Fragmentos de Lembranças
37 Camisa de Força
Notas iniciais
Eric abriu os olhos, e notou não estar em um lugar familiar. A luz era diferente, o cheiro, tudo..
– Mas o que.. o que aconteceu? — Disse ao se levantar.
– Querido? — Luíza virou-se para o sobrinho desentendido. — Está realmente acordado? — Perguntou.
– O que? Mas é claro que estou. Aonde estou, tia? Porque estou aqui? — Falou reconhecendo o ambiente. Estava em uma cama hospitalar, na cômoda ao seu lado remédios e sedativos. Em seu tronco uma camisa de força impedindo o movimento de seus braços. — Por.. porque estou com isso? — Disse percebendo a camisa em seu corpo. — Porque? — Deixou algumas lágrimas escorrerem de seu rosto pálido.
Luíza observava o garoto desesperado por respostas, incrédula com o que acabará de acontecer. “O que aconteceu com meu sobrinho?” se perguntava.
– Você.. você realmente não se lembra? — Perguntou aproximando-se dele.
– Não. Eu realmente não sei como vim parar aqui. Tudo que lembro é de ter adormecido com ajuda de remédios, e.. e de um terrível pesadelo. Como vim parar aqui, tia? — Perguntou desesperado.
– A quase uma semana você está dormindo e acordando aos gritos. Você adormece, grita por ajuda, clama o nome de Anabell, e grita, grita muito. Acorda gritando, e tem se machucado com suas unhas. Você só se acalma com a ajuda dos sedativos.. e querido, eu realmente não sei o que está acontecendo com você. — Luíza explicou tristonha com a situação do sobrinho. Nunca pensou que um dia fosse vê-lo naquele estado.
– O que? Não é possível. Lembro claramente de ter acordado na minha cama, daquele pesadelo horrível..
– Querido, você está aqui a quase uma semana. — Luíza lamentou.
– E foi realmente necessário uma camisa de força?
– Querido, você estava se arranhando, se debatendo. Sua situação estava realmente preocupante.
– Droga. — Ele gritou tentando soltar-se da camisa. — E Anabell? Ela sabe que estou aqui?
– Na verdade, ela saiu daqui a uns cinco minutos. — Luíza disse. — Ela o visita todos os dias.
– Quem quer namorar um louco? — Murmurou Eric.
– O que disse? — Luíza perguntou aproximando-se um pouco mais.
– Nada. — Eric declarou. — Por quanto tempo vou ficar aqui?
– Não sei. Na verdade, essa é a primeira vez que estou tendo uma conversa com você desde que o trouxe. Tudo que você fazia era dormir, acordar, e gritar. Acho que isso já é um começo.
– O que está acontecendo comigo? — Eric se perguntou em voz alta.
– Eu também gostaria de saber, Eric. — Luíza disse.
–-x--
Anabell abriu a porta do quarto onde Eric se encontrava, e ficou feliz em vê-lo acordado depois de uma semana.
– Eric, você está bem? — Anabell perguntou preocupada. Colocou a torta feita por Sebastian na pequena cômoda, e sentou-se ao lado do menino. — Estou realmente muito preocupada.
– Eu estava preso.. preso em um terrível pesadelo. Estávamos em Paris, você tentou se matar, e de repente, eu estava em um beco escuro, segurava uma arma, e sangrava, sangrava muito.. Meu cérebro está tentando me mostra algo, talvez lembrar..
Anabell levantou-se, virou-se de costas, piscou forte e respirou fundo, engolindo as lágrimas que imploravam para escorrer sobre seu rosto. Ela mais do que ninguém sabia o que aquele pesadelo significava. Eric realmente estava tentando lembrar de algo, algo que ela lutava todos os dias para esquecer.
– Me conte o resto do pesadelo. — Ela disse virando-se para ele novamente.
– Este é o fim do pesadelo. Eu não sei o que realmente aconteceu lá, era como eu tivesse atirado em alguém, ou em mim mesmo.. Havia muito sangue, eu conseguia sentir o desespero como se aquilo realmente fosse real.
– Porque acha que isso signifique algo? — Anabell perguntou.
– Não haveria outro motivo para eu acabar parando em um hospital, amarrado em uma camisa de força senão esse. Tem que significar algo..
– Espero que descubra o significado logo. — Falou ela acariciando o rosto dele.
– Queria poder fazer o mesmo, mas como pode ver, estou amarrado. — Ironizou ele.
Anabell entrelaçou seus braços às costas de Eric, e desatou o nó da camisa, deixando-o livre. Ele pode finalmente ver as feridas que ele mesmo causou a si durante seus pesadelos. Seus braços estavam praticamente irreconhecíveis, com arranhões e hematomas.
– Meu Deus, como consegui fazer isso? — Se perguntou em voz alta.
– Não se preocupe, logo você irá sair daqui. — Ela disse. — Se você continuar dormindo tranquilamente, sem pesadelos, ou gritos, em dois ou três dias sairá daqui.
– Espero. — Ele respirou fundo. — Espero muito. Não vou suportar ficar aqui por muito tempo.
–-x--
Anabell encontrava-se pensativa na varanda, encarando o vazio de sua rua. O que Eric lhe disse mais cedo não saia de sua cabeça. Ela estava realmente preocupada com a situação de seu namorado, e mais preocupada ainda com o significado de todos aqueles pesadelos. O homem que tanto à atormentava aproximou-se de fininho, e apoiou sua mão pesada sobre os ombros de Anabell. A menina virou-se para trás, assustada com quem viu. Antes que pudesse dizer qualquer palavra, o homem começou a falar:
– Parece que ele não está tão dependente assim da minha ajuda pra poder descobrir toda a verdade, não é mesmo? Não achou que pudesse esconder pra sempre, achou? — Brincou irônico.
– É você.. você está o deixando louco. — Ela falou furiosa.
– Eu? — Ele riu histericamente. — Acha mesmo que eu sou o culpado por deixa-lo amarrado em uma camisa de força? Ele quem anda sonhando com morte..
– Quando é que você vai me deixar em paz? Eu imploro se é isso que quer. Suplico, por favor, fique longe de mim, de Sebastian, e principalmente, fique longe do Eric. — A menina pediu quase chorando.
– Francamente, Anabell, não sei porque ainda tenta. Sabe que só vou parar quando você se manter fiel ao nosso acordo. Caso contrário, vou transformar a sua vida e a de todos em sua volta em um verdadeiro inferno. Não se esqueça que Richard deixou uma carta que pode muito bem acabar com sua vida, e que se depender de mim, eu a encontro em um piscar de olhos. Tem policiais na sua cola, você está sendo investigada, não vai demorar muito até que Eric comesse a desconfiar de você.
– O que disse? — Perguntou incrédula.
– Exatamente o que ouviu. Não sei o que ainda faz aqui, foge que ainda dá tempo.. — Ele sorriu sarcástico.
– Não vou fugir de nada. — Ela gritou furiosa.
O homem continuou sorrindo, amava vê-la naquele estado. Sabia que por dentro, Anabell estava desesperada, conhecia seus medos, suas angústias, e o pior dela estava para acontecer. Ele à deixava louca, no pior dos sentidos. E ela sabia, que em pouco tempo, ela estaria arrancando os cabelos por conta daquele homem que tanto à atormentava e que jurou transformar sua vida em um verdadeiro inferno.
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