Freddy Walker, o filho do sol
2 Capítulo 2 - Eu ameaço jogar um olho fora
— Ozzy! – chamei – O que está acontecendo? Eu mereço uma explicação! Quem é esse Senhor D?
Ele se virou para mim e disse:
— Você quer uma explicação? Ótimo! – Ele foi a uma das estantes na sala do Diretor, e pegou um livro de mitologia grega; ele foleou e parou numa página sobre Dionísio, o deus do vinho, das festas, e da loucura. Ele era um homem familiar, um pouco gorducho; ele segurava uma taça cheia de vinho, e um leopardo estava ao seu lado – Este é o Senhor D.
Não podia ser verdade. Quer dizer, fazia sentido, mas não podia ser verdade, afinal deuses não existiam. Diz isso pra água que se transformava na imagem de um gorducho jogando cartas, pensei.
— E por que o Leão de Neméia veio atrás de mim?
— Provavelmente por causa de seu pai.
— Meu pai? – Eu me ressentia só de pensar nele – Você conhece meu pai? Você mais do que todos que eu não o conheço, mas você, meu melhor amigo, sabe quem ele é e não me falou nesse tempo todo?
— Calma! – Ele me interrompeu – Eu não sei quem seu pai é, mas eu sei quem ele pode ser.
— O que quer dizer?
— Eu quero dizer que – Ele folheou o livro de mitologia e parou numa foto onde todos os deuses olimpianos estavam reunidos em seus respectivos tronos – seu pai é um deles. Cara, esse livro é muito bom pra explicar pra novos semideuses! – Disse ele, guardando o livro na mochila.
Era muito para processar. Ozzy estava me dizendo que eu era filho de um deus. Eu até queria acreditar nele, mas era impossível. Essas coisas não eram reais.
Nós saímos da sala e trancamos a porta, fomos andando pelos corredores, lado a lado.
— Então você está afirmando que meu pai – Interroguei, enquanto descíamos as escadas para o quarto andar – Meu desaparecido pai, é um dos doze deuses olimpianos?
— Sim – Confirmou – Quer dizer, não necessariamente um dos doze, pode ser Hades, ou um deus menor, como Tique, ou Hécate. – Eu abri a boca pra argumentar, mas ele interrompeu – E não me venha com “isso é impossível”, ou “deuses não existem”, porque você acabou de matar um diretor que se transformou em leão. Então deuses é a coisa menos impossível de existir.
— E você? – Perguntei – Qual o seu papel para saber de tudo isso?
— Eu sou um sátiro. Sátiros se infiltram em escolas ao redor do país procurando por semideuses, como você. Embaixo desse boné, você vai encontrar dois belos chifres, e se você tirar meus sapatos, você vai encontrar dois belos cascos. – Ele tirou o boné, revelando um par de cascos, e guardou o boné na mochila.
Estava cada vez pior por um simples motivo: eu estava começando a acreditar.
— Mas, se eu sou o filho de um deus, como eu sou um dos piores alunos da escola inteira?
— Deixe-me adivinhar: Você tem TDAH, certo? Isso é porque você está preparado para o combate, tem que ficar atento em tudo. Quanto à dislexia, seu cérebro – Ele deu um peteleco na minha cabeça – está conectado ao grego antigo, por isso demora pra entender o inglês. Agora vamos, temos que comprar uma maleta de pôquer para um deus impaciente.
Nós compramos uma maleta de pôquer. Todo o dinheiro que eu tinha no meu bolso foi investido numa maleta de pôquer com quinhentas fichas e dois baralhos.
Nós estávamos no Upper East Side, do outro lado da cidade, pois Ozzy precisava falar com um amigo.
Subimos em um prédio em uma rua desconhecida – por acaso eu sou obrigado a conhecer os outros bairros? – e tocamos na campainha do terceiro andar. “Já vai!”, disse uma voz lá dentro.
A porta se abriu e uma mulher apareceu. Ela tinha os cabelos castanhos, com alguns fios grisalhos.
— Um sátiro! – Exclamou – Percy! – Gritou ela pra alguém dentro da casa
Um adolescente – talvez dezesseis ou dezoito anos – apareceu na porta, ele fez uma expressão confusa e fechou a porta atrás dele, isolando-nos da mulher que atendera a porta.
O garoto tinha cabelos pretos e olhos verdes, tinha uma tatuagem no antebraço – um tridente, as letras SPQR, e um risco vertical – e usava uma camiseta laranja esfarrapada, levava uma mochila nas costas, como se tivesse acabado de arrumá-la.
— Ozzy, o que aconteceu? – Perguntou o garoto – Eu já estava indo para o acampamento.
— Nada, Percy – Disse Ozzy – Eu encontrei um meio-sangue, e como hoje é o dia em que você geralmente aparece no acampamento, pensei em irmos juntos.
Percy assentiu.
— Só deixem-me me despedir da minha mãe. – Ele entrou no apartamento e voltou alguns minutos depois – Pronto. Quanto mais cedo partirmos, melhor!
— E quanto à minha mãe? – Perguntei. Eu ainda estava apreensivo quanto a esse assunto de deuses e acampamento, mas eu tinha que acreditar. Era a única explicação para o desaparecimento do meu pai – Ela ainda não sabe pra onde estamos indo.
— Isso já está sendo resolvido – Afirmou Ozzy – Quando eu contei para Quíron sobre um novo meio-sangue, ele entrou em contato com sua mãe.
— Minha mãe sabe que meu pai é um... um deus? – A ideia ainda parecia estranha.
— A maioria sabe – Disse Percy – Minha mãe sempre soube que meu pai era Poseidon.
Poseidon, pensei, tá aí um deus legal pra ser filho.
— Agora, vamos – Disse Ozzy – Precisamos pegar o táxi das Irmãs Cinzentas.
Percy gemeu, como se já tivesse pegado esse táxi, e sua experiência não fora das melhores.
Se um dia te pedirem pra pegar o taxi das Irmãs Cinzentas simplesmente porque ‘é mais rápido’, ou ‘é divertido’, diga não. Diga não quantas vezes forem necessárias pra convencer a outra pessoa de que o táxi é uma roubada.
Na rua, Percy jogou uma moeda – um dracma de ouro, de acordo com ele – no asfalto. Para minha surpresa, a moeda afundou e desapareceu. No lugar, um clássico táxi nova-iorquino apareceu. Mas o táxi era cinza ao invés de amarelo.
— Entrem logo! – Gritou uma voz de lá de dentro, nós entramos no táxi – Pra onde?
— Acampamento Meio-Sangue.
Ela pisou na tábua. Ela não. Eram três motoristas. Elas dirigiam como se não tivessem os olhos.
— Veja quem são, veja quem são! – Disse a motorista, a do banco do passageiro olhou pra trás.
— O Jackson filho de Poseidon, um sátiro, e o garoto da profecia de Apolo.
Despertei-me na hora em que a motorista desviou bruscamente de um poste.
— O que quer dizer com garoto da profecia de Apolo?
A motorista freou e eu quase voei pra fora do carro.
— Por que você teve que mencionar isso, Vespa?
— Você me disse pra ver quem eram– Respondeu Vespa.
— Calem a boca e continuem a dirigir! – Gritou a do meio.
— O que quiseram dizer com garoto da profecia de Apolo? – Insisti.
— Fomos proibidas de dizer, seu próprio pai nos proibiu de contar sobre a profecia. – Respondeu a do banco do passageiro, Vespa.
— Deixe comigo – Sussurrou Percy para mim – Olha lá! – Ele apontou para frente. A motorista olhou para a esquerda, a do meio para a direita, e só a do passageiro olhou para onde Percy apontara. Ele rapidamente pegou um olho do rosto da mulher, enquanto ela procurava alguma coisa pra olhar.
Ele jogou o olho pra mim.
— Eu estou com o olho! – Exclamei e o exibi – Eu só devolvo se me contarem o que é a profecia!
— Ele teve a mesma audácia que o filho de Poseidon. Percebeu, Tempestade? – disse a do meio.
— É claro que não vi, o olho está com o moleque, Ira. – Respondeu Tempestade.
— Apolo recebeu uma profecia sobre você e seu pai! – Falou Vespa – Olha lá!
Eu caí e olhei pra trás. Ela pegou o olho da minha mão e colocou-o no rosto.
— Chegamos! – Exclamou Tempestade – Agora desçam logo, ou eu tiro vocês à força.
Nós descemos e o táxi afundou na terra mais uma vez. Nós estávamos no topo de uma colina, ao lado de um pinheiro guardado por um dragão. Ao descer da colina, era visível uma casa azul, um anfiteatro com mesas de piquenique, um amontoado de vinte chalés, e uma praia lá embaixo.
— Onde estamos? – Perguntei à Percy.
— Bem-vindo ao Acampamento Meio-Sangue – disse uma voz mais à frente, era um homem, mas abaixo de sua cintura, havia o corpo de um corcel branco – Eu sou Quíron, o seu diretor de atividades.
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