Fragmentos de Lembranças
29 O homem do capuz preto
Notas iniciais
Eric amanheceu na cama de Anabell. Assim que seus olhos se abriram, ele apenas torceu para que fosse um pesadelo, e que o incêndio tivesse sido apenas um trágico acidente. Respirou fundo, inspirou o ar presente, e se deu conta de que não era um pesadelo, que aquilo era uma triste verdade, e por mais que doesse, ele teria que aceitar.
Foi até o banheiro, apoiou suas mãos na pia, e fitou seu próprio relexo no espelho. Notou as olheiras profundas causadas pela melancolia da noite anterior, e o olhar vazio que nunca mais enxergaria as coisas da mesma forma. Abriu a torneira, e jogou aguá fria em seu rosto pálido para que assim pudesse despertar. Quando voltou a fitar-se no espelho, assustou-se ao ver outro reflexo ao fundo.
– Bom dia. — Ela desejou.
– Bom dia. — Ele retribuiu.
– Está melhor? — Perguntou.
– Ainda está difícil de acreditar, mas tenho que me conformar. Não tenho outra escolha. — Ele respondeu. — Vou terminar aquela conversa com ela, e descobrir mais detalhes sobre esse crime cruel.
– Quer que eu vá com você?
– Não precisa. Não quero te meter nessa história toda. — Ele respondeu decidido.
–-XX--
O cheiro do café pregnava em qualquer narina. Luíza despejava aquela bebida pura em xícaras. Sentou-se à mesa com seu sobrinho, e terminava o que começou.
– Tudo começou quando o policial Green passou a suspeitar de homicídio, já que ninguém conseguia descobrir como o incêndio se iniciou, e ele se recusava a acreditar que poderia ter sido suicídio. Ele guardou suas suspeitas para si, até que saiu o resultado da autópsia que mostrava claramente agressões no crânio com objetos pesados. Foi aí que ele teve certeza.
– Então se não fosse a autópsia..
– Exatamente, ninguém saberia que o incêndio na verdade foi causado por uma terceira pessoa.
– Ele conversou comigo, e me contou suas suspeitas, e eu continuava defendendo a tese do suicídio ou a simples ideia de que tudo não passou de um trágico e infeliz acidente, quando ele mostrou a autópsia, eu imaginei que seus pais brigaram naquela manhã, e numa tentativa de defesa, Heloísa o acertou na cabeça com uma panela, ou um vaso, mas acontece que ela também tinha sinais de agressões, e mesmo que fosse isso, não teria como um incêndio começar sozinho. Por mais difícil que fosse, eu acreditei nas palavras de Green, e o ajudei nas investigações. Ele queria contar com sua ajuda, já que você era filho das vítimas, e conhecia seus passos como ninguém, mas logo em seguida descobri sobre os problemas psicológicos que você havia aderido.
– Ah, então é por isso que você me perguntava constantemente se eles tinham feito alguma inimizade, se haviam se envolvido em algum problema, ou se havia alguém que não gostasse deles.
– Isso. Você era uma peça importante para descobrirem, mas eu não deixei que te envolvessem nisso, e pedi para que eles não te contassem. Eles continuaram a investigação, e pediram depoimento para algumas pessoas da vizinhança, foi aí que descobriram o homem do capuz preto. Algumas pessoas disseram ter visto esse homem invadir a casa, e outras disseram ter ouvido gritos que pareciam vir da casa dos Portinatt. Por fim, quando Green pediu depoimento à Laura, a vizinha da frente, ela disse não ter visto ou ouvido nada, mas que tinha câmeras de segurança por toda a parte, e que poderia mostra-las.
– Então a fita que você comentou foi graças a Laura?
– Exato. As fitas mostravam o homem invadir a casa, e sair de lá um pouco antes do incêndio se alastrar. Mas ele também foi esperto e cobriu praticamente todas as partes de seu corpo com o capuz, tirando qualquer possibilidade de deixar a vista algo que pudesse entrega-lo.
– Isso quer dizer que ninguém sabe quem ele é?
– Não. Ninguém sabe quem ele é ou como ele é, portanto acha-lo seria uma tarefa impossível. O policial Green acabou desistindo de encontra-lo, pois infelizmente havia perdido as esperanças.
– Será que eu posso falar com o policial Green?
– O que quer com ele?
– Quero ouvir seu ponto de vista, e é claro, se possível ver a fita.
– Querido, acho melhor não. A fita te traria a tona lembranças trágicas, e você pode ter uma decaída..
– Eu quero ver a fita. Não quero deixar de fora nenhum detalhe, e se eu tiver a chance de ver o assassino, eu não vou desperdiça-la. Chega de me poupar, não dá pra fugir pra sempre. — Falou determinado.
–-XX--
Mesmo sendo completamente contra, Luíza acabou sedendo o número de Fernando Green, o policial responsável pela investigação. Fernando, por sua vez, atendeu o pedido de Eric imediatamente.
Green, era um policial promissor e determinado. Se agarrava a um caso, e só o largava quando percebia que não tinha mais jeito. Com a ligação de Eric, achou que assim pudesse finalmente descobrir algo que o levasse até o homem do capuz preto.
Fernando levou Eric até um sala ao fundo da delegacia, a sala onde guardavam em perfeita organização pistas e provas de todos os crimes que investigaram. Abriu uma imensa gaveta de onde tirou uma pasta com o nome de seus pais, e entregou nas mãos de Eric.
Enquanto o garoto analisava com calma o que tinha em suas mãos, o policial conversava sobre os laços de amizade.
– ... Eu e seu pai éramos amigos desde os tempo de colégio. Acabamos nos separando em nossas escolhas para o futuro, e nos afastamos. Quando me ligaram avisando de um incêndio, eu nunca imaginaria que fosse a casa de Charles Portinatt, e que infelizmente, ele estava dentro.
– Porque nunca te conheci se eram tão amigos assim? — Eric perguntou desconfiado.
– Meu caro, sou policial investigativo, e sou muito fissurado no que faço. Passo a maior parte do tempo estudando criminosos. Seu pai tomou um rumo diferente, casou e deste casamento ganhou um filho. Não tínhamos tempo para manter a amizade, mas ele sempre foi um grande amigo, mesmo distante.
– Entendi. — Balançou a cabeça positivamente. — Tia Luíza me falou que você tinha suas suspeitas. — Comentou interessado.
– Sim. Meu colega de trabalho desconfiava de suicídio, mas eu em recusava a acreditar que Charles, o Charles que eu conhecia fosse fazer isso. Então saiu o resultado da autópsia e ela indicava agressões forte o suficiente para deixar-los inconscientes por um determinado tempo. Foi aí que tive a certeza de que foi homicídio. — Contou Green. — Sua tia deve ter te contado sobre a fita, certo?
– É, ela falou sim. Se possivel, eu gostaria de vê-la.
– Claro. — Ele afirmou. Aproximou sua cadeira até a gaveta, e de lá retirou uma fita.
"Sete de abril. Incêndio na residência de Charles e Heloísa Portinatt" — Eram as palavras gravadas em um envelope de cor amarronzada.
Fenando tirou a fita do envelope, e à colocou em um aparelho. O coração de Eric instantaneamente acelerou, e seu corpo tremer. Era o nervosismo o consumindo. Por fim, a fita deu inicio.
A gravação, mostrava a rua quase deserta devido ao horário. Vez ou outra, alguém aparecia caminhando, mas rapidamente, saiam de vista. Green acelerou a fita para o momento em que o homem foi visto. O coração de Eric acelerou-se ainda mais. Depois de quase vinte e quatro horas imaginando aquele homem, ele por fim o viu.
Como haviam lhe falado, o homem usava um capuz preto e era impossível ver suas feições ou traços físicos. Antes de invadir a casa, o homem certificou-se de que não havia ninguém por perto, e ao ter certeza, entrou por uma janela aberta.
Fernando acelerou um pouco mais a fita, e mostrou o momento em que o homem saiu por onde entrou. Alguns minutos depois, o incêndio já estava se alastrando. Estava forte o suficiente para que nenhum vizinho conseguisse apaga-lo. Aos poucos, uma multidão ia se formando frente à casa em chamas, até que quando notaram, a vizinhança toda estava lá, assistindo a casa queimar.
Minutos depois, a policia, ambulância e bombeiros chegaram até o local, e se esforçaram o máximo para apagar o mais rápido possível. Cerca de quinze minutos depois, o fogo finalmente havia se apagado, e feito isso, os bombeiros entraram na casa para certificarem-se de que não havia ninguém dentro.
Para a infelicidade de muitos, os bombeiros saíram de lá com dois corpos irreconhecíveis devido as queimaduras.
– Sinto muito por isso. — Fernando disse.
– Você não tem culpa.
– Mas sei como é doloroso.
– Não quero falar sobre isso, tudo que quero nesse momento é ver esse homem atrás das grades, se não morto.
– Como pode ver, vimos a entrada e a saída do homem, mas não vimos o suficiente de sua aparência para acharmos. Aceleramos a fita para tentar acha-lo em meio a toda aquela multidão, mas não havia nenhum sinal dele. Ele simplesmente sumiu. Se ainda está vivo, provavelmente está longe daqui.
– Não há nenhuma possibilidade de encontrarmos? — Eric perguntou.
– Agora que podemos contar com sua ajuda, há sim uma pequena esperança. Mas pra isso acontecer, precisamos saber de tudo que aconteceu antes daquele incêndio. Se seus pais estavam brigando com frequência, se você ouviu algo suspeito, se alguém frequentava sua casa, ou seja, tudo.
– Tudo bem. — Eric concordou. Olhou para a TV que mostrava as gravações da fita, e mais uma vez seu coração acelerou-se. — Você pode dar zoom aqui? — Ele apontou.
– Claro. — Green concordou. Deu zoom como Eric pediu, e aumentou a definição das imagens.
– Pausa nessa garota. — Eric pediu.
Green o obedeceu, e pausou as gravações na garota com zoom e uma melhor definição.
– Você à conhece? — Green perguntou.
– Sim, ela é minha namorada. — Eric respondeu encarando o que via nas gravações de três anos atrás.
Fale com o autor