Freedom
11 Quando fica difícil disfarçar
Notas iniciais
Scorpius Malfoy
Uma, duas, três colheres de açúcar no café. Exatamente três mexidas na xícara que sem fazer o som do tintilar do talher. A colher sendo pousada no pirex. Um pequeno gole com um pequeno som de aspiração. A degustação do sabor ao passar a língua nos lábios. O aceno com a cabeça indicando que estava no ponto adequado. A xícara sendo pousada no pirex, junto à colher. O jornal sendo aberto na seção de cultura. Sorri de lado com a cena.
Eram assim as manhãs de minha mãe. Meu pai descia geralmente quando minha mãe estava na metade da leitura, ao passo que ela já havia levantado muito mais cedo e provavelmente realizado muitas atividades como yoga ou uma simples ida ao comércio. Ele gostava de dormir até mais tarde e tomar um banho gelado que ele chamava de revigorante.
— Bom dia, querida. — meu pai deu um beijo carinhoso em minha mãe, como de costume. Ela sorriu em resposta, ainda concentrada em sua leitura, apesar de ter estendido a mão para acariciar seu rosto como sempre fazia para nos cumprimentar pela manhã. — Bom dia, Scorpius. — meu pai sempre me chamava pelo meu nome, mas eu gostava disso. Era uma relação interessante de respeito que possuíamos e eu gostava.
— Bom dia, pai. — respondi com a voz um pouco rouca ainda. Tossi um pouco para tentar normalizá-la.
Ao deixar Rose Weasley em casa tomei um pouco de sereno. Não sei quanto tempo fiquei parado observando a casa aconchegante de Rose ao fundo. Descobri onde era seu quarto pois consegui ver a luz sendo acesa e pude ter um vislumbre de seus cabelos ruivos. De repente me senti um pouco culpado, observando-a sem que ela soubesse. Mas Rose era… Curiosamente interessante. Eu havia percebido uma outra faceta dela naquela noite, que não era recheada de ironias ou deboche. Era apenas, humana. Como quando ela achou que a rejeitei. Bem, não sabia exatamente o porquê dela ter considerado aquilo. Apenas não quis que as coisas fossem daquela maneira. Mas não poderia dizer que queria que elas fossem de alguma outra forma. Quero dizer, eu não queria de fato beijar Rose. Não que tenha me arrependido…
Bem, só pude agradecer à Catherine que me mandou uma mensagem contando a respeito da ideia de Albus. Aparatei para casa finalmente e, bem… Acabou sendo a noite em que meti um soco na cara de James Potter que, apesar de não ter feito nada com Rose, mereceu por vários outros motivos.
— Scorpius, estive pensando… — mamãe começou enquanto descascava uma laranja. — O que acha de convidar seus amigos para virem aqui? Digo, vocês só encontram em festas e mais festas quando estão por aqui. Nós nunca de fato temos tempo para conhecê-los. Não precisa trazer todo mundo, só os mais próximos. — ela sorriu gentilmente e meu pai arqueoou uma sobrancelha.
— Querida, nós já falamos sobre iss…
— Shhh. — sibilou minha mãe com um olhar de raiva, mas ela logo suavizou ao olhar para mim. Franzi o cenho. Mamãe estava armando alguma coisa. — Não ouça o que seu pai diz, querido. Eu apenas tenho curiosidade de…
— Saber se você está de namoro por aí. — meu pai soltou enquanto bebia seu suco. No segundo seguinte ele cuspiu boa parte do que bebia, urrando de dor. Olhei horrorizado para minha mãe, que aparentemente tinha chutado ele por debaixo da mesa. Eu amava a relação dos dois, era uma surpresa atrás da outra.
— E tem algum problema com uma mãe querer saber se o filho anda em boas companhias? Quem disse em relacionamento? Falei de amizades. Amizades. — ela pontuou cada sílaba evitando olhar para meu pai.
Não pude evitar coçar a nuca ficando um pouco nervoso, pois não fazia ideia de quem chamar sem dar muito na cara. Bem, eu e Rose havíamos nos beijado, mas isso não significava nada. No entanto, minha mãe era astuta. Mas de qualquer forma ela não imagina que eu e Rose estejamos próximos.
— Sei que você se aproximou bastante de Rose Weasley. — eu engasguei com meu suco de uma maneira que me entregou totalmente. Droga. Como ela poderia saber daquilo?
Meu pai me encarava com um sorriso zombeteiro, mas um pouco incrédulo.
— Que… Como… Quero dizer… O quê? — falei tentando raciocinar. Minha mãe andava lendo meus pensamentos? Ou me espionando?
— Ora querido, vocês não estão na organização do Grêmio da escola? — mamãe me olhava como se estivesse em um interrogatório e eu não estava gostando daquilo. Ela poderia dar medo quando queria. Principalmente quando estava com ciúmes.— McGonagall me contou a respeito… E hoje, no empório da Senhora Scamander pude encontrar com Hermione Weasley. — seus olhos me analisavam como uma caçadora observando a caça. Não pude deixar de me preocupar com a mãe de Rose percebendo que eu parecia um stalker observando o quarto de sua filha. Senti minhas orelhas e minhas bochechas quentes. Tentei disfarçar limpando a boca com o guardanapo por mais tempo do que seria necessário.
— O Grêmio que tem respaldo de alguns dos Ministérios mais influentes do mundo? — meu pai questionou com um brilho nos olhos. — Parabéns, Scorpius.
— Não acredito que não nos contou. — mamãe parecia magoada e agora eu entendia um pouco melhor suas acusações para cima de mim. — Mas compreendo. Hermione disse que Rose também não havia lhe contado.
— Andaram conversando bastante, não? — meu pai observou e eu engoli em seco. O nome de Rose e de sua família nunca havia sido mencionado antes com tanto interesse. Por que justamente depois de ontem ficou algo recorrente?
— Sim. — mamãe virou a página, com um sorriso esquisito no rosto, quando finalmente olhou para mim risonha. — O que achou da residência dos Weasley, filho? — foi a vez de meu pai engasgar. Ele até tentou disfarçar, mas seus olhos estavam ligeiramente atônitos. Oh, Merlin.
— Você foi até a casa deles?
— Levar a filha deles após a festa de ontem.
— Foi por isso que chegou às três da manhã? — meu pai parecia alarmado e minha mãe arregalou os olhos.
— Às três? Mas lhe dei boa noite à meia noite! Você voltou para lá, Scorpius?
— Filho, não me diga que…
— Ok, ok, esperem! — pedi, ficando um pouco atordoado com tanto interrogatório. Minha mãe me chamando de Scorpius e meu pai me chamando de filho era um pouco… Confuso. Quando isso acontecia eu sabia que entraria em maus lençóis. — Não aconteceu nada demais…
— Nada demais?! — minha mãe levou as mãos à boca, deixando o jornal cair. — Então aconteceu algo?
— Bem… — eu estava ficando roxo. — Não exatamente.
— Hyperion, pelo amor de Merlin — meu pai estava com a mão na cabeça, tentando manter a calma. — Fale logo de uma vez antes que mate sua mãe do coração. E a mim também.
— Estou tentando! — exaltei-me. Mamãe e papai me encararam, dessa vez em silêncio. — Bem. Não aconteceu nada demais, apenas a acompanhei. — menti. Se eles ficaram com essa festa toda só de uma possibilidade, se eu contasse o que havia acontecido, com certeza não ficaria ileso e seria atormentado por dias. E afinal, não havia sido nada demais. Não poderia ser algo demais. — Vim para casa e precisei sair logo em seguida pois Albus me chamou para ajudá-lo em uma coisa… Por isso você, mamãe, me viu à meia noite e você, papai, às três da manhã. Não aconteceu nada demais entre Rose e eu. — afirmei mais para mim do que para os dois.
Achei que minha mãe ficaria aliviada, mas ela parecia levemente decepcionada. Meu pai estava aparentemente indiferente.
— Bem. Se você diz. — ele deu de ombros. — Albus não consegue fazer nada sozinho, não é mesmo? Mas é um bom garoto.
— Quando faz, só faz merda. — comentei rindo e meu pai não deixou de esboçar um sorriso. Minha mãe me repreendeu com o olhar.
— Scorpius, não fale assim de seu amigo. E não me julgue por querer saber das coisas. Não pude deixar transparecer muito para Hermione, mas estava extremamente curiosa. E se quer saber, ela parecia também. — justificou-se. Hermione Weasley estava curiosa sobre mim? Rose havia falado algo? — Parece que Ronald não ficou muito contente e como Rose não lhes contou nada… — Ah. Então ela não havia contado.
— Hm. — resmunguei sem pensar e meu pai me lançou um olhar furtivo. — Entendo. — complementei.
— Bom, de qualquer forma, se estiverem próximos, não hesite em convidá-la para vir aqui apenas por conta desse… — mamãe gesticulava para nós. — Desse momento de curiosidade.
— Pode deixar. — ri enquanto me levantava. — Vou pensar no assunto. Mas se quer saber, já nos vemos todos os dias em Hogwarts. Todos nós. — acrescentei quando minha mãe apresentou um olhar muito esperançoso. — Acho que estou precisando ficar um pouco longe deles. Não sei nem se vou na festa de ano novo. — comentei dando de ombros. Talvez a melhor opção fosse ficar mais distante. Não havia passado nem 24 horas desde o beijo e ele já estava me trazendo problemas. E a culpa era inteiramente de Rose Weasley que resolveu de uma hora para outra grudar os lábios nos meus. Bem… Não somente os lábios, como todo o corpo. Argh, maldito beijo. Eu estava precisando de um banho gelado. Definitivamente.
Assim que saí me dirigi até a biblioteca para tentar distrair a cabeça, mas ela já estava ocupada.
— Scorpius. — meu pai vinha até mim, entretido com um livro surrado na mão. — Veja o que encontrei. — ele me estendeu o livro e logo o reconheci.
Tratava-se de “Os Contos de Beedle, o Bardo”, que minha avó e meu avô tinham me dado em um dos meus primeiros aniversários. Abri a primeira página e, junto à dedicatória dos dois, havia um desenho de um dragão vermelho e verde. Em cima dele estava eu — em forma de palitinhos com um cabelinho amarelo — voando.
— É isto que irá tentar? — ele questionou indicando o desenho com o queixo? Assenti e meu pai se sentou do meu lado. — Quero que trilhe o caminho que considerar que for o melhor para você. Eu demorei muito para perceber que poderia ser livre para fazer o que gostaria e bem, escolhas podem ser dolorosas. Não consegui escolher e arco com as consequências disso até hoje. — ele olhou de relance seu braço, coberto pela manga de sua camisa, mas nós dois sabíamos o que estava debaixo daquele tecido. — Você tem o poder da escolha, então escolha com o coração.
— Obrigado. — e eu agradecia genuinamente.
Meus pais sempre me apoiaram e isso foi um diferencial e tanto para minha criação. Ter ido para a Grifinória, apesar do choque, foi tido como algo de orgulho. “Você será o melhor Grifinório de todos, pois provará que está lá por merecer. Por ser digno, não importa o que digam”. Foi uma das frases ditas por meu pai que nunca esqueci. Quando fui selecionado para a casa rival de minha família foi um choque. Meu avô estava em negação e morreu sem nunca dizer que sentia orgulho de onde eu estava. Minha avó, traumatizada pela guerra, não estava em suas perfeitas condições, então nunca soube o que ela realmente sentia.
Quanto à meu pai, sei que ele cresceu ouvindo que a Grifinória representava tudo de pior e desconstruir todos esses pensamentos não era algo fácil. Até mesmo para minha mãe, que apesar de não ter tido a rigidez da criação de meu pai, sempre aprendeu sobre os valores de ser sangue-puro e a honrar a Sonserina. Mas os dois me receberam de braços abertos mesmo quando meus avós — tanto por parte de mãe quanto de pai -, me olhavam com desgosto.
E a frase que eu lembrava até hoje fora dita em um dos últimos aniversários que comemoramos com o restante da família. Não suportava os olhares. Eu dividia a data com minha prima, Annelise Burton, filha da irmã de minha mãe, evidentemente. Ela era mais velha e era a referência da Sonserina, sendo monitora chefe, prestes a se formar com honra e com um cargo como auror praticamente garantido no Ministério. Meu avô Lucius, mesmo que não tivesse um relacionamento direto de sangue com ela, morria de orgulho e dizia que deveríamos limpar o nome da família dessa forma: nos formando com honra e assumindo um cargo de confiança no Ministério. Imagine o desgosto quando eu, o neto recém ingresso na Grifinória, de apenas 12 anos, respondi que gostaria de trabalhar com dragões. Foi o último aniversário compartilhado que Annelise e eu tivemos.
***
Rose Weasley
Passei a maior parte da manhã com minha mãe e Hugo no Beco Diagonal fazendo compras. Estava tudo um pouco cheio apesar do tempo frio e dos indícios de neve aqui e acolá. Minha mãe tinha a mania irritante de entrar em todas as lojas e pesquisar bem os preços antes de levar algo, o que fazia com que precisássemos ir e voltar várias vezes. Deveria ter escolhido ir com papai para a T’oca ajudar o vovô com as bugigangas dele.
Hugo me olhava de esguelha vez ou outra e eu estava começando a ficar irritada, pois queria que ele falasse logo sobre o que estava deixando-o intrigado. Eu sabia que seria sobre o beijo no Scamander, mas não seria eu a falar. Não sabia se ele estava confortável sobre isso e não éramos muito próximos, constatação que bateu em meu coração de uma maneira muito mais pesada do que eu havia pensado que bateria. Acho que estava andando com Grifinórios demais…
— Ótimo, agora vamos no empório de Luna! — mamãe nos chamou e Hugo arregalou os olhos em desespero.
— Hã, acho que vou passar na Floreio & Borrões com Hugo, mamãe. — anunciei tentando livrar meu irmão daquela situação. Mamãe me encarou sem entender.
— Não querem dar oi para Luna? E sempre vamos juntos até lá!
— Tia Luna talvez nem esteja aí. — rebati tentando transparecer naturalidade. — Muito provável que seja Lorcan ou Lysander e nós sempre os vemos na escola. Não tem necessidade. Podemos marcar de vê-la em outro momento. — argumentei e Hugo assentiu, apesar de ter ficado mais apavorado ainda com a ideia de ir até a casa deles. — E estou precisando de materiais novos para o Grêmio. — acrescentei convicta. Mamãe parecia um pouco desconfiada, mas assentiu.
— Encontro vocês lá. Não sumam!
— Você me deve uma. — comentei enquanto Hugo e eu caminhávamos. Ele ajeitou o gorro, suspirando.
— Sei o que você deve estar pensando…
— O que você acha que eu estou pensando? — questionei enquanto entrava na loja e observava alguns livros. Estava realmente precisando renovar minha biblioteca.
— Bom… Não sei. Mas você não entrou no assunto então não sei.
— Hugo. — virei-me, ficando de frente com meu irmão. Ele era alguns centímetros mais alto que eu então precisei erguer meu queixo. — Está tudo bem. — coloquei a mão em seu ombro e ele suspirou. Parecia que um peso havia caído de seus ombros de tanto que ele relaxou. Não sabia que Hugo se importava tanto com o que eu pensava e isso me deixou estranhamente feliz. Estava bastante sentimental esses dias, então me permiti ficar emocionada. — Você não precisa esperar julgamento de mim, sabe. Se tem algo que fui a minha vida inteira, foi ser julgada. Quem sou eu pra falar alguma coisa? — comentei rindo para dar aquela quebrada no clima e Hugo riu de volta, me abraçando.
— Nunca julguei você. — ele garantiu.
— Eu sei. — respondi, também tirando um peso do coração. — Você é incrível da maneira que você é, nunca se esqueça disso. Agora vamos parar com esse sentimentalismo todo, ainda tenho uma reputação a zelar. — soltei-o, ainda rindo, ainda chorando. Hugo tinha um sorriso muito sincero no rosto e seus olhos castanhos como os de mamãe estavam radiantes.
Quando crianças sempre fomos muito próximos, mesmo que eu vivesse atazanando sua vida. Adorava contar histórias de terror para ele, que ficava admirado, mas não pedia a chance de assustá-lo vez ou outra. Mamãe não ficava muito feliz com isso, mas quando Hugo percebia que tudo não passava de uma brincadeira e começava a rir e assustá-la também, ela simplesmente não conseguia não rir com a gente.
Um dos momentos que me fizeram parar de interagir com tanta frequência foi quando, no Natal do meu primeiro ano em Hogwarts, quando todos os parentes ainda estavam totalmente chocados com minha seleção para a Sonserina — mais do que a de Albus, que já havia verbalizado antes seu receio de ir para lá -, Hugo se recusou a abrir o presente que eu havia dado para ele. O motivo? “Todos agora falam que você é uma cobra”. Não sei bem se ele sabia mesmo do que estava falando na época, afinal tinha apenas oito anos e papai e mamãe contavam a história de Hogwarts apenas quando já tínhamos idade para entender melhor com, obviamente, Hogwarts uma História, juntamente com a versão que mamãe ajudou a editar quando ainda não nos tinha. O que eu sabia é que alguém havia dito isso para ele. E por mais que Hugo não fizesse ideia, nunca havia visto aquela expressão de medo no rosto dele nem mesmo quando eu o assustava propositalmente das piores formas.
— Oh, mamãe tem companhia. — Hugo me despertou de meus pensamentos e assim que vi com quem minha mãe estava conversando na porta da loja um instinto me fez abaixar. Que merda eu estava fazendo? Eu estava ficando louca. Que diabos de reação era essa? — Rose? — Hugo me cutucou com o pé, exasperado. — O que está fazendo? — perguntou aos sussurros.
— Shhhh, não fique olhando para baixo. Vai dar na cara. — sibilei.
— O que vai dar na cara? — era a voz de minha mãe. Meu coração gelou e tive vontade de vomitar novamente. Quem era eu e o que eu fizera com Rose Weasley?
Levantei-me como se nada tivesse acontecido, com meu sorriso débil mais convincente que eu poderia entregar. Mas minha mãe não era boba. Com seus olhos semicerrados e um sorriso cambaleando nos lábios ela olhava de mim para Hugo.
— Pena que você não viu, querida. Astoria Malfoy estava agorinha comigo na loja dos Scamander. — ela comentava calmamente. Assumi uma feição de falso interesse, querendo socar Hugo mentalmente por ele estar dando muito na cara, ainda mais quando o nome Malfoy foi mencionado.
— Oh, é mesmo? Nunca de fato a conheci. — dei de ombros me virando, pois minha bochechas claramente iriam me entregar. Maldita genética Weasley. Quem cora tão facilmente desse jeito?
— Sim... Sim… — mamãe ponderou, ainda me analisando com um olhar divertido no rosto. — Espero que tenha encontrado o que perdeu no chão. Parecia tão afoita.
— Deve ter rolado para debaixo das prateleiras. Vou procurar do outro lado. — falei rapidamente, querendo fugir dali com todas as minhas forças. O universo estava claramente brincando com minha cara. Maldita hora que resolvi que seria interessante descobrir qual seria o sabor do beijo de Scorpius. Aliás, Malfoy. Não sei em que momento parei de chamá-lo pelo sobrenome. Deveria manter as coisas como sempre foram e ponto final.
Cheguei em casa e fui direto para meu quarto, pois o assunto durante o restante do caminho todo acabava caindo nos Malfoy de algum modo pois minha mãe de repente estava curiosa. Ela não era de fazer rodeios, então tudo isso era de propósito, para me arrancar alguma coisa. Mas agora mesmo é que eu não iria falar nada. Sempre fui boa com cinismo, era bom eu retomar logo essa habilidade.
Se eu achei que teria paz, estava enganada, pois horas mais tarde Catherine apareceu na minha casa com os cabelos curtos e os olhos arregalados. O motivo?
— Eu tive um pequeno surto. — ela começou a contar enquanto andava de um lado para o outro. — Eu sinceramente não sei o que deu em mim, Rose. — eu nunca, nunca, nunca havia visto Catherine Nott tão desestabilizada como ela estava naquele momento. Nunca. Ela poderia ser explosiva, mas fora isso era super centrada em suas emoções.
— Calma, respira. Me conta o que aconteceu. Mas, caso queira saber, gostei do seu cabelo assim. — comentei e ela sorriu nervosamente em agradecimento, com seus olhos azuis gigantes percorrendo meu quarto.
— Eu fiz a maior cagada do mundo. Eu beijei o idiota do Tony. — a revelação fez meu queixo cair. Que havia tensão sexual entre ambos desde sempre isso era óbvio, mas nunca achei que chegaria às vias de fato de verdade. E ela ainda estava com um dos meus primos mais decentes.
— Catherine… — eu não sabia como colocar minha indignação em palavras. — Por quê? — deixei no ar. Ela levou as mãos à cabeça e gemeu.
— Eu achei sexy ele agindo daquela forma com James.
— Catherine pelo amor de Merlin, você é sádica por acaso? — eu estava genuinamente alarmada.
— Não! — tentou corrigir, negando com as mãos. O mundo estava de pernas pro ar. Definitivamente. — É só que… Tony tende a falar demais e fazer de menos sabe. Ver ele tendo iniciativa mesmo… Foi… Diferente.
— Cathy. — usei o apelido de infância dela para que ela percebesse o quão sem noção ela estava sendo agora. Parece ter funcionado, pois ela me olhou levemente magoada. — É o Tony. — pontuei fazendo uma careta e ela assentiu. Bom, pelo menos ela tinha consciência. — E Fred é meu primo mais decente. Exceto Albus. — parei para pensar por um instante. — Ou talvez até mais decente que Albus. — corrigi e ela confirmou com a cabeça.
— Realmente, Albus está perdendo o posto de primo aceitável.
— Concordo. — assenti, lembrando-me das recém idiotices impulsivas dele. — Além do mais, estamos fazendo esse fuzuê todo com a traição de James e Dominique. Você não aprendeu nada com isso?
— Mas não somos exclusivos. — ela rebateu.
— Então qual o problema? — rebati de volta. Cat suspirou.
— Geralmente quando fico afim de alguém, só sossego quando rola. Depois, nem quero mais saber. O problema é que com Fred eu tenho vontade de mais.
— Ok… Então só não beije mais o Tony.
— Aí está o problema. — ela fez uma cara de coitada que juro por Merlin eu quase fiquei com dó. — Eu quero beijá-lo de novo. Mas sei que é a fórmula para dar merda. Ele está numa ciumeira esquisita para cima de mim. E a gente briga por tudo! Um beijo sempre estraga as coisas.
— Concordo. — soltei sem pensar e Catherine não deixou essa passar. Revirei os olhos e bufei. — Eu beijei o desgraçado do Malfoy ontem.
— VOCÊ BEIJOU QUEM? — dizer que Catherine gritou era eufemismo. Minha querida amiga berrou para quem quisesse ouvir. Sequer me dei ao trabalho de pedir para que ela ficasse em silêncio, pois meu olhar atravessou ela e aquela cara de quem chupou limão, pois era essa a cara que ela tinha no momento.
— Não vou falar nada para você. — rosnei enfiando minha cara no travesseiro. — Mas não significou nada. Exceto que sim, porque eu me arrependo horrores disso. Agora parece que ele está em todo lugar e eu quero vomitar toda vez que me lembro.
— Meu Merlin, Rose. — seu tom era mais baixo agora. — Eu não sei quem é pior. Sinceramente. Porque se você está me contando desse jeito, é porque foi acidental. — constatou com a mão no queixo. — Não foi para fazer ciúmes em Lily. Se fosse um simples beijo você não estaria nesse humor. — ela estava listando as possibilidades nos dedos e eu revirei os olhos, preferindo morrer do que admitir que: — Não me diga que ele te rejeitou? — bingo.
— Em partes. — sibilei, sentindo meu sangue ferver. — Quero dizer, ele assumiu que eu queria aprofundar as coisas ou sei lá o que. Disse que eu estava bêbada e não seria legal.
— Pelo menos ele não se aproveitou. — ela constatou e eu suspirei.
— Sim, claro. Não é por isso que eu fiquei brava. Fiquei irritada porque me pareceu um fora e eu nem queria tanto assim. E foi um puta quebra clima, pois estávamos bem… Enfim… — corei um pouco, novamente amaldiçoando minha genética.
Cat deu risada. Mas muita risada. Fiquei brava de início, mas não resisti e ri também. Nas últimas 24 horas eu tinha vivenciado mais emoção do que jamais tive. Era uma droga, mas ao mesmo tempo interessante.
— Rose, olha as merdas que a gente faz. — ela tinha a mão na barriga enquanto tentava parar de rir.
— Não vejo a hora de voltar para Hogwarts. — admiti, enxugando uma lágrima que havia escorrido do meu olho devido às risadas. Respirei fundo. — As coisas são mais simples lá. Sei lá. Só quero organizar o Clube de Duelos em paz, focar nos NIEM’s e na vaga na Romênia.
— E eu quero muito voltar para minhas plantas. Sério, não há terapia melhor. Mas… — ela alongou a última palavra, levantando-se e me estendendo a mão. — Enquanto não voltamos, poderíamos aproveitar e extravasar um pouco. Que tal algumas rebatidas?
— Você nem gosta tanto de Quadribol. — comentei rindo e estranhando um pouco.
— Já que andei testando coisas novas, nada melhor do que entrar na vibe.
Fale com o autor