Free Fallin'

7 John: Take my life back again


Me deito de novo assim que Marie se vai. Se vai, deixando o cheiro dela aqui. O que diabos deu em mim, afinal? Por que eu ajudei ela, e mais, por que a trouxe pra dormir justo no meu quarto, cara? Eu nunca durmo com ninguém aqui. Dormir com alguém soa estranho, ainda mais no sentido realmente da palavra, a gente só dormiu. E porra, pra quê fui por ela aqui com mais de vinte quartos nessa casa? Claro, queria que ela dormisse comigo, ficasse comigo de outra forma, mas não no estado em que ela tava e muito menos no meu quarto. Ela se odiaria se ficasse comigo. Ela disse isso. Por que? Eu sou tão ruim assim? Sou, é óbvio que sou. Eu sou puro egoísmo. E ela é puro coração, pelo que parece. Ontem ela chorou pra caralho, e com certeza ela não lembra, e foi por isso que eu ajudei ela. Eu me preocupei com ela. Eu me preocupei com alguém que eu nem conheço e que só me dá bola fora. Não sou tão ruim assim, vai. Porra, John. Você é um canalha. Ela disse isso, e também não deve se lembrar. Muitas me disseram isso, na verdade. E foda-se, eu não vou mudar, sou feliz assim. Por que mudar o que sou? E por que eu tô pensando e ligando pra tudo o que diz essa menina? Foda-se ela, John. Foda-se todo mundo, quem importa é você. É que ela é tão estranha, tão complicada, que meu ego insiste em querer resolver. Mas eu na verdade não quero. Não tô nem aí pra ela. Não mesmo. Olho pro relógio e são duas da tarde, e lembro que combinei de ir jogar com os caras. Levanto, tomo banho e troco de roupa, pego as chaves do carro e saio. Ao passar na esquina da casa azul número 201, vejo pela janela um cabelo liso meio que ondulado e cor de mel...

- E aí, irmão! — Cumprimenta Matt com um aperto de mão e um tapa nas costas quando chego na quadra.

- E ae.

Esperamos um tempo até todo mundo chegar e começamos a jogar. No meio do segundo tempo, levo cartão vermelho por dar um chute muito forte na canela de um dos caras, amigo meu.

- Foi mal. — Digo, tiro a camisa e a coloco no ombro e saio da quadra.

- Ô John, espera aí! — Grita um dos meninos, paro e espero ele me alcançar. — Que que tá pegando, cara? Você tá estressado, pra baixo!

- Não tá pegando nada, só umas coisas atoa, relaxa, tá de boa.

- Tá de boa mesmo? Pô, sou seu amigo. Pode confiar. Brigou com os pais? Fala aí, cara, se abre! Por mina eu sei que não é, né garanhão.

- Não briguei com ninguém, não. Não é nada mesmo, tá de boa, vou vazar.

- Espera aí, mano. Fiquei preocupado agora. E que história é essa que você saiu do baile ontem com a Marie? Não vai dizer que pegou ela também?

- Não.

- Ah, sei, pensa que me engana, né? E aí, como ela é?

- Chata pra cacete.

- Tô falando na cama, cara. Chata toda mulher que você pega geralmente é.

- Ah, cala a boca. — Digo sério, e com isso ele para de rir compulsivamente. — Eu tô indo nessa, tchau.

- Ih, tá mal mesmo hein! — Ele grita quando já estou de costas pra ele.

Tô mal é o caralho. Talvez esteja, sei lá, não sou muito acostumado a levar fora, é a realidade. Hoje eu não tava pretendendo ficar com ninguém, mas talvez seja disso que eu preciso. Mando mensagem pra primeira que tá na minha lista de contatos. Letra A. "Anne."