Free Soul
1 Talento oculto
– Oh! Shit! Estou atrasado!
O alemão Gilbert Weillschmidt, um albino de olhos vermelhos, ouviu o grito do inglês de cabelos rebeldes loiros, olhos verdes e duas sobrancelhas bem grossas. Era o dono do quarto. A placa de PVC com a palavra ARTHUR KIRKLAND dizia isso.
O apartamento em si era um local pequeno, sem divisão entre sala e cozinha. Tinha uma área de serviços que só cabia um tanque de concreto, e mais dois quartos: O de Arthur e o que estava desocupado.
Como havia ido parar no quarto de Arthur mesmo?
Francis.
Claro. Francis Bonnefoy. O amigo de infância de Gilbert havia convidado todos os veteranos da Axis University para uma festa de homenagem aos calouros.
Pobres calouros.
Grande festa.
Claro, o entusiasmo fez Gilbert extrapolar sua cota mensal de cerveja (seu irmão mais novo o mataria por isso) e sua memória estava um pouco fraca. Muito fraca. O que aconteceu mesmo?
Ah, sim. Arthur estava bêbado, debulhado em lágrimas e abraçado ao garçom. Era uma cena tão deprimente que até Gilbert se ofereceu para levar o inglês para casa. O plano era deixar Arthur lá e voltar para curtir com os amigos e o irmão, mas acabou se encantando pelo estoque de rum do inglês e ficou lá até o sol raiar.
Agora Arthur havia acordado e resmungava por causa do risco de chegar atrasado na aula.
– Maldita pontualidade inglesa. O incrível eu ainda não se recuperou da ressaca. – Um pé acertou a cabeça de Gilbert – Ai! Sai pra la... Antônio?
Antônio Hernandez Carriedo, um espanhol tão amigo seu quanto Francis. Moreno, de cabelos castanhos e olhos verdes. Estava deitado no mesmo colchonete, mas no sentido contrário ao do corpo do albino.
É mesmo. Gilbert só levou Arthur pra casa porque Antônio, bêbado e com o coração mole, pediu pra que o ajudasse.
Arthur continuava resmungando:
– Aquele frog e a festa maldita dele! Vou acabar me atrasando!
– Bueños dias pra você também, Arthur. – Antônio sorriu enquanto se sentava.
– Vocês não tem aula hoje não?
– A gente falta a primeira aula, inglês estressado. – Gilbert grunhiu – Agora silêncio. O incrível eu precisa descansar.
– Parem de ser dois vagabundos e se apressem! Vou deixar a chave em cima da mesa. Quando saírem tranquem a porta. Depois coloquem debaixo do tapete.
– Ta, ta...
Arthur bufou mais uma vez e saiu.
Gilbert resmungou:
– Esse inglês precisa dar uns trepas. Espero que o Francis consiga pegá-lo.
O moreno riu do albino. Esfregou os olhos e olhou para o relógio. Era mais de oito da manhã. Cabular a primeira aula já estava nos planos.
– Gil, vamos tomar café?
– Vá você. O incrível eu está com uma incrível ressaca e precisa tirar um incrível ronco.
– Mas eu não quero tomar café sozinho...
Antônio apoiou-se sobre o amigo, falando de modo que a respiração causasse cócegas no ouvido do alemão.
– Que foi, Tônio...?
– Vamos nos encontrar com Francis?
– Fran deve estar pior que eu. Quando saímos ontem, ele tava usando só uma rosa.
– Fusososo! Não aposte nisso. Sabemos que ele se recupera mais rápido que nós dois. Agora vamos tomar café?
Antônio se levantou e se espreguiçou. Alongou todo o corpo e coçou a cabeça.
– O Arthur não deve se importar se eu usar a escova de dente dele.
– Do jeito que o inglês é, já deve ter colocado uma escova pra toda cambada que vem aqui. O Francis já dormiu aqui e eu duvido que o sobrancelhudo tenha deixado-o usar a escova de dente dele.
O espanhol foi até o banheiro e viu duas escovas no copo. Uma com a bandeira do Reino Unido e uma cinza e sem graça.
– Giiil, achei a escova das visitas!
O albino riu de repente.
– Kesesesese! Não pegue a de visitas. A boca do Francis já deve ter passado por essa. Use a do inglês que é mais seguro.
– Que maldade, Gil!
Antônio fechou a porta do banheiro e pegou a escova com a bandeira do Reino Unido.
Gilbert virou de barriga pra cima e olhou a lâmpada. Os braços ficaram estendidos formando uma cruz com o corpo. Estava com sono, mas agora não conseguiria mais dormir.
– Porra... Minha incrível cabeça... Arthur deve ter alguma aspirina. Afinal ele bebe feito uma esponja. – Se levantou e foi vasculhar o criado-mudo do dono do quarto. – Remédio, remédio...
“Ah, I wanna rock’n roll all night and party every day”
Antônio cantava.
– Tônio, você ta no banho?
– Não canto só no banho. – O moreno respondeu quando saiu do banheiro – E falando nisso, vamos ensaiar hoje?
– Claro! O incrível eu não pode ficar um dia sem suas incríveis baquetas! Vamos ligar pro Francis. Só espero que ele esteja acordado. Kesesese!
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– As vezes me pergunto o que alguém como você faz num curso de agronomia e não de gastronomia.
Francis Bonnefoy olhou para o irmão mais novo de Gilbert e sorriu por causa do comentário. Ludwig era mais alto e forte que o próprio Gilbert. Mais disciplinado e sério também. O alemão agora amassava os ovos mexidos que acabava de receber.
Ludwig dividia o apartamento com um holandês. Era um local com cozinha americana junto da sala de jantar. Tinha uma sala de estar pequena e dois quartos. Um único banheiro e um espaço de 2m² no máximo, que chamavam de área de serviço. Só dava para colocar uma bacia com roupas ali.
O francês desamarrou o avental e soltou os cabelos.
– Essa é a sua forma de elogiar minha comida? Merci. Era o mínimo que eu poderia fazer por ter me trazido aqui ontem.
– Foi Feliciano que insistiu para que eu lhe levasse da festa. Você tem sorte do seu primo gostar muito de você.
– Hihihi! Isso é bem a cara do Feliciano. E eu fico feliz por você gostar tanto dele.
– A família de vocês dá muito trabalho.
– Nossa família é cheia de pessoas charmosas. Veja eu, Feliciano, Antônio... Até Lovino quando quer consegue ser simpático. Já a sua...
Ludwig fez uma carranca:
– O que tem de errado com a minha família?
– Naaada! Continue comendo os ovos. Eu fiz com todo o meu amor e carinho.
Francis piscou com um olho e jogou um beijo para o dono do quarto. O alemão ignorou, continuando a comer os ovos.
– Ludwig, você faltou à aula?
– Bem... Eu exagerei um pouco ontem.
– Alemães não resistem mesmo a uma cerveja. Especialmente um calouro feito você.
– Por que você parece estar bem?
– Eu me recupero fácil dessas noitadas, cher.
O celular de Francis vibrou em cima da mesa. O loiro o pegou e atendeu ao ver o número de Gilbert no visor.
– Pode falar, mon amour.
– Onde você ta, Francis? Estamos na casa do Arthur.
– Sério? E eu perdi a chance de dormir com ele? Que pena, mas estou bem na casa do seu irmão.
Gilbert quase teve uma síncope:
– O QUE VOCÊ FEZ COM MEIN BRUDER, DESGRAÇADO?
– Nada, cabeça de cotonete. Feliciano pediu pra que ele me trouxesse e aqui estou. Pra que tanto protecionismo? Seu irmãozinho sabe se cuidar melhor que você.
– Holla, Francis! – Antônio tinha pegado o celular – Vamos ensaiar essa tarde?
– Ensaiar? Claaaro! Temos que ver quais músicas cantaremos no show desse ano.
– Então depois da aula nos encontramos!
– Oui. No bloco de música, às 14 horas.
– Sí!
Desligou.
– A banda de vocês vai fazer um show? – Ludwig perguntou surpreso.
– Não é beeem um show. Todo ano a Axis faz a Linha do Rock, um evento para bandas amadoras se apresentarem. Gilbert quer nos inscrever esse ano. Finalmente sairemos do porão.
Francis olhou a hora no celular e deu um assobio:
– Nem adianta mais assistir à aula de zootecnia. O jeito é passar lá em casa e trocar de roupa.
– Tem umas do Gilbert ai. Não servem em você?
– Isso é um convite pra eu ficar?
Ludwig retesou as sobrancelhas. Francis deu uma risadinha antes de ouvir algo desagradável.
– Merci, Cher, mas prefiro as minhas roupas. Gilbert é meu amigo, mas se há algo que eu mudaria nele é a forma como ele se veste. Nos vemos depois.
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Quando Arthur chegou, a porta já estava fechada. A aula de Astrofísica Nuclear havia começado.
– Shit!
Não era incomum os alunos entrarem no meio da aula, mas isso feriria o orgulho do loiro. O professor ficaria em silêncio quando ele entrasse, condenando-o por chegar com mais de vinte minutos de atraso.
Além disso, Arthur nem teve tempo de se arrumar. Seus cabelos estavam muito bagunçados e a roupa desarrumada. Tudo para poupar tempo e nada adiantou.
Encostou-se na parede e cruzou os braços. Seu dia tinha começado mal.
Alguém se aproximava daquele corredor. Outro atrasado? Não que Arthur tivesse interessado em saber quem era, mas resolveu olhar.
Para a sua surpresa era um calouro americano, de cabelos loiros, olhos azuis, óculos, mais novo e mais alto que ele.
Nesse momento seu sangue ferveu:
– A-Alfred!
O calouro sorriu ao se aproximar. Era um sorriso sem definição. Não perdia o jeito infantil que Alfred sempre carregava e ao mesmo tempo parecia ser de alguém com algum sentimento pra demonstrar.
– Hi, Arthie! Nem deu pra eu falar direito com você na festa de ontem. Faz um tempão, não? Seis anos.
- O que você faz aqui?! Por acaso o curso que você passou foi astronomia?
- Yeah! — Ergueu o polegar e sorriu — Mas como esse é meu primeiro dia de aula, eles não vão se importar se eu chegar atrasado. Hahá!
Como um acadêmico poderia ser tão irresponsável?
Como ele poderia agir tão naturalmente?
Deveria tentar ser cordial com o americano, certo? Claro que sim, afinal Arthur era um veterano e precisava ser gentil com o calouro.
Tentou abrir o melhor sorriso que conseguia mostrar e começou a dar as boas vindas, mas Alfred foi mais rápido e lhe deu uma tapa nas costas.
– E você bebeu todas ontem depois que eu saí daquela festa de boas vindas, não foi, Arthie? Kiku me contou tudinho! Hahahá! Será que tiraram fotos?
Arthur teve vontade de lhe dar um soco.
– IDIOTA! Com quem pensa que está falando!? Sou seu veterano!!
– E daí? Quer que eu o trate como “senhor”? Há! Nem ferrando!
– Vou tirar esse sorriso estúpido da sua cara, wanker!
– É assim que trata alguém que você nunca mais viu? – Seu sorriso se desmanchou e passou a ter um olhar mais pensativo – Engraçado... Você encolheu?
– Eu vou matar você. – Resmungou o inglês com uma veia sobressalente.
– Pode ter encolhido, mas continua com o mau humor de sempre. Ta, ta, vou deixá-lo em paz. To atrasado pra minha aula mesmo. Espero que o professor releve por ser o primeiro dia. Hahá! Bye, Arthie!
Sem nenhuma culpa, Alfred entrou na sala.
– Idiota... Atrasado para o primeiro dia de aula.
– Rapaz interessante, da?
– Aaah!
Arthur deu um pulo assustado quando viu Ivan perto de si. Um russo alto, de cabelos loiros claríssimos e olhos azuis. Ele sorria para o inglês. Um sorriso evidentemente falso e um pouco assustador.
– Pare de surgir do nada, Ivan!
– Eu me aproximei de você normalmente, mas você não me viu. Não vai entrar na sala?
– A aula já começou. Estou atrasado, então não posso entrar.
– Bobagem. Ainda devem ter uns trinta minutos de aula sobrando. Seria um desperdício.
Ivan passou por ele e apoiou a mão na porta, sem abrí-la ainda.
– Você não vem?
Arthur baixou a cabeça e suspirou.
– Talvez eu precise tocar.
– Desculpe. Você não faz meu tipo. Mas se quiser tanto se tornar um comigo...
– Eu não estou falando disso, idiota! — O inglês corou até a raíz dos cabelos — Estou falando em ir para a sala de música.
–Faça isso depois que as aulas acabarem, da? Agora vamos. Estamos perdendo tempo.
–... Ok.
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– E que tal Pink? – Perguntou Francis.
– A cantora?! — Gilbert torceu o nariz.
– Não. A música.
As aulas de Francis, Gilbert e Antônio haviam acabado e agora o trio caminhava pelo campus, em direção à sala de música. Era uma área bem arboreada, com algumas flores de cerejeiras enfeitando o chão. Estavam perto do bloco de música.
– Será que não devíamos ter reservado a sala principal? – Perguntou o espanhol – Alguém pode ter ocupado.
– Bobagem – Gilbert riu – Primeiro dia de aula. O pessoal nem quer saber de ficar numa sala de aula. O único que iria querer estar numa assim é o Roderich, mas ele ganhou um piano ano passado.
O sorriso de sempre de Antônio se desfez. Francis percebeu.
– Ah, mon ami, não fique com essa cara. O passado já passou. Gilbert, viu o que você fez?
– Eu?! Antônio, esqueça o aristocrata!
– Oui! Tem o Lovino. Pegue-o!
– Que!? Francis, não mande o rei do tomate ficar correndo atrás do Lovino!
– E ainda tem o Feliciano. — O francês cutucou o espanhol com o cotovelo — Eu sei que você sempre foi maluco pelos dois. Agora são nossos calouros, vamos abusar deles!
– Ei! Não está me ouvindo! O incrível eu odeia ser ignorado!
Antônio voltou a sorrir.
– Os Vargas cresceram tan lindos! Principalmente juntos!
– Sabia, mon Cher! Threesome! Que curso estão fazendo?
– Feliciano está cursando Artes e Lovino Moda.
De repente eles ouviram o som das cordas de uma guitarra vindo da sala de música.
– Ah não, alguém já pegou a sala principal... – Antônio lamentou. — Será que se pedirmos com jeitinho ele deixa a gente usar?
– Vamos tentar chegar num acordo, mon cher.
As notas continuavam tocando, se formando uma sequência muito popular. Os três reconheceram na hora.
– Epa! Essas notas...! – O queixo de Gilbert quase caiu — Será que…?
– Vamos ver!
Os três correram para perto do vidro e viram que quem fazia a famosa sequência na guitarra era Arthur.
Amplificadores ligados. Microfone também.
(Gun’s n Rose)
As notas mais marcantes vinham no começo da música e parecia ser a parte que Arthur mais dominava. Era uma sequência repetitiva, mas que fazia o trio de amigos não conseguir desviar a atenção.
She's got a smile that it seems to me
(Ela tem um sorriso que mexe comigo)
Reminds me of childhood memories
(Me faz lembrar memórias de infância)
Where everything was as fresh as the bright blue sky
(Em que tudo era tão claro quanto o brilhante céu azul)
Sim, Arthur cantava. Tinha voz melodiosa e afinada.
Now and then when I see her face
(De vez em quando, quando eu vejo seu rosto)
She takes me away to that special place
(Ela me leva para aquele lugar especial)
And if I stare too long I'd probably break down and cry
(E se eu olhasse muito, eu provavelmente perderia o controle e choraria)
Oooohh! Sweet child o' mine
(Oooohh! Minha doce criança)
Ohh! Ohh! Ohh! Ohh! Sweet love of' mine
(Ohh! Ohh! Ohh! Ohh! Meu doce amor)
O refrão se seguiu com uma parte do solo principal, deixando o trio completamente pasmo.
She's got eyes of the bluest skies
(Ela tem olhos dos céus mais azuis)
As if they thought of rain
(Como se eles pensassem na chuva)
I hate to look into those eyes and see an ounce of pain
(Eu odeio olhar naqueles olhos e ver um traço de dor)
Her hair reminds me of a warm safe place
(Seus cabelos me lembram de um lugar quente e seguro)
Where as a child I'd hide
(Onde, quando criança, eu me esconderia)
And pray for the thunder and the rain to quietly pass me by
(E rezo para o trovão e para a chuva calmamente passem por mim)
Oooohhh! Sweet child o' mine
Ohh! Ohh! Ohh! Ohh! Sweet love of mine
Depois disso veio o solo. E que solo! As cordas vibravam perfeitamente numa melodia capaz de imobilizar qualquer ser humano. Daquelas que você pede para aumentar mais o volume porque aquilo não é o suficiente.
Arthur cantava com emoção os versos finais, deixando sua alma no solo que executava e atingindo corações. Três corações na verdade, embora ele nem tivesse ideia disso.
Quando a música acabou, o inglês rangeu os dentes e jogou a palheta para o lado, tirando o instrumento de perto de si depois.
Do lado de fora, os três amigos estavam estáticos demais com o que acabaram de presenciar.
Foi Gilbert que conseguiu quebrar o silêncio, embora sua expressão não tivesse melhorado.
– Alguém por acaso sabia... Que o Arthur arrasava na guitarra?
Continua
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