Fragmentos de Lembranças
16 Victória Está de Volta
Notas iniciais
A sala estava cheia, todos sentados ouvindo atentamente as histórias que eu e Anabell tínhamos para contar sobre a viajem. Tia Luíza havia preparado café e torradas, e sentou-se no sofá ansiosa para ouvir o que eu tinha a contar.
– ... Então a tal da Ellen pegou o buquê. — Falei. Anabell bebericava seu café ouvindo minha versão das histórias, as vezes ela me interrompia contando o seu lado, enquanto Caroline e tia Luíza ouviam atentamente.
– Mas e então, o que aconteceu enquanto estávamos fora? — Perguntei curioso apesar de saber a resposta. — Aposto que não muita coisa, nunca acontece nada de interessante por aqui...
– Você é quem pensa. Só durante a semana que esteve fora, a Lucia do segundo ano começou a namorar o Henrique do terceiro ano, teve uma briga entre o Nicolas e o Moisés do terceiro, eu e Josh tivemos umas briguinhas, e é claro, a Victória está de volta. — Caroline disse entusiasmada.
– Espera, o que disse? — Perguntei surpreso.
– Ah, foram umas briguinhas de nada, você sabe como ele é...
– Não estou falando disso, sobre a Victória...
– Ah sim. Ela está de volta. — Ela falou calma como se não soubesse a confusão que isso causaria.
– Ela está de visita?
– Não, ela voltou pra valer. Voltou a morar com o pai dela. E isso não é tudo, ela está bonita pra caramba. Pelo que entendi, ela começou a trabalhar como modelo em Milão, e caramba, realmente fez efeito nela. Ela está tipo um versão cem por cento melhorada da que ela era antes de se mudar.
– Espera. Você está dizendo que a mesma Victória que era apaixonada por mim anos atrás está de volta e bonita. — Falei usando ênfase.
– Espera, o que? — Anabell falou boquiaberta. — Então quer dizer que uma garota que era apaixonada por você está de volta e em um versão bonita?
– Exatamente, Anabell. — Caroline disse em um tom provocativo.
– “Não me recordo de nenhuma Victória” — Anabell murmurou pensativa. Apesar de ter usado um tom baixo, consegui ouvir claramente o que ela disse.
– Mas é claro que não lembra. Victória mudou-se para Itália nas férias de verão anos atrás. Não vai me dizer que está com ciumes? — Perguntei sorrindo alegre. Saber que ela sente ciumes era ótimo.
– Não precisa ficar com ciumes, nunca gostei dela, nunca correspondi ao amor dela, e principalmente, porque não importa se ela está cem por cento mais bonita ou se virou uma modelo em Milão, é você quem eu quero. — Falei beijando sua bochecha.
– Bom, Anabell, eu não teria tanta certeza quanto á isso, a Victória de anos anos atrás já não existe mais, posso garantir que aquela Victória que voltou de Milão vai surpreender o Eric. — Caroline provocou.
– Pare de provocar, Caroline.
– Ah, Eric, você sabe que estou brincando. Eu sempre vou torcer pro amor de vocês, sempre. — Ela disse beijando minha bochecha, e em seguida a de Anabell. — Vejo vocês depois, vou encontrar Josh. — Ela disse retirando-se da sala.
Caroline nos deixou sozinhos na sala, e Anabell ainda permanecia pensativa encarando o vazio.
– Porque não me contou sobre essa tal de Victória? — Ela disse ainda encarando o vazio.
– Não achei que fosse necessário, e também, pensei que nunca mais fosse vê-la de novo.
– Tem certeza de que não vai trocar uma garota de praticamente um metro e cinquenta por um uma modelo de Milão? — Ela virou-se e ficamos frente a frente.
– Eu não te trocaria nem por todas as estrelas desse mundo, Anabell. — Falei com convicção. Ela sorriu abraçando-me.
–-x--
A tranquilidade de poder acordar tarde foi substituída pela tortura de ter que acordar cedo. A rotina de ir ao colégio também voltou, e para piorar a situação, eu teria que recuperar o que perdi durante a semana que estive fora.
No colégio, o mesmo ar de sempre, as mesmas pessoas de sempre, os mesmos professores, tudo continuava a mesma coisa apesar de Caroline ter comentado certas diferenças. Avistei de longe Sebastian abrindo a porta para que Anabell descesse do carro, sua perna direita desceu primeiro, e em seguida, seu corpo por inteiro. Acelerei os passos para alcança-la antes que ela tomasse a frente sem perceber minha chegada. Ela não notou que eu estava perto, e continuou andando tão elegantemente vestindo o devido uniforme do colégio.
– Espere, Anabell. — Gritei tropeçando em meus próprios pés. — Droga — Murmurei enfurecido. Ela ouviu minha voz, e virou-se tentando me achar.
– Eric. — Ele disse harmônica. — Achei que já estivesse na classe. — Ela continuou aproximando-se.
Terminamos o restante do caminho juntos. Todos já estavam na classe, e por um fio chegamos a tempo. E a diferença finalmente apareceu, tinha alguém diferente na classe. Era uma garota de cabelos negros escorridos, olhos azuis e pele caucasiana. Seus lábios estavam marcados pela cor vermelha e ela encarava-me sorrindo debochada. Eu sabia que era ela, era Victória.
Estava realmente diferente desde a última vez que à vi. Ela usava óculos de grau tão fundos que pareciam aumentar os olhos dela, seus dentes estavam sendo corrigidos por aparelho odontológico e ela costumava usar tranças apertadas. Sua aparência não era muito diferente da minha, eu enfrentava os mesmos problemas quanto a vista e os dentes. Mas ela era estudiosa, a melhor do colégio, e eu pelo contrário, nunca conseguia tirar notas boas.
Victória ora me encarava, ora encarava Anabell que no momento, encontrava-se agarrada ao meu braço. Caminhamos até nossos lugares de costume, e Victória continuava encarando-me descaradamente como quem queria dizer algo, e eu sabia o que era.
–-x--
O período finalmente havia terminado, caminhávamos até o portão, quando Victória nos interrompeu.
– Nem cumprimenta as velhas amigas, Eric. — Ela disse debochada.
– Olá, Victória. Satisfeita? — Falei injuriado.
– Parece que não fui a única que mudou ao decorrer dos anos. Está usando lentes? — Ela perguntou me olhando dos pés a cabeça.
– Exatamente. — Respondi seco.
– E tirou o aparelho também. Você está mais magro também, andou doente? — Ela perguntou. — Ainda continua anti-social?
– Victória, não tenho tempo pra isso. Se não consegue ver, tenho um compromisso agora. — Falei tentando sair entre as brechas, mas ela impediu.
– Não vai apresentar sua amiga, Eric? Mas que falta de educação, não foi assim que sua mãe te criou. — Ela provocava. Talvez não soubesse do acidente, ou talvez realmente quisesse tocar em um ponto sensível. Fiquei um pouco sem jeito, perdi a noção e comecei a gaguejar.
– Esta é a An- -
– Sou Anabell Moore, namorada do Eric. É um prazer conhece-la. — Ela sorriu irônica.
– Namorada? Ta aí uma coisa que eu não esperava. E olha que ela é bonita, Eric. — Ela dizia encarnado-me, ainda debochada.
– Não tenho tempo pra suas provocações, infantis, Victória. — Falei enfurecido puxando Anabell pra longe dela. Eu sabia que se aquilo continuasse não iria terminar bem.
Consegui levar Anabell para um lugar distante de Victória. Eu sabia que a partir daquele dia, as coisas não seriam fáceis. Anabell pareceu não ligar muito para o que havia acontecido minutos atrás. Concentrava-se em encarar o vazio pensativa, parecia estar em outro mundo, nem mesmo ouvia o que eu tinha a dizer. Sacudi minha mão frente o seu rosto, tentando traze-la de volta para aquela realidade. Funcionou. Ela virou seu rosto pálido para o meu, que conseguia superar a palidez do dela.
– Achei que estivesse em outro mundo. — Falei.
– E eu estava. Em um que talvez não tenha mais volta.. — Ela disse com o olhar vazio. — Aliás, muito bonita sua amiga Victória. — Completou sorrindo de canto.
– Por favor, não me diga que vai ficar chateada por isso? Ela não significa nada pra mim, nunca significou. E você, em tão pouco tempo conseguiu o que ela tentou em anos. Ela nunca vai chegar aos seus pés.
– Não é isso que está me intrigando. Se ela era apaixonada por você, porque nunca quis nada com ela? — Ela perguntou séria.
– Eu não conseguia me sentir atraído por ela, ela não me agradava. Alguma coisa em mim dizia que não era ela a garota certa pra mim. Acho que o universo já sabia que você seria meu destino. — Falei sorrindo. Ela retribuiu o sorriso. Ah, aquele seu sorriso perolado.
Uma lágrima escorreu de seus olhos tão de repente, e eu sem entender o porquê. Ela estava sorrindo segundos atrás, de onde saiu aquela lágrima?
– O que foi? — Perguntei preocupado. — Foi algo que eu disse?
– Não, é só que eu.. eu.. — Ela tentou explicar, mas parou em meio a frase. Sequei a lágrima que escorreu sobre seu rosto. Ela respirou fundo se recompondo.
–-x--
Victória causou uma verdadeira confusão naquele colégio. Todos, inclusive os professores ficaram admirados com a mudança radical, tanto na aparência quanto na personalidade. Victória, que antes era tímida, educada e a melhor aluna do colégio, agora era rebelde, desrespeitosa e se me permitem dizer, um tanto oferecida. Toda vez que a via, estava em cima de um garoto, geralmente alguém do time de basebol.
Ela aparecia no colégio com roupas provocativas, realçando suas curvas. A diretora Sofia que antes só a elogiava, agora pegava no seu pé, pedindo-a que viesse decentemente para uma área de estudos. Ela desobedecia, e saia por aí desfilando sua nova aparência. Todos dava-lhe atenção, com exceção de Anabell, e é claro, eu. Preferia dar toda a minha atenção a pequena garota de cabelos ruivos e olhos esverdeados.
Victória porém, parecia não estar gostando muito da exceção, e fazia de tudo para chamar minha atenção. Procurava me xingar frente a todos, acertar a bola de queima em minha cabeça, a até tropeçava em meus pés propositalmente. Anabell por sua vez, também não estava gostando muito do que Victória estava fazendo, mas apenas reagia olhando-a torto.
Desde que ela voltou para Ternure, o colégio virou de cabeça para baixo. Os garotos disputavam sua atenção, as garotas que antes a xingavam, agora invejavam-na. Ela se sentia vingada, mas eu sabia que seu principal alvo de vingança, era eu.
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