Fragmentos de Lembranças
2 Sentimentos
Notas iniciais
Duas e quinze da tarde. Foi o horário que acordei naquele sábado. Passei a noite em claro conversando com Caroline e depois que fui pra cama, fiquei pensando e repensando. Escovei os dentes, levei o rosto com água fria e desci as escadas já esperando uma bronca, Tia Luíza detestava que acordássemos tarde. Não havia ninguém na sala, nem na cozinha, havia pão francês sobre a mesa, e o bule de café ainda estava quente, restava ainda o bolo de morango feito no dia anterior. Optei por bolo de morango e café, e com um prato na mão e um copo em outra, subi as escadas atrás de alguém. Ao chegar no quarto de Caroline, bati quatro vezes na porta, não tive resposta, então entrei. Essa era a regra dos quartos entre eu e Caroline: bata quatro vezes, se não responder está livre para entrar. Abri a porta cuidadosamente, e lá estava Caroline, dormindo. Fui até uma cadeira giratória cor-de-rosa e me sentei. Com a cadeira, me aproximei de Caroline que dormia feito um anjo. Deixei farelos do bolo que eu comia cair em seu rosto propositalmente com a intenção de faze-la acordar. E funcionou perfeitamente.
– O que é isso. — Ela levantou ao sentir os farelos em seu rosto. Como ela tem o sono leve.
– ERIC. — Ela gritou. — O que significa isso? — Ela gritava enquanto eu saboreava meu bolo e tomava meu café.
– Bati quatro vezes, não tive resposta. Sabe que horas são? Quase duas e meia. — Eu dizia enquanto brincava rodando a cadeira.
– Sério? Nossa, não sou de acordar tarde assim.
– É. E pela primeira vez eu estou vendo você descabelada assim, e esse rosto inchado? Essa é a Caroline que não conheço. — Eu brinquei. Sabia que ela ficaria brava, ela odeia que a vejam desarrumada.
– O que? AI MEU DEUS. Eric saia do meu quarto agora. — Ela gritou jogando seu travesseiro em mim. Eu ri caçoando da situação, e sai do quarto como ela pediu, ou mandou.
Minutos depois, Caroline apareceu penteada e com o rosto menos inchado. Ela foi até a cozinha comer algo, e me encontro lá. Eu estava sentindo uma imensa fome apensar de ter devorado o resto do bolo que restou. Ela me pegou no flagra assaltando a geladeira.
– Você quer mesmo recuperar o que perdeu, hein! — Caroline disse se aproximando.
– Ahhh, resolveu pentear o cabelo?
– Deixa de ser besta, Eric. Você não acorda um príncipe encantado. — Ela disse sentando-se á mesa.
– E você não acorda uma princesa. Estou decepcionado já que você é Caroline Portinatt. — Fechei a geladeira e me acomodei frente a ela.
– Ainda está com fome? — Ela perguntou me encarando.
– E muita. — Respondi.
– Vou fazer queijo quente para mim, quer que eu faça pra você também? — Ela perguntou se levantando da mesa.
– Queijo quente? Sim, quero. Enquanto isso vou escolhendo os filmes da “sessão cinema” de hoje. — Me levantei da cadeira e fui para a sala. Onde havia prateleiras com diversos filmes de diversos gêneros.
– Eric, só não escolhe muitos de terror. — Caroline gritou da cozinha.
– Pode deixar. — Gritei de volta.
Psicose, Pânico, O Iluminado. Selecionei alguns clássicos do terror e algumas comédias. Iria deixar os romances e comédias românticas para ela escolher, era a área dela. Geralmente, assistimos um ou dois filmes de cada gênero e deixamos os de terror por último, quando está mais a noite. Acabávamos com pipoca espalhada por todo o chão e dormindo no sofá. A ideia da sessão cinema que costumávamos fazer, era nós deixar alegres, a intensão era arrancar alguns sorrisos, portanto, evitávamos dramas.
Minutos depois, Caroline chegou com dois queijos quentes e dois copos com coca-cola. A aparência do sanduíche que ela fez estava realmente boa.
– E então, quais você escolheu? — Caroline perguntou entregando o queijo quente em minhas mãos. Em seguida se jogou no sofá.
– Ah, alguns clássicos de terror, e algumas comédias que eu acho que ainda não vimos. Se quiser, escolhe no máximo um romance, mas um só. — Eu disse quase que de boca cheia.
– Não to muito afim de romance, não estou com ânimo pra isso ultimamente. — Ela disse se jogando no sofá.
– Tá com problemas amorosos? — Eu disse entregando em suas mãos os filmes que selecionei.
– É. Mais ou menos.
– O que aconteceu desta vez? — Perguntei me sentando ao seu lado.
– Josh. Faz tanto tempo que saímos e parece que ele não quer levar as coisas a sério, sabe? Eu quero que ele de o próximo passo. — Ela dizia com um tom de voz decepcionada.
– Diz isso pra ele.
– Não posso, Eric. Você não entende, vou acabar assustando ele, homens detestam isso, você deveria saber.
– Deveria. Mas eu não tenho muita experiência com isso, sabe. — Desta vez o tom de decepcionado era por minha conta.
– Também, você se isola aqui, não se enturma. E você é assim porque você quer, Victória era louca por você, e você nem ligava.
– Eu não acho certo eu me obrigar a sair com Victória só porque ela gostava de mim.
– É, você tem razão. Mas se arrisque, vai que você de repente começasse a gostar dela também?
– Acho meio que impossível já que ela não mora mais aqui. Mas o assunto não é a Victória e sim o Josh.
– Ah, é mesmo. Então, não me resta outra escolha, vou ter que conversar com ele, e se ele não quiser levar a sério o que temos, paciência. Eu supero. — Ela disse determinada. Mas eu acho difícil ela superar tão fácil assim, ela é apaixonada pelo Josh desde a oitava série. Eu sei como ninguém o que é isso. Já fui apaixonado por uma garota que nem sabia meu nome. Olivia Parks, a garota mais popular do colégio, e como toda garota popular, ela era egocêntrica e estúpida com todos, inclusive comigo. Decidi tentar esquece-la, mas foi realmente difícil, esse tipo de coisa não se consegue fácil.
Após o café-da-manha que estava mais para lanche da tarde, iniciamos o pequeno cinema em casa, com direito a pipoca, coca-cola, doces, doritos e outras besteiras. Começamos com uma comédia, já era quase 15h00 quando começamos.
Já no terceiro filme, a campainha tocou. Não era tia Luíza, que desapareceu aquele dia. Era Josh. Caroline o convidou para a tarde de filmes. Josh era loiro, olhos verdes, alto e forte, digamos assim, malhado. Ele jogava basebol no colégio, e era bastante popular entre as garotas, só não superava seu melhor amigo, Vince, o capitão do time de basebol, o garoto mais popular do colégio e até mesmo da cidade.
Fiquei, propositalmente entre os dois, Caroline a minha direita, e Josh a minha esquerda, e eu os separando. Eu não queria presenciar uma DR, mas também não queria abandonar os filmes do nada. Era uma comédia romântica — droga, tinha que ter um pitada de romance logo agora que o Josh chegou? — Eu sabia que Caroline iria mandar alguma indireta que se relacionasse ao comportamento de Josh em relação aos dois. E eu estava certo, Caroline durante o filme comentou “Awn, que lindo esse casal não é mesmo, garotos? E essa declaração foi perfeita! Como eu queria que isso acontecesse comigo”, e deu-se a partida para uma pequena discussão.
– O que você quer dizer com isso, Caroline? — Josh virou-se para ela. Eu estava entre os dois, portanto era um pouco incomodante.
– O que eu quero dizer? O que eu disse. Eu quero uma declaração, não quero só sair com você, eu quero que possamos dizer para os outros que estávamos namorando, e não só saindo. — Ela explodiu, finalmente se aliviou.
– E não estamos? — Josh perguntou confuso.
– Estamos? Não me lembro de você ter me pedido em namoro. — Ela disse irônica.
– Estamos saindo a meses, Caroline. Achei que já estava sério. Você precisa de uma declaração e um pedido para oficializar?
– Mas é claro, Josh. Ou você quer que eu adivinhe se você quer ou não algo sério comigo? — Caroline perguntou brava, e como estava brava. Eu estava começando a ficar vermelho, e talvez um pouco surdo. Caroline gritava. Josh levantou-se do sofá e ficou em frente Caroline, pediu para que ela ficasse de pé, e assim que ela o fez, ele se ajoelhou frente a ela, pegou uma de suas mãos, e fez o seguinte pedido: “Caroline Portinatt, você aceita ser minha namorada?” Caroline, obviamente, ficou emocionada, e seus olhos se enxeram de lágrimas, ela aceitou, claro. Os dois encerraram aquela briga que terminou em oficialização de namoro em um beijo, que me deixou completamente desconfortável, não tive outra escolha a não ser abandonar a sala e ir para meu quarto. Ele não sentiriam minha falta.
Tia Luíza havia limpado meu quarto no dia anterior ao perceber que ele estava empoeirado, portanto já estava mais agradável. Fui até o criado-mudo e peguei o celular, e os fones. E ao pega-los, notei que o relicário que pertencia a minha mãe estava lá. Acontece que eu costumo guardar aquele relicário em uma caixa que necessita de uma chave para abri-la, e eu nunca contei a ninguém aonde eu guardava a chave. Aquele relicário era a única lembrança que eu tinha de meus pais, ele era oval, de ouro, tinha uma cruz desenhada delicadamente, e ao abri-lo, tinha uma foto da família de um lado, e do outro uma foto apenas dos meus pais. Fiquei nervoso ao ver que ele estava fora de seu lugar normal, caso ele se perdesse eu não sei o que eu faria. Não queria atrapalhar o clima entre Caroline e Josh, e Tia Luíza não estava em casa, portanto resolvi perguntar quem o tirou do lugar no dia seguinte, ou quando surgisse um oportunidade. Deitei na cama, com a música em seu volume máximo no fone. Os sentimentos afloravam enquanto eu mantive a cabeça no travesseiro. Saudade, tristeza, raiva, era tudo que eu conseguia sentir.
No dia seguinte, acordei as sete e quarenta da manhã. Meus olhos estavam inchados e as olheiras fortes e muito visíveis. Lembrei então que cheguei a chorar muito na noite passada, ver o relicário me fez lembrar de meus pais, e apesar de tentar, eu só conseguia lembrar daquele dia trágico e que não consegui dizer que eu os amava pela última vez. Tentei fazer com que o inchaço diminuísse com água fria, e funcionou. O problema era as olheiras, eu não iria conseguir ameniza-las tão facilmente. Desci as escadas do jeito que estava, queria comer algo. Estava sentindo muita fome ultimamente.
– Bom dia querido. — Tia Luíza cumprimentou ao me ver na cozinha. Estava preparando chá.
– Bom dia, Tia Luíza. — Eu disse me sentando á mesa.
– Querido, o que aconteceu? Que olheiras são essas? — Ela perguntou espantada ao me ver naquele estado.
– Noite mal dormida, só isso tia. — Expliquei. Não queria que ela soubesse que tive uma recaída e passei a noite chorando. É capaz de ela resolver que tenho que voltar a frequentar um psicólogo.
– Sabe o que é isso? Excesso de café. De hoje em diante nesta casa só entra chá.
– Como assim? Isso não é necessário.
– É claro que é, você não pode ficar dormindo tarde desse jeito. — Ela disse colocando o bule com chá na mesa. Foi até o balcão e trouxe de lá um bolo e pães.
– Coma querido, você está precisando. — Ela os colocou na mesa. — E tome chá, nada de café. — Completou. Optei por pão aquela manhã. E de jeito nenhum eu iria tomar chá. Fui até a geladeira e peguei o leite, e fiz achocolatado. Tia Luíza se junto, e tomou seu chá com bolo.
– Onde você esteve ontem? Eu nem cheguei a te ver. — Perguntei.
– Hum.. — Ela mastigava o bolo. Era educada de mais pra falar de boca cheia. — Eu fui as compras, voltei para casa e nem você e nem Caroline estavam acordados, então fui á casa de uma amiga. Quando voltei, Caroline estava com o amigo assistindo filmes, e você trancado em seu quarto.
– Amigo? — Perguntei.
– Sim, aquele loirinho fortinho.
– Ahh. — Eu ri sarcástico.
– O que é tão engraçado, Eric? — Ela perguntava sem entender o que estava acontecendo.
– Aquele é o namorado dela, tia.
– Namorado? Ela disse que eles eram apenas amigos. — Ela dizia chateada.
– Quem são apenas amigos? — Caroline entrou na cozinha, com cara de sono, mas desta vez estava penteada.
– Você é Josh. — Eu a respondi.
– Hmm. Oficializamos o namoro ontem. — Ela sentou-se á mesa também. Colocou chá em uma xícara e cortou um pedaço do bolo exposto a mesa.
– Caramba, Eric. Que olheiras são essas? — Caroline perguntou também espantada.
– Noite mal dormida. Aliás, já que as duas estão aqui, eu queria perguntar algo. — As duas voltaram sua atenção a mim. — Eu encontrei meu relicário fora do lugar ontem, e queria saber qual das duas o tirou de lá.
– Relicário? Você tem um relicário? — Caroline perguntou.
– Sim, aquele que minha mãe costumava usar.
– Aquele relicário está com você? Eu achei que ele tivesse queimado com o resto das… Desculpe, Eric. — Caroline disse ao ver minha expressão de tristeza quando ela comentou sobre aquele dia.
– Querido, eu não vejo aquele relicário a anos. Eu nem ao menos sabia que estava com você — Tia Luíza disse.
– Eu também não sabia, Eric. — Caroline disse por sua vez.
– Então quem o tirou de lá? — Perguntei sem saber o que estava acontecendo.
– Quando limpei seu quarto ontem, ele estava no criado-mudo. — Tia Luíza dizia.
– Mas eu não o guardo lá, estava praticamente escondido. — Bom, se não foi Caroline e nem Tia Luíza, quem foi? Iria ser para sempre um mistério. Eu acreditava o bastante nas duas para saber que nenhuma estava mentindo. E guardei a chave em um lugar onde ninguém imaginaria. Há um pequeno livro que ao abri-lo, há um espaço onde se pode guardar qualquer coisa. Eu coloquei a chave lá, e em seguida guardei o livro entre os outros na prateleira.
Tirei o relicário de meu bolso, e o coloquei em meu pescoço, não haveria lugar mais seguro para guarda-lo do que em mim mesmo.
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