Fragmentos de Lembranças
33 Pesadelo
Notas iniciais
Em uma fração de segundos, Luíza e Caroline atenderam aos gritos de desespero de Anabell, e correram o mais rápido possível até o quarto de Eric. O encontraram no mesmo estado: implorando por ar. Ninguém conseguia entender o que estava acontecendo, ou como simplesmente ele não conseguia respirar.
– Alguém chama um médico, uma ambulância, pelo amor de Deus! Ele não acorda. — Anabell falou. Chacoalhou mais uma vez o corpo de Eric, e por fim, ele acordou. Respirou fundo, como se necessitasse de todo o ar presente naquele ambiente, e realmente precisava. Pouco a pouco seu rosto foi voltando a sua cor normal, e as três recuperavam-se de um susto.
– Graças a Deus! — Luíza agradeceu.
– Alguém me explica o que aconteceu? — Caroline perguntou ainda confusa com o acontecido.
– Eu entrei no quarto e ele estava se debatendo contra a cama, sufocado, implorando por ar. — Anabell explicou até que ponto ela sabia.
Eric continuava respirando fundo, tentando se recuperar do susto que ele tomou.
– Foi horrível. — Eric finalmente disse. — Eu estava em um jardim completamente destruído. As flores mortas e sem cor, pétalas que pareciam ter sido arrancadas cruelmente da semente que à carregava espalhavam-se pelo chão, o verde da grama já não era mais verde, carregava consigo uma cor amarronzada. O céu estava negro, sem estrelas ou lua. Andei um pouco à frente sem entender o porquê de estar ali, mas tudo que encontrava era mais destruição. Havia terra por toda parte. Era um cenário horripilante. Eu ouvia ecos, aguá pingando no chão. Mais a frente encontrei uma garota chorando com um corpo em seus braços, essa garota era você Anabell. — Eric disse fitando sua namorada. — Estava em prantos, sua roupa suja de sangue, e o cadáver ensanguentado em seus braços derrubava sangue sem parar. Soluçava e gritava com o cadáver para ficar ali. Aproximei-me de você tentando consola-lá, mas você não podia me ver ou ouvir, e eu não podia tocá-la. Agachei ao seu lado, e tentei ver o rosto do corpo em seus braços, mas não consegui vê-lo. De repente, meus pulmões não me deixavam mais respirar, eu implorava pelo ar que eu já não encontrava mais. A minha visão passou a ficar turva, e sem mais forças, meu corpo se chocou contra o chão ensanguentado. Tentei pedir socorro, mas minha voz não saia. Meus olhos se fecharam e enxerguei apenas a escuridão. Tudo que conseguia ouvir era o choro histérico de Anabell.
– Foi um pesadelo? — Luíza perguntou sentando-se ao lado de Eric.
– Sim, eu acho. Foi tão real que quase não estou conseguindo me convencer de que foi apenas um terrível pesadelo. — Ele explicou.
Anabell silenciou-se por um tempo, encarava o vazio pensativa. Aquele pesadelo trouxe a tona lembranças trágicas de seu passado.
– Como ele.. — Murmurou melancólica para si. Seus olhos enxeram-se de lágrimas, e em um piscar de olhos, as lágrimas se encontravam escorrendo de seu rosto.
– O que disse, querida? — Luíza perguntou notando os sussurros da menina.
– O que? — Ela disse saindo de seu estado de devaneio. Já não tinha mais noção do que havia acontecido. Anabell já não conseguia mais controlar as lágrimas, estava incrédula com o que havia acabado de ouvir.
– Anabell, você está bem? Porque está chorando? — Eric perguntou confuso.
Ela secou as lágrimas com a manga de seu casaco, e sorriu.
– Nada. — Respondeu.
A pequena família estranhou a mudança de humor repentina da menina, mas preferiu não comentar. Aceitaram bem o fato de ela estar chorando em um momento, e em uma pequena fração, estar sorrindo esquecendo completamente os últimos segundos.
A garota levantou-se dali, ainda sorrindo. Parecia estar fora de si, como se estivesse de repente, em um outro mundo.
– Anabell, para onde vai? — Caroline perguntou.
– Preciso fazer uma ligação. — Ela respondeu se retirando do quarto.
Puxou o celular da bolsa, e caminhou imediatamente para o banheiro mais próximo. Trancou-se lá dentro, e ligou para Sebastian.
O mordomo atendeu o mais rápido que pode.
– Sebastian? — Ela disse com a voz tremula.
– Sim? Aconteceu algo? — Ele perguntou preocupado notando a alteração da voz da menina.
– Sim, na verdade aconteceu sim. Acho que o Eric está começando a se lembrar... — Ela revelou.
– A se lembrar? Com isso você quer dizer que.. — Sebastian falou incrédulo.
– Sim. Ele está começando a se lembrar.. — Ela sussurrou para que ninguém a ouvisse.
– Então ele..
– Sim, finalmente ele está se lembrando de algo, Sebastian. Finalmente. — Ela comemorou discreta. — Preciso desligar, até logo. — Ela despediu-se.
Guardou novamente o celular em sua bolsa, e suspirou aliviada. Jogou aguá gelada em seu rosto e fitou seu reflexo no espelho.
– Finalmente.. depois de tanto tempo, ele finalmente esta se lembrando. — Ela sussurrou para si frente o espelho.
Ouviu alguém bater na porta, e concentrou-se novamente no presente.
– Anabell, você está bem? Está trancada aí a um tempão. — Caroline falou.
– Estou sim. Já estou saindo, não se preocupe. — Ela respondeu abrindo a porta.
– O que aconteceu? Você está tão estranha ultimamente. — Caroline notou encarando-a.
– Acho que é efeito da anemia, e um pouco do estresse que tem me cercado. — Ela explicou.
– Tem certeza que é só isso?
– Tenho. Obrigada por sua preocupação. — Ela sorriu agradecendo.
– Tudo bem. Se precisar de algo estarei na cozinha com minha mãe. Nós vamos preparar algo pra comermos. — Caroline deu as costas e desceu as escadas.
Anabell deu lentos passos até o quarto de Eric, onde o encontrou pensativo. Ela entrou de fininho, e o encarou por um tempo. Eric notou a presença da menina, e a encarou também. Um sorriu para o outro. Ela aproximou-se da cama, e sentou-se ao lado dele.
– Luíza me disse que você notou cicatrizes em seu corpo, posso vê-las? — Ela pediu afável.
– Claro. — Ele tirou o cobertor de cima de seu corpo e levantou sua camisa mostrando o local para Anabell.
– Realmente não se lembra de como as ganhou?
– Não. Não consigo nem ao menos imaginar. Isso é tão estranho, é como se estivesse faltando algo. Me tem acontecido coisas tão estranhas, que nem sei como explicar. Me esforcei pra lembrar de como ela surgiu, mas não consigo.
– Tem casos que as vezes é melhor esquecer. Talvez você não queria lembrar.
– É, tem razão. Mas continua sendo uma coisa muito estranha. — Ele confessou. — Agora você pode me explicar o porque de você ter chorado do nada?
– O seu pesadelo me fez lembrar de algo, e não resisti. Mas já passou, não se preocupe.
– O meu pesadelo.. ele realmente aconteceu, não é mesmo? — Ele perguntou aflito.
Ela o encarou com o olhar vazio por um tempo e respondeu:
– Sim. Aconteceu. Tiraram ele de mim tão cruelmente, e eu vi, meus olhos viram ele ser assassinado. Ele morreu em meus braços, e essa é de longe, a lembrança mais triste que um dia poderei ter. As vezes eu só queria esquecer...
– E, a pessoa que você estava nos braços.. quem era? — Tentou descobrir.
– Eric, eu prefiro não falar sobre isso. Já passou, tudo bem? — Ela garantiu.
– Tudo bem. — Ele sorriu.
Afastou seu corpo para a direita, deixando um espaço para que Anabell deitasse também. E lá os dois ficaram deitados, abraçados, e em silêncio. Ela pensava de um lado, e ele doutro.
Eric descobriu que havia tantas coisas que ele não sabia sobre Anabell, coisas que ele não poderia nem ao menos imaginar. As terríveis imagens de seu pesadelo não saiam de sua cabeça. Ele não conseguia concentrar-se em outra coisa que não fosse aquilo. Os dois estavam juntos, mas naqueles momento, em mundos completamente diferentes.
– Eric, posso te perguntar algo? — Ela virou-se e disse.
– Claro. — Ele respondeu firme.
– O que tem feito nesses últimos três anos?
– O mesmo que eu tenho feito todos os dias antes de você aparecer. Trancado em um quarto refletindo o quanto minha vida era sem graça, até você chegar. — Ele sorriu.
– Você não tem nenhuma lembrança de algo impactante? — Ela tornou a perguntar.
– Nada de impactante me aconteceu. A minha vida era esse quarto e somente esse quarto. — Ele reafirmou. — E você, o que tem feito nesses últimos três anos? — Ele perguntou.
Anabell fechou os olhos, e se deixou levar por uma maré de lembranças: — Tragédias.. — Foi o que ela respondeu murmurando, ainda de olhos fechados.
Eric, mais uma vez teve certeza de que havia algo que ele não só queria, como necessitava descobrir. E ele faria de tudo para desvendar o que Anabell tentava esconder, mesmo que ela se recusasse a tocar no assunto.
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