Fragments
5 A gentil, melodia.
Casarão da Família – Sábado – Manhã
Acordei bem cedo e a primeira coisa que fiz foi ir de mansinho até a vidraça da porta do quintal dar uma olhadinha. Que incrível não tinha ninguém! Eu estava pronto para considerar que tudo que havia acontecido na noite anterior não tinha passado de um pesadelo!
Logo em seguida fui tomar um banho, preparei meu café da manhã e sentei a mesa! Enquanto tomava café ainda me perdia nos pensamentos daquele pesadelo.
Ruan: — Está tudo bem Ruan! Foi apenas um pesadelo!
Enquanto posicionava a xícara de café sobre a minha boca direcionei meu olhar ao redor do solo e embaixo da porta do quintal consegui ver um pequeno pedaço velho de papel. Com o café ainda em mãos me levantei e fui até o pequeno papel.
Ruan: — O que é isso? Tem algo escrito.
“ Eu vou voltar, seu ladrãozinho! ”
CFL
Ruan: — PUFF!!!
Ao ler aquela mensagem cuspi todo o café de uma só vez!
Ruan: — COF! COF! SÉRIO? COF!
Ao que tudo indicava, aquilo não tinha sido só um pesadelo.
Ruan: — O que eu faço? Chamo a polícia?
Provavelmente a polícia iria me levar preso achando que eu sou um lunático!
Ruan: — Yuuta?
Não! Não! Definitivamente não!
Eu tinha que fazer algo! Aquilo era claramente uma ameaça! Uma garota fantasiada estava dizendo que voltaria a pular o muro da minha propriedade. Isto é assustador!
Lembrei da harpa que ainda estava no meu quarto...
Ruan: — Já sei! Vou levar essa harpa até a loja de instrumentos que eu vi aqui próximo e tentar descobrir alguma coisa sobre ela!
Foi exatamente o que eu fiz! Me arrumei rapidamente, fixei o olhar durante alguns segundos sobre a harpa dourada tentando entender o que estava havendo e em seguida parti.
Loja de Instrumentos – Sábado – Manhã
Quando cheguei na loja percebi que estava tudo fechado,
Ruan: — Cheguei cedo demais?
Imaginei que também que eles não abriam nos finais de semana! Quando me preparava para voltar ouvi uma voz tímida chamar meu nome.
— Es-espere Ruan!
Ao me virar me deparo com a garota da marmita.
Ruan: — Sa-saki?!
Levando em conta tudo que estava acontecendo nos últimos dias eu nem considerei aquele encontro bizarro, minha cota de reações espantosas já tinha estourado o limite.
Ruan: — Tudo bem? Veio comprar algo?
Dava para ver que ela segurava uma sacola com vários pãezinhos dentro.
Saki: — Ah? Não! Não! Eu moro aqui!
Ruan: — Que?!
Em seguida ela me convidou a entrar na sua casa, o lugar era um duplex onde na parte de baixo ficava a loja e em cima a residência dela. Saki abriu a porta da loja com uma chave e ao entramos fiquei maravilhado com todas aquelas vitrines cheias de lindos instrumentos, desde potentes guitarras até um gracioso piano que ficava no centro do lugar.
Ruan: — Uau...
Saki estendeu a mão com a sacola em minha direção como quem dizia “Segura isso! ”. Peguei a sacola e em seguida ela sentou no banquinho do piano e começou a tocar.
Durante os segundos que aquelas notas musicais adentraram aos meus ouvidos eu simplesmente tinha esquecido tudo ao redor. Eu só sentia algo gentil... O som que saia da melodia era como os abraços calorosos que minha mãe me dava. Eu conseguia sentir o doce e suave cheiro do bolo de maçã que ela fazia pela manhã, as breves, mas esplendidas histórias que ela me contava antes de dormir...
Sim, a melodia que saia do piano era como a minha mãe... Gentil.
Quando Saki terminou de tocar conseguimos ouvir barulhos de palmas vindo da escada juntamente com os passos de uma pessoa descendo e dizendo:
— Esplendido Akane! Nada como começar o dia ouvindo está linda melodia da nossa cidade!
Saki: — PAI?
Ruan: — Pai?!
Sim, aquele era o pai da Saki. Um homem com uma aparência totalmente desleixada, sem contar seu gigantesco cabelo todo arrepiado. Eu quis levar em consideração a possibilidade de ele acabar de ter acordado.
Pai da Saki: — Oh? Quem é esse?
Saki: — Meu amigo da faculdade!
Estranhamente a Saki parecia mais à vontade quando falava com o pai dela.
Pai da Saki: — Hoho....
Saki: — ??? VEM RUAN! VAMOS SUBIR!
Saki puxou meu braço e me arrastou escada acima atropelando seu pai.
Aquela reação foi estranha.
Ruan: — Ei! Espera!
Saki: — Vamos!
Quando me dei conta estava dentro do quarto da Saki! Tudo era tão bem organizado! Os poucos livros pareciam novos enquanto estavam alinhados de forma perfeita sobre a mesa, a sua cama era tão bem arrumada que parecia algo novo, que acabara de chegar da loja! Decorações, tapetes e até mesmo seu computador e aparelhos eletrônicos. Tudo encaixado de forma perfeita! Imaginei se a Saki não tem algum tipo de problema com coisas assimétricas!
Saki: — Então? O que veio fazer aqui?
Ruan: — Eu...
Saki: — Veio comprar algo?
Ruan: — Não exatamente...
Ei, o que está havendo? Onde foi parar o jeito tímido daquela Saki da faculdade?
Saki: — Pode falar!
Ruan: — Eu preciso saber sobre uma coisa.
Abrir minha mochila e retirei a pequena harpa.
Ruan: — Eu preciso saber quem fez esse instrumento!
Saki: — Isso é fácil! Qual a assinatura que tem nele?
Ruan: — Aqui em cima diz “L u z i a n n a”!
Saki: — Hã?
Ruan: — Que?
Saki: — Nunca ouvi falar deste nome entre os criadores que eu conheço.
Ruan: — Serio?
Sem sombra de dúvidas aquilo era um instrumento estranho!
Saki: — Porém eu conheço alguém que pode saber... Você também já o conheceu...
Saki disse aquilo com um ar bem irritado.
Saki: — Espere aqui eu vou traze-lo!
Ruan: — Ok...
Alguns segundos depois ela voltou com a pessoa que poderia me ajudar.
Pai da Saki: — Olá! Aqui estou eu!
Ruan: — hehe... Olá...
Pai da Saki: — Então onde está?
Entreguei a harpa nas mãos dele. Após observar o instrumento durantes alguns segundos ele posicionou-a no chão com uma cara de espanto e falou.
Pai da Saki: — Impossivel...
Ruan: — ?
Saki: — ?
Pai da Saki: — Eu não conheci nenhum artesão com este nome, porém por um momento ele me lembrou algo...
Quanto mais ele fala mais assustador ele parecia... Ele pegou um pedaço de folha e anotou alguma coisa nela, em seguida entregou a Saki dizendo.
Pai da Saki: — Akane, pegue isto e leve Ruan junto até a biblioteca da sua faculdade!
Saki: — Biblioteca?
Ruan: — Hã?
Saki: — O que tem escrito aqui?
“O Mundo Fragmentado.
Autor desconhecido.”
Saki: — Mas isto é.
Pai da Saki: — Sim! Um conto infantil!
Eu realmente estava começando a ficar assustado...
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