Francisca

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Resolvi postar uma fanfic aqui.
Essa fanfic foi feita por mim mesmo para um concurso no AnimeSpirit e resolvi postá-la aqui também.
Boa leitura. ^^

Francisca

Escrito por Edu Wong.

Francisca se foi. Esquecida. Apenas mais uma mocinha do interior. Relatemos, então, o seu remate e a sua dor.

Órfã. A avó era seu único ponto de paz – que descanse em paz, Maria. Vida nova na cidade grande. Desafio é a palavra que resume seu renascer longe do sítio

Poucos dias de estudos e já se sentia com dificuldades – de todas as maneiras imagináveis. Sacrifício foi feito para que se possibilitasse consumar o básico dos estudos.

O doce e difícil sonho de lecionar como mestra era o que ainda a deixava viver. Nunca na vida sentiu tanta vontade de partir em encontro com sua família. A fé nisso persistia.

Pronta a encarar, quem sabe, o maior desafio da sua vida escolar que tende a efetuar-se hoje à noite. Oh!, Francisca faça o favor. Arrume-se para o anual Baile de Máscaras!

Em seu cômodo escuro, Francisca se encantava ao se ornamentar. Quem um dia iria dizer que alguma vez usaria o vestido azul de sua mãe?! Bela agora se encontra. (In)Felizmente causaria inveja à Estela, apesar de não ter nenhuma intenção nisso.

Quem seria Estela, afinal? A morena patricinha que humilha sem dó ou piedade de nossa protagonista! Na busca de permanência do sucesso e popularidade, não passa de uma cretina. Uma verdadeira naja. Como Francisca não faz nada que sua soberania deseja, ela simplesmente a condena.

Esqueçamos. Isso é irrelevante, caro leitor.

Francisca já estava pronta. O vestido lhe caiu bem.

É dona de uma pele pálida e de invejáveis olhos azuis cianos que infelizmente se encontram cobertos por um par de óculos “fundo de garrafa”. Os fios ruivos claros se encontravam acomodados em duas tranças rústicas e, mesmo assim, bem feitas que eram separadas pelo pescoço e amarradas por laços azuis. Seu vestido de tecido nobre lhe dava destaque.

Uma lágrima insistia em sair. Francisca não se sentia bem, aliás, nunca mais se sentiu disposta a algo. Sempre se sentiu odiada por tudo e por todos. A última coisa que ela gostaria de fazer era ir ao baile, porém não poderia apresentar ausência ao mesmo.

Sorte ela tinha do fato de que o colégio não ficar longe de sua simples residência. Ah!, não esqueça de sua máscara!

Sozinha, Francisca caminha lentamente na rua com a máscara em mãos. Arrependendo-se cada vez mais a cada passo que realizava.

Em um suspiro, ela fita o ginásio onde a festança acontecia. “Serão somente algumas horas, será suportável.” Tentava se acalmar com pensamentos mais otimistas.

Adentra o ginásio em que os jovens se divertiam, dançavam, bebiam e paqueravam. A música estava tão alta que se tornara ensurdecedora. Nada que Francisca não possa aguentar.

Senta-se num canto qualquer, esperaria as horas passarem sozinha. Era obrigada a estar naquele lugar.

Ninguém a havia percebido ali. Só no final do baile ela iria se mostrar. Contudo, Estela já estava apta a dizer tudo o que lhe desejasse a vontade.

Azarada dessa vez, Estela a enxerga um tanto com inveja e pronuncia no palco, solenemente, suas considerações sobre Francisca e seu veneno é espalhado.

Insultos estavam alojados na bífida ponta de sua língua. Coisas como “Pata choca” ou “Maria mijona”,“Quatro olhos”, “Santinha vadia”, “Pobretona”, "Cheira porco" eram ditas em evidência.

E todos riam escandalosamente de nossa mocinha. Que por sua vez tentava ao máximo se controlar e ignorar posicionando sua máscara branca em seu rosto, com o objetivo de esconder suas lágrimas e sua expressão triste de pura frustração.

Francisca é fraca.

Não suportando a pressão, Francisca se levanta e em passos largos e ligeiros se propõe à saída.

Estela sorria vitoriosa. Algo ela havia preparado...quem sabe uma armadilha perigosa, que com certeza se localizava no portão do ginásio.

Não seria uma boa ideia fugir. Pena ela não estar ciente disso.

Abre o portão com força. Queria muito sair dali. Cai na armadilha.

Um balde com vísceras de, provavelmente, boi é derramado sobre Francisca. Foi a gota d’água. As gargalhadas agora aumentavam ainda mais. Limpando seus óculos, ela reparava na expressão de zombaria de cada um.

Não entendia isso. Nunca fez nada de mal a ninguém. Ou será que fez? O que passa na cabeça de Francisca é que o maior erro dela foi de existir, de ter nascido... e que esse mundo não é pra ela. O que ela mais quer é morrer. Se continuasse desse jeito, ela, sinceramente, iria adorar deixar de viver.

Em uma corrida desesperada, a ruiva sai do Baile de Máscaras totalmente destruída por dentro. E por que não por fora também?

Um chuvisco clichê se inicia. Se transformando, aos poucos, em uma chuva mais densa. As tranças já desfeitas se lavam junto com o corpo que estava sujo de sangue e alguns restos de tripas bovinas. O vestido encharcado impregna-se ao corpo de Francisca, igualmente os seus cabelos quanto ao vestido.

No desespero, seus óculos caem ao chão, quebrando-os. Na realidade, ela não tinha a necessidade de usar aqueles óculos. Somente precisava de óculos adequados para leitura. Estes que agora estão despedaçados foram somente agredindo sua visão. Agora sua vista está muito deficiente.

Não ligando mais pra isso. Resolveu continuar seu caminho praticamente às cegas. Triste estava Francisca. Pobrezinha. Se por um acaso a vida lhe oferecesse o que ela tanto almeja...seria cruel demais, ou não.

Cansa-se de correr, agora caminha lentamente. Já deveria ter chegado em casa, porém, perdeu-se em meio a chuva. Caminhava aleatoriamente. Fracassada.

“Eu...quero morrer...Deus...se existes traga-me a morte!” Gritou imperativa.

A rua em que situava o drama de Francisca estava um pouco deserta. Somente os fortes pingos de chuva soavam ali. Obviamente os cidadãos se encontravam em casa, em seu conforto. Tenha cuidado, Francisca. Pode contrair um resfriado.

Mais a frente, um motorista dirigia seu 4x4 escutando, em um volume demasiadamente alto, Guns. Também cantarolava uns trechos, por vezes sem nexo algum. Não estava, droga nenhuma, atento ao que fazia.

Conseguimos prever o que certamente irá acontecer, certo?

Francisca apenas vê um brilho forte aproximar-se dela. Atropelada em meio a seu último suspiro. O homem percebe o que fez. Chega a ser tão bárbaro e frio que só o que faz é seguir em frente. Não dando a mínima para o defunto.

Na manhã seguinte, quando a chuva mais demorada do ano encerrou-se, o cadáver de nossa protagonista foi encontrado e enterrado em um canto qualquer por um único ser com coração puro e nobre.

Talvez, esse seria o melhor fim para Francisca. Tão bela. Encontrou a saída mais fácil e covarde de sua vida. Entretanto, como ela mesma pensou, esse mundo não é pra ela.

Francisca se foi. Esquecida. Apenas mais uma mocinha do interior. Relatado está o seu remate e a sua dor.

Notas finais
Espero que tenha sido de vosso agrado. ^^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!