Fragmentos de Lembranças
30 Sebastian, o mordomo
Notas iniciais
Dezembro de 2000
A neve gélida e branca caia do céu congelado. Crianças felizes brincavam montando seu bonecos de neve usando carvão para fazer os olhos, e vegetais o nariz. Dezembro era tempo de festas, de comemorações, a época mais bonita do ano, época onde as famílias se reúnem e comemoram juntas o dia de ação de graças, o natal, trocam presentes entre si e cantam músicas felizes em volta da árvore de natal. Infelizmente não era o caso de Sebastian Apoly, um rapaz de vinte e quatro anos de cabelos negros, assim como seus olhos, era alto e de aparência saudável. Sebastian era pai de uma menina de apenas três anos, a adorável Katherine. Ellen, esposa de Sebastian, veio a falecer logo após dar a luz a pequena Katherine. Sebastian era completamente inexperiente no assunto paternidade, não sabia como alimentar, como trocar fraldas, como dar banho, e o pior, Sebastian não tinha como sustentar sua filha agorá órfã da mãe.
No dia 18 de dezembro, Sebastian resolveu arriscar-se como faxineiro na área rica de Londres. O rapaz de cabelos negros queria dar do melhor para sua pequena Katherine. A família Moore, uma das mais ricas de Londres, por sorte, o aceitou, mas não o queria como faxineiro, cozinheiro, ou jardineiro, o queria como mordomo, atendendo sempre as ordens de seus patrões, Elizabeth, Andrew e é claro, a filha do casal, Anabell, que tinha exatamente a mesma idade de sua filha Katherine. Sebastian interessou-se no salário, ganharia mais de seis mil dólares por mês, aceitou sem hesitar. O que o rapaz não esperava, era que ao aceitar ser mordomo da família Moore, iria passar por um terrível inferno, infelizmente seus patrões eram egocêntricos, egoístas e ignorantes, o tratavam como um animal, assim como tratavam todos os outros empregados da casa. E a pior parte do emprego, é que ele teria que ficar longe de Katherine. Sebastian teria que dormir na mansão, assim poderia atender melhor as ordens. Era insuportável aguentar as ordens inúteis, mas ele faria aquilo por sua filha.
Sebastian acabou ficando muito amigo do cozinheiro George, e de alguns outros empregados da cozinha, acabou também chamando a atenção das empregadas restantes por conta de seu charme e beleza.
– É duro de aguentar os Moore, principalmente Elizabeth, essa sim é um desafio. — George comentava com Sebastian, enquanto o mesmo esperava pelos aperitivos, precisava servi-los para os convidados.
– E Andrew? Eu mal o vejo por aqui, na verdade, a única vez que o vi foi no meu primeiro dia de trabalho. — Sebastian dizia.
– O senhor Andrew é um homem muito ocupado, se não está resolvendo negócios fora, está trancado em seu escritório. Ele mal fica aqui, mas é melhor ir se preparando, porque quando ele resolve ficar, consegue ser até mais insuportável do que Elizabeth. — George explicava enquanto cortava cebolas.
– Tô vendo que não vai ser nada fácil aguentar isso. — Sebastian disse suspirando.
Recebia ordens, e as aguentava pensando em sua filha, pensando na vida que ele queria dar a ela. Respirava fundo, contava até mil, mas a única coisa que o fazia ter calma para aguentar Elizabeth, era sua filha.
Não poderia deixa-la sozinha, e com um aperto no coração, contratou uma babá para cuidar de sua filha enquanto ele trabalhava para sustentá-la. A babá de nome Denna, tinha um bom coração, e sempre cuidou bem de Katherine, porém, Sebastian sofria todas as noites preocupado, queria ouvir a gargalhada relaxante de sua filha, queria ver os brilhantes olhos negros que ela herdou do próprio, queria senti-la em seus braços. Katherine era o que o segurava naquele lugar, apesar da saudade que ele sentia todas as noites da filha, ele continuava recebendo ordens apenas para dar a ela o melhor.
Sebastian visitava sua filha todos os fins de semana, e voltava para a mansão dos Moore no domingo ao anoitecer. Com o tempo, ele acabou se apegando à filha dos Moore, a doce Anabell. A menina fazia com que o mordomo lembrasse de sua filha, Anabell tinha a mesma astúcia, a mesma pureza e delicadeza de Katherine. A herdeira do trono Moore passou a ser também um dos motivos de esperança para o mordomo Sebastian, ele acordava todos os dias sabendo que iria receber ordens idiotas, e que iria ser maltratado, ser xingado, mas também sabia que iria ver o sorriso bobo e alegre de Anabell, e que aquele sorriso era um motivo para ele se alegrar, aquele sorriso bobo fazia com que ele recordasse do mesmo sorriso bobo e alegre de sua pequena Katherine. E principalmente, que a garotinha de cabelos ruivos não tinha culpa dos pais que tinha.
Em agosto de 2002, Katherine adoeceu. Tossia sem parar, sentia dores intermináveis, perdeu peso e até chegou a sangrar pelo nariz. Desesperado com a situação da filha, Sebastian e a babá da criança levaram-na para o hospital, o médico informou que era uma pneumonia e receitou alguns remédios, a lista era imensa. Sebastian usou grande parte de seu salario para bancar os remédios de sua filha. O resultado porém não aparecia, a menina ainda estava doente, e só parecia piorar, os sintomas começaram a ficar piores, Katherine passou a ter dificuldade para respirar, estava ficando sem voz, e já não tinha mais forças o suficiente para se mover. Angustiado com a dor de ver sua filha daquele jeito, ele exigiu outro exame no hospital, e com esse exame descobriram que a menina estava com um câncer avançado no pulmão. O câncer estava se espalhando, e Katherine precisava de um tratamento urgente. Novamente, Sebastian usou o resto de seu salário para pagar o melhor dos hospitais, para que assim pudesse ver sua filha se recuperando de uma grave doença. Ele tinha esperança de poder chama-la de guerreira por ter superado essa doença terrível.
Os dias se passavam, e a pequena ainda permanecia internada, não demonstrava sinais de evolução no tratamento, o que era motivo de desespero para o rapaz. Mal conseguia comer, muito menos se concentrar nas tarefas de um mordomo. Sebastian andava distraído, sempre de cabeça baixa pensando em sua filha. Esbarrava nos móveis, e as vezes até acabava derrubando chá perante as amigas de classe de sua patroa Elizabeth.
– Preste atenção, Sebastian. Você é mesmo um imprestável. — Elizabeth reclamava com o rapaz entristecido. — Trate de limpar isso imediatamente. — Ela gritou furiosa frente a suas convidadas.
Sua vontade era de enfrentar Elizabeth, mas precisava do dinheiro que ela o proporcionava. Imediatamente ele correu até o pequeno quarto onde guardavam os produtos de limpeza. Secava suas lágrimas discretas, tudo que ele queria naquele momento difícil era ver sua filha bem de saúde. Ao sair do quarto com produtos de limpeza, panos, e tudo que fosse necessário para limpar a bagunça que o mesmo fez, trombou com Anabell no corredor. A menina usava um tutu rosa, e rodopiava feito uma bailaria. Anabell parou por um instante, e fitou o olhar triste de seu mordomo, inclinou sua cabeça e perguntou:
– O que aconteceu, Sebastian?
– Nada, senhorita. — Sebastian respondeu recompondo-se.
– Aconteceu sim, você está triste. Não gosto de te ver triste. — Ela exclamou cruzando os braços.
– Não dá pra ser feliz o tempo todo, as vezes a tristeza nos alcança.
– Por favor, Sebastian, não fique assim. Quer brincar de tomar chá comigo? — A criança inocente perguntou.
– Eu adoraria senhorita, mas preciso terminar meus afazeres. — Sebastian recusou delicadamente o convite da garota, tentando apressar-se antes que Elizabeth surtasse.
Antes que ele pudesse se afastar da garota, Anabell puxou seu mordomo pelo braço.
– Ela vai ficar bem. — Ela disse sorrindo.
Sebastian espantou-se com o que a menina disse. Como ela poderia saber do que estava se passando com sua filha? Fora apenas uma coincidência?
– Como.. como sabe disso? — Ele perguntou ainda espantado.
– Ouvi você e Geroge conversando certa vez. Katherine é uma boa garota, ela vai ficar bem, Sebastian, não se preocupe. — Anabell voltou a dizer.
Aquelas foram as palavras mais acalmadoras que ele pudera ouvir, uma garota tão nova e tão sábia. Apesar da agonia que o mordomo sentirá em ficar longe de sua filha enquanto ela estava deitada em uma cama de hospital, ele sorria em saber que ainda existia pessoas como Anabell, pessoas com uma pureza encantadora.
Katherine faleceu em 15 de outubro, ela já não conseguia respirar, e infelizmente não aguentou. A garota de cabelos negros faleceu nos braços de seu pai, foi a dor mais agonizante que Sebastian sentiu. Seus olhos derrubavam lágrimas que pareciam não ter fim. Chorou até ficar sem lágrimas — se é que isso é possível — Já não tinha mais motivos para permanecer naquele mundo, perdeu sua esposa e agora sua filha. Não sabia para onde ir, estava sem rumo, sem chão. Lembrou-se então do sorriso bobo e alegre de Anabell, e como ele recordava do mesmo sorriso de Katherine. Sabia que iria continuar sofrendo com as humilhações de Elizabeth, mas encontrou agora um novo motivo de esperança, Anabell era o nome dela.
– Ela está no céu, Sebastian. Ela está no céu com a mãe dela, e as duas estão olhando por você. — Anabell falou consolando seu mordomo ao descobrir da perda, abraçou-o forte enquanto dizia. A menina afastou o corpo agachado de Sebastian, e fitando seu rosto secou as lágrimas do mesmo.
– Tudo acontece por um motivo. — Ela sorriu, fazendo com que seu mordomo fizesse o mesmo.
O mordomo encarou-a por um tempo, e, talvez alucinado com a perda recente, viu nos olho da garota à sua frente, os olhos de sua falecida filha.
– Eu prometo obedecer quaisquer ordens que venham de você, senhorita. — Declarou decidido curvando-se perante a menina de cinco anos.
Sebastian jurou à si mesmo que permaneceria fiel a sua senhorita, Anabell Moore, não importa qual fosse a ordem, ele a faria.
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