Fredo, Meu Querido Fredo
3 Vai Acontecer Uma Festa!
Notas iniciais
Durante a aula de matemática, quando Ágatha não aguentava mais segurar, pediu permissão à professora para ir ao banheiro.
– Você é nova na escola? – perguntou a senhora com cabelos grisalhos que ensinava a matéria mais entediante do mundo.
– Não. – respondeu Ágatha sem saber qual era a intenção dela ao fazer aquela pergunta.
– Então já sabe a resposta.
Alô?? Não seria mais fácil dizer um simples e frio “não”?
A menina franziu o cenho, pensando se deveria reforçar o fato que estava quase mijando nas calças ou se deveria xingá-la mentalmente. Acabou fazendo os dois.
– Vai logo antes que eu mude de ideia – respondeu sem paciência a professora enquanto tentava voltar a se concentrar na resolução da atividade no quadro negro.
Não sei se comentei, mas a escola de Ágatha era uma daquelas bem tradicionais, com direitos a professores velhos, zeladores estranhos e sinistros e diretores com filhos lindos e burros, os quais gostavam de provocar as alunas quando vinham “fazer uma visita” aos pais. O mais estranho nisso tudo era que o garoto pelo qual Ágatha tinha uma paixão platônica possuía o mesmo sobrenome que o diretor. E não era mera coincidência. As paredes eram de pedras, enfeitadas com certificados enquadrados de primeiro lugar em competições e olimpíadas estaduais. Mas, adivinhe só? Miranda estava na maioria deles.
E esse era um dos principais motivos que a faziam odiar a sua escola. Não bastava em casa, até mesmo no lugar onde ela supostamente deveria se divertir um pouco com suas amigas, Ágatha presenciava em cada centímetro quadrado daquela escola evidências de quanto Miranda era e seria infinita vezes melhor do que ela.
Quando chegou ao banheiro, foi direto para a cabine. Depois de se aliviar, caminhou em direção a pia e lavou delicadamente seu rosto cansado e abatido. Abrindo os olhos novamente, ela viu através do reflexo do espelho a figura de um garoto parado perto de uma das cabines com os braços cruzados, o tronco recostado na quina da porta e com um sorriso malandro no rosto.
– Filando aula, Tita?
Ágatha soltou um grito que foi abafado um segundo depois por ela mesma, ao perceber que acabaria chamando a atenção de alguém ou de algum zelador passando pelo corredor.
– O que está fazendo aqui? – perguntou irritada, num sussurro.
– Eu não sei. Apenas apareci para você.
– Qual é?! Tem que ter um motivo.
A conversa foi interrompida pelo sinal do término do primeiro horário tocando. Algumas garotas entraram no banheiro conversando e soltaram um olhar estranho para ela, que ainda estava com o rosto molhado, virada para uma cabina com uma privada dentro.
Fredo começou a mandar olhares maliciosos para as garotas ali presentes. Ágatha ficou constrangida por elas.
– Você não pode ficar aqui. – sussurrou com o canto da boca mais discretamente que ela conseguiu.
– O que você disse? – perguntou, fingindo que não ouvira.
– Você não pode ficar aqui.
Nesse exato momento, uma menina passou por Ágatha e olhou para ela estranho, como se estivesse na presença de uma louca que conversava sozinha. Morrendo de vergonha, ela se enxugou rapidamente e saiu do banheiro, que estava ficando cada vez mais cheio. Godofredo a seguiu.
– Qual a próxima aula, Tita? – perguntou ele enquanto tentava acompanha-la com passos largos e determinados.
– Você não está insinuando que vai ficar aqui na escola também, não é?
– Eu estou insinuando que quero saber qual seu próximo horário.
– Por algum motivo. – afirmou, mas não houve nenhum contra-argumento da parte dele, deixando claro que havia, sim, um motivo por trás, ele apenas não falaria – Sociologia.
– O que é isso? – ele parou na frente dela, impedindo-a de continuar a andar. Antes de responder, Ágatha soltou uma risada leve e olhou aos arredores para se certificar de que ninguém estava presenciando aquela cena ridícula dela conversando com o nada.
– É uma matéria.
– E o que se estuda nela?
Ela parou para pensar.
– Não é algo muito interessante.
Um nó de dúvida e curiosidade se formou na testa de Fredo, mas ele preferiu ignorar o assunto, como Ágatha havia dito, não parecia ser algo divertido.
– Eu detesto esse lugar – comentou ele quando estavam perto da sala de aula.
– Você não é o único – retrucou.
Assim que entraram na sala, Luíza veio em sua direção, arfando e quase não conseguindo pronunciar as palavras.
– Respire fundo – aconselhou e assim a amiga o fez.
– Você não advinha quem está aqui. – disse com as pontas dos lábios levemente elevados.
– Eu sei! Eu sei! – Fredo se empolgou – Uma dica, Tita, começa com A.
– Dá pra ficar quieto?! – ela se estressou com ele.
– Ágatha? – Luíza estranhou sua fala. – Tudo bem?
– O que... ah, sim, sim – colocou a mão na nesta, cansada – É Arthur, não é?
– Qualquer um acertava. – comentou ele com um quê de esnobes em sua voz.
– Ele estava na sala do seu pai e deu uma passadinha por aqui...
– Não me diga que Priscila o viu – resmungou já imaginando qual seria a resposta.
– Sim, ela foi a primeira a notar a sua presença e já foi logo se atirando para cima dele.
– Aquela vadia... – disse Godofredo e Ágatha ao mesmo tempo.
– E por que você demorou tanto para ir ao banheiro? – Luíza perguntou, olhando-a com estranheza.
– Tive uma dor de cabeça muito forte, mas já passou. – respondeu, fingindo-se cansada.
– Não passou, não... – o motivo da sua dor de cabeça retrucou.
– Sabe, eu estava pensando – começou Luíza, enquanto todos caminhavam para o pátio. – Nós poderíamos dizer que Patrícia está, tecnicamente, “traindo” Susana.
– Sério que você pensou nisso? – Ágatha perguntou, sendo irônica. – O máximo que ela pode fazer é rir das nossas caras e nos abusar ainda mais.
– Qual é, amiga! Pense comigo: qualquer um que está num relacionamento não gostaria de saber que está sendo traído, especialmente no caso dela.
– Ok. Você pode estar certa, mas primeiro precisamos de provas.
– Tita, nunca pensei que você fosse tão maléfica assim... – Fredo comentou, com uma cara de decepcionado.
Ágatha suspirou profundamente, tentando resgatar do seu estoque vazio paciência e calma.
– O que foi? – sua amiga indagou. – Teve uma ideia?
– Ela não, mas eu tive.
– O que é?
– O que é o que?
– O que é o que, Luíza?!
– Eu que te pergunto “o que é”!
– Nada, esqueça...
– Você está muito estranha hoje.
– TPM.
– Hum, mas então, o que foi? – ela perguntou a Ágatha.
– Vocês são muito atrasadas mesmo. – Fredo murmurou, estressado. – Olhem ao redor! – fez um gesto abrangente — Vai acontecer uma festa!
– Uma festa?
– Uma festa?!
– Sim, o seu namoradinho platônico vai dar uma festa.
– Ótima ideia! – Ágatha exclamou.
– Que ótima ideia?! – Luíza questionou, irritada.
– Arthur vai dar uma festa, e qual seria a melhor ocasião para flagrarmos uns amassos de uma certa pessoa?
– Você é um gênio, amiga!
– De nada, Luíza. – falou Godofredo, sarcástico. – De nada, Ti...
Mas Ágatha já estava longe, arquitetando seus planos para pegar Patrícia de jeito, cochichando com sua cúmplice.
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