situação era desesperadora. Eles sabiam que tudo de ruim estava lá fora e talvez ficasse ainda pior, insuportável.
Os dois estavam sentados ao lado do outro, abraçados. Mu e Tahn compartilhavam o mesmo sentimento naquele instante.
Eles sentiam medo... Um temor nunca antes sentido.
Eram tão jovens e estavam enfrentando todo o ódio daquela gente desconhecida e dos postulantes mais treinados e capacitados da Academia Persania.
Para Mu, aquele era... o abismo.
Em sua intimidade...
Bem no interior de seu subconsciente...
No ponto mais profundo de sua mente...
Lá estava uma frase que lhe veio como que por automático.
“... nós dois sabemos que isso é muito desgastante. E sabemos também que essa gente não gosta de você... Então vou te dizer uma coisa: abrace isso tudo. Não tente esconder... É um problema que precisa ser enfrentado de frente, com seriedade e sem arrependimentos...”
Um grande pulsar no lado esquerdo de Mu veio...
“... é sua vida em jogo. Seus sonhos, seus objetivos... Essa é sua vida. Nem eu ou sua mãe podemos fazer algo, é fato. Mas você pode. Eu só lamento por você ter de passar por tudo isso sendo tão jovem... Eu sempre trabalhei duro pra dar a vocês a melhor qualidade de vida possível em Persania, mas tem coisas que gemas não compram: honra. Por isso, no momento que você se sentir em uma situação adversa, quando a sua vida estiver em jogo... lute com tudo que tiver...”
O pulsar se tornou mais constante...
“... Não existe uma explicação para se lutar acima dos cem por cento... O que você tem que saber é: lutar até seus ossos quebrarem, ir além do limite e fazer seu adversário saber que você é forte. A honra não está em vencer e sim valorizar a si mesmo...”
Era seu coração. Seu subconsciente estava lhe dando as respostas...
“Coragem. Com ela você consegue tudo a seguir. Perseverança. Esperança. Fé. Você tem atenção, tem meios de se proteger... Nada disso vai te ajudar se você não der o primeiro passo. Por isso digo, Musrie: no momento que estiver prestes a cair no abismo da perdição, quando não houver outra coisa a fazer, faça acima dos 100%! Use tudo que tiver, não se entregue...“
Seu coração pulsava forte... como ele sempre foi. E instintivamente, para estranheza de Tahn, o jovem feneco fez uma pergunta a si mesmo:
— Mas e se eu falhar mesmo assim?
E com alto e bom som, ele ouviu de dentro de sua mente, proveniente de seu subconsciente, a última frase que seu pai lhe disse:
“Não existem falhas quando se mostra tudo que pode fazer. Isso valoriza tanto a você quanto a seu adversário. Honra, Mu. Faça disso sua motivação. Até agora só vi bons exemplos seus... e sei que sua honra se manterá intacta.”
“A minha honra...
O que eu sou e o que represento...
Ela deve se manter a mesma.
Eu sempre lutei... contra tudo e todos.
Nunca me abati...
Nem me escondi...
Então...
Eu devo lutar...
Eu devo mesmo lutar...
EU VOU LUTAR ATÉ O FIM!”
Mu levantou sua cabeça, dizendo:
— Chega de ser bonzinho...
— Hã? O que foi, Mu?
— Chega de chorar, Tahn... Chega de ter medo.
— Uh?! Que foi? Não me diga que a chama do valoroso guerreiro divino acendeu de vez agora? – Disse, com um sorriso no rosto.
— Pode crer que sim... – Ele também sorriu, mas com confiança.
— Ótimo... Então o Mu que eu estou vendo é o garoto que é o preconceituoso, que nunca foi, ou o amigo que eu sempre tive desde o início?
— O amigo... e rival, que você sente teve desde o início.
Essa frase definitivamente trouxe uma alegria imensa a Tahn.
— Espera... Rival? Você me tem como rival, é isso?
— Sim... Só você tem as qualidades necessárias pra ter a capacidade de me vencer...
— Uh uh... Está 20 a 19 pra mim, lembra? Quem é o freguês aqui é você, nerd!
— Ah mas isso vai mudar... E eu vou fazer questão de ser o nerd durão dessa vez...
— Espera... – Disse, confusa – Não me diga que...
— Chega de pegar leve. Hora de pegar pesado, muito pesado, Tahn...
— Tipo?
— Tipo ir além dos 100%... Vamos acabar com tudo. Sem limites... Essa gente está esperando que nós dois sintamos o ódio deles e abaixe a cabeça... Não vamos entregar isso assim pra eles... Então, vamos com tudo! – Disse o feneco, se levantando.
— “Estou jogando fora a cautela. Como vai ser?” – Tahn também se levantou.
— Hã?! O que é isso?
— É o que meu pai disse pra mim uma vez. No momento que tudo estiver bem complicado, não se segure. É o que você quer fazer... e tem meu total apoio, “nerd durão”!
— Isso aí... Exatamente!
— E porque está se vangloriando por ser nerd assim?
— Vamos lutar como brincávamos juntos... Lembra?
— Ah sim... Aquilo era uma história e... – Tahn arregalou seus olhos espantada – PELA KYUBIKO QUE TANTO FAÇO PRECES! Você quer lutar igual quando nós encenávamos? Nossa, Mu... Todo mundo vai ver!
— É para verem... Para o bem de todos... e o nosso.
A bela feneco que detinha as chamas vermelhas da Kyubiko abraçou Mu com força, como se isso fosse um sinal de aprovação. Mas porque esse significado tão singelo? O que continha nessas brincadeiras que os dois citaram?
Voltando um pouco tempo, justamente nos finais de semana que Mu e Tahn se reuniam e tiravam para se divertirem, a jovem sempre o levava para uma área próxima ao condomínio que morava. Ema um tipo de jardim florido e com muitas árvores, fora um descampado bem espaçoso. Aquele terreno era de propriedade de sua família por gerações.
O lugar, por muitas décadas, era um centro de treinamento das guerreiras da família Al’Halawi Panthoora durante a Great War of the Vast Desert. Decerto, a Sra Panthoora transformou o lugar em um jardim memorial... e a entregou a sua filha. Por lá ela treinava sozinha suas habilidades como dançaria e de controladora das Chamas Vermelhas da Kyubiko.
Entretanto, no ano letivo conheceu Mu e desenvolveu uma forte amizade com o rapaz. Eles secretamente usavam o lugar para duelarem, de forma amistosa e controlada, para porem em prática os ensinamentos da academia sem que fossem importunados pelos seus algozes preconceituosos.
E durante um desses duelos...
— Ah... Mas como... – Dizia Mu, ao fim de um combate.
— Perdeu! Aceita! – Tahn o havia derrubado, apontando suas chamas em sua direção.
— Tá... Você venceu...
— Mais uma pra conta! Normal...
— Normal? Eu te venci três vezes seguidas semana passada!
— Depois de perder sete seguidas pra mim, né? Mas você está certo... O freguês sempre tem razão!
— Ô convencida... Menos, hein!
— Menos é mais!
— Para!
— Hahaha!
Sentados sobre o gramado depois do duelo, Tahn olhou para o jovem, perguntando:
— Mu, você conhece a história da Great War of the Vast Desert?
— Pouco... No educandário não falaram muita coisa... Só sei que foi a milênios atrás...
— Foi sim... Se quiser eu te conto...
— Ah legal. Ia gostar de saber.
— Nerd!
— Hã?! Porque você disse isso?
— Porque você gosta de estudar!
— Mas foi você que ofereceu ser a “menestrel errante de Persania”!
— Ih... De onde você tirou esse lance de menestrel?
— Quem contava histórias milênios atrás eram os menestréis. Você é uma, haha!
— Ah está me dando um apelido, nerd?
— Sim, menestrel!
Os dois viviam se provocando, mas tudo não passava de brincadeiras. Tahn, como propôs, contou as histórias da grande guerra, mas não foi do jeito tradicional: ela criou um cenário no jardim, ilustrando com palavras, como menestréis.
— Os nobres guerreiros de Persania lutaram por dias para conseguir sua liberdade! Muitos caíram, sendo vingados pelos que se mantiveram de pé para a batalha de suas vidas! Livres para sonhar, livres para viver! Seu brado veio dos céus, rico por suas chamas de Persania! Seus inimigos vieram aos montes, carregando a escuridão... TODOS CAÍRAM!
Os dois encenavam as histórias contadas por Tahn, onde tentavam combater um exército inimigo como nas fábulas...
— O guerreiro divino tomou sua espada a frente e brandiu-a contra o inimigo! Ele seguiu sempre em frente, sobre as planícies negras da perdição... E SAIU VITORIOSO!
Ela ditou exatamente como Mu deveria agir, que o fez do mesmo jeito, usando uma espada de madeira...
— A nobre raposa feneco, que acompanhava seu campeão, trilhou seu caminho atrás de mais vitórias. Ela olhou para o inimigo, que eram muitos, e os abençoou com uma chuva destruidora de chamas vermelhas... SEU CAMPEÃO LUTOU ENTRE ELAS E REALIZOU MAIS UM AVANÇO, POIS ATRAVÉS DO FOGO E DAS CHAMAS, NÓS SEGUIMOS EM FRENTE!
E assim fez Tahn, arremessando de cima várias chamas vermelhas, como uma chuva, limpando o caminho “tortuoso” por onde Mu avançava com sua espada.
Era só uma brincadeira, mas na verdade eles estavam sempre treinando...
Por muitos fins de semana eles continuarem lutando...
Mas dessa vez juntos...
Contra um inimigo em comum.
E voltando aos dias de hoje, eles caminhavam pelo corredor que levava até o ginásio.
— Está pronto, guerreiro divino?
— Sempre, raposa feneco das chamas vermelhas da Kyubiko...
Por lá, ao adentrarem novamente a Magnanimous Arena, viram o ambiente ainda mais hostil, com Cid e Gio sorrindo de forma debochada. Essa felicidade que seus “inimigos” continham lhe deram forças para encarar a maior batalha que travaram.
Entretanto, desta vez Mu e Tahn estavam muito diferentes no que diz respeito a sua postura: a jovem se mostrou mais confiante, olhando para dentro dos olhos de Cid e Gio. Mu, fazendo o mesmo, tornou a ficar caminhando de um lado para o outro, esboçando um olhar bastante intimidador. Ele demostrava mesmo estar muito mais focado e isso, de certa forma, incomodou aos dois adversários.
E alí começou a verdadeira luta!
Music: Through The Fire And Flames
Composer: DragonForce
Far beyond fire and flames
DUEL START
— O segundo e último round vai começar... LUTEM!
De forma seca, Mu esmurrou com muita força o rosto de Gio, o jogando para longe. Com um só golpe o feneco foi capaz de ferir seu adversário. Isso trouxe revolta a Cid, que esboçou devolver o golpe em Mu, mas impedido com uma enorme bola de fogo jogada em seu peito por Tahn, com uma explosão ocorrendo. Isso fez com que ele fosse jogado para o lado oposto.
Era um plano dos dois.
— Tahn, Cid é todo seu. Eu vou ficar com o Gio.
— Tudo bem... Seja bem durão!
— E você, seja bem durona!
Aproveitando a deixa, Cid, se recuperando do golpe recebido, disse:
— O que está acontecendo aqui? Essa bola de fogo...
E assim como ele, Gio percebeu:
— Ah... Esse soco... – Disse, limpando a boca com uma das mãos – Foi realmente... Ah... forte!
Essas indagações que os dois postulantes mais treinados da Academia Persania tiveram foi a perfeita definição de que nada seria como no primeiro round. Em um pouco mais de um minuto, Cid e Gio perceberam que Mu e Tahn estavam desta vez dispostos a baterem com força.
E isso logo foi mais evidente, pois os dois partiram para cima de cada um deles, sem perderem tempo ou pestanejarem.
♪Em uma manhã fria de inverno, em um tempo antes da luz alta
Nas chamas do reino eterno da perdição nós caminhamos para a luta
Enquanto a escuridão está caindo, e os tempos são difíceis... Allright
O som da gargalhada do mal cai ao redor do mundo esta noite♪
Num ritmo frenético Mu impôs a Gio muita dificuldade em tentar evitar cada um de seus potentes socos. A cada defender dos golpes, ele sentiu o peso dos punhos sem limites do feneco, precisando recuar para não ser atendido diretamente.
— *Ele... Ele está golpeando para acabar comigo! Mas como? Esse Maleun estava derrotado no fim do primeiro round!*
No outro lado, Tahn, usando de praticamente tudo seu repertório dançarino, ao mesmo tempo que se esquivava das bolas flamejantes de Cid, ela contra atacava com força máxima com suas chamas. Por ser mais rápida, a cadência entre um arremesso e outro de seus projéteis era muito maior que do postulante. Ele, pressionado, precisou até mesmo defletir alguns para não sofrer com os infindáveis ataques.
— *Essa garota... Está me atacando sem pensar nas consequências! De onde tirou essa força toda?! Suas chamas... Elas estão mais fortes!*
♪Lutando bravamente, lutando como aço, através das terras mais inabitadas
As almas dispersas sentirão os seres do abismo perdidos às margens estadas♪
Sabendo que não poderiam deixar barato essa afronta, Cid e Gio partiram para o ataque. Enquanto o primeiro aumentou a intensidade das suas chamas e bolas de fogo, o segundo concentrou suas chamas para criar pilastras a fim de atingir Mu, enquanto Tahn era castigada com várias bolas de fogo desferidas. Mas...
♪Nas planícies mais negras nos domínios do abismo, nós os vemos enquanto nós seguimos
No fogo e na dor, nós sabemos novamente porque vimos♪
Mu não recuou, ignorando o perigo iminente dos pilares de fogo que Gio havia formado por suas chamas. Igualmente, Tahn seguiu em frente, recebendo até algumas delas diretamente, mas suportando a dor dos danos. Gio, temendo pela aproximação do feneco, não pensou duas vezes:
— SEU AMALDIÇOADO! TOME ISSO! FLAME PILASTS!
Gio golpeou o dorso de Mu de forma violenta com seu pilar de chamas, acertando em cheio. O feneco atingido gritou de dor, acompanhado por uma risada confiante de seu oponente, mas Gio não esperava que:
— O que?! Você... VOCÊ ESTÁ SEGURANDO MEU PILAR?!
Sim, era isso mesmo. Embora Mu não tivesse chamas, havia um detalhe que quase ninguém lembrava: ele tinha Chi. Ou seja, ele conseguia suportar poderes especiais. Os treinamentos contra Tahn o fizeram ter mais resistência as:
— ... CHAMAS DE PERSANIA! ELAS SÃO UM PRESENTE PARA TODOS OS FENECOS DE GREAT DESERT, TENDO OU NÃO CHAMAS! – Gritou Mu, com fúria.
♪Agora voamos sempre livres
Nós estamos livres antes da tempestade de raios fortes
Na direção do vazio nossa missão vai continuar
Muito além do pôr do sol, muito além do luar
Bem dentro de nossos corações e de toda as nossas almas♪
Enquanto Mu tomava as pilastras de fogo de Gio, a jogando contra ele e o fazendo ir longe com a intensidade do movimento, Tahn seguia no encalço de Cid, que passou a concentrar seus poderes. A jovem, ignorando novamente esse fato, disse:
— VAI, MANDA O SEU MAIS FORTE, DESGRAÇADO!
— PODE CRER QUE EU VOU, MALDITA! – Gritou, arremessando em seguida — INFIJAR ALNIYRAN ALQAWIA!
A Explosão de Chamas Poderosas de Cid tinha um efeito devastador, sendo um de seus golpes mais poderosos. Ele arremessou a imensa bola de fogo contra Tahn, que começou a desferir várias outras bolas de fogo contra ela para tentar se proteger. Mas era pouco frente ao tamanho do poder de Cid. Entretanto:
— O que?! A minha Explosão de Chamas... ESSA GAROTA ESTÁ CONSEGUINDO FAZÊ-LA PARAR?!
— EU SEI ATÉ ONDE VAI O LIMITE DAS CHAMAS DE PERSANIA! E EU AS CONTROLO TAMBÉM! AHHH! – Gritou a jovem, deferindo um soco na bola de fogo.
Tahn destruiu a bola de fogo imensa com um violento soco. Ela, por treinar com Mu, conseguiu ver como ele conseguia anular suas bolas. Não era pra menos, já que o placar de seus duelos estava bem parelho.
♪Tão longe nós esperamos pelos dias que param
Por todas as vidas desperdiçadas e que se foram
Sentimos a dor de uma vida perdida em mil dias
Através do fogo e das chamas nós seguimos em frente!♪
A dupla estava lutando com tudo que tinham.
Sem descansar, eles continuaram com os ataques contra seus oponentes... “inimigos” se assim dizer. Eles deixaram bem evidente que:
— Eles não vão parar... – Disse o Sr Al’jazii.
Na arquibancada, acompanhando por sua esposa e a mãe de Tahn, ele voltou a dizer:
— Ele... O Mu... e a Tahn... Pelos deuses de Persania...
— O que foi?! – Peguntou a Sra Matsuzawa.
— Lutar até superar seus limites... Meu Mu... Ele me ouviu! ELES ESCOLHERAM LUTAR ATÉ EXTRAPOLAREM!
— A Tahn... Ela jogou fora a cautela! – Disse a Sra Panthoora – E AGORA, COMO VAI SER? HAHA! VAI, TAHN!
Eles não estavam sozinhos, Mu e Tahn. E enquanto o olhar atônito de Ayane não acreditava no que estava vendo, na tribuna de honra haviam outros dois que estavam tendo a mesma reação:
— O que significa isso!? – Indagou Aldiiz.
— As chamas... O Maleun a conseguiu evitar? Ele está suportando seu calor e força?
Era isso mesmo.
♪Enquanto o dia vermelho está nascendo
E os relâmpagos racham o céu
Eles irão levantar as mãos acima dos céus
Com ressentimento em seus olhos♪
A frustração de verem seus golpes potentes serem superados fez com que Cid e Gio subissem seu nível. Podem ter certeza de que essa primeira impressão que Mu e Tahn deixaram mistura totalmente a interpretação dos dois mais bem treinados postulantes.
♪Correndo de volta da luz da meia-manhã
Há um ardor no meu coração
Somos banidos de uma vez numa terra caída
Para uma vida além das estrelas♪
— GRR... NÃO TÃO RÁPIDO, GAROTA DETESTÁVEL! – Disse Cid, concentrando ainda mais seus poderes – VOCÊ QUER ME DESAFIAR? É ISSO MESMO?
— SIM! E IREMOS VENCER! – Disse a jovem, também concentrando seus poderes.
Uma aura amarela incandescente envolveu os dois, com o Commando partindo para um confronto corpo a corpo contra Tahn. Por mais que suas ambições de acabar com a jovem e Mu fossem questionáveis, isso não podia ser usado no seu poder de se adaptar ao combate. Cid tinha ciência das dificuldades de Tahn em um estilo de combate mais intenso no que diz respeito a golpes físicos. Com isso, ele virou o jogo contra ela, impondo um ritmo de golpes mais fortes e impedindo que ela usasse de suas chamas. Socos ininterruptos castigavam a defesa de Tahn, que precisou recuar, mesmo emanando sua aura.
♪Nos seus sonhos mais escuros, ver para crer
Nosso destino é o momento
E incessantemente todos nós estaremos livres esta noite♪
Gio tomou a mesma postura de Cid, contentando seus poderes. Estando longe e vendo Mu se aproximar, ele, já com sua aura amarela incandescente, disse:
— MALEUN! NUNCA TERÁ TRIUNFO FRENTE A MIM! VOCÊ NASCEU PARA FRACASSAR!
— FINALMENTE MUDOU O VOCABULÁRIO! MANDA VER, PASPALHO!
Gio tomou uma base mais defensiva, mas sem deixar de ser devidamente ofensivo. E ao movimentar seu punho encontro ao chão, disse:
— FIRE WAVES!
Uma onda de fogo brotou do chão ouve golpeou, seguindo para frente em direção a Mu. Era muito rápido, mas ele conseguiu evitar. Mas Gio não parou, executando várias das ondas, que atingiram o feneco.
— TRIPLE FIRE WAVES!
O poder de Gio em conseguir mutar suas chamas era incrível. Agora Mu tinha muito mais dificuldades, pois ondas triplas também tinham o triplo do tamanho. Com isso o jovem feneco foi atingido violentamente pelas ondas, sendo jogado para longe.
♪E nas asas de um sonho, muito além da realidade
Completamente sozinho em desespero, agora o tempo se foi
Perdido dentro você nunca irá descobrir, perdido dentro da minha própria mente
Dia após dia essa miséria deve continuar♪
O jogo parecia ter virado.
Aliás, Mu e Tahn estavam em dificuldades. O ímpeto se manteve, mas era evidente que Cid e Gio estavam mais fortes.
Por causa disso, a torcida pelos dois voltou, com as arquibancadas exaltando as Flames of Persania e aos dois postulantes.
Todo esse incentivo trouxe resultados. Infelizmente para Mu e Tahn, seus “inimigos” ganharam mais vontade na luta, desta vez agindo como a platéia esperava.
Cid continuou a castigar Tahn com socos e chutes. Era difícil da jovem acompanhar seu poderio usando de seu físico. Essa era uma dos pontos fracos que ela continha, sendo explorado ao extremo por Cid. Ela recuava, recebendo socos pontuais em seu rosto, lhe causando dor. O postulante também usava de chutes, a golpeado em sua costela e, pela inércia, a jogando para longe.
No outro lado, Gio manteve suas ondas de chamas triplas, impedindo que Mu se aproximasse. E ele foi além, manifestando seu golpe antigo:
— FIRE BARRIER!
A grande barreira festa vez ficou imensa, praticamente intransponível. E ela foi a encontro de Mu, que fincou com força seus pés no chão, a fim de aparar a barreira. O choque logo veio, com o jovem suportando a dor e a força absurda do golpe de Gio. Lentamente Mu era empurrado para trás, cedendo em seguida. Ele foi jogado a muitos metros atrás, se chocando contra as laterais da arena, próximo aondeb Tahn estava.
Triunfantes, Cid e Gio de reuniram, sendo ovacionados por toda a Magnanimous Arena.
♪Tão longe nós esperamos pelos dias que param
Por todas as vidas desperdiçadas e que se foram
Sentimos a dor de uma vida perdida em mil dias
Através do fogo e das chamas nós seguimos em frente!♪
— Tahn... Ah... – Disse Mu, ferido – Eles estão muito mais fortes...
— Sim... Estão... – Ela também estava ferida – Mu, hora de ir além...
— Sim... Como naquele dia...
— Exato... Exatamente como naquele dia...
— Nossas brincadeiras se tornaram realidade...
— Se tornaram sim... É uma guerra, como aquelas que travamos juntos no jardim. Então vamos subir o nível...
— Sim... VAMOS ALÉM DOS CEM POR CENTO!
Eles estavam se referindo a um momento muito especial.
Aliás, extraordinário.
Por muito tempo as estórias do deserto guardaram consigo muitos mistérios...
Mas hoje um deles será visto por todos, ao vivo.
E que trará de volta eventos ancestrais...
♪Whoa-oh-oh, whoa-oh-oh...♪
— Kyubiko no Akai Hono — 九尾狐の赤い炎!
Tahn manifestou seu poder, com seus olhos ficando vermelhos e mais oito caudas formadas por chamas vermelhas se somarem a sua.
— MUHAFIZ ALLAHAB! – Cid arremessou seu catalizador.
Desta vez o efeito não surtiu...
Havia algo diferente.
A natureza das chamas vermelhas da Kyubiko eram diversas.
O ataque. Por muitas vezes interpretavam que as chamas vermelhas eram mais poderosas.
E eram, de fato.
Mas sua aplicação não era somente a isso.
A defesa. Mu e Tahn estavam protegidos por uma barreira invisível, mas se resumia naquela área...
♪whoa-oh-oh-oh-oh♪
Havia uma última aplicação.
Desconhecida pelos presentes e ignorada por muitos conhecedores das estórias do deserto...
O suporte. Talvez a manifestação de Tahn deixe tudo mais evidente:
— Kyubiko no Shinseina Okurimono: Akai Hono Kara Kariru — キュビコの神聖な贈り物:赤い炎から借りる! (Doação divina da Kyubiko: Empréstimo das chamas vermelhas, em japonês)
Aos poucos, as chamas vermelhas da Kyubiko começaram a adentrar ao corpo de Mu.
Durante esse fenômeno, transcendendo o inimaginável, o calor daquelas chamas poderosas preenchendo a zona de aflorar de Mu pediam licença aos raios que habitavam seu Nirvana, chegando até seu núcleo...
E lá, trovões clareavam um altar, lugar esse digno de uma Shakhsia (entidade, em árabe)...
A Kyubiko encontrou seu posto merecido. E naquele lugar, ela reinaria... mas não por muito tempo.
Entretanto, tempo suficiente para fazer um milagre acontecer.
♪Whoa-oh-oh, whoa-oh-oh...♪
As chamas da Kyubiko...
Elas alimentaram o corpo de Mu.
Uma dádiva guardada pela família Panthoora por milênios.
Então elas permitiram o Impossível.
♪whoa-oh-oh-oh-oh♪
Mu abriu seus olhos, vermelhos...
Tão rubros quanto suas chamas...
As chamas vermelhas.
Ele as tinha!
Mu manifestava chamas vermelhas!
A luta crescia a um novo nível. Muito acima!
Sem perderem tempo e sabendo exatamente o que estavam fazendo, Mu e Tahn correram como nunca em direção a Cid e Gio. Os jovens postulantes, sem entenderem o que estava acontecendo, se limitaram a entrarem em base de luta e também partirem com tudo.
Enfim, desta vez, desde que começou o exame Qabul Birasan, todos que estavam na Magnanimous Arena presenciaram uma verdadeira batalha campal envolvendo chamas.
Mu utilizada suas chamas vermelhas como se a muito tempo já as tivesse. Por um breve momento, ele se lembrou das brincadeiras que tinha, onde Tahn o agraciou pela primeira vez com as chamas da Kyubiko.
Sim, entre já tinha as utilizado. E sua primeira manifestação lhe trouxe lágrimas, pois pôde experimentar como seria ter as Flames of Persania. Desde esse dia ele voltou a ter a mesma convicção ante a importância dessas chamas.
Um show pirotécnico ocorria na arena, com os quatro lutando com tudo, arremessando suas chamas com fervor e força.
Os dois se movimentavam com perfeito sincronismo, num ritmo alto demais para Cid e Gio acompanharem. Socos, chutes, bolas de fogo aos montes, esquinas, defleções de golpes... O vasto repertório de um postulante a Persan estava sendo totalmente demonstrado.
Enquanto Cid se preocupava em trilhar o caminho de Gio com uma saraivada de chamas para que seu parceiro pudesse lançar suas poderosas ondas, Tahn as explodia com seus punhos alimentados por suas chamas. A postura de luta dela mudou como a de Mu, onde Cid, confuso, disse:
— Eles mudaram... ELES MUDARAM DE ESTILO, GIO! CUIDADO!
— MAS COMO ASSIM MUDARAM?
— Eu não sei... EU NÃO SEI! PROTEJA-SE!
O avanço frenético da dupla desafiada testava o poder ofensivo de Cid e Gio, que precisaram se unir para não serem severamente castigados com o ritmo de ataques de seus adversários.
— Cid, o que vamos fazer? – Perguntou Gio, usando suas barreiras.
— VENCER ESSES DOIS DESGRAÇADOS!
— Mas como? ELES NÃO PARAM DE ATACAR E EU ESTOU PERDENDO A FORÇA!
O porquê disso? Simples: Mu e Tahn estavam arremessando bolas de fogo sem parar, como se fossem chuva! Gio precisou usar suas habilidades de defesa, mas isso teve um custo: ele estava usando o poder do Chi ao extremo!
Os ataques incessantes surtiram efeito, quebrando a barreira e infligindo danos aos dois, que precisaram correr para os lados para tentarem evitar maiores danos.
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— ... COMO COMMANDOS, CID!
Incansáveis, o feneco até então possuidor das chamas vermelhas passou a ficar ao lado de Tahn, vendo que seus “inimigos” corriam, tomando uma postura como o início de uma dança: com movimentos graciosos e demonstrando performance artística, eles começaram a coordenar seus poderes, unindo as duas chamas e atacado aos dois postulantes. O mais atingido foi Gio, por tentar usar suas barreiras, que foram quebradas com facilidade.
Ao mesmo tempo, Cid, bancando o covarde, se garantiu por detrás de uma das balizas da arena, mas mesmo assim foi atingido por Mu com uma imensa bola de fogo vermelho, explodindo diretamente em seu peito, o jogando para longe.
A plateia se calou, vendo seus campeões serem atingidos e enfraquecidos. As chamas de Persania de Tahn e as chamas vermelhas da Kyubiko que Mu tinha emprestado da jovem eram ataques poderosíssimos e muito impactantes. Dessa vez o dano psicológico atingiu Cid e Gio, que estavam acuados.
A Sra Matsuzawa e o Sr Al’jazii , assim como a Sra Panthoora, sorriam ao ver a demostração de força de seus filhos, com Ayane petrificada por tudo que estava ocorrendo.
— *O Mu... Ele está usando as chamas vermelhas?! Não... Isso não pode... Isso fere todo o ensinamento da Wings of Salvation from the Flames of Persania! Não pode! Não é permitido! ISSO NÃO É POSSÍVEL!*
E na tribuna:
— MINISTRO ALDIIZ, PORQUE O MALEUN ESTÁ USANDO CHAMAS?!
— Eu... Eu...
— ELE É UM MALEUN! UM IMPURO COMO ELE NÃO DEVERIA TER ESSA HONRA! ELE NÃO DEVERIA USAR ESSAS CHAMAS!
— Sacerdote Dimintro... Eu não sei o que está acontecendo!
— Essas chamas vermelhas... PORQUE ELAS SÃO VERMELHAS?!
♪Agora aqui estamos com o sangue deles em nossas mãos...
Nós lutamos tão duro, agora podemos entender?
Eu vou quebrar o selo desta maldição, se eu puder
Pela liberdade de todas as pessoas...♪
Era o momento decisivo!
Mu correu como nunca na direção de Cid, deixando um recado a Tahn:
— Derrube o Gio... O Cid é meu!
— Entendi... ACABA COM ELE, MU!
Vendo seu amigo correr, Tahn partiu feito uma flecha contra Gio, o castigando com vários socos. A potência dos golpes era devastadora, onde o próximo jovem percebeu:
— Ahhh... Seus socos... Estão muito mais fortes que antes... PORQUE?!
— Estou usando meus poderes sem depender da Kyubiko... Sabe o que isso significa? Idiota... EU NÃO TENHO LIMITES DOS MEUS ATAQUES FÍSICOS POR CAUSA DO CHI TOKUTEI — チー特定! (Chi particular, em japonês).
— NÃO PODE SER...
Os poderes físicos de Tahn foram potencializados pelo livramento do Chi particular, ou seja, ela não era limitada por ter de usar as chamas vermelhas para crescer seus ataques. Tudo era natural, como o Mu!
— ACABOU PARA VOCÊ, IDIOTA! TOME ISSO! KYUBIKO NI KEIIWOARAWASHITE ODORIMASHOU — キュビコに敬意を表して踊りましょう!(Dança Em Tributo A Kyubiko, em japonês)
Suas habilidades especiais foram unidas as suas de dança: Tahn castigou Gio com fortes socos, executados conforme performava vários saltos para frente e, para completar, chutes giratórios consecutivos, que atingiram o rosto do jovem. O efeito foi devastador.
Enquanto isso, Mu finalmente tinha seu momento de luta contra seu antigo rival. Cid sequer lembrava do postulante de mais cedo. Enfraquecido e acuado, viu o jovem feneco se aproximar, dizendo:
— AFASTE-SE DE MIM, MALEUN!
— Um Maleun não pode usar chamas... EU ESTOU USANDO CHAMAS, CID! A KYUBIKO ME ACEITOU!
— Isso... Isso é impossível!
— Tornar o impossível possível é uma coisa da minha família... EU VOU HONRAR SEU NOME, COM MEUS PUNHOS E PÉS! PREPARE-SE!
♪Tão longe nós esperamos pelos dias que param♪
Mu não tinha muito tempo mais de chamas vermelhas. Então ele decidiu concentrar os poderes da Kyubiko em suas mãos e pés. E, próximo a Cid, ele disse:
— FOR ONE! – Disse, desferindo um soco.
O golpe foi poderosíssimo, levando Cid para trás e sangrando pela boca.
♪Por todas as vidas desperdiçadas e que se foram♪
— FOR TWO! – Desta vez foram dois golpes.
Mais dois socos destruidores, que chegaram a fazer Cid cambalear.
♪Sentimos a dor de uma vida perdida em mil dias♪
— FOR THREE! – Dois socos e um chute frontal.
Acreditem: foram ainda mais potentes, atingindo o dorso de Cid, que mal se aguentava em pé.
♪Através do fogo e das chamas nós seguimos em frente!♪
— FOUR ALL! AHHH!
Mu desferiu todos os seus combos como meele, mas este do final foi diferente: quatro golpes, sendo dois socos na barriga de Cid. E, em seguida, um chute de cima para baixo, levando Cid ao ar. E no quarto golpe, um chute avassalador e com chamas vermelhas da Kyubiko acompanhando o golpe, que atingiu o postulante em cheio.
Cid foi arremessado para longe, tendo o corpo arrastado pelo chão, rasgando parte de seu colete, atingindo a lateral, que chegou a tremer. Gio também caiu, quase que ao mesmo tempo por Tahn.
A respiração ofegante tanto de Mu quanto de Tahn era a única coisa que se ouvia...
Já que o silêncio das arquibancadas logo veio.
Continua.
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